terça-feira, 6 de outubro de 2009

Violência e Paixão


Dicó é tido por toda a vizinhança como um bom rapaz. É novo, de uns 20 anos, mas exala um ar de responsabilidade que muita gente adulta não possui. E é sensível.

Costuma caminhar por aqui e por ali, como se estivesse tomando conta de tudo, levando sempre um surrado violão a tira-colo. É excelente músico. Também toca flauta, percussão e outros sons agradáveis.

Já tinha ouvido muito falar dele; que namorava a Tatiana - uma menina novinha da rua de baixo; que estava organizando um grupo de voluntários para limpar as margens do córrego; que era, enfim, um garoto muito boa-praça.

Quando o conheci, sorriu sem parar. Parecia sempre solícito, como se também me admirasse por sempre haver ouvido falar bem de mim.

Não gosto muito disso. Sou meio mocado, e quando neguinho vem com tanto sorriso... Desconfio! A não ser que tenha motivo; uma piada é uma ótima desculpa. Eu sempre uso. Mas sem piada não dá.

Há muito, porém, não escutava mais nada a respeito do bom rapaz. Até a manhã de hoje.

Estava deitado - esticado na rede da varanda -, curtindo a sensação de um jardim umedecido e esverdeado pela chuva da madrugada, enquanto saboreava Tchekov. Desde há anos, tem sido ele o meu grande parceiro matinal. Muitas vezes acordo sem ter o que comer, sem água ou sem roupa passada. Mas basta mergulhar em suas palavras para que eu me sinta reconfortado e pleno.

Reconfortado estamos quando nos sentimos felizes por viver; pleno é quando rimos, gargalhamos e até choramos para as paredes, para um objeto ou animal. Ou simplesmente cantamos.

Estou lendo um livro de contos desse velho russo, mas que nunca acaba, pois sempre gosto de recapitular umas duas ou três passagens, antes de dar início a uma nova empreitada. Faz 5 meses que cheguei à página126; hoje estou na 127...

E foi dentro desse espectro de reconforto e plenitude - sim, àquela altura eu já dera início a um verdadeiro momento cênico, tanto eu ria e me emocionava com o que lia-, que apareceu Allan, meu senhorio. Pousei o livro sobre o colo e o cumprimentei, serenamente; mas notei que ele trazia consigo um ar preocupado: “tenho uma má notícia”, anunciou.

Allan então me contou que Dicó estava sumido há algum tempo, pois sua relação com Tatiana, a moça da rua de baixo, havia terminado. Ela não o queria mais. Mesmo assim, continuavam a se encontrar, esporadicamente, para matar as saudades e, principalmente, as vontades que permeiam os pensamentos, pingulins e xoxotinhas de qualquer um que tenha entre 16 e 21 anos. Tatiana tem 16.

Ao mesmo tempo, a mocinha, inebriada pelos prazeres de sua tenra plenitude existencial, inventou de chamar o ex-cunhado, que por ali nada fazia, para alguns momentos de luxúria, quando o ex-oficial por ali não aparecia.

Tudo ia muito bem, até que Tatiana, em pleno deleite com o novo amiguinho, foi flagrada pela mãe, que não gostou de ver sua pequerrucha em posições íntimas sobre sua própria cama de casal.

Houve escândalo. Vizinhos abriram as janelas para espiar, e papagaios, periquitos e sabiás certamente hão de ter voado para outro lugar, tantas foram as demonstrações de moralismo dadas pela voyeur intrometida; todas em altos decibéis. Eu mesmo tenho de admitir que não estava por lá, mas a esta conclusão é fácil se chegar, quando a dona da boca tem uma bocarra em seu lugar.

Tão alta foi a bronca, que as reverberações daquela maré alcançaram o ouvido de Dicó, fazendo-o sentir-se como se em meio às correntes de um mar ressaqueado estivesse. O coração pulava dentro do peito, machucado, em estrebuchos que só o desejo preterido poderia dar jeito. Foi tirar satisfações.

Pegou a menina pelo braço, olhou raivosamente para o irmão, que correu, e levou-a para um lugar onde não houvesse ninguém: a varanda da minha casa.

Lá, houve ainda mais discussão. E violência. Dicó, cego de ciúme e dor, agrediu Tatiana, empurrando-a violentamente contra a quina de uma mesa, fazendo com que ela caísse e batesse o rosto contra o chão. Parece que houve ainda algum safanão, e como resultado, um rosto ensangüentado, semidesfigurado.

A mãe de Tatiana chamou a polícia e todos foram para a delegacia.

Hoje, Tatiana repousa na casa de um parente, longe dali. Dicó, que fez 21 anos na véspera do ocorrido, está detido.

Dizendo isso, Allan se levantou e ficou me fitando. Olhei para ele e fiquei refletindo um pouco...
A poucos metros de mim, no chão, visualizei marcas de sangue. Pensava que eram do cachorro. Imaginei o embate, a covardia, a cena em si, e arrematei:

- "Tá na genética da gente, na hereditariedade do Homem; todo mundo é corno. Mas daí a... Acho lamentável! Deplorável, mesmo...".
Com um sinal de anuência, mas em silêncio, Allan pôs-se a caminho de casa.
Voltei os olhos para livro e, como se encontrasse a inspiração necessária, emendei: "E tem mais: Se reagíssemos sempre assim, não haveria Tchekov que nos devolvesse a alegria do viver!".

14 comentários:

as viciadas disse...

esse bateu forte.rs.

algumas leituras são como bálsamo.
nos transportam para lugares melhores e longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita.

como essas aí que você contou.
a moçinha inebriada com os prazeres da idade, se ferrou toda porque não segurou a xoxota, e entrou na taca. o que agrediu já era ex- mas se sentiu no direito. enfim, na vida real, é tudo uma grande esculhambação,cabe a nós fazer parte dela, ou não.

e ainda bem que existem as leituras, "pra nos trazer alegria de viver."

beijones my dear.

L.

O Maltrapa disse...

Adorei os elogios envoltos em inteligentes trocadilhos!

Você escreve bem, L!

Mas gostei sobretudo da conclusão: "cabe a nós"! E se cabe... Hehehe...

Beijão,

O Maltrapa

Márcio disse...

("Violência e Paixão" é o nome de um filme de Visconti que não vi. Mas vi outro, "O Leopardo", do mesmo diretor e com o mesmo ator, Burt Lancaster. Muito bom! Mas voltemos ao tema, antes que o dono do blog dê um chilique, como já ameaçou fazer certa vez.)
Cornuto violento, esse! Será que ele não conheço aquele ditado que diz "Quem não é, ou foi ou será?". Você omitiu detalhe vital, quiçá nelsonrodrigueano: o ex-cunhado em questão é irmão do violeiro? Se for, é tempero da melhor qualidade para a história, até mesmo para uma continuação. Concorda?

O Maltrapa disse...

Muito bem, Contreiras! Tá aprendendo a se comportar num blog de responsa, né? Vejo que a amaeça de jubilá-lo da parada surtiu o efeito desejado...

Quanto ao detalhe, decerto nelsonrodrigueano, não o omiti, pois está explicitado que o ex-cunhado é irmão do Dicó no trecho "Pegou a menina pelo braço, olhou raivosamente para o irmão, que correu, e levou-a para um lugar onde não houvesse ninguém", não é mesmo?

Quanto a um segundo round, é caso de se pensar... Veremos o desenrolar da estorieta!

Grande abraço,

O Maltrapa

Ps: vou alugar um DVD para ver o filme com o Lancaster!

PsII: Violência e Paixão me faz lembrar dos Titãs: "Corações e Mentes (Violência e Paixão)!"

Marcelo Mayer disse...

puta texto rapaz!
e na genética é que não que o homem seja corno, e sim que viver seja constrangdor.

gostei demais!

abraços

O Maltrapa disse...

Valeu, Mistermáier! Seja bem-vindo a este bosque maltrapilho!

Quanto à genética, creio que se fôssemos menos hipócritas (homens e mulheres), viveríamos sem tanto constrangimento; não faz sentido? ou você quis dizer outra coisa?

Volte sempre (mas da próxima vez, traga a mulherada)!


Abraço,

O Maltrapa

Márcio disse...

De outra vez deixe mais claro esse detalhe essencial, ô escriba! A referência ao irmão ficou dúbia para mim - pensei até que poderia ser irmão da moçoila. Esclarecida essa questão, vaticino que, na dúvida entre um irmão e outro, a garina optou por test drive com ambos. Não simultâneo, devo acrescentar, já que a modernidade não me pareceu tanta. Mas estava no direito dela, pois sim!

Ah, "Corações e Mentes" é outro filme que não vi, mas minha mãe viu e gostou muito!

Quanto à ameaça de expurgo, conheço meu gado e sei que era blefe puro!

O Maltrapa disse...

Hahaha! Isso tá parecendo papo do Sílvio Santos (eu não vi, mas minha filha de #4 viu e adorou, aêêê!!!), hahaha!!!

A referência ficou "dúbia", é? Pois tá bom... Podexá que vou colocar aqueles lances coloridos em destaque para que mais pessoas possam compreender, hehehe...

Valeu, Só Frango!

Abração,

O Maltrapa

as viciadas disse...

Meu caro Maltrapa, obrigado pelos elogios tao bem colocados.rs.

e pode deixar, que estou fazendo uma lista das belas mulheres de meia idade. espero eu, chegar até lá, e bela como elas.

beijo, L.

O Maltrapa disse...

Nessa Terra, em se bem colocando, tudo cabe, hehehe...

Mulher "de meia-idade" não me bate legal; prefiro mulher "de verdade"; que tal?

Beijão às viciadas de plantão!

O Maltrapa

otaviana disse...

joao, isto é um teste, pois acabo de me cadastrar

O Maltrapa disse...

Teste bem sucedido, Otaviana!

Positivo e operante.

Câmbio!

O Maltrapa

Polly Maria disse...

É mesmo, é mesmo .. como poderíamos reconhecer algo que não conseguissêmos decodificar ... a gente só reconhece no outro o que temos em nós, mesmo!!!!!! Os extremos sempre nos levam a desastres, grandes ou pequenos, mas de fato a paixão é quente e agitada demais e "em medida" deliciosa de se sentir ... mas ao extremo, tsctsc ... é preciso saber ser passional, até isso a gente tem que aprender !!!
Beijo, João !!!

Polly Maria disse...

É mesmo, é mesmo .. como poderíamos reconhecer algo que não conseguissêmos decodificar ... a gente só reconhece no outro o que temos em nós, mesmo!!!!!! Os extremos sempre nos levam a desastres, grandes ou pequenos, mas de fato a paixão é quente e agitada demais e "em medida" deliciosa de se sentir ... mas ao extremo, tsctsc ... é preciso saber ser passional, até isso a gente tem que aprender !!!
Beijo, João !!!