
Já ouvi alguém dizer que o melhor mesmo é não ter expectativas, pois tanto maiores serão as decepções. Acho esse papo coisa de gente amargurada; puro cinismo existencial – coisa de quem tem medo da felicidade e do mundo real.
É domingo! É dia para se acordar ao lado de quem se quer. De café gostoso. De banho de cachoeira. De almoçar camarão (e ficar com a pança cheia). De correr pela grama e brincar no Festival de Cultura Brasileira. De beber e ficar doidão para assistir o jogo do Mengão (que, sim, será hexacampeão)! Enfim, é domingo!
Logo cedo, antes mesmo do desjejum, o primeiro entrave surge do chão. Era uma ave – um sabiá – que apareceu por lá. Debatia-se por nada, e não aparentava qualquer dano. Mesmo assim, foi levada ao veterinário para ser analisada. “-É um sabiá; uma fêmea”, revela a roliça atendente. Ficamos na expectativa de que melhorasse, já nos despedindo, retomando o itinerário preparado para aquele domingo.
Na padaria, a mesa. O pedido. O jornal. Perco preciosos minutos tentando localizar a página que me interessa. Mas falta o caderno de esportes – logo o caderno de esportes! Reclamo ao dono, que prontamente “rouba” o suplemento do próximo jornal e me entrega. Algum leitor ficará sem saber dos esportes.
Volto à mesa com o suplemento roubado e dois yakultes que peguei no refrigerador. A nova mania é tomar Yakult. Mas a validade está vencida. Os lactobacilos vivos já haviam morrido há uma semana... Reclamo novamente ao dono, e ele diz que logo trocará os yakultes. Enquanto isso não ocorre, os desavisados que tomem o mórbido coquetel. Começo a duvidar da lisura daquele comerciante.
Quando o pedido chega, já não há tempo para ler o jornal. A falta de sintonia entre meu ritual e o mundo real me deixa um pouco incomodado. Mas a garçonete não tem culpa. Ela apenas está cobrindo a folga da titular. Falta-lhe traquejo, como a todo reserva.
Mas ainda é domingo; ainda é dia. Dia quente, perfeito para um mergulho nas frescas águas de uma cachoeira. E é lá que vai dar nossa trilha...
Mas alguma coisa aconteceu. Pela força das águas, as pedras rolaram e, se não criaram limo, preencheram boa parte do córrego urubulino. O “poção” virou um frustrante “banheirão”. Passo a mão pelo fundo e recolho algumas amostras. Penso em sabotagem, mas parece que foi trabalho da mãe natureza, terra nostra. Tenho de me resignar. É domingo.
Voltamos ao lar. Tempo para amar.
O relaxamento. O sorriso nos lábios. Os corpos deitados, arejados.
O banho renovador. A roupa leve. A fome bem vinda, frutificada pelo amor.
No restaurante não houve surpresas. Aprendemos a dosar a casquinha de caranguejo, a cerveja, o camarão e, por fim, o beijo. Tudo na dose que tinha de ser. As expectativas voltam a crescer. A tarde se enseja. É domingo.
Plenamente satisfeitos, abandonamos os planos originais e buscamos novamente o acolhimento perfeito. Da casa. Do sofá. Do ventilador. Da vodca com guaraná.
Ela, que nem sabia muito o que era futebol, agora adora, e me assiste enquanto eu assisto ao jogo (que nem era nosso, mas do Botafogo!). E diz que eu poderia ser juiz, comentarista ou até jogador.
Um gole. Um gol. Mais goles. Mais gols! Surpresa no Engenhão: Fogão volta a ser Fuderosão! Era uma expectativa que eu nem tinha, mas que me fez correr à janela e, como nos velhos tempos, urrar grosserias ao time derrotado: que la chupen os são-paulinos de plantão! Afinal, é domingo!
Ao cair da tarde tudo estava pronto para que o tão temido fim de domingo se transformasse num irretocável dia lindo. Seria o momento em que todas as agremiações sentiriam uma saudável inveja do que é ser rubro-negro, vendo a alegria - o júbilo! – do mais popular torcedor brasileiro.
Quando o time do Flamengo surgiu na boca do túnel, pisando o sagrado gramado do Maracanã, os 85 mil presentes fazem surgir um monumental mosaico, trazendo uma acachapante mensagem: A MAIOR TORCIDA DO MUNDO FAZ A DIFERENÇA.
Até mesmo os rivais gostariam de ter visto o que teria sido da noite de ontem se os jogadores do Mengo houvessem feito a devida leitura daquela mensagem, suprindo as expectativas de uma Nação que, há 17 anos, não sabe o que é ser campeão brasileiro. Mas não foi bem assim.
A festa ainda é dos outros.
Aos que, por ora, zombam da minha desgraça e também da dor alheia, deixo-lhes, com um sorriso amarelo, um recado singelo:
“Quem me vê sempre parado, distante garante que eu não sei sambar
(Chico Buarque)









