segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Maior Torcida do Mundo


É domingo, e as expectativas são as melhores...

Já ouvi alguém dizer que o melhor mesmo é não ter expectativas, pois tanto maiores serão as decepções. Acho esse papo coisa de gente amargurada; puro cinismo existencial – coisa de quem tem medo da felicidade e do mundo real.

É domingo! É dia para se acordar ao lado de quem se quer. De café gostoso. De banho de cachoeira. De almoçar camarão (e ficar com a pança cheia). De correr pela grama e brincar no Festival de Cultura Brasileira. De beber e ficar doidão para assistir o jogo do Mengão (que, sim, será hexacampeão)! Enfim, é domingo!

Logo cedo, antes mesmo do desjejum, o primeiro entrave surge do chão. Era uma ave – um sabiá – que apareceu por lá. Debatia-se por nada, e não aparentava qualquer dano. Mesmo assim, foi levada ao veterinário para ser analisada. “-É um sabiá; uma fêmea”, revela a roliça atendente. Ficamos na expectativa de que melhorasse, já nos despedindo, retomando o itinerário preparado para aquele domingo.

Na padaria, a mesa. O pedido. O jornal. Perco preciosos minutos tentando localizar a página que me interessa. Mas falta o caderno de esportes – logo o caderno de esportes! Reclamo ao dono, que prontamente “rouba” o suplemento do próximo jornal e me entrega. Algum leitor ficará sem saber dos esportes.

Volto à mesa com o suplemento roubado e dois yakultes que peguei no refrigerador. A nova mania é tomar Yakult. Mas a validade está vencida. Os lactobacilos vivos já haviam morrido há uma semana... Reclamo novamente ao dono, e ele diz que logo trocará os yakultes. Enquanto isso não ocorre, os desavisados que tomem o mórbido coquetel. Começo a duvidar da lisura daquele comerciante.

Quando o pedido chega, já não há tempo para ler o jornal. A falta de sintonia entre meu ritual e o mundo real me deixa um pouco incomodado. Mas a garçonete não tem culpa. Ela apenas está cobrindo a folga da titular. Falta-lhe traquejo, como a todo reserva.

Mas ainda é domingo; ainda é dia. Dia quente, perfeito para um mergulho nas frescas águas de uma cachoeira. E é lá que vai dar nossa trilha...

Mas alguma coisa aconteceu. Pela força das águas, as pedras rolaram e, se não criaram limo, preencheram boa parte do córrego urubulino. O “poção” virou um frustrante “banheirão”. Passo a mão pelo fundo e recolho algumas amostras. Penso em sabotagem, mas parece que foi trabalho da mãe natureza, terra nostra. Tenho de me resignar. É domingo.

Voltamos ao lar. Tempo para amar.

O relaxamento. O sorriso nos lábios. Os corpos deitados, arejados.

O banho renovador. A roupa leve. A fome bem vinda, frutificada pelo amor.

No restaurante não houve surpresas. Aprendemos a dosar a casquinha de caranguejo, a cerveja, o camarão e, por fim, o beijo. Tudo na dose que tinha de ser. As expectativas voltam a crescer. A tarde se enseja. É domingo.

Plenamente satisfeitos, abandonamos os planos originais e buscamos novamente o acolhimento perfeito. Da casa. Do sofá. Do ventilador. Da vodca com guaraná.

Ela, que nem sabia muito o que era futebol, agora adora, e me assiste enquanto eu assisto ao jogo (que nem era nosso, mas do Botafogo!). E diz que eu poderia ser juiz, comentarista ou até jogador.

Um gole. Um gol. Mais goles. Mais gols! Surpresa no Engenhão: Fogão volta a ser Fuderosão! Era uma expectativa que eu nem tinha, mas que me fez correr à janela e, como nos velhos tempos, urrar grosserias ao time derrotado: que la chupen os são-paulinos de plantão! Afinal, é domingo!

Ao cair da tarde tudo estava pronto para que o tão temido fim de domingo se transformasse num irretocável dia lindo. Seria o momento em que todas as agremiações sentiriam uma saudável inveja do que é ser rubro-negro, vendo a alegria - o júbilo! – do mais popular torcedor brasileiro.

Quando o time do Flamengo surgiu na boca do túnel, pisando o sagrado gramado do Maracanã, os 85 mil presentes fazem surgir um monumental mosaico, trazendo uma acachapante mensagem: A MAIOR TORCIDA DO MUNDO FAZ A DIFERENÇA.

Até mesmo os rivais gostariam de ter visto o que teria sido da noite de ontem se os jogadores do Mengo houvessem feito a devida leitura daquela mensagem, suprindo as expectativas de uma Nação que, há 17 anos, não sabe o que é ser campeão brasileiro. Mas não foi bem assim.

A festa ainda é dos outros.

Aos que, por ora, zombam da minha desgraça e também da dor alheia, deixo-lhes, com um sorriso amarelo, um recado singelo:

“Quem me vê sempre parado, distante garante que eu não sei sambar


Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar”

(Chico Buarque)

No dia 6 de dezembro, estarei lá, junto aos meus, numa festa tamanha que quarta-feira de cinzas nenhuma porá fim. Estão todos convidados.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia Nacional da Consciência dos Branquelinhos da Bunda de Geléia


Um desses almofadinhas moralistas que preenchem as manhãs televisivas deste país abre seu programa anunciando que hoje é o Dia Nacional da Consciência Negra, mas avisa que não vai nem falar sobre racismo. Segundo ele, é a mesma coisa que falar de burrice; "nem vale a pena".

Para quem não sofre na pele o preconceito de pele é relativamente fácil dizer uma asneira assim.

Fiquei pensando se toda a gente preta do estúdio onde ele trabalha passasse a tratá-lo por aquele ”Branquelinho da Bunda de Geléia“; aposto que sua noção entre racismo e burrice ganharia novos contornos.

O racismo é fruto da ignorância e do preconceito disseminados, sistematica e triunfalmente, ao longo dos séculos.

Não se trata de uma patologia da pele alheia, mas da própria alma. Desenvolver a consciência sobre essa condição não é tarefa das mais fáceis. Implica em algo muito mais além do simples discernimento entre o certo e o errado, mas numa revisão crítica da nossa própria essência, reformulando profundamente a visão que temos de nós mesmo e do outro.

Não faz muito, num tempo em que eu já era nascido, um desses branquelinhos da bunda de geléia (e que se auto-intitulava Presidente da África do Sul), defendeu o apartheid pronunciando um irretocável sofisma: - "Diferenças existem e devem ser respeitadas! Por isso é que defendemos que os brancos devem continuar a serem tratados como brancos e os negros como negros - que é o que são." Nesse tempo, Nelson Mandela já se encontrava preso numa ilha, condenado à prisão perpétua, enquanto a comunidade internacional se calava - exatamente como o branquelinho mudo da TV.

Sobre Mandela, aliás, reconheço que sabia muito pouco. Não imaginava, por exemplo, que ele fora um brilhante advogado ou um ativo praticante do boxe, e também que era alto, forte e bonito, sendo admirado por todos, à exceção (claro!) dos branquelinhos, que temiam o negão, de quase se cagarem nas calças. Mandela os olhava nos olhos.

Certa vez, foi ao tribunal como advogado de defesa de um rapaz preto acusado de estuprar uma jovem branca. O juízes, promotores e advogados de bunda de geléia não toleravam o olhar altivo de Mandela, e era esperada uma condenação exemplar. Com o efeito, a missão de Nelsinho era inglória: Como travar um debate justo com uma gente eivada de preconceito e orgulhosa do racismo que exibiam como bandeira?

Contrariando as normas de então, solicitou a presença da vítima para que pudesse, ele mesmo, inquiri-la sobre o ocorrido! Não obstante tal "infâmia", o tenaz advogado aproximou-se da pobre moça e, em tom claro, para que todos os presentes pudessem escutar, perguntou-lhe em que condições havia se dado o estupro, e em que momento se dera a penetração. A jovem entrou em pânico.

Afinal, como revelar detalhes tão sórdidos em frente a todos seus familiares e membros de sua casta? Como admitir um ato tão vil e nojento, se somente a idéia de haver sido penetrada por um homem de cor lhe era de tal modo repugnante que faria, dela mesma, uma mulher para sempre condenada moral e fisicamente por sua própria gente?

Por fim, ela negou veementemente a possibilidade de haver sido violentada, pondo fim ao julgamento e dando a liberdade a um criminoso. O desejo de vingança sucumbiu ao ódio que ela mesma carregava em seu DNA. O preconceito dela fora maior que o próprio trauma emocional e da dor que certamente a acompanharia pelo resto da vida.

Mandela, tal como Gandhi, João Cândido ou Zumbi dos Palmares são exemplos lapidais de uma gente que, mesmo sob o tacão da violência, do preconceito e do racismo, ofereceram a inteligência como instrumento de resistência e liberdade.

Ter uma bunda de geléia não é uma escolha nossa; preservar sua cabeça cheia de cocô é. Um dia aprenderemos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Solicitação de Reintegração

Se me perguntarem, “Acreditas nos sentimentos humanos?”, responderei que sim.

Não gosto de normas ou padrões sociais de conduta. Acho-os empobrecedores no tocante à natureza humana, tal qual a concebo; sensual, criativa, libertária! Normas e padrões geralmente são o contrário, tendendo a nivelar tudo ali, pela altura da sola do sapato.

Sou afeito à subjetividade humana posta em forma de improviso, espirituosidade e, principalmente, graça. É desse espaço emocional que precisamos para escapar à mediocridade imposta. É o espaço ideal para a comunicação real, direta, despojada de arroubos civilizatórios que tanto nos limitam e oprimem, normatizando e padronizando nossa existência.

A quebra desse tipo de paradigma está - como tudo nessa vida - na mente de cada indivíduo. Quando desativamos esse sistema dentro de nós, estimulamos o outro a fazer o mesmo, desencadeando uma onda de anarquismo existencial em cadeia.

(...)

Não sei quantas vezes já havia sido desligado ou jubilado da Universidade de Brasília, mas sempre soube que, para o primeiro caso, cabia recurso.

As justificativas sempre eram as mais variadas possíveis, mas se concentravam na figura daquele que era, além de aluno, arrimo de família. Eu mesmo utilizei esse estratagema em minha “estréia”, só porque pagava a conta do condomínio e da luz lá de casa.

Mas a partir da terceira ou quarta vez que a instituição “te desliga”, os argumentos vão se escasseando. Era, pois, esta a minha preocupação quando abri a correspondência da UnB, delicadamente enviada por correio ordinário – o que parecia combinar com um aluno igualmente ordinário.

Se bem tivesse um emprego extenuante, sem hora para começar ou terminar, minhas mãos se recusavam a preencher a solicitação de reintegração com essa argumentação. O motivo? Eu estava apaixonado – platonicamente apaixonado...

Por quase todo um ano não pensei em outra mulher que não nela. Não sentia tanta alegria com um gol do meu time quanto a que sentia ao pronunciar o nome dela. Por quase todo o ano, aliás, não pensei em outra coisa que não nessa mulher. Estudos, trabalhos, todo o resto era resto; minha vida era gasta em pensamentos e esperanças pouco realizáveis. Não que me faltasse vontade, mas a tontinha era refém de um namorado dominador...

Isso tudo escrevi no documento solicitado pela universidade, e entreguei-o, ferido pela paixão não correspondida, mas romanticamente vingado pela nobreza do meu ato. Ali estava a minha verdade.

Algum tempo se passou desde então, até que recebi um telefonema do Departamento de Atendimento ao Aluno. Do outro lado da linha, uma senhora quis confirmar o que acabara de ler: “–O senhor escreveu aqui que... Que estava apaixonado; é isso mesmo?” Diante da minha confirmação, fui convidado para uma entrevista.

Na data marcada, fui recebido em uma sala onde, além da senhora que me convidara, estavam quatro outras moças, aparentemente à toa. Revelaram um ar de expectativa tão logo me apresentei. “–É ele!...”, cochichou uma delas às amigas.

Levantei a sobrancelha, como se não tivesse escutado, e me sentei. A entrevistadora trazia uma pasta com minha documentação, histórico acadêmico e etc, mas retirou apenas a ficha de solicitação de reintegração. Olhou para o papel e para mim, como se pudesse (ou quisesse) conferir a autenticidade do documento, associando-o à minha sorridente pessoa.

- Você escreveu aqui que... Hum... Você trabalha?
- Trabalho. -, respondi.
- Sei, sei... Mas aqui não está escrito que você trabalha...
- Pois é...

Outras duas moças entraram na sala, juntando-se às outras, que acompanhavam tudo em silêncio absoluto. A entrevistadora continuou:

- Mas por que, então, não mencionou que o trabalho poderia estar atrapalhando sua vida acadêmica? Não seria o caso?
- Seria uma mentira.
- ?... Mas não é verdade? Por que, então, seria mentira?
- Por que nem do trabalho eu estava dando conta...
- Não? E por quê?

Olhei para as moças e disse, após uma pausa cafajestosa: “Por que eu estava apaixonado, e quando me apaixono, o mundo não existe para mim...”

Ouviu-se um suspiro coletivo na sala.

Na semana seguinte, recebi a confirmação do meu pedido.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Futuro do País a Nós Pertence


Sentado à mesa da engordurada lanchonete, Horácio Augusto, funcionário público relapso e de rechonchuda forma, delicia-se comendo um "Xis-Tudo", pouco se importando com o molho rosé que a gula faz respingar na camisa.

Bem atento ao bacon, Horácio não percebe a aproximação de um menino sujo e esfarrapado que, coçando o braço, se dirige a ele.

- Com licença, tio... O senhor poderia me comprar um sorvete como aquele ali? - diz a criança, apontando para a desgastada foto de um suntuoso sundae, pendurada na parede da bodega.

Incomodado, tanto pela presença inoportuna do pirralho como pelo seu aspecto desagradável, Horácio lhe direciona um olhar de reprovação. Constrangido, o garoto se afasta, e logo o comilão volta sua atenção ao volumoso sanduíche.

A nova mordida, porém, não teve o mesmo impacto prazeroso que as anteriores. Por instinto, Horácio virou a cabeça em busca do menino, mas não o viu. E sentiu um inusitado incômodo dentro de si por não havê-lo ajudado.

Não era, na verdade, propriamente uma ajuda; e talvez fosse bem mais que isso. Era, senão, a satisfação de um desejo! Fosse uma mera ajuda, pensava, ele haveria pedido dinheiro, e não sorvete. E eu não o ajudei... Quer dizer, não tive vontade de satisfazer seu desejo... Que merda...

Esse raciocínio o incomodou ainda mais. Sentiu-se mesquinho, avarento.

Lembrou de quando era criança, e de como eram saborosamente apreciados os momentos em que podia comer seus doces prediletos. De quando economizava suadas moedas para ir à padaria, onde comprava pirulitos de chiclete, picolés e chocolates, e de como se escondia para não ter de dividi-los com mais ninguém...

Lembrou de como se esgueirava pelos bambuzais, próximo à sua casa, embrenhando-se em seu interior, dando numa clareira natural. E lá, encontrava papelões sobre os quais se deitava, ficando protegido da palha e de seus pelinhos piniquentos. Enquanto se lambuzava com as guloseimas, lia as revistinhas em quadrinhos que ele mesmo escondia por ali, ao passo que era, inconscientemente, adormecido pelo ranger dos bambus e pelo hipnotizante baile de suas copas, balançando ao vento...

Eram instantes mágicos, em que usufruía de total autonomia, desfrutando de “sua” comida, “suas” revistinhas, “seu” espaço; seu tempo, enfim. Lembrou-se de como aquilo lhe dava autoconfiança, empregando à sua volta ao lar uma atmosfera ímpar de reafirmação e construção de sua própria personalidade. E pensou em como teria sido ruim se, em seu mundo infantil, não pudesse nunca ter tido aquele tempo, quando era rei de si mesmo, em como sua vida teria sido mais sem graça e vazia. Por fim, sentiu-se responsável pelo futuro daquela criança suja e miserável.

Com o olhar no vazio, Lembrou-se, da figura que há pouco lhe importunara; dos grandes olhos assustados, do cabelo desgrenhado e da cara suja do menino. E também da camisa frouxa e rasgada, caída pelo ombro, em contraste às palavras delicadas e respeitosas que o garoto utilizou, tendo pedido “licença” e o chamado de “senhor”. Isso o fez sentir-se um desgraçado, pois se tratava obviamente de uma alma pura, e que, se não fosse bem tratada, poderia logo descambar para a vida bandida, tornar-se um pivete, depois marginal!...

À sua volta, alheios à sua angustia, outros clientes comiam, tranquilamente - exatamente como Horácio fazia há poucos minutos. “E ninguém se importa; ninguém dá a mínima!!!... – pensou, indignado. Subitamente, num misto de culpa e benevolência, levantou-se, comprou um enorme sundae de chocolate com caramelo e saiu em busca do menino, porta afora, em direção ao estacionamento.

Nada... Apenas o sol escaldante das duas horas da tarde de um abafado dia de verão. Olhou para um lado e para o outro. Caminhou por entre os carros. Andava como se estivesse sem rumo. Um outro quase o atropela, mas ele ignora, parecendo estar mais preocupado em encontrar o pirralho.

O sundae, derretendo ao sol, começa a escorrer pelas mãos de Horácio; depois pelos braços. Enquanto isso, ele, cada vez mais desesperado, já pensa no pior, e imagina o menino metido num buraco, cheirando cola, fumando crack, a ponto de perder a infância - e tudo por sua culpa, por sua falta de compaixão!!!

Desnorteado, tropeça na calçada; quase cai. Troca o sundae de mãos, limpa o suor da testa, melecando-a de sorvete. Passa a mão na calça, sujando-a também. E pergunta aos transeuntes pelo garoto: - “Não viram uma criança com cara de bom menino?”, indaga aos que passam, sem nem resposta esperar.

Dá toda uma volta no quarteirão e então, começa a sentir cansaço. Esbaforido, recosta-se numa mureta, todo suado e sujo de sorvete, lembrando que já passa da hora de voltar ao trabalho. Mas está ali, todo melado, com aquele pote de sorvete semi-derretido escorregando em sua mão, sem saber o que fazer com ele.

E então, prestes a desistir, já numa última olhada, percebe a presença do moleque, imiscuído entre dois arbustos, com a cabeça entre os joelhos e o olhar fixo no chão – escondido como ele mesmo gostava de fazer.

- Ê! Ô, rapaz! Te procurei por todo o quarteirão! - exclama Horácio, refazendo-se do cansaço e limpando o resto de caramelo que restava em sua testa. O menino levanta a cabeça e olha, desconfiado.

-Eu?

- É claro! Você não quer o sorvete? - diz, oferecendo-lhe aquele caldo doce e derretido.

A criança estica as mãos. Horácio hesita um pouco por conta da sujeira que elas trazem, mas entrega o copo, sorridente. E pergunta pelo seu nome: “Wanderson.” – responde.

- Tome aqui, Wanderson; é de caramelo!... Você gosta?
-Gosto sim... Obrigado – diz, timidamente.
- É, deve ser muito bom mesmo... Mas não vá fazer coisas erradas por aí, certo?...
-Coisa errada?!.. Não, não... – diz ele, jogando instintivamente um pedaço de plástico no chão, sem ao menos tirar os olhos do copo de sorvete.
O gesto, no entanto, causa surpresa em Horácio que, para espanto de Wanderson, solta um berro: “No chão não!!! Tem que jogar no lixo, como é o certo! Tem que fazer sempre o certo, viu?", ensina, afastando-se do moleque.


Enquanto Horácio Augusto caminha, vai refletindo sobre a boa ação que julgara realizar, e filosofa sobre sua "fantástica" atitude - como se ela representasse o início de um momento histórico para sociedade brasileira. Por fim, deixa arrebatar-se: “Muito bem, muito bem!... É imprescindível que haja pessoas a preocupar-se em educar as crianças deste País!..." , e, lambendo os dedos, conclui: - "O que seria de nós se não fosse por gente assim, como eu?!...”.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dois de Novembro




"O importante não é saber o que fazer com

o destino, mas saber o que fazer com

o que o destino fez com você."


(Sartre)




Há pessoas que carregam a pecha de amargas durante toda sua vida. Parecem não se incomodar, apostando sempre na manutenção de uma dor injusta, relutando a se rebelarem contra o dissabor que lhes foi servido à mesa do destino.

Por trás de um comportamento azedo há sempre um nó emocional – daqueles bem dados, como em cadarço molhado. A falta da atenção materna ou o excesso da violência paterna são evidências fortes, mas o que parece tirar de vez o açúcar da vida é o Amor rejeitado.

Moema, minha avó, teve uma vida assim, marcada pela falta de atenção, de carinho e de amor; uma mistura cítrica.

Mas o que fez sua alquimia afetiva se tornar ácida foi o tempero do abandono, que a deixou viúva em vida; primeiro, dos pais, depois, do marido, com cinco crias a tira-colo.

Apostava, em seu íntimo, que a Justiça Divina haveria de retocar-lhe o tropeço, devolvendo-lhe o homem amado e a alegria de uma família modelo. Enquanto isso não ocorria, contudo, relutava em debelar-se do pranto.

Apesar dos bonitos olhos azuis, seu rosto era triste, dum conformismo opaco e mal disfarçado, tão comumente visto nos semblantes divorciados da felicidade. E mesmo com alguma boa intenção, demonstrada pelos confortáveis coletes de lã feitos em crochê, sempre havia razão para acreditar que ela estava insatisfeita, pois reclamava de tudo, de todos.

Lembro à perfeição quando, numa tarde, passou por nós, seus netos, enquanto almoçávamos num restaurante próximo à sua casa. Assustada com “todas aquelas crianças agitadas” e sem naturalidade para beijos ou abraços, deixou rapidamente o local, pensando alto: “São uns selvagens!”. Meu pai demorou anos para digerir esse desconforto.

Foi uma expressão infeliz e forte que ficou marcada no meu inconsciente, afastando minha avozinha do meu convívio por muitos anos. Felizmente, com o tempo, isso começou a mudar.

Como das relações humanas o mínimo a se esperar é tudo, pude, já “hômi feito”, reinterpretar as marcas em seu rosto. Passei a visitá-la semanalmente, e a cada encontro, uma expressão de leveza, ainda que tênue, surgia em sua face. Já aceitava o carinho do meu sorriso e o calor do meu abraço. Ela me preparava chá e bolo, como só as avós fazem. E me servia em xícara de porcelana nobre, com motivos orientais em alto relevo e colherinha de prata. Ao final, exclusivamente para me agradar, dava-me sorvete de abacaxi.

Quando estava inspirada, falava da inteligência dos filhos ou de curiosidades da família e de sua própria vida. Chegou a fazer um Mestrado em Sociologia, na Cidade do México. E trabalhou na Fundação Nacional do Índio.

Todas as abordagens que fazia sobre a vida, porém, não iam além do próprio desejo não atendido: família e estabilidade. Dizia que eu deveria “fazer tudo certinho”, “não criar confusão” e “estudar muito”. Mas sempre me chamava pelo nome de um dos meus irmãos, e freqüentemente fazia alusão a experiências que também não eram minhas – chegando a ser, muitas vezes, dos meus tios!

Certa vez, quando me contava sobre o longo caminho que teve de percorrer para comprar aquele pote de sorvete, algo muito surpreendente aconteceu. Mal ela acabara de dar desfecho ao relato, quando me perguntou se eu queria mais. Como recusar oferta de avó pode render alguma maldição, aceitei. Ela então foi à cozinha, e assim que retornou, começou a me contar sobre o longo caminho que teve de percorrer para comprar aquele pote de sorvete... Do mesmo jeito, com todas as ênfases e entonações há poucos minutos utilizadas. Fiquei sem fala. A partir daquele fato, tive a certeza de que nossa relação ficaria, no mínimo, algo psicodélico.

Mas não houve como saber. Devido a recomendações médicas, Moema se mudou dali a poucos dias para usufruir os ares de uma cidade litorânea. Passou os últimos anos de sua vida em Salvador.

Voltou a Brasília quando, após uma queda, bateu a cabeça no chão e precisou receber tratamento adequado. Assim que ela chegou, fui visitá-la. Estava paralisada por um derrame e nada falava. Mesmo assim, trocamos sentimentos. Pude olhar em seus olhos, ainda azuis – e agora mais brilhantes – que ela não estava mais triste, que não guardava mágoas e que não trazia mais, enfim, a dor do rancor.

Dois dias depois, morreu. Não fui ao seu enterro.

No Dois de Novembro, quando entes perdidos são enaltecidos, penso em minha Vó Moema e não me sinto triste. Tampouco tenho vontade de ir ao cemitério.

Não sinto que uma visita seja significativa dentro do contexto em que construí minha relação com ela. Prefiro investir nas boas lembranças, como na satisfação de pensar que ela, ao fim da vida, já sabia o quanto era doce o viver.
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"Somente o tempo, o tempo só
Dirá se irei luz ou permanecerei pó
Se encontrarei Deus ou permanecerei só
Se ainda hei de abraçar minha vó"

(Gil, em versão de letra de Robert Nesta Marley)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um Luar Desbundante

Ao contrário de seus amigos de então, Caetano sempre foi um adolescente desapegado aos vícios mais comuns da sua geração.

Não demonstrava interesse em ir a shows de rock ou a boates da moda. Não via graça nenhuma na mesa de um bar, e muito menos em passar o tempo falando sobre carros e motores. Salvo alguns goles de Biotônico Fontoura, não havia posto, até então, qualquer substância alcoólica em sua boca.

Para não ser de todo diferente, deve-se registrar que pensava sempre em sexo – o que, em linhas gerais, fazia dele um típico adolescente.

Costumava ficar recolhido em seu quarto, perdido em devaneios que registrava poeticamente em seu diário, e pouco saía; nem mesmo nos finais de semana. A verdade é que chegou a se divertir muito mais aos doze, treze anos quando ainda era meio menino, do que aos dezoito, quando a aproximação junto às mulheres já não se dava de forma tão espontânea, dado que se sentia ainda um meio homem. E tímido. Passava o tempo tentando entender como se aproximaria delas indo dormir tão cedo...

Naquela noite, após registrar ardentes desejos em seu diário, Caetano olhou para a janela e tentou compreender a excitação de uma sexta-feira. A chuva fina que caíra durante a tarde deixara poças d’água pelo asfalto, multiplicando o cintilar e as cores das luzes da noite. Em frente à sua janela havia um posto de gasolina, onde se situava também uma loja de produtos de conveniência.

Eram quase 10hs e o movimento de carros era intenso. Na linha do horizonte, a borda amarela da lua cheia se pronunciava. Observou garotões excitados e moças que falavam sem parar. Enquanto eles se empurravam pelo estacionamento e compravam bebida, elas permaneciam no carro, entre fofocas, risos e gritinhos.

Mas não se identificava em nada com eles. Da janela, ele esticava a vista, talvez na esperança de que uma delas percebesse sua presença, e por ele largasse toda aquela “vida bandida”... Mas por mais que tivesse brilho no olhar, Caetano se colocava muito distante da realidade para poder iluminá-la.

Não se sabe, porém, se pelas influências da lua ou se por motivos outros, fato é que Caetano sentiu, naquele momento, uma agitação incomum. No dia seguinte, teria de acordar cedo para ir treinar... Mesmo assim, ousou!

Meteu-se numas calças folgadas e tirou do armário uma camisa bem confortável. Contra o frio, um casaco bem quentinho. E saiu à rua.

Em frente à porta de casa, decidiu o itinerário; nada mais simples: iria caminhando até encontrar uma rua bem movimentada. Daria uma pernada e voltaria, bastando para saciar suas vontades e suas carências – ao menos nas aparências.

Antes, deu uma rápida passada pelo posto, onde comprou comprou um litro de iogurte de pêssego. E pôs-se a caminhar.

A noite estava realmente interessante! Fresca, calma, insinuante. Nada como a brisa quando se tem calor guardado dentro do peito. Os passos eram dados sem pressa, procurando cada graveto ou superfície que pudesse produzir um ruído novo. E o iogurte, então, descia como goladas de scotch, dando a ele a sensação de ser um poeta perdido madrugada afora. Buscava o glamour das meias-luzes dos postes e falava sozinho, como se acreditasse que Deus o estivesse guardando, escutando a cada cochicho.

Ao chegar, deparou-se com uma avenida tomada por habitantes da alcova.

Por entre roqueiros, artistas, cabeludos e muitas latas de cerveja, avistou Regina, colega de escola.

De traços finos e sobrancelhas sinuosas, era uma linda mulata. A beleza fora roubada da mãe, que chegou a ser eleita Miss Mato Grosso em tempos idos; a sensualidade, herança dos subúrbios e das praias do Rio de Janeiro, onde nasceu o pai.

E não era só isso: Regina, além de linda e exageradamente sensual, guardava, há mais de ano, uma grande paixão por Caetano. Paixão não correspondida que, recolhida, ainda lhe doía no fundo do peito.

Quando se conheceram, ele tinha namorada e lhe era fiel. Agora, sem razão para retidões, Caetano era somente impulso.

Regina estava sentada na calçada, cabisbaixa, alheia ao caos que imperava ao seu redor. Ele, apesar de atraído, não encontrara, ainda, meios para corresponder aos sentimentos dela. Aproximou-se.

- Regina?... -, disse, tocando o ombro da moça, que parecia enxugar algumas lágrimas. Ele insistiu: - O que tá fazendo aí?
- Tô sentada...
- Sim, mas... Mas, aí?!
- É.
- (...) Parece que tá meio sujo, esse chão...
- É, parece.

O ambiente estava carregado, mas mesmo sentada no chão, Regina não pertencia àquele local. Ele, pouco afeito a toda aquela agitação, resolveu arriscar e convidou-a para “uma caminhada”. Sem nada dizer, ela se levantou e seguiu Caetano.

Enquanto caminhavam, Regina não falou – e nem iogurte aceitou. Caetano procurava palavras certas ou coisas que a pudessem agradar, mas nada a fazia sorrir. De repente, passando exatamente pela frente de sua casa, Caetano, muito maliciosamente, sugeriu: - “Veja, Regina, é aqui que eu moro...”, e sem pensar muito, arrebatou, - “Quer subir?”. Regina o fitou por alguns segundos e novamente acatou a idéia do amigo. Não falou qualquer “porém”, o que o deixou apreensivo, e também esperançoso.

Todos os devaneios que imaginou da janela apequenaram-se diante daquela situação. O que há poucos instantes lhe parecia tão inalcançável mostrava-se, agora, uma tangível realidade.

Enquanto subiam a escada, trocaram olhares, mas nenhuma palavra. À porta de casa, tranqüilizou-a: -“Não se preocupe; estamos sozinhos...”.

Chegando ao seu quarto, abriu a grande janela, revelando uma lua já majestosa e dona dos céus. Ela, por sua vez, simplesmente se jogou pesadamente sobre a cama. Isso o incomodou: - “Regina, você não pode se deitar com esta calça... Você estava sentada no chão sujo e... -, antes que ele pudesse terminar – e como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo -, Regina se levantou e tirou a calça, deitando-se novamente...

Nem em seus pensamentos mais descarados ele encontraria espaço para um diálogo tão fluido como esse. Regina, com seus 17 anos, não fizera qualquer objeção a tudo o que lhe fora proposto, e estava, agora, deitada em sua cama, com a barriga para baixo, trajando uma singela calcinha branca com rendinhas...

A desavergonhada exposição da bunda majestosa de Regina fez Caetano se sentir totalmente à vontade. A ponto de se esquecer de todas as falas e argumentos que havia ensaiado para momentos como aquele. Regina os fez desnecessários.

Ao olhar para aquele espetáculo, Caetano sentiu o pau se avolumar abruptamente. Pelo vão da janela, o brilho lunar, quase azul, deu um tom fluorescente às rendas da calcinha dela, aumentando o contraste com sua pele morena, lisa e macia, que ele agora tocava suavemente, estimulando-a a exalar o marcante cheiro do sexo...

Ante a total aceitação da parceira, Caetano apressou-se em lançar longe toda a roupa. E logo estava deitado aos pés dela, percorrendo toda a extensão de suas pernas com as mãos... Depois com o nariz... Até tocá-la com os lábios... E a língua... Descobrindo, por baixo da calcinha branca, um sexo pleno, vermelho, que pulsava, latejante...

E então, já totalmente entorpecido de prazer, Caetano pode aprender, pelo toque quente e molhado do corpo de Regina, que havia, afinal - e para além das palavras - formas efetivamente verdadeiras de se comunicar com alguém.

Até hoje, pouco se falam, embora entendam-se à perfeição.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Moça dos Pastéis


















A Moça dos Pastéis se arruma para o trabalho.





Ser consultor de finanças de uma multinacional era mera conseqüência de sua introspecção. Aos 25 anos, Igor, moço tímido e de gestos contidos, sempre buscou na exatidão da ciência as respostas para a própria existência e também a satisfação que não dispunha para dar ao próprio coração.

Foi assim, na solitária infância de um filho sem irmãos e, com mais ênfase, na adolescência, quando não fez amigos ou - menos ainda - namoradas.

Não que fosse feio – não era -, mas uma rígida educação religiosa atrelada à insegurança de uma mãe abandonada pelo marido terminou por impingir-lhe à personalidade um forte conservadorismo, e isso o impedia de ir além das recomendações domésticas.

Em casa, nada era feito sem a amarga anuência da mãe. Mesmo quando tomava a atitude correta, não recebia elogios ou reconhecimentos.

O medo de um novo abandono fez com que a mãe o tratasse com aparente desvelo. Mas o carinho cotidiano, Igor não recebia. Nem o toque amoroso. Nem palavras de conforto que lhe fortalecessem o espírito. Ao contrário, a cada dia Igor ia se sentindo menos do que era. E entendeu que, para não ser repreendido, bastava que acatasse as vontades de sua mãe. Tornou-se, por vias tortas, um ser demasiadamente respeitador.

Não tivera um pai em quem se espelhar. A respeito de quem, aliás, sempre escutou as piores coisas, exaustivamente pontuadas por sua magoada mãezinha: – Um mulherengo! Homem sem respeito! Que não sabe o que é a Família!... Um pervertido!... – e completava, olhando para o jovem Igor: Não olhes jamais para mulheres da rua, meu filho; não seja um desgraçado aos olhos de Deus, como foi teu pai.

Para Igor, todas as mulheres que via na rua eram mulheres da rua. E apesar de admirá-las em seu íntimo, não demonstrava qualquer apreço por medo de desgraçar-se.

Do mesmo modo que entrou na faculdade de economia, saiu: com medo da desgraça divina e um crescente pavor da presença feminina. Esperava, aliás, que um dia o Senhor lhe pusesse à frente uma mulher de caráter ilibado e modos corretos. E quando isso ocorresse – estava certo – saberia reconhecê-la.

Por ora, preferia refugiar-se em números, cálculos e fórmulas que, mesmo sem falas ou gestos, eram os únicos a lhe darem alguma satisfação. Escutar primos e amigos relatarem suas experiências amorosas foi deixando de lhe ser excitante, tornando-se cada vez mais angustiante.

Isso, porém, começou a mudar com o novo emprego. Não por conta do ofício, encarado sempre com seriedade e mesmo prazer, mas por conta da moça dos pastéis.

Dela, nunca perguntou nada. Nem ousou trocar olhares. Temia ser mal interpretado; que lhe pensassem coisas vãs, levianas, e mesmo pecaminosas! Mas fazia questão de sair de casa com espaço na barriga reservado para dois pastéis de palmito. Era um momento raro em sua vida, quando se permitia esquecer um pouco da exatidão dos números.

Encolhia-se sempre num canto do balcão, de onde sonhava com essa moça a preparar-lhe pastéis – todos-, podendo fitá-la por horas, sem a necessidade de revelar seus verdadeiros desejos. Mas não ousava sequer pensar na hipótese de um diálogo – Não! Afinal, via-se que, apesar de bela, era “da rua”.

Ainda que fosse discreta – e ela era -, uma moça distinta não usaria aquele tipo de maquiagem. E também aquele cabelo em coque, revelando a desconcertante nudez de sua nuca. Nem saias como aquelas, que lhe deixavam as grossas coxas à mostra. E também as sandálias, sempre de salto, que revelavam o firme torneado de suas panturrilhas e tornozelos. E o olhar? O que dizer daqueles olhos amendoados em verde-claro? Ou daquele rosto, cujas maçãs davam para se comer?... Enfim, não havia dúvidas: era gente da ralé!

Quando ela faltava, já tendo ele comprado as fichas no caixa, revoltava-se, metendo os pastéis num saco para, em seguida, abandoná-los na primeira lixeira. “Só me servem se forem dela”, pensava, resignado.

Na empresa, toda aquela devoção aos números e às tarefas lhe conferiu célere projeção. Era invejado, admirado – até respeitado! -, mas não sabia disso.

E assim, alheio ao mundo, Igor chegou ao trabalho para cumprir apenas meia jornada; era 31 de dezembro.

Naquela manhã, encontrou a moça dos pastéis mais bonita que nunca. Não havia nada de diferente na roupa ou no cabelo, mas seu espírito estava reveladoramente festivo. Atento a tudo, Igor observou-a preparando uma grande jarra de suco. Mas estranhou que não o tivesse servido a ninguém. Instintivamente, deixou escapar:

- É de limão?

Ela então levantou os olhos, fazendo Igor estremecer. Nunca haviam ido além dos pastéis...

- Sim, é de limão... – disse, servindo-lhe no mesmo copo em que bebia. Nervoso, e sem saber o que dizer, Igor entornou o copo inteiro para dentro, o que lhe trouxe a indescritível (e até então por ele desconhecida) sensação do calor alcoólico. –É caipirinha -, revelou ela, sorrindo maliciosamente. E estava agora mais linda do que nunca!

E Igor, mais do que calor, sentiu euforia. A surpresa lhe parecia ter retirado as amarras da alma; queria mais!

Ainda com os olhos lacrimejantes, Igor devolveu-lhe o sorriso, mas antes que pudesse revelar sua felicidade, percebeu a intensa movimentação de funcionários em direção à portaria do edifício. –Deus meu! Estou trabalhando!!!-, pensou. E apressou-se em devolver o copo e desejar-lhe um feliz ano novo, para sair, atabalhoadamente.

-Mais tarde tem mais! -, ainda gritou ela.

Passou toda a manhã em grande conturbação. Não fez cálculos matemáticos, não atualizou qualquer planilha, não produziu, enfim, nada! –Encarnou o espírito do réveillon, Igor? -, observou um colega, insinuando que o respeitável funcionário estivesse com a cabeça nas nuvens. E estava mesmo.

Igor nem respondeu. Estava fascinado como uma criança em seu último dia de aula. Nunca sentira aquilo antes; uma euforia tão genuína, uma alegria tão intensa, somente... Somente por estar vivo! E o melhor é que o sorriso da moça dos pastéis aparecia em todos os seus pensamentos, acariciando-lhe o ego virgem. O olhar que ela lançou sobre ele, então, provocava pontadas logo abaixo do estômago.

Ao meio-dia, a liberdade!

Bateu o ponto antes mesmo que os demais. No caminho, pensava em beber mais um copo de caipirinha, em comer mais uns pastéis para, então, convidar aquela moça para um passeio. Agora, ela já não se parecia mais com uma qualquer. Nada disso. Pensava nela ao seu lado, assistindo à TV, preparando o jantar, cuidando das crianças...

Quando chegou à lanchonete, porém, não a viu. E perguntou por ela:






- Ei, você aí, do caldo de cana! Cadê a moça dos pastéis?!



- A "Peruana"? Encheu a cara e bateu boca com o dono. Foi despedida na hora! Saiu daqui diretim pra rodô!

Perguntou pelo nome e pelo endereço, mas ninguém sabia: - Dizem que veio da Bolívia, e que estava ilegal aqui. Ninguém sabe mais nada. Parece que mora com uma amiga em Águas Lindas...

Por breves segundos, entre a decepção, a raiva e o delírio, Igor pensou em ir atrás dela. Mas como, se não sabia sequer o nome? E onde, se não tinha qualquer referência?

Naquele dia, não voltou para casa. E após as festas de fim de ano, também não retornou ao trabalho. O único que informava alguma coisa era o rapaz do caldo de cana, que diz ter ouvido que Igor agora vende pastéis em Águas Lindas... E vai muito bem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Saindo do Armário

Após algumas temporadas perambulando por corredores universitários, fui ficando mais vagabundo e presunçoso. Do tipo de cara que entra em qualquer sala demonstrando intimidade, falando “e aí” para o professor e vai se sentando no melhor lugar.

Gostava de provocar os professores quando estes pareciam querer subestimar a inteligência dos presentes. Consistia numa estratégia que os estimulasse a fazerem colocações menos levianas e coisa e tal; a idéia não era de confrontação. Ainda que de conteúdo político, eu procurava sempre colocar pitadas de humor, o que, não raro, poderia transformar uma aula desinteressante num risadio coletivo.

Bartolomeu foi um desses mestres (aliás, “doutor”) que merecia provocação contínua, tal sua soberba.

Nascido e criado num Rio ainda glamoroso, expressava-se de forma imperial. Com suas bochechas trepidantes, possuía um gestual repleto de pernosticismo e uma fala lenta, algo pedante. Só se referia às grandes empresas como “transnacionais”, como se, num esforço policarpiano, quisesse revelar ao mundo sua “descoberta neolinguística”.

Em sua patente vaidade, julgava-se progressista, daqueles que se referem aos próprios ideais revolucionários da juventude como “características de um tempo”. Em tempos atuais, no entanto, dava-se ao luxo de discutir, durante as aulas, seus whiskeys preferidos e os blends mais renomados: “Só tomo Black Label”, dizia, cheio de orgulho. Tinha cara de pedófilo, daqueles que gostam que as crianças o chamem “tio Bartô”.

Em pouco tempo, "conquistei" aliados. A maioria, informais, que apenas gargalhavam com a galhofa, embora houvesse
quem rompesse o anonimato, revelando também suas discordâncias em relação ao Bartô, ficando este cada vez mais estereotipado. Ganhou logo a alcunha de “senhor do universo”.

Com o passar do semestre, aquela foi se tornando a aula mais atrativa. O número de faltosos diminuiu, tão interessante ficara o ambiente. Quando eu levantava a mão ou coçava o cavanhaque, Bartolomeu se mexia em sua mesa, incomodamente, já a espera do embate.

Notei que ele, apesar de PhD, etecétera e tal, não possuía lá “todo” esse conhecimento, principalmente quando escapulíamos para fora do academicismo. Aí ele se perdia, ficava nervoso, ainda que demonstrasse enorme espontaneidade em abandonar o tema para regozijar-se com suas aventuras no estrangeiro (para além dos prazeres etílicos).

Certa vez, enquanto discutíamos algumas regras internacionais sobre fronteiras em regiões de floresta, nosso mestre entendeu por relatar uma situação de perigo que vivera na selva, anos atrás, acompanhado de um professor colombiano...

- Acompanhado, né? Hum... -, interrompi eu, olhando maliciosamente para a turma.

Bartolomeu fez que não escutou, e seguiu com sua ladainha, dizendo que o avião ficara desorientado, no que ele e seu parceiro se viram obrigados a passar a noite, na selva...

- Na selva... Hummmmmm...

Ele foi ficando vermelho. E a cada detalhe da aventura, bastava que eu fizesse “hum” para que Bartô se perdesse na lógica do relato. A turma divertiu-se a valer, e até Alícia, a monitora que nunca ria e só fazia comentários pertinentes, perdeu o rebolado naquele dia, deixando o mestre sem cobertura moral. Dali em diante, parou de responder às provocações; as classes ficaram mornas.

Apesar das provocações e das piadas, fui aprovado, dando prosseguimento ao meu antropólico périplo pelas fileiras acadêmicas.

Numa dada noite de sexta-feira, numa festinha porralôca, reconheci Alicia, que estava irreconhecível, tão alegremente bêbada se mostrou.

Veio pra cima de mim na maior intimidade, sendo que nunca havia falado comigo. “Joããããão!!!”. E disse que tinha uma coisa inacreditável para me contar.

- Sabe o Bartolomeu?
- Claro! Como esquecer?
- Pois ele tem você engasgado na garganta!... -, disse ela, entornando mais uma golada de wodka, e quase tropeçando na calçada.
- Comigo? Por quê?
- Lembra daquela estória que ele contou, sobre um lance na selva, com um colombiano? Pois então, logo depois daquela aula, ele foi embora e nem passou pelo departamento...
- Sei...
- ...e voltou todo estranho no dia seguinte. A gente tava preparando um material para a próxima aula, no que ele olhou para mim e perguntou “Você acha que tenho cara de homossexual?”!

Eu e Alícia demos uma enorme gargalhada, mas logo fiquei sem fala. Ela então me disse que o pobre Bartô encasquetou com minhas insinuações, e que não parou mais de questioná-las, até o fim do semestre! “Por que o João falou aquilo?”. Será que a turma desconfia de alguma coisa em relação a mim?”, “Você já escutou mais algum comentário?”...

- Mas como é que pode, um cara que se diz tão preparado, viajado e estudado, dar bola pruma brincadeira marota?...

- Pois é -, emendou ela-, eu nunca tinha desconfiado de nada, mas de tanto ele insistir com o assunto, agora tenho certeza! E o mais engraçado é que ele não te esquece! -, disse Alícia, já se perdendo em meio à balbúrdia estudantil.

Títulos, prestígio, livros... Toda uma carreira dedicada à antropologia, aos estudos, à Academia!!! E nada -nada!- fora, no entanto, capaz de fazer Bartolomeu sentir-se à vontade em sua existência.
Quando a verdade fala, o homem cala.


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photografie: joão sassi

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Gaia Now! - Celebrando o Prêmio Nobel sem Fazer Cara de Pastel


"Que alguém tenha um PHD não significa necessariamente que ele saiba mais que as pessoas que vivem de um recurso. Há muito conhecimento local que temos que respeitar".

Foram estas algumas das palavras expressadas pela cientista social Elinor Ostrom, logo após se agraciada com o Prêmio Nobel de Economia deste ano.

Houve um tempo – um tempo não muito distante dos dias de hoje – em que muitos dos países europeus, bem como alguns outros espalhados pela Ásia, Oceania e América do Norte, eram tidos como exemplos de nações desenvolvidas e civilizadas.

O restante do mundo buscou (e ainda busca), por décadas, séculos a fio, alcançar o padrão político, social, econômico, militar e cultural estabelecido por tais nações. Éramos todos, ora como colônias, ora como pátrias subdesenvolvidas, vítimas de uma visão etnocêntrica, a nós imposta pela dominação física e/ou cultural por parte de nações mais “poderosas”.

Não se contesta aqui o grau de desenvolvimento ou de civilidade alcançado por aquelas sociedades, mas se torna cada vez mais necessário discutir seus parâmetros.

Será que hoje, com o planeta atravessando um delicado processo de complicação das condições climáticas, esses parâmetros seriam os mesmos?

Será possível, que numa era de elevadas conquistas científico-tecnológicas como a nossa, tenhamos ainda a disposição de estabelecer modelos de desenvolvimento anacrônicos, como se estivéssemos em plena Revolução Industrial?

O que seria da humanidade, se toda nação resolvesse adotar fontes poluentes e não-renováveis de energia em alta escala? O Brasil, com todas as condições que vem elencando nos últimos anos, tem o direito de fazer como, por exemplo, os chineses (cujas impressionantes conquistas econômicas não escondem os desastres ambientais daí decorrentes)?

A resposta, claramente, é não.

Dados que anteriormente eram concebidos como alarmistas e sem fundamento são, a cada dia, referendados pela ciência, deixando claro que a humanidade encontrou, afinal, um ponto de inflexão.

Hoje sabemos que já foi ultrapassado o ponto-limite onde a Terra, tal qual um organismo vivo, consiga se regenerar em relação a tudo o que vem sendo destruído/modificado pelo ser humano. O Planeta está enfermo.

Apesar de desenvolvidas e civilizadas, as nações às quais me referi no início do texto encontraram, na virada deste milênio, bem como na manutenção dessas condições, um paradoxo que antes não existia, dado que não podem continuar a se desenvolver e a produzir bens sem novas fontes de energia alternativas que substituam fontes fósseis e termelétricas.

O modelo chinês, portanto, não nos serve de parâmetro. Nem o norte-americano, nem o asiático ou o europeu. O modelo a ser seguido ainda está sendo criado.

Não por uma nação do BRIC (o grupo de países emergentes onde se encontra o Brasil) ou por qualquer um dos tigres asiáticos. Muito menos pelas ambientalmente combalidas nações européias e norte-americanas. E sim por todas elas.

Não há, ante as necessidades do homem, mais espaço para visões unilaterais que ao longo do tempo produziram distorções e catástrofes que, direta ou indiretamente, atingiram a todos, fazendo do mundo o que ele é hoje.

Foi-se a era dos pólos opostos e dos maniqueísmos ideológicos. Aqueles que insistem em encenar essa peça revelam-se, cada vez mais, atores decadentes, num papel que já perdeu, há tempos, a importância, e mesmo o glamour.

Vivemos a era da conjugação das idéias e das forças; uma era onde não há uma limitação clara de onde atua um e outro; a era da integração das metas, do pensamento interdisciplinar e do comportamento transversal, plural, heterogêneo.

Ao contrário, portanto, do que sempre vimos e nos acostumamos a acatar, as necessidades da contemporaneidade nos obrigam a rever conceitos, padrões e modelos; a re-inventar.

Foi, pois, muito contente da vida que recebi o anúncio do Nobel de Economia. Em seus estudos, Elinor Ostrom alerta a todos nós que a ciência econômica precisa integrar outros conhecimentos e considerar a sabedoria local para lidar com desafios da atualidade, como o gerenciamento de recursos naturais.

Seus estudos são uma demonstração categórica da necessidade de enxergar o mundo com outros olhos. Uma de suas mais importantes conclusões foi a de que algumas políticas governamentais acelerariam a destruição dos recursos naturais, enquanto que, por outro lado, alguns usuários daqueles mesmos recursos (p.ex. pescadores, agricultores, madeireiros) investiriam mais tempo e energia para alcançar a sustentabilidade em nome de um interesse comum, em longo prazo. O período de defeso de certas espécies aquáticas, quando se deixa de pescar por um determinado período, a fim de preservar o nicho ecológico equilibrado, é um ótimo exemplo, e que há tempos é adotado por diversas populações ribeirinhas e tradicionais.

Em outras palavras, é como imaginar que o conquistador português houvesse desembarcado por aqui disposto a conhecer e a aplicar todo o conhecimento autóctone em associação ao seu, na tentativa de se estabelecer a maneira mais racional e respeitosa de se integrar ao meio ambiente.

Que delícia seria o Brasil, não é mesmo? Tendo todo o conhecimento daquela gente, acumulado por séculos, à sua disposição, para a construção do país do futuro...

Se isso sempre nos pareceu fantasioso ou mesmo idealista, as conclusões encontradas por Ostrom surgem como um alento: a partir delas, os conquistadores dos dias atuais - sejam eles governantes, multinacionais ou nações - deverão adotar uma postura mais sensata e humana: substituir a arrogância pela humildade como instrumento de contato será condição sinequanon para garantir a própria subsistência, deles e do Planeta.
photografie by NASA

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Revolução é uma Merda! *


O aplicado Sargento Lourival, na maturidade dos seus vinte e poucos anos, mais uma vez deixava sua residência com ares de transtornado; desta feita, visivelmente irritado. Lucélia, sua mulher e companheira desde sempre, por alguma razão, o estava agora confrontando. Sentira-se ultrajado pelas palavras da esposa.

Não que o casamento estivesse em crise, pois o que se via era uma união estável entre aqueles dois que, sem dúvida, haviam conseguido fazer o amor entre eles perpassar incólume à rotina dos anos vividos. Eram, de fato, felizes.

Ela, sonhando com a maternidade. Ele, ardorosamente dedicado à farda verde-oliva, havia já sete anos. Recentemente fora promovido a 3º Sargento de Infantaria; motivo de empenho e alegria, mas também de infortúnios...

Lucélia se orgulhava do marido militar que, desde a juventude, prometera a ela defender, com a própria vida, a pátria e a família. O ingresso no Exército coincidira com o Golpe militar de 64, e ela sempre os apoiou – ao golpe e ao marido.

Mas, à medida que o regime se tornava mais violento e ditatorial, mais Lourival era requisitado em seu ofício, mais sua escala de serviço aumentava e mais missões obscuras lhe eram dadas, apartando-o do convívio junto a Lucélia, e esta da realização materna. “A Pátria está segura, mas e minha família, que ainda nem tenho?”, perguntava-se, cada vez que, deitada, olhava o travesseiro ao lado, intacto.

Por vezes, arrumou-se, encheirou-se e empetecou-se para ele, tal qual uma fêmea cujas necessidades não vão além do desejo do coito, do desejo de ser envolvida pelas mãos rudes e olhares desinibidos do parceiro, que, por fim, não aparecia, deixando-a, em princípio, frustrada, mas logo, magoada.

Por amor, as mulheres fazem qualquer coisa; quando magoadas, vão além.

A cada noite solitária, escutava as mesmas justificativas, sempre embasadas pelas “necessidades da revolução”. Lourival dizia que os comunistas estavam invadindo o Brasil, e que por isso era necessário estar em constante estado de alerta.

Ele não notara, mas Lucélia já não demonstrava o mesmo orgulho por sua atividade. Menos ainda quando, por conta da visita de um primo, ela escutara dele sobre certos abusos que os militares estariam cometendo em escuros porões. Ela nunca ficara sabendo daquele tipo de atividade. Pensar que Lourival pudesse ser um torturador a deixou sem ação. Sentiu-se enganada.

Seu desgosto era crescente, de modo que não saiu em defesa do marido, como faria em outros tempos. Surgiu daí um sentimento de raiva da vida que levava. Não achava justo se sacrificar para que seu marido sacrificasse a outros.

A partir de então, e cada vez mais, ao invés de beijos, despediam-se, friamente. A petulância da antes dócil Lucélia o atarantava. Sentia-se desafiado em sua autoridade. E, como se não bastasse, passou a ter que conviver com as desconcertantes palavras alardeadas pelo primo da esposa que, pouco antes de partir, olhou maliciosamente para ele e disse “Essa revolução é uma merda!” – palavras que não lhe saíam mais da cabeça e, pior, também da boca da companheira, cujo sentimento era o mesmo de uma mulher traída – por uma revolução que destruía seus sonhos, enquanto o marido a ela se entregava de corpo e alma.

“Então é assim...”, concluiu Lucélia.

Foi, pois, possuída por um sentimento de abandono que, àquela manhã, logo após servir a Lourival o café, perguntou-lhe, asperamente: “Volta hoje?”. Diante da negativa, correu à janela e, para desespero do sargento, gritou a plenos pulmões: “A revolução é uma meeeeeeeeeerda!!!”.

Lourival quase cai da cadeira com o inusitado da ação, e, ato-contínuo, se lança ao encontro do corpo dela, derrubando-a no chão.

Bufando, olha para ela com ódio e diz: “Nunca mais repita isso, está me entendendo? Nunca mais!!!... Ou se acaba esse casamento!” -, e sai, furiosamente.



Lucélia, ainda estirada, olha para porta de casa, aberta, mas nem pensa mais no que acontece lá fora, pois está perdida em pensamentos seus, de desejo e de vingança, e até sente prazer...

Quanto ao sargento, seguiu caminhando em direção ao ponto de ônibus, transtornado pela falta de disciplina em sua casa, nas ruas e no mundo. Pensava menos na esposa que no maldito primo que lhe enfiara tais asneiras na cabeça... “Maldito duma figa!”... Malditos comunistas!... Filhos duma puta sem patriotismo! Temos que dar cabo a essa gente!...”-, pensava o militar, enquanto caminhava apressado, destemperado pelas ruas do bairro.

Apesar de esbaforido, não estava atrasado. Entendeu por entrar numa padaria onde pudesse concluir o café e também enxugar o suor que lhe caía da testa às têmporas, ameaçando borrar seu fardamento.

De rosto lavado, sentou-se ao balcão e pediu uma média, “bem forte”, pontuou.

Enquanto esperava, porém, o grito da mulher não parava de ecoar em seus ouvidos, não deixando com que aquietasse a ebulição em seu peito. Sentia, na verdade, vontade de dar-lhe umas bolachas, mas a respeitava muito. Então voltava sua ira ao primo, e continuava a praguejar, sem remorso.

De repente, escutou da boca de um senhor sentado numa mesa próxima: “... é culpa dessa revolução, que é uma merda!”. Foi o estopim!

Como se já houvesse ensaiado aquele mesmo ato uma centena de vezes, não hesitou: girando violentamente o corpo e sacando um par de algemas, agarrou o homem, acusando-o, “comunista!!!”

- Espere, senhor...
- Comunista safado! Vai aprender a respeitar a revolução!
- Mas, sargento, eu...
- Cale a boca, seu imundo! -, berrou Lourival, algemando-o.
- Eu posso ao menos me identific...
-Já disse para calar a boca! -, disse o sargento, aplicando uma gravata no indefeso homem, ao passo que o arrastava para fora do estabelecimento.

A delegacia era do outro lado da rua, e para lá seguiu Lourival, arrastando o infeliz pelo pescoço, que mal conseguia respirar.

- É uma merda? É uma merda, é? Pois sim! Vai ver o que é se meter na merda, seu comuna de bosta! -, repetia o sargento, já entrando na delegacia. O delegado, do fundo de sua sala, esticou a vista para melhor ver, e logo se apresentou

- Pois não, sargento?... O que aconteceu?-, perguntou.

Dando um cotovelaço nos rins do prisioneiro- que caiu de joelhos -, Lourival respondeu:

- Enfia este merda aqui nas grades, e dê a ele um xarope de tosse, ou algo melhor!... Estava no comércio, Seu Delegado, alardeando que a revolução é uma merda!... Mete ferro nesse velho comunista filho da puta!

No chão, e ainda algemado, o senhor buscava um pouco de ar. Antes que o levassem, conseguiu pedir para que conferissem sua identidade. O silêncio tomou conta do ambiente. Como ninguém se mexia, o delegado então conferiu a identidade... E constatou que o elemento em questão era o senhor Avilásio Martins Santa Cruz - General da Reserva...

Lívido, Lourival permanece imóvel. O delegado, entre a surpresa e o temor, ordena a imediata prisão do sargento, chamando-o incompetente, bisonho e palermão. Humilhado com nunca se sentira em toda a carreira, Lourival escuta impropérios de todos os policiais presentes ao recinto, que são ditos aos berros, com o explícito e lacaio intento de agradar ao insultado general.

As algemas de Santa Cruz são retiradas. Este, por sua vez, levanta-se serenamente e, ajeitando a gola da camisa amarrotada, pede ao delegado a autorização para ter uma "última palavrinha" com o novo detido.

Sentado no fundo de uma cela, sozinho, o sargento não conseguia estabelecer uma linha de raciocínio lógico que o permitisse compreender o que havia acontecido, ou que explicasse como ele fora parar ali. Logo ele, merecedor de tantos elogios e da aprovação de todo seus superiores hierárquicos... Como fora parar ali, sendo acusado justamente por defender sua amada revolução?!... Quanta injustiça!

Os acontecimentos se passavam de modo desordenado em sua cabeça (agora, completamente mergulhada em confusos pensamentos); a esposa, o primo, a revolução, a prisão do general... Tudo estava interligado e nada parecia fazer o menor sentido... Então, entra o Santa Cruz.

Lourival se põe de pé e atende ao dedo indicador deste, que se dobra, ordenando-o que se aproxime. O sargento, num gesto marcial e enxuto, se posta à frente do general, esperando pelo pior. Este se abaixa um pouco e, ao pé de seu ouvido, lhe diz, num cochicho: “Eu não disse que essa revolução era uma merda?...”.

E Lourival não entendeu mais nada.




*livre adaptação de anedota dos anos 70







terça-feira, 6 de outubro de 2009

Violência e Paixão


Dicó é tido por toda a vizinhança como um bom rapaz. É novo, de uns 20 anos, mas exala um ar de responsabilidade que muita gente adulta não possui. E é sensível.

Costuma caminhar por aqui e por ali, como se estivesse tomando conta de tudo, levando sempre um surrado violão a tira-colo. É excelente músico. Também toca flauta, percussão e outros sons agradáveis.

Já tinha ouvido muito falar dele; que namorava a Tatiana - uma menina novinha da rua de baixo; que estava organizando um grupo de voluntários para limpar as margens do córrego; que era, enfim, um garoto muito boa-praça.

Quando o conheci, sorriu sem parar. Parecia sempre solícito, como se também me admirasse por sempre haver ouvido falar bem de mim.

Não gosto muito disso. Sou meio mocado, e quando neguinho vem com tanto sorriso... Desconfio! A não ser que tenha motivo; uma piada é uma ótima desculpa. Eu sempre uso. Mas sem piada não dá.

Há muito, porém, não escutava mais nada a respeito do bom rapaz. Até a manhã de hoje.

Estava deitado - esticado na rede da varanda -, curtindo a sensação de um jardim umedecido e esverdeado pela chuva da madrugada, enquanto saboreava Tchekov. Desde há anos, tem sido ele o meu grande parceiro matinal. Muitas vezes acordo sem ter o que comer, sem água ou sem roupa passada. Mas basta mergulhar em suas palavras para que eu me sinta reconfortado e pleno.

Reconfortado estamos quando nos sentimos felizes por viver; pleno é quando rimos, gargalhamos e até choramos para as paredes, para um objeto ou animal. Ou simplesmente cantamos.

Estou lendo um livro de contos desse velho russo, mas que nunca acaba, pois sempre gosto de recapitular umas duas ou três passagens, antes de dar início a uma nova empreitada. Faz 5 meses que cheguei à página126; hoje estou na 127...

E foi dentro desse espectro de reconforto e plenitude - sim, àquela altura eu já dera início a um verdadeiro momento cênico, tanto eu ria e me emocionava com o que lia-, que apareceu Allan, meu senhorio. Pousei o livro sobre o colo e o cumprimentei, serenamente; mas notei que ele trazia consigo um ar preocupado: “tenho uma má notícia”, anunciou.

Allan então me contou que Dicó estava sumido há algum tempo, pois sua relação com Tatiana, a moça da rua de baixo, havia terminado. Ela não o queria mais. Mesmo assim, continuavam a se encontrar, esporadicamente, para matar as saudades e, principalmente, as vontades que permeiam os pensamentos, pingulins e xoxotinhas de qualquer um que tenha entre 16 e 21 anos. Tatiana tem 16.

Ao mesmo tempo, a mocinha, inebriada pelos prazeres de sua tenra plenitude existencial, inventou de chamar o ex-cunhado, que por ali nada fazia, para alguns momentos de luxúria, quando o ex-oficial por ali não aparecia.

Tudo ia muito bem, até que Tatiana, em pleno deleite com o novo amiguinho, foi flagrada pela mãe, que não gostou de ver sua pequerrucha em posições íntimas sobre sua própria cama de casal.

Houve escândalo. Vizinhos abriram as janelas para espiar, e papagaios, periquitos e sabiás certamente hão de ter voado para outro lugar, tantas foram as demonstrações de moralismo dadas pela voyeur intrometida; todas em altos decibéis. Eu mesmo tenho de admitir que não estava por lá, mas a esta conclusão é fácil se chegar, quando a dona da boca tem uma bocarra em seu lugar.

Tão alta foi a bronca, que as reverberações daquela maré alcançaram o ouvido de Dicó, fazendo-o sentir-se como se em meio às correntes de um mar ressaqueado estivesse. O coração pulava dentro do peito, machucado, em estrebuchos que só o desejo preterido poderia dar jeito. Foi tirar satisfações.

Pegou a menina pelo braço, olhou raivosamente para o irmão, que correu, e levou-a para um lugar onde não houvesse ninguém: a varanda da minha casa.

Lá, houve ainda mais discussão. E violência. Dicó, cego de ciúme e dor, agrediu Tatiana, empurrando-a violentamente contra a quina de uma mesa, fazendo com que ela caísse e batesse o rosto contra o chão. Parece que houve ainda algum safanão, e como resultado, um rosto ensangüentado, semidesfigurado.

A mãe de Tatiana chamou a polícia e todos foram para a delegacia.

Hoje, Tatiana repousa na casa de um parente, longe dali. Dicó, que fez 21 anos na véspera do ocorrido, está detido.

Dizendo isso, Allan se levantou e ficou me fitando. Olhei para ele e fiquei refletindo um pouco...
A poucos metros de mim, no chão, visualizei marcas de sangue. Pensava que eram do cachorro. Imaginei o embate, a covardia, a cena em si, e arrematei:

- "Tá na genética da gente, na hereditariedade do Homem; todo mundo é corno. Mas daí a... Acho lamentável! Deplorável, mesmo...".
Com um sinal de anuência, mas em silêncio, Allan pôs-se a caminho de casa.
Voltei os olhos para livro e, como se encontrasse a inspiração necessária, emendei: "E tem mais: Se reagíssemos sempre assim, não haveria Tchekov que nos devolvesse a alegria do viver!".

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Brasil-Acima-de-Tudo!

Dentre as coisas mais emocionantes e bonitas que tenho como um presente da vida está o Hino Nacional Brasileiro.

Tudo bem que futebol, mulher e ovo cozido com gema mole –este em primeiro lugar- sejam coisas de outro mundo, insubstituíveis, mas o hino nacional... Pô, o hino é muito fodão mesmo! E digo isso, literalmente, da boca para fora.

Não é que ele seja menos ou mais bonito que qualquer outro hino, pois se trata de uma questão de preferência pessoal e patriotismo declarado. Gosto da letra, da métrica e da melodia.

Dos símbolos pátrios, e ainda que reconheça a beleza e originalidade de nossa bandeira, o hino é o que mais me representa, disparado. Quanto ao brasão ou ao selo real, dispenso comentários.

Nasci numa terça-feira, durante uma ditadura militar, quando se tinha menos liberdade para viver. Mesmo assim, minha infância foi plena, feliz e intensa. Soube, desde pequeno, da existência do Mal, embora tenha sempre sido tratado como um valioso Bem. Assim sendo, e ainda que por imposição cívica, entendi que o hino era, sobretudo, brasileiro.

Quando dos meus oito anos, ainda no primário, tínhamos um dia na semana (a terça-feira) em que se realizava o hasteamento da bandeira. O LP que continha o hino era tocado numa vitrolinha com amplificação caseira. Eu adorava!

Não pela bandeira ou pelo hino –reconheço- mas porque “atrapalhava” a aula. E porque dava pra fazer “bagunça”. E porque era uma oportunidade deliciosa para eu me esbarrar na menina pela qual eu estivesse apaixonado. Eu sempre estava apaixonado.

Três alunos –geralmente os melhores- eram escolhidos para a honrosa função. Eu nunca fui agraciado com tal honraria, mas o Édson, filho da professora e protótipo de menino perfeito (ainda que excessivamente sardento, feio e do cabelo vermelho), era sempre um dos escolhidos. Tão logo a agulha tocasse a bolacha, contudo, eu já nem me lembrava da existência do Ferrugem. Preferia ficar tentando fazer meus coleguinhas rirem por meio de caretas engraçadas. As caretas que eles faziam de volta eram igualmente engraçadas, mas hilário mesmo era olhar para uma careta ao mesmo tempo em que se olhava para a tia, logo ao lado, com cara de flagra!

Como resultado, a associação entre o hino e uma sensação de bem-estar estabeleceu-se naturalmente em meus subterfúgios emocionais. Eu aguardava a “hora do hino” com a mesma ansiedade que aguardava a aula de educação física ou de artes, quando tudo o que eu fazia era divertido.

Na seqüência, por um período relativamente breve, fui “Lobinho” – uma espécie de microescroteirinho. Apesar de lidar muito mal com o autoritarismo inato àquela instituição (era rebelde e indisciplinado), conquistei alguma simpatia entre os líderes da alcatéia por, ainda novo, haver já decorado um bocado daquela rebuscada letra.

Após o fim da ditadura, o hino virou coqueluche nacional ao ser liricamente cantado por Fafá de Belém, em prol das “Diretas, Já!”, e também, logo em seguida, por conta do “passamento” do Tio Tancra.

E mesmo quando ia mal a política e também o futebol, o canto da nação era entoado em ginásios, autódromos e tatames, mundo afora. Isso dava sustentação ao orgulho nacional.

O momento crucial para a consolidação da minha admiração se deu enquanto estive, involuntariamente, servindo à pátria (amada, idolatrada, salve, salve).

Toda terça-feira, o Regimento se reunia no pátio central do quartel, numa série de intensas evoluções por parte de todos os esquadrões, para escutar as ladainhas do Comandante.


Isso envolvia centenas de militares. Eu curtia muito o movimento das massas, principalmente quando éramos recebidos pelo Pelotão da Fanfarra, ao som de Besame Mucho, versão ragga-techno-marcial-mix; eu simplesmente pirava!

Após todos estarem perfilados, em ordem, vinha o hino... Também por meio de uma vitrola e um bolachão, como nos tempos remotos. A primeira parte é belíssima, e a segunda, maravilhosa!

“Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada...”


Ao cantar essa estrofe (sempre, sempre, sempre...), eu sentia uma emoção profunda, de arrepiar os pêlos e derramar lágrimas; um orgulho visceral! Sequer me envergonhava pelos olhos marejados, afinal, aquele momento era, indubitavelmente, o único pelo qual valia à pena estar ali.
A passagem pelos Dragões só aumentou minha paixão pelo hino. Escutá-lo, cantá-lo ou assobiá-lo tornara-se, para mim, um prazer real.

Back to present, vinha eu, na bela manhã da última terça-feira (!), a conduzir meu bólido, rumo ao trabalho, deslizando-o por uma via inóspita quando, por aparente tédio, liguei o estéreo.

Passei pelas minhas estações favoritas e não encontrava nem música nem notícia, até que, subitamente, reconheci os acordes... Era ele, o hino!!!

Aumentei o volume e soltei a voz...!
E tal qual na infância, exatamente como na adolescência, eu cantei, eu sorri, eu chorei; eu me senti feliz!

"Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,Brasil!"


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Quotidiano


O ambiente em que trabalho é um tanto carregado.

Centro do poder político e (parcialmente) econômico, o Congresso Nacional atrai espécies dos mais diversos nichos ecológicos.

Via-de-regra é muito bicho pernicioso, pestilento e perigoso. E também muito bicho emplumado, ao estilo “sou amigo de Rei e primo do pavão doirado”.

Por isso, ando por ali com muito cuidado, sem muito olhar, resguardando minha intimidade e também o sorriso – que, aliás, não tem a menor importância quando não está em companhia do crachá funcional da casa. Sem ele, sou sempre digno de desconfianças rasteiras.

Mas se me meto num terno bem cortado, sou recebido como autoridade, com demonstrações de subserviência e humildade excessiva. Muitos por aqui dependem disso - desse carinho no ego dado por quem só o faz por obrigação – para poderem dormir direito, sem o menor peso moral pela culpa que suas ações causam à teia social. “Viu, querida? Aqui me chamam Doutor!” -, regozija-se uma destas espécies tacanhas, vistas aos pinhais pelas searas capitais.

É fácil reconhecer um animal desses, dada sua proliferação meteórica em ambientes fechados, escuros e acarpetados. É um tipo que traz a marca indelével, não na obviedade de sua aparência - sempre irretocável -, mas em seus trejeitos pessoais: na forma como opera o celular, no modo de tratar seus semelhantes, de torcerem o nariz e, principalmente, na sub-liminaridade de seus grunhidos. Por isso, já disse, ando sempre de butuca aberta.

Hoje, agorinha há pouco, deixei-me levar pelo tardar da hora enquanto passeava pelo túnel do tempo, no que passei quase desapercebido à presença de uma outra espécie, raramente vista: a do homem cordial.

Vinha eu, caminhando solitariamente pelos vazios corredores do Senado, dado que era já noite plena, quando, ao cumprimentar, de lampejo, esse ser, escutei: -“E a moça, vai bem?”

Era um antigo segurança do Senado. Confesso que não havia sequer olhado em seus olhos, no que dei meia-volta e fui ao seu encontro.

Surgiu então a figura sólida e ao mesmo tempo tenra de um senhor mulato, com seus 70 anos já há muito completados, enfiado num terno de gente importante, com o botom do Senado reluzindo em sua lapela. Provavelmente se mudou do subúrbio carioca para a nova capital assim que JK cortou a faixa inaugural. Ou antes.

- Como disse?
- E a moça, vai bem?
- Qual delas?-, rebati, fazendo graça.
- A moça com quem você está sempre por aí... Sua esposa, presumo.

Olhei à volta e não vi viv’alma. Só o espaço enooorme, vazio... E aquele senhor, calado, mimetizado a uma poltrona bege, quase escondido por detrás de uma bancada. E senti como se estivéssemos num outro lugar, a ponto de me debruçar amistosamente e explicar-lhe:


- Ah, não, não somos casados... Somos namorados. Acabei de estar com ela. Vai muito bem, obrigado.
- Você me desculpe a intromissão...
- Você tem a liberdade...
- Mas é que vocês têm uma sintonia bem amadurecida; uma coisa que faz gosto da gente ver.
- Mesmo?
- Sim. Já vi vocês várias vezes na lanchonete do Senado: sempre felizes, bem humorados!...
- De fato, sorrimos muito quando estamos juntos... Mas é coisa de casal.
- Quem dera fosse!... Mas não é só isso; tem mais coisa aí... É coisa que se vê pouco nos casais de hoje.
- Não sei se fico feliz ou triste por isso...
- Fique feliz! A moça é jovem, e o senhor já é maduro; deveriam se casar logo.
- Bem, ela é mais velha, mas tem alma juvenil.
- É muito bonita.
- Obrigado.
- Se o senhor me permite...
- Claro!
- Se me permite, devo dizer que o mais importante é você falar para ela, num ou outro momento: “eu te amo”. – é fundamental. Acorda cedo e sai pro trabalho, mas antes, diz “eu te amo”.

Olhei para suas olheiras pesadas, de quem há muito agüenta as dificuldades e a mesmice do viver. Perguntei seu nome: “Anastácio”. Apresentei-me e o agradeci com sinceridade pelas palavras de afeto.

Voltei ao gabinete.

Passava das oito da noite e já não havia mais ninguém por lá. As mesmas portas pesadas de madeira. As mesmas salas, as mesmas mesas, computadores e a mesma sensação de que sempre há muito que se fazer.

Comecei a apagar as luzes e a conferir se estava tudo “em ordem” para por fim à jornada.

“Por aqui, as coisas nunca mudam”, pensei, já trancando a porta, "é sempre a mesma coisa!".

Fora do gabinete, porém, olhei para aquele vazio monumental e senti uma diferença no meu estado de espírito... Algo havia mudado.
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photografie: joão sassi

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Fim do Arco-Íris e o Mel da Vida


Fazia muito calor. Eu, suado, acabara de chegar em casa.

Ao colocar as chaves sobre a mesa, escutei um leve assobio cortando o tórrido calor do meio-dia.


Axé apareceu logo a seguir. O que tem feito pouco, desde que se mudou para o outro lado do rio. Trazia uma cara amassada:

- Cachu?
- Cachu...

Coloquei a sunga e meti um chapéu de palha na cabeça.

- Bebeu, P’xé?
- ...Naaaada! É que durmi mal, mesmo... Uns musquito do carái!

Garoto novo, nascido em Pirenópolis, é o perfeito goiano do pé rachado. Quando quer alguma coisa, conta a estória até um certo ponto e pára. Quando o interlocutor dá continuidade ao raciocínio interrompido, já está oferecendo a ajuda requerida, mesmo sem se dar conta. Astúcia goiana.

Vai caminhando à minha frente. Enquanto caminha, passa a mão pela vegetação, como o pastor que dá atenção diária a cada uma de suas ovelhas. Quando identifica o capim certo, arranca-o e, já mastigando-o, fala de qualquer coisa sem importância, só para ratificar, subjetivamente, a importância de se mastigar aquele capim. Sente-se mesmo integrado ao Cerrado. E, apesar de muito jovem, olha o horizonte com certa nostalgia.

Até hoje fala de um amor que deixou no Recife. Amor não vivido ou verificado. Amor de Platão, idealizado. Ele contava 16, e ela, 12... Nunca se beijaram, mas ela, até hoje, é a lembrança do melhor que já viveu.

Pela trilha segue desleixado. Joga os pés pra frente, fazendo a chinela quase se desgarrar. Mas não machuca o chão. Desliza.

Fala de planos; mais da falta deles. Do nada a se fazer. É a representação de um vagar pseudo-hedonista, vazio, niilista. Mas fala também das plantas, e para o que cada uma serve.

Se precisa comer, fareja. Sabe onde tem. Sabe como chegar, comer e sair, sem reclamar. Aliás, raramente reclama. Quando o faz, é sempre do mesmo modo, “Isso é um vagabundo!” – é o que diz, seja qual for o motivo ou objeto da reclamação.

Em dia de Sexta, tem comida no João de Deus, vizinho da casa do alto da rua

- Lá, o rango é fera! A cozinheira gosta de mim. Entro pela cozinha e ninguém dá conta!
- E quando não tem?
- Aí, procuro outra coisa. Na Sandra, sempre tem alguma coisa. A mãe dela tá lá.
- Comida boa?
- Arroz, feijão e salada...
- Nada de carne?...
- Não, o povo é tudo vegetariano. Mas tá bom demais!...
- Mas é no capricho?
- O arroz é que nem arroz, tudo igual. O feijão é bom, mas a salada é aquele bando de folha... Mas dá pra encher a barriga.

Mesmo sem casa fixa, ele sempre encontra o que comer ou onde dormir. Cheguei a sentir um pouco de inveja, lembrando-me das muitas vezes em que me senti sitiado em meu próprio castelo, sem perspectiva de, a curto prazo, saciar minha fome. Fome no mato é fogo.

Quando o sol se fazia mais quente, a água se fez presente. A cachoeira estava translucidamente refrescante.

Axé, como bom goiano, inventa de dar saltos esvoaçantes, tortos e acachapantes. Sempre dum lugar perigoso, sob risco de bater em pedras e machucar-se. Ah, a alma goiana...

Aparece o Dentinho, da favela do Varjão.

Corpo duro, seco, duma musculatura rija, ainda que pouco desenvolvida, de quem cresceu numa vila rural e fez de tudo o que um moleque que nasce solto deve fazer, de bom e de mau. De suas estripulias, resultaram algumas cicatrizes pelo corpo. A da barriga parece coisa de faca, mas é melhor pensar que não.

Dentinho e Axé se entendem à perfeição. É comum que eu me demore um pouco para saber do que estão falando. E costumam falar de coisas simples como se fossem sérias. E é bom que seja assim, pois a vida não é simples para quem não é levado à sério.

Todo dia é dia de luta, de correr atrás, de fazer “um corre”, quando não se está correndo.

As mulheres gostam do sol da manhã, pois são inteligentes e delicadas. Homem, como é tudo xucro, queima a pele e os neurônios ao sol do meio-dia. Aquela caçapa tava lotada de vagabundo que não faz nada.*

- Pô, isso aqui só tem cueca!... -, reclamou o Dentinho.
- Nunca vi desse jeito... , - disse Axé.
- É capaz até que já tenham descoberto nossa parada, Axé...
- Naaaada! Ali é só eu você; tá guardado!
- Mas, minino!...
- Tô falâno...
- Ôxi, que já é Primavera, hômi, e as bicha tão trabalhando há mais de ano! Deve tá cheio até a tampa; já dá di recolhê.

A cachoeira ficara para trás, e Dentinho agora nos acompanhava pelo caminho de volta. Trazia sua bicicleta.

- Ela passa pelas pedra?
- Total.
- Essa aqui é minha nave espacial pr’eu andar na cidade. Dá até para seguir estrada!
- Até Piri?
- Ôxi! Bota um tijolo de rapadura na mochila e quero ver!
- E um pouco daquele mel do Piauí, né Dentinho -, completei.
- Mas, rapaiz, aquele mel é tora!

Axé, continuou:

- O problema é ter de derrubar a árvore...
- Qui nada, rapaiz! É só capturar a rainha! Bota fogo que ela é a primeira a sair por causa do fumacê, hômi; as ôtra vão tudo atrás.
- Mas onde tá fica difícil metê fogo; pode matá a árvore.
- Nada a ver! Bota uma caixinha na saída, com um pouco de mel dentro, que a bicha vai direto... E as ôtra vão atrás! Já fiz isso dimais, hômi, ôxi!...

Àquela altura, já inteirado do assunto, ia imaginando cada cena descrita pelos dois, e minha cabeça ia longe... Lá pro alto da copa de uma sibipiruna, junto a uma colméia farta de néctar e milhares de abelhas zumbizando por ali.

Então Axé parou pra mijar. E Dentinho ficou olhando.

Taí uma coisa que eu nunca tinha visto: um homem olhando outro homem mijando. Para uma mulher não se olha porque o ato se assemelha a uma covardia; para os homens, porque parece baitolagem rasteira.

Mas Dentinho tá longe de ser perobo. Axé estava, na verdade, aferindo o grau de sua certeza quanto ao mel salvaguardado.

Não havia colméia ou sibipiruna, mas um charmoso furo no tronco de uma velha árvore retorcida, por onde entravam e saíam dezenas de abelhas por minuto, bem rente à trilha pela qual caminhávamos. Coisa que gente complexa e pós moderna não vê; coisa para gente simples, que nem sempre tem o que comer.

- Cada uma que tá entrâno, tá trazêno um pouco de mel, véi! -, disse Dentinho, com olhar fixo no vai-vem das bichinhas. –, Ói, quanta!
- Deve tá cheio até aqui, disse Axé, colocando a mão no tronco, cerca de um metro acima do solo; coisa de um ou dois litros...
- Tem mais, hômi! Si elas tão trabaiâno desdo ano passado!... Têmo que pegá logo, antes que os vagabundo pegue de nóis!

Ficamos os três, lado a lado, escorados nos galhos, a pouco mais de um metro do buraco delas, interagindo o tanto quanto nos fosse possível, a fim de imaginarmos a delícia de um tronco bêbado de mel.

Para eles, não se tratava de nada novo, mesmo que precioso. Já a mim, a sensação de estar ali era semelhante à de um menino que descobre na vida as verdades escondidas. Que se conecta com seu íntimo, estabelecendo ligações há muito esquecidas, e que, não obstante, sejam essenciais à nossa plenitude.

Encontrar um tronco cheio de mel é o mesmo que achar um pote de ouro no fim do arco-íris, com uma única diferença: o mel existe.









*singela homenagem ao Casseta e Planeta (das antigas)




**photografie: joão sassi

sábado, 12 de setembro de 2009

A Separação






Ao passar pela porta, já não se sente tão bem.

O acolhimento de antes se foi. A confiança também; e com ela, a cumplicidade.

São coisas que não se explicam, mas que se sentem. Qui parla? O coração, por certo, mas também outras instâncias. Sabe-se apenas que, de súbito, já não há mais, já não é mais.

Como o abalo sísmico que, se a tudo não devasta, altera. As rachaduras, o eixo empenado, a falta de base... Emocionais ou não, de difíceis reparos, quase irreparáveis; senão, de fato.

Há algum tempo sentia aquilo. Era entrar e lamentar. Sair e lamentar. Abrir ou fechar aquela porta significava uma pontadinha a mais no peito - ainda que fosse Sexta-feira; havia sempre o espaço para aquela dorzinha.

Passou a buscar nos antigos encantos um motivo para alegrar-se. Vã nostalgia. Cantos esquecidos, cheios de teias de aranha. Buscar o passado só aumentava seu desencanto.

O trato, antes intenso, agora era pouco, quase inusitado. Da parte de ambos. Dele, mais.

Ressentia-se e culpava-se pela falta de constância, pela atenção rala. E por não tratá-la com o devido respeito e carinho. Lá fora, as plantinhas sentiam na pele as emoções de uma relação conturbada: em momentos de paz, eram aguadas, e quando não eram, esquecidas. Se não fosse pela chuva que cai do céu...

Ela vinha se tornando cada vez mais estranha a seus olhos, o que não o impedia de buscar motivos para se sentir bem. Como uma noite bem dormida. Ou uma manhã bem acordada.

Quando o dia amanhecia, ainda deitado, tudo lhe parecia bonito, diferente. Pouco depois, o conhecido incômodo, a falta de intimidade. Já não havia tempo para o café da manhã; outrora venerado, agora, tomava-o no trabalho.

Do trabalho para a rua, e da rua, para outra cama que melhor o acolhesse... E ela, lá, cada vez mais esquecida, solitária. Ainda assim, pouco reclamava.

Sentia-se bem, dormindo fora, posto que era bem tratado, mas mantinha o pensamento longe, na insegurança da companheira abandonada. Pensava no que podia lhe acontecer e no que seria do futuro a partir da decisão que, cada vez mais, se mostrava necessária... e doída.

Quando voltava, baixava a cabeça, e aproveitava para se lamentar da poeira no chão. Do banheiro sujo. Da louça na pia. Da sua cara amarfanhada... Nada era como antes. E só no sono encontravam a velha harmonia.

Mas não naquela noite.

Ainda de madrugada, ele foi à cozinha, tendo se deparado com um grilo enorme, horrendo, da cabeça gorda, escalando as abauladas paredes da moringa de barro, seu bibelô. Foi uma sensação desagradável; mais uma, dentre tantas.

Como que em consequência daquele mau-estar, logo na manhã seguinte, acordara de mau jeito. Um movimento brusco e tinha seu humor comprometido.

Na cozinha, olhou novamente para moringa d’gua; seca havia dias. Lembrou-se do grilo e imaginou que o inseto pudesse estar ali dentro. Estava certo.

Viu enormes antes saindo pelo bocal. Tapou-o e correu ao jardim.

Colocou-a no chão e esperou... Batucou no fundo da moringa e esperou... Virou a moringa. Sacudiu a moringa. Bateu na moringa. Mas o bicho não saiu.

“Com água, talvez...”, pensou. E foi atrás de uma mangueira.

Num instante, o terror! Quando menos esperava, viu um grilo imenso surgir à sua frente, a poucos centímetros de seu nariz. A repulsa como reflexo, o susto, a falta de ar, a moringa arremessada!... O rosto lívido.

Ao procurar pelo bicho asqueroso, enxergou-o por entre as plantas, trôpego. Ainda que feio, era engraçado. Como um grilo de tênis.

Ao abaixar-se para melhor ver, recebeu um surpreendente golpe pelas costas. Era o abajur de bambu que o vento derrubara, num violento sopro.

Assustado, levantou-se, trêmulo. Olhou à volta. O abajur roto, a moringa despedaçada, as plantas maltratadas, o chão sujo, a rede pouco usada... E entendeu bem o que deveria ser feito.

A relação não é mais a mesma. Nem o respeito. E a casa, sua grande companheira, enfim, resolveu se pronunciar.

Photografie: joão sassi

sábado, 5 de setembro de 2009

Và Dove ti Porta il Cuore


Em meio aos nossos, sentimos segurança. Longe deles, crescemos.

Já estive por aí afora, visitando países. Não muitos, mas significativos.

Politicamente, identifico-me apaixonadamente com a Argentina.

Sociologicamente, com Cuba.
Antropologicamente, com a Bolívia.
Crèpavecnutellamente, com a França.
Indiferentemente, com a Inglaterra.
Irresponsavelmente, com o Canadá.
E, afetivamente, com a Itália, onde sou mais que Rei, senão um César.

Lá cheguei aos 20 anos, quando sempre se tem um grande amor no coração.

Era minha primeira vez.

Mezzo nervoso, mezzo excitado, resolvi acatar a sugestão de bebericar alguma coisa antes do vôo, de modo a me “encaixar” melhor na poltrona. Esta era também uma experiência inédita, o álcool.

Tomei exatos dois copos do Almadén servido a bordo. E viajei...

Dos braços do Cristo Redentor, às pontiagudas catedrais de Milão, onde fizemos escala, não lembro coisa alguma. Somente quando soou o sinal de alerta, advertindo aos passageiros que reatassem o cinto, é que pude limpar a baba seca do canto da boca. Atravessáramos o Oceano e eu nem me dera conta. Nem tive tempo de sentir medo.

Despertado, percebi que meu sorriso de bom-dia não era compartilhado pelos demais. Pudera! Tendo permanecido imóvel por todo o trajeto, acabei servindo de obstáculo aos colegas de poltrona que, porventura, quisessem ter ido ao toilet. Eu era o último (ou primeiro), numa fileira de cinco... A única que me deu graça foi uma freira. (Será que freira não faz xixi?)

Pousamos. Não resisti quando a temperatura externa (3º) foi anunciada. Pedi licença para “ver” aquele espetáculo, e botei a cara pra fora do avião, junto à escada.

Vestindo apenas uma camiseta Hering, notei que minhas costelas tremiam ao simples contato com o ar. Não poderia haver nada mais divertido que aquilo! Notei também que duas aeromoças me olhavam com cara de troça. A elas, eu era o perfeito mineiro vendo o mar pela primeira vez.

A chegada a Roma foi grandiosa. Recebido por quem eu queria, como eu queria e onde eu queria. Aos vinte anos, não se precisa de tanto para ser feliz. Mas, fazer o quê?...

Ela era linda e tinha muitas amizades, o que me deixou ainda mais à vontade. A reciprocidade da paixão nos leva, todos, à plenitude, a ponto de nos afeiçoarmos até mesmo aos amigos dela. Quando não nos apaixonamos pelas coisas do outro, simplesmente não nos apaixonamos pelo outro. Assim é.

Dos lugares por que passei, a primeira coisa que me lembro é do cheiro. Há carros diferentes, há pessoas diferentes, mas nada me chama mais à atenção que um cheiro diferente; tanto melhor se for bom.

De cheiro em cheiro, uma semana se passou, e naquela noite, recebi especial incumbência: preparar um prato, à brasiliana, como oferenda ao aniversariante do dia, Daniele. (Sim, Daniele. É que lá, os homens roubaram todos os nomes de mulher –Andrea, Simone, Daniele-, enquanto a elas, restou inventar nomes diferentes – Cicciolina, Chiara, Nicoletta, etc.)

Daniele, como eu, tem alma de mulher, e por isso merece todas as cortesias.

Ainda assim, a missão não era fácil. Entrar numa cozinha era coisa que eu não fazia. As panelas ficam muito “lá embaixo”. A pia também. Parece tudo pequeno.

Preparar um rango, então, era coisa que eu não sabia – ovo, miojo e mexido não entram no cômputo.

Pensei numa coisa prática, como uma feijoada, mas fui informado de que não caía bem com o vinho italiano. Também curti a idéia dum vatapá, mas me disseram que o dendê estava em falta na Piazza Navona, no que logo desisti.

Então optei pelo sempre estiloso estrogonofe, um garantido sucesso de formaturas e recepções chinfrins!

- Strogonoffi?!... –espantou-se Dani -, pero, “Xoao”, sembra una cosa rusa, si?..., - observou.

De fato, eu não tinha nenhuma comprovação das origens do prato, mas que poderia ser considerado típico, quanto a isso, não restavam dúvidas.

O resultado, até onde posso recordar, foi muito bom (não mais que isso). Melhor estava o mascarpone, que comemos de sobremesa, e ainda melhor, o vinho com que celebramos a data. Devo pontuar que estava bem melhor que o Almadén: Ave!

Conforme relatei anteriormente, barriga cheia, coração contente. E por entre risadas, goles e afagos, sentimos todos o desejo de realizar algo diferente. O ameno daquela madrugada invernal nos chamou à rua. Era tempo de conhecer a História. Tempo del Colosseo!

A sensação que tive, ao avistá-lo, foi a mesma que tive quando, ainda criança, avistei o Maracanã: senza parole...

O grupo se aproximou ainda mais, postando-se rente à cerca de metal que circundava e protegia o monumento. Olhei pelo vão, abobalhado, os contornos que minha vista alcançava. Quase não podia acreditar naquilo...

E fiquei completamente descrente quando olhei à volta, percebendo-me quase só, visto que mi amici, todos, já se encontravam do outro lado da cerca! Quanta ousadia! À Roma, chè da fare come i romani! Quindi... Lá estávamos, dentro do Coliseu!

Os italianos, que tanto falam e tanto gesticulam (mannagia!!!), calaram-se. Dispersaram-se. Buscaram a conexão. Entendi o recado.

Poderia eu, ter me sentado ao lado de minha amada, acolhendo-a em meus braços para, à luz dos mais lindos sentimentos juvenis, prometer-lhe um império de emoções. Mas não pude fazê-lo; seria apoteótico demais para que conseguíssemos levar adiante a vida. Há muito, entendi que o clímax é como a utopia que, conforme Eduardo Galeano, deve-se buscar, mas não atingir. Só assim caminhamos.

Então, caminhei.

Caminhei até o extremo. Até chegar bem próximo àquela exuberante cratera, situada num nível mais abaixo. Ungido não sei bem por que forças, prossegui.

Escalei muro abaixo, temendo, mais que tudo, o toque dum alarme. Ai, de mim!.. Se acordo César, sou dos leões!

Quando me vi ali, em meio às ruínas daquele colosso, perdi o contato com a realidade. E, contidamente, pus-me a caminhar por corredores e alamedas.

No céu, simetricamente postada bem acima de mim, urrava a lua, cheia, linda, prateada. Sua luz, incidindo no mármore milenar do qual é feito o gigante, tornara-se azul. Eu tocava aquelas paredes, aquelas curvas, com o mesmo temor que, quando criança, toquei as pernas de minha professora*. A mão, ainda no ar, tremia, mas deslizava suavemente por aquela macia superfície esculpida pela vida. Encostei o rosto. Senti o cheiro. Amei.

A cada passo, um “bum!”; era o coração. Era o medo. De tão forte, as batidas dele produziam fortes reverberações em meu corpo, que todo tremia.

Percorri cada recanto, tateei cada quina, cada esquina, vislumbrando gladiadores e leões em cada cela. Eles estavam lá. Pude sentir cada olhar, que me transmitia confiança e densidade.
Nunca senti tanto medo em minha vida, embora nunca me encontrasse tão seguro de mim mesmo.

Ave, Pai! Ave, Mãe!



*ler "Minha Primeira Paixão "

** photografie del colosseo: http://operachic.typepad.com/opera_chic/

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Brevíssima Análise de um Momento Recente

Photografie: João Sassi

"Respeitar esses rios e essas bacias é algo fundamental. Isso está sendo feito. Nós, hoje, estamos cuidando dos nossos mananciais, e isso significa desenvolvimento sustentável".

São palavras proferidas pela Ministra Dilma, na tarde de ontem, durante apresentação de obras de saneamento incluídas no PAC.

Estavam presentes 7 Governadores de Estado. Lula não foi por conta da agenda (que o atrasou). A imprensa toda notou que as palavras da Dilma eram, na verdade, palavras do Lula. A Ministra leu o discurso do Presidente ausente.

Está óbvio que o Governo sabe que a bandeira ambiental não lhe pertence. Está óbvio que a mídia os denunciará a cada palavra verde proferida, acusando-os de uma espécie de "plágio de lataforma eleitoral" .

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Mas... Mas, o Brasil é um gigante que não lê e não se informa. Donde se conclui que somente a classe média dita informada estará por dentro desses acontecimentos. Dirão, "Esse discurso é da Marina!". Serão palavras ao vento, pois o Governo entende perfeitamente que ao POVO, o discurso lhe parecerá novo; e mais, legítimo.


Marina Silva não é conhecida dessa gente, uma gente que pouco ouviu, aprendeu ou pode escutar sobre os conceitos de desenvolvimento sustentável. Uma gente que tem rádio e TV - coisa que Marina não "tem" (e que o Governo "tem" de sobra).
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O discurso da sustentabilidade desenvolvimentista, portanto, será feito com total desfaçatez por aqueles que, até ontem tinham o verde apenas como uma cor - desimportante, mas, ainda assim, uma cor.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Frugal Manhã Dominical

Ao acordar, ele sentiu logo uma alegria tremenda. Ela, ao seu lado, ainda dormia e sequer se movia.

Logo, correu para a sala, escancarando as cortinas da varanda, donde avistava toda a razão daquele bem-estar; oh, gloriosa manhã de domingo!

Um sem-número de pensamentos lhe invadia a mente. Havia muito que se fazer. A vontade era de correr à casa de pessoas conhecidas, despertando-as com beijos, sorrisos e piadas, mas isso demandaria muito tempo. Amar sempre demanda tempo.

Mesmo que não houvesse um lago ao horizonte, cujas ondulações produzissem brilhos de um sol nascente, ainda assim; ainda que não se projetasse aos seus olhos um céu duma cor azul-anil, quase cristalina, e em sua face, uma brisa tão menina, mesmo assim, tudo lhe pareceria perfeito, posto que a beleza viesse de dentro, do fundo do peito.

O ranger do chão acusa a companheira, que, docemente, reclama. Ela, com aquela cara que todo mundo gosta, faz bico pela sua ausência na cama. Não é boba. Gosta dos seus dengos e dos seus sorrisos, e diverte-se com suas piadas matinais. Aliás, costuma abandonar os lençóis às gargalhadas e, quase sempre, inteiramente beijada.

Ele cede, com prazer, por prazer...

Após novo despertar, a fome. Tantas idéias surgem que fica a impressão de que o domingo não é um dia, senão muitos: café-da-manhã na padoca, caminhada descompromissada pelo parque, banho de cachoeira... Parece que só existem coisas boas a serem realizadas.

Talvez, aí esteja o segredo. Ele não entende o funcionamento do tempo e sempre busca, dentro de si, o tempo necessário para fazer o que gosta. Quando não se é domingo, esse tempo não existe, o que complica muito sua existência. Quando se é, sente-se senhor de todo o tempo do mundo, mesmo sabendo que a dimensão dum domingo seja mera aparência.

Ela, ao contrário, parece ter a chave do segredo temporal. Faz tudo ao seu tempo, com a leveza de quem sabe o tempo certo das coisas. Num minuto, está de pé. Noutro, está banhada. Linda. Cheirosa. De bolsinha a tira-colo, bem arranjada, de camisa arejada, shortinhos brancos e sandálias delicadas. Não carece de maquiagem. Tem brilho próprio.

Ele, sempre o primeiro a acordar e o último a se aprontar, diverte-se enquanto o tempo passa:

- “Tá pronta, neguinha?... Vâmo logo!...”
- “Tô aqui, lindo, na porta de casa...”
- “Ah, assim é melhor!...” -, e ri, no seu íntimo, “hehehe...”.

E, logo, desconversa, falando das muitas coisas que fervilham em sua imaginação. São tantos os assuntos que quase nenhum tem um desfecho. Ele é como a criança que lambuza os dedos de chocolate para comer mais quando o seu acabar. Mais do mesmo. O assunto, entre eles, sempre volta, renovado. Talvez, por isso riem tanto, e se beijem mais ainda, lambuzando-se a todo instante.

Mas não há tempo que resista ao seu tempo. Ele demora. Enrola. Mas o faz com charme, com jeito; ela adora!

O escovar dos dentes, feito pela casa, morosamente, por entre falas, perdigotos e idéias sensacionais. O dentista já lhe avisou que duas escovadas de 5 minutos rendem mais que uma de 10. Pelo que se conclui: apesar de entender de bocas, o dito profissional é malversado nas minúcias do sexo. E assim, vai ele, demorando o mais que pode, contrariando até ordens médicas...

Por fim, saem.

No elevador, sempre um reencontro com a adolescência, quando qualquer lugar não é um lugar qualquer. Para o bem da vida, não havia câmeras que os pudesse censurar.

À saída da portaria, eventuais moradores percebem a presença de um algo mais no sorriso do casal, que segue, num caminhar descompromissado. Vão a pé, pois domingo não combina com carro.

Ao chegarem, com uma fome de anteontem, escolhem a mesa e, já sorrindo à atendente, emendam, “O de sempre, por favor”. A mocinha fala que sabe o que é, mas sempre pergunta o que realmente se quer.

Enquanto esperam, saboreiam o jornal. Nunca falaram abertamente, mas adoram ler o jornal a dois. Ele quer saber do futebol, mas sempre passa os olhos pela primeira página, a fim de verificar se há algo que mereça atenção prévia. Discutem um ou dois tópicos e voltam-se para suas leituras. Adoram ler.

Num segundo, ela já está absorvida. Já ele, concentra-se menos. Gosta muito de observar quem passa ou quem fica. E projeta, nos outros, o bem-estar que sente. Apesar de sentir-se bem, contudo, não se sente bem entre os presentes. Sente-se diferente; talvez, mais livre.

Vê algumas caras fechadas e vê gente que não se fala. Gente que reclama e fuma cigarro. Parece até que não gostam do domingo.

Espichando a visão, alcança o sol, e com ele, as mulheres que passam. Não precisa desconversar. A companheira sabe que ele a tudo vê, e gosta muito do jeito que ele vê as coisas. Ele sabe que ela sabe, e também gosta muito do jeito que ela sabe das coisas.

E por entre pernas, rebolados e bumbuns, ele, maliciosamente, se diverte, imaginando os distintos despertares de cada uma delas... E olha para sua parceira, cúmplice de suas aventuras, mandando-lhe um beijo mental, por todo o carinho e cumplicidade.

Volta a atendente, sempre espantada com as piadas dele, a desculpar-se pela demora: “É que estou só eu e mais três novatas!”, já lhes servindo o desjejum: suco de laranja fresca, misto-quente e pingado – para ela, escuro; para ele, claro.

O jornal perde o encanto. A refeição parece lhes trazer muito mais vigor e lucidez que as informações de uma sociedade pouco amada.

Terminam quase à mesma hora. Ela, um pouco antes. Ele tem a gula nos olhos, mas ela é mais comilona. Apesar disso, sempre estranha quando ele, achando-se o cúmulo do requinte, mergulha o último pedaço de pão no café-com-leite; faz cara de quem não
entende.

Barriga cheia, coração contente.

Recolocam os óculos escuros e se levantam para ir ao Caixa.

Ele adora que o cálculo seja feito para, só então, advertir: “E tem também o Correio Braziliense...”, para então escutar a quantia final. Após receberem palavras de agradecimento por parte do comerciante, despedem-se.

Atravessando a rua e trazendo-a pelas mãos, ele diz:

- A conta sempre dá 17; hoje deu 16.
- É verdade... -, responde ela, atenta aos carros.

Do outro lado, pára , olhando para ela e, como se houvesse encontrado um ruído na doce melodia daquela manhã, diz:

- “Ou ele nos rouba toda semana, ou nós o roubamos nesta, hehehe!...”


Aquela mísera diferença quebrou-lhes a rotina... Mas nada que lhes roubasse o intenso prazer escondido numa frugal manhã dominical.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Um Fato Novo


Ao cair da noite, na última terça-feira, após uma bela jornada de trabalhos e devaneios, senti necessidade de escrever. Vontade latente. Mas também sentia vontade de ver a vida passar; vontade carente.

Poderia seguir para casa, mas teria de encarar o trânsito do rush até alcançar a quietude do meu Ninho. E encarar o trânsito é coisa que não me faz bem. Não sei o que acho pior; trânsito ou barata. Ando dez, quinze quilômetros a mais, mas fujo de engarrafamentos! E assim, com essa boa desculpa, liguei o carro com alma de poeta - buscaria a boemia para encontrar inspiração.

Adoro encarar a noite com duas ou três garrafas entornadas e umas tantas páginas bem escritas. Quando isso acontece, a noite é mais bem-vinda, pois a recebo com alma vencedora. Se for o caso de pedir a quarta garrafa, melhor guardar os manuscritos, pois a qualidade do texto tende a cair vertiginosamente...

Por ainda ser relativamente cedo, o local estava tranqüilo. Dos muitos bares à disposição, escolhi um com uma boa mesa de madeira e com boa iluminação. Serviria, ainda que uma luz vermelha ao fundo do balcão lhe desse um ar meio aviadado demais para os meus intentos. Pedi uma cerveja e coloquei o caderno sobre a mesa. E, enquanto acariciava a barba, comecei a pensar no que escreveria... “Pedro!!!”, falou o rapaz na mesa ao lado. Era Paulo, um cara que namorou minha irmã há uns 20 anos.

Meu irmão, Pedro, tem nariz de ponta fina e cabelo de Blanquinho*: preto, ajeitadinho, de ladinho. Dizem, lá em casa, que ele é filho do leiteiro ou do vizinho, já que os outros irmãos tem “narizinho” mais abatatado e cabelos castanhos. Por mais que Pedro seja uma pessoa completamente diferente de mim, Paulo só me chama assim. E, pior, não é de propósito!

Após dar aquele cumprimento amarelo, voltei à barba, ao texto e aos devaneios... Queria um fato novo. Mas é sempre assim: quando só penso, não escrevo; mas só escrevo enquanto penso. Sou como minha amiga Áurea, que durante nossas reuniões de trabalho, faz deliciosos rabiscos multicoloridos e bem ornamentados em seu caderno de rascunhos. Todos fazendo cara de interessados e preocupados, enquanto ela fica lá, como uma Poliana, sorrindo para si mesma enquanto contorce a cabeça acompanhando os barrocos traços que caracterizam sua personalidade. Diz ela que é para se concentrar melhor no que os outros estão dizendo. Eu também sou assim, pois só me concentro enquanto faço. Quando só me concentro, acabo me concentrando no que não devo, e nada fazendo...

Então eu pensava e pensava, mas no papel, nada aparecia; natural, posto que eu nada escrevia. E decidi fazer o fundamental: começar! Não havia, afinal, necessidade de algo novo acontecer em minha vida para que se justificasse fazer um relato. O novo surge a partir do momento em que a pena começa a correr; é quando minha alma se renova

Uma a uma, as idéias foram surgindo, enquanto eu, sem dó nem piedade, com elas brincava e também as refutava. Parágrafos inteiros riscados, reescritos, escrutinados; uma diversão total! Coisa de gente pervertida.

Numa delas, embarquei! Queria falar da conquista; não das minhas, mas nas dos outros. Refletir sobre a importância e a delícia de ser o alvo e ceder aos floreios de uma dama ou cavalheiro, gentilmente, por inteiro.

E de tão empolgado que fiquei, abri mão da loira e me piquei. Queria colocar tudo ao vivo, via Maltrapa. Dividir com a tal horda a revigorante sensação de ser conquistado!

No caminho de volta, pensava nas passagens recém-escritas como quem saboreia a comida preferida. Eu olhava para o caderno, jogado no banco, e enxergava uma deliciosa marmita! Era gostoso pensar no que sairia dali de dentro!

Passei pelo Portal do Urubu, adentrando o breu da noite. Estrada de terra batida; chão duro, esburacado. Chegar em casa, no meio do mato, eu gosto. É sempre um reencontro comigo mesmo.

Antes mesmo de estacionar o carro. Simba apareceu saltitante à minha frente, como se sentisse o aroma da minha marmita. Nunca o vi assim. Desci do carro e ele continuava muito excitado. Ousou até ficar de pé, empoeirando minha roupa! Isso não se faz, Simba...

Caminhei pelo jardim e cheguei à varanda: a porta estava aberta!...

A canga, que sempre deixo como cortina, presa à porta, agora balançava voluptuosamente junto à brisa da noite, deixando transparecer o agradável amarelo do abajur que vinha lá de dentro. Automaticamente, entendi tudo. Não havia mais lépitópi, conjunto de som ou de DVD, e nem celulóide ou qualquer outro aparelho eletrônico, pois a casa fora arrombada.

Foi delicado o gatuno. Entrou manso, saiu calado. Não desarrumou meu mocó. Parecia até mesmo mais arrumado que antes. Definitivamente, o ambiente estava mais “limpo”. Deixou somente portas e gavetas abertas, mas não fez balbúrdia, nem lançou meus trapos ao chão; foi pianinho, educado.

Admirei o garbo: “agiu na maciota, o malandro...”.

E me voltei novamente para minha grande mesa de madeira – aquela em que me sinto Tomás Antônio Gonzaga -, e a vi vazia, sem meu computador (meus textos, minhas fotos!...), e me senti como um pastor sem ovelhas.

Sentei-me... “Tudo perdido, descartado por quaisquer 30 dinheiros, à primeira esquina, ou por qualquer pedra de crack... Gente ignara...”.

Minha empolgação dera lugar à frustração. Movimentos inesperados, fatos novos; assim é o bucolismo contemporâneo.



quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Paixão é Cega


Pela filosofia que a vida me deu, seria capaz de afirmar que uma das características fundamentais do ser humano é o preconceito. Somos, creio, moldados por ele, desde e antes de sermos o que somos. E quem afirmar o contrário, além de preconceituoso, correrá o risco de ser taxado de hipócrita.

Eu, coitado, que traigo em mim a verve do homem de esquerda – dum humanista!-, já me iludi muito, e pensava que homens assim não tinham preconceito de nada... Pura bazófia! O preconceito engana a própria consciência.

O preconceito é a manifestação do que há de mesquinho e até covarde no ser humano, pois é utilizado para apequenar o próximo e tirar-lhe a beleza, tendo por argumento... O nada.

Quando se olha torto para alguém maneta, por exemplo, estamos sendo preconceituosos, pois alguma coisa em nossa mente está, equivocadamente, nos dizendo que esse alguém é menos alguém que nós mesmos.

Nesse sentido, Darwin poderia dizer que nosso preconceito é de base biológica e está fundamentado na “lei do mais forte (ou mais apto)”, e que tal lei se aplica a todos os seres vivos. Nós, portanto, estaríamos apenas “sendo o que somos”, naturalmente...

É, pode até ser, mas não à toa estamos no topo da cadeia alimentar. Estamos ali pela Razão, e não por outra, estamos aptos a refletir mais contidamente sobre a insistência da aplicação dessa mesma lei em nós mesmos, mesmo após já termos passado por Iluminismos, Renascenças, Apartheids e burguesas revoluções, história afora.

Stephen Hawking, o físico que sofre de uma doença degenerativa (esclerose lateral amiotrófica), por exemplo, não estaria adaptado a muitas das situações do cotidiano, mas certamente é reconhecido pela humanidade, não só por sua inegável capacidade de superação, mas, principalmente por seu legado científico. Por outro lado, a uma imensa parcela dos seres humanos, dos “fisicamente aptos”, estes perecerão sem a contribuição devida. Emblemático, né, Charles?

Quando religiosos, nos apiedamos; quando politizados, nos solidarizamos; quando humanos, somos preconceituosos.

Por vezes e vias tortas, me flagrei apaixonado por moças cegas. Paixões fugazes, que não duravam mais do que o alcançar dos meus olhos. É como um encantamento que me fazia acreditar que a privação da visão lhes daria sensibilidade extra, deixando-as com o coração puro. Trata-se do mesmo encantamento que nos faz acreditar que o preto tenha mais apetite sexual que o branco; um encantamento chamado preconceito.

Dia desses, num desses botecos da pior qualita (que são os que costumo freqüentar), avistei Ademir, o vendedor de amendoins. Ele mora no Jardim Roriz, um apêndice de Planaltina, onde nasceu, há 33 anos.

De tanto nos esbarrarmos, criou-se um pequeno vínculo, pelo que nos saudávamos cada vez mais efusivamente a cada encontro. Ademir costumava me dar dicas sobre o movimento das manadas, revelando onde poderia encontrar moçoilas insaciáveis. Em contrapartida, tratava-o com afabilidade e distinção, além de comprar um ou outro amendoim de quando em quando.

Certa vez, anos atrás, querendo ir além do óbvio, arrisquei perguntar sobre sua vida pessoal. Digo arriscar porque não me sentia de todo à vontade, visto que, além de gago, Ademir tinha paralisia infantil, o que lhe atrofiou severamente um dos braços e uma das pernas. Demonstrar interesse na vida dele foi a forma que encontrei para vencer meu preconceito.

Ademir era como eu: gostava de mulher e de futebol. Sim, futebol. Ademir, que mesmo não sendo o Da Guia ou o Menezes, fazia questão de ser como qualquer moleque, que fugia de casa para jogar uma pelada, e que depois voltava pra casa, e tome chinelada!

Vendo que ele relatava tudo aquilo com sincera excitação, senti que perguntar sobre as dificuldades enfrentadas seria como admitir uma profunda estupidez. Se a perna recolhida o impediu de marcar mil gols, não sei bem, mas é certo que ela não teve qualquer influência em como Ademir encarava sua existência: “Eu era ruim na corrida, m-m-m-mas ninguém roubava a bola dos meus pés!”...

Arrisquei mais: “E a mulherada?...”, e escutei uma estória recém-iniciada, segundo ele, com uma “nigrinha quente”:

- Eu t-t-t-tava atrás dela há um t-t-t-tempão, mas ela recusava; me achava es...tranho e coisa e tal. De tanto insistir, ela cedeu... E agora, quer me n-n-n-n-namorar!.
- Mas ela não é muito exigente?..., perguntei.
- É sim, mas eu sou o Ayrton Senna!

O tempo passou e, como relatei alguns parágrafos atrás, o reencontrei pelos mesmos recantos. Tendo-o cumprimentado, perguntei de sua vida, no que, logo, a “nigrinha” voltou à baila. Disse que estavam como estilingue, que iam e vinham, entre tapas e beijos. Fiz uma pausa e o encarei, indagando-o: “E por que é que vocês brigam tanto?”

Ademir então ajeitou as cornetas de papel cheias de amendoins em seus braços, e já se aprontando para se esquivar, como quem não quer dizer o porquê, soltou:

- Futilezas... Futilezas! -, e saiu, naquele caminhar aparentemente trôpego, mas solidamente decidido. Salve Ademir!!!



Um pouco de gente inteira nesse mundo é preferível a um mundo inteiro de gente pouca.