terça-feira, 16 de novembro de 2010

Angawa!


Alexandre leva a vida muito às claras.

Vive com sua namorada, mas também vive dizendo a ela que é “muito safado”. Alexandre gosta de todas as mulheres do mundo. Ele é muito sincero; canalha, mas sincero.

Sua namorada está sempre fora, trabalhando. Já ele, está quase sempre em casa, pelo jardim, olhando a paisagem pelo espelho do seu próprio olhar. Quando ela volta para casa, ele lhe dá pouca atenção, quase nenhuma; prefere ficar fumando maconha com seus amigos vizinhos.

Ela fica dentro de casa, resignada, preparando algo de gostoso para quando Alexandre ficar com fome. E quando fica realmente muito tarde e as luzes de sua casa já estão apagadas, Alexandre fala, com sinceridade: “Melhor eu entrar...”. Ele é muito sincero.

Alexandre gosta muito de mulheres. Está sempre a elogiá-las. Ele elogia todas as mulheres que passam pelo seu jardim; elogia as amigas dos vizinhos. E as namoradas deles. E também suas esposas. Enquanto fala marotamente delas, Alexandre deixa escapar uma malícia infantil por meio de um semi-sorriso. Mas Alexandre não é muito expressivo; ele é apenas sincero.

O cachorro do vizinho gosta muito de Alexandre. Este, sempre que o vê, olha fixamente em seus olhos e diz, repetidamente: “Angawa! Angawa! O cão entende a sinceridade de Alexandre, mas não tem a mínima idéia do que “Angawa” quer dizer...

Alexandre não é de muitas palavras. Ele é apenas sincero.

Diz que já viveu com duas mulheres, ao mesmo tempo – ele adora mulheres:

- “No começo era o Paraíso... Mas depois virou o Inferno!”-, conclui, com cara de quem não sabe o porquê... Fingindo... Alexandre parece um menino. Finge que não sabe, mas sabe. Alexandre é um menino safado, mas sincero.

Além de copular e pitar, Alexandre gosta de cheirar. Rapé.
Gosta de mulher, mas quando se trata da sua, primeiro vem a erva, depois o rapé, e só depois sua mulher.

Além de ser maconheiro, mulherengo e rapezeiro, Alexandre é também muito trabalhador e prestativo. Está sempre a ajudar os vizinhos, solicitamente. Quando não está pitando, cheirando, copulando ou comendo, Alexandre está trabalhando na limpeza da fossa ou esburacando a terra. Alexandre é muito sincero e trabalhador.

Por essas qualidades, sua namorada quer se casar com ele, mas ele recusa. Como já disse, Alexandre é muito sincero. Angawa!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Matinée

Tropa de Elite Osso Duro de Roer...

Caminhando pelos corredores que dão acesso à sala do cinema, procuro por alguma sinalização que indique o caminho do banheiro. Era a primeira sessão do dia e o lugar estava completamente vazio.

Mesmo na entrada, não havia mais ninguém além do pipoqueiro e das moças da bilheteria, que logo estranharam aquele gorrinho de cholito boliviano enfiado na minha cabeça.

As paredes e o piso bem acarpetados impediam a propagação dos sons externos ou internos, o que, aliado ao lúgubre aconchegante do local, emprestava uma certa dose de emoção ao percurso.


Uma vez no WC, a sensação é a de se estar num filme de suspense. O barulho do xixi; o da braguilha sendo fechada; a descarga; a torneira se abrindo; o papel para secar as mãos – sons que parecem se amplificar ante o silêncio reinante.

De volta ao corredor, busco pela sala 10... Então escuto um burburinho que indica a presença de um grupo de mulheres se aproximando: é o batalhão das zeladoras, com seus carrinhos de limpeza e esfregões à mão.

Conversavam animadamente sobre isso e aquilo – umas por cima das outras -, ensejando àquela centelha de tempo que antecede a labuta do dia-dia um prazer igualmente cotidiano.

Noto que, uma a uma, todas vão se calando, à medida que vou passando. Abro a porta da sala ainda “escutando” o silêncio delas. Antes de entrar, me viro subitamente e declaro: “Não podem nem ver um homem alto com um chapeuzinho maneiro, de manhã, que ficam logo com cara de boba, né?"

A gargalhada foi geral.


E o filme foi massa.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Homem em Constante Evolução Amorosa - Parte III


Foi logo quando abri a porta da varanda, pela manhã, bem cedinho, que o vi machucado. A patinha estava inchada, enorme como a de um leão.

Não dei muita bola. Da última vez em que apareceu manquitolante, curou-se por conta própria. Era o caso de repetir o feito.

Ainda no trabalho, recebi a ligação de Otília, minha vizinha; como sofria a coitada – mais até do que o próprio cão! E gritava tanto que cheguei a pensar que realmente se tratasse de algo sério: - “Calma, Otília... O Simba é um cachorro descolado e vai saber como sair dessa; tem diploma de vagabundagem, sabe como é?...” – Mesmo aflita, mostrou-se resignada e despediu-se com um “Então, tá... Se você está dizendo...”.

Quando voltei pra casa, no entanto, entendi que a situação era, de fato, emergencial! Até os dedos (?) dele estavam gordos e deformados (!), e havia um grande ferimento, muito inflamado, não se sabe pelo quê. Fiquei preocupado, e logo tratei de forrar o porta-malas com jornais, colocá-lo ali e me picar para o veterinário mais próximo.

Pelo espelho retrovisor, vi como ele se esforçava por permanecer ‘de pé’, a fim de observar toda aquela paisagem que passava velozmente pela janela. Mas a distração não substituía a dor, e Simba gemia a cada solavanco. Olhei para seus olhinhos tristonhos e soltei um inapelável “Tudo vai ficar bem, amigão!...”, para, logo em seguida, vê-lo (sem o devido apoio) desabar na próxima curva!

De acordo com a veterinária que o atendeu, a patinha estava quebrada, mas nada poderia ser feito no prazo de uma semana, enquanto ele deveria tomar medicamentos contra as infecções, para somente então ver a possibilidade de colocar uma tala ou de realizar uma cirurgia.

Por esta informação, um raio-X, uma vacina e um punhado de comprimidos, paguei 440 pilas. Nesse momento, olhei para Simba e falei: - “Ou te abandono na BR, ou não voltamos mais aqui, meu velho...” –, no que ele respondeu de bate-pronto: - “Isto aqui é uma baiúca, mesmo; vamos nessa...”.

Pois então, expectativos leitores, a decisão de levá-lo de volta para casa selaria o início de uma nova etapa em nossa vida; uma etapa marcada pela quebra de um paradigma no qual Simba era um, e eu, outro. Doravante, porém, sob a égide desse novo paradoxo que se ia constituindo, eu passaria a ser um, e ele também, epistemologicamente zen.

Sou daqueles que dizia preferir os gatos aos cães. Mas quando aceitei cuidar do Simba, o fiz justamente por entender que o reforço de um estereótipo apenas limitaria minhas potencialidades como agente das coisas boas da vida. Com o tempo, no entanto, percebi ainda que o ‘cuidar’ não se restringiria somente ao ‘alimentar do corpo’, mas dizia respeito, principalmente, às necessidades da alma. E de uma relação marcadamente descompromissada, aos poucos, surgiu carinho e atenção.

Dar remédios a alguém é sempre uma responsabilidade. Quando o horário invade a madrugada, torna-se cumplicidade. As primeiras doses, ministrei-as em grande estilo: anônimas, num belo cotôco de salsicha. Simba os abocanhava à solapa, com gosto, sem mesmo parar para saber exatamente do que se tratava; simplesmente os engolia por inteiro, finalizando com uma lambida caprichada nos beiços, como quem diz “Cadê? Quero mais!...”.

Como salsicha pouca é bobagem, para as demais doses fui forçado a adotar o estilo desenvolvido pela École Zagalliana du Finesse et Gastronomie, mais popularmente conhecido como “você vai ter de engolir!”. Desse modo, analgésicos, antiinflamatórios, anestésicos e outras milongas mais - de manhã, à tarde e à noite (e madrugada adentro) -, eram literalmente enfiados goela abaixo. Como sofria e babava o pobre cão, enquanto eu o olhava, penalizado (mas resoluto), e insistia: - “É para o seu bem, camaradinha...”.

Por vezes, durante mais de um minuto, ele permanecia imóvel, acumulando os comprimidos na ante-sala de sua garganta, fazendo-me acreditar que ele os estaria engolindo, sem maiores dificuldades. Então, eu massageava seu gogó e ficava repetindo: - “Engole, Simbinha, engole...”, tal qual uma mãe sonolenta, em plena madrugada, a insistir que o filho beba do leite materno e durma de uma vez!

Na maioria das vezes, ele os engolia e baixava as orelhas – fazendo logo cara de ‘bom menino’, esperando por alguma recompensa (talvez as salsichas?); noutras, mastigava as cápsulas, deixando escapar aquele pozinho intragável dos barbitúricos, que logo produziam espuma, espasmos e outras reações regurgitantes... Ô, meleca!...

Quando a ‘fase das drogas’ ia se acabando, duas semanas depois, chegou a ‘fase da recuperação da pata quebrada por meio da aplicação imediata de uma belíssima tala’. O danado ficou simpati-cão com o alvíssimo aparato a dar-lhe um aspecto mais ‘responsável e comedido’, como quem ostenta uma bengala de marfim... Esta impressão durava o tempo de quatro ou cinco exclamações, pois mal Simba deixava a clínica veterinária (mais em conta), e já chegava ao carro com o rubro-terra característico do Cerrado impregnado em suas alvas ataduras.

A cada 48 horas, estávamos de volta ao veterinário para que se trocasse a tala, pois era necessário dar ao ferimento o devido tempo de cicatrização, para que nossas atenções se voltassem exclusivamente ao osso partido.

Não era nenhum sacrifício levá-lo lá. Ao contrário, era enorme sua empolgação quando eu abria o porta-malas do carro. Era fácil perceber o porquê: Simba era uma estrela em meio à cachorrada que por lá pintava! Era o mais dócil, o mais cordial, o mais sereno, o mais ‘legal’, o mais vira-lata, o único a não requerer focinheira, coleira ou preocupação, mas puramente admiração. Não latia para ninguém e preocupava-se eminentemente em cheirar rabos alheios, distribuindo alegria e delicadeza entre os presentes.

As dotôras o enchiam de elogios: - “Ah, que bunitinho! Ele é tão bonzinho!...”- , repetiam também, na sala de espera, gentis senhouras e encantadas moçoilas, todas enfeitiçadas pelo meigo e descarado olhar-de-cão-sem-dono que o pelintra lançava a quem lhe desse ousadia.

- “Nunca chamem a um homem ou a um cão de ‘bonzinho’; isso poderá trazer sérios problemas psicológicos no futuro...” -, rebatia eu, com olhar grave e profilático, para, ante a cara de espanto que se seguia, soltar uma gostosa gargalhada! Simba se excitava com meus gracejos...

Só não vi muita graça quando, num fim de tarde, de tão embevecido pela recebida atenção, Simba deixou um ‘toletão’ de recordação na recepção. Tive de sorrir amarelo e retirar o astro de cena antes que os tomates podres começassem a voar...

De ‘tala nova’, ia voando pelo jardim, fazendo levantar as folhas secas que cobriam o gramado. Soltava um xixi aqui, mais um pouquinho ali, e logo entrava no carro, perguntando “Para onde vamos?”.

Era um momento difícil, aquele, pois ao olhá-lo pelo retrovisor, só eu sabia que o estava levando de volta ao cadafalso, e que toda aquela excitação proveniente de inúmeros mimos recebidos logo daria lugar à tristeza proveniente da solidão de uma lavanderia fria e claustrofóbica. Eu vinha pelo caminho, empenhado em ludibriá-lo, conversando sobre um monte de coisas que lhe distraísse, impedindo que se lembrasse da angustiante situação que o aguardava em casa - mais ou menos como fazem os pais com seus filhos, quando estes estão acamados ou mal de saúde.

Mas não tinha jeito... Bastava estacionar o carro que meu olhar me denunciava. Ele já sabia reconhecer, pelas minhas feições, quando era chegada a hora maldita, e logo baixava a cabeça, e as orelhas, e o próprio corpo, encolhendo-se em melancolia e impotência – era o momento mais dolorido do dia.

Foi quando percebi o quanto estava em sintonia com ele. Foi quando percebi que não era nenhum absurdo me lembrar da hora do remédio, da troca da tala, de dar ração, de comprar ‘agrados’, de lavar sua morada provisória (deixando-a sempre limpinha e em condições agradáveis) ou de simplesmente ter o prazer de, sempre que abrisse sua porta, dar-lhe os afagos mais carinhosos que eu jamais havia dado num outro cachorro.

Contrariando ordens médicas, deixava-o livre sempre que eu estivesse por perto. Era certo que, se tivesse de passar 40 dias entalado numa lavanderia, o danado cairia em profunda depressão. E nesse aspecto eu poderia interferir positivamente. Ensinei-o a ficar sempre próximo a mim, por meio do carinho e do olhar. Era coisa que não existia nos tempos de outrora, quando eu simplesmente o alimentava e mal me lembrava de passar a sola do sapato pela sua barriga.

Foi assim que chegamos a esta última semana, com ele aparentando ter cada vez mais a noção de sua recuperação, mostrando-se cada vez mais agitado e saltitante. Noite passada, quando o levava para um tour noturno pelo terreno, Simba, num estalo, irrompeu breu adentro, sumindo na escuridão em busca de um gato que por ali passava.

Sem medir as conseqüências, parti atrás, em desespero, imaginando a lástima que seria se a pata se quebrasse novamente por aí por conta dessa corrida desenfreada. Quanto tempo perdido! Quanto dinheiro! Quanta energia gasta em sua recuperação!... Seria o fim da picada!

Corria pela estrada de terra, sem qualquer fio de luz que me guiasse, senão o som cada vez mais distante da tala de ferro indo de encontro às pedrinhas e cascalhos do chão. E eu gritava feito um louco, noite afora, como se fosse a coisa mais importante do mundo: - “Simba! Simba! Simba!!!”...

Quando o encontrei, não sabia se me sentia aliviado por não ter me estabacado no chão ou se descontava nele minha aflição... Então lhe dei um tapa nas ancas; mas tão forte que machuquei o dedo. Ficou inchado e dolorido; coisa de quem não sabe bater. Voltamos para casa em silêncio – ele com culpa, eu de bico. Mas quando chegamos, já estávamos ‘de bem’.

Toda noite, quando o trancafiava, olhava bem no fundo dos olhos dele e dizia quantos dias faltavam para ele voltar a ter a liberdade de antes. Foi uma forma que eu encontrei de atenuar meu sofrimento por ter de privá-lo tanto tempo de uma vida normal. E fora o episódio da ‘louca fuga em disparada mato adentro’, nada mais me irritou; nem os azulejos que ele quebrou, nem os sacos de carvão que ele rasgou, nem o cano de água da máquina de lavar que ele estourou ou mesmo os caóticos cenários de urina e fezes que muitas vezes ele me legou...

Esta noite, quando for trocar a água e os jornais do mocó dele, não vou sentir nenhuma culpa ao fechar a porta; vou apenas segurar a cara dele e dizer, bem alto: - “É amanhã!!!”.

Simba não é bobo; ele já sabe disso... E sabe também que, além da liberdade, ganhou um amigo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Senhor do Picolé


Faz um calor infernal. Um senhor sobe na condução com uma caixa de papelão e um picolé à mão.


Dentro da van, um ar abafado, intranqüilo, suado. O senhor, afobado, mais parece uma criança, de tão agitado, e não se intimida junto a tanto homem engravatado. Faz silêncio. A condução parte.


E se começa a escutar um barulho de língua. As pessoas se entreolham... Era o senhor do picolé. Lambe, chupa e deixa a dentadura ‘passear’ por sua boca, enquanto sorve o caldo geladinho de limão, cerrando os olhinhos por detrás dos óculos, com cara de pura satisfação. A loira, sentada à sua frente, faz que não entende; sentindo que não. Após breve silêncio, nova lambida - desta vez com mais saliva; é mais água que sua boca pode suportar, e o picolé começa a pingar.


O caldo escorre pelos dedos e pelas mãos, molhando a tampa da caixa de papelão. Ele limpa, todo lambão, e segue sua chupação. O silêncio só evidencia o sabor do picolé. São tantas lambidas, chupadas e mastigadas que ele pouco se importa com a tampa da caixa lambuzada. O olhar fixo para o sorvete revela um prazer genuíno, de quem não se sente constrangido pelo que quer que seja ou esteja à sua volta – ele apenas lambe e chupa, barulhentamente.


Antes que o último naco do doce gelado lhe caia ao chão, o senhor abocanha o palito inteiro, fazendo arregalar os olhos dos demais passageiros. Este último pedaço, come-o com mais vontade, enquanto limpa os dedos na tampa melada da caixa de papelão, fazendo sujar ainda mais a palma da sua mão.


Mas não se importa: mesmo comido, o picolé ainda existe em sua imaginação, o que é fácil de notar pela quantidade de vezes que o senhor suspira, abrindo e fechando a boca, como quem prolonga ao máximo o prazer da degustação. Quando se pensa que acabou, não: um pigarro... E mais outro. E mais ruídos de satisfação. Logo, uma coçada no nariz, limpando o bigode grisalho, como se houvesse cheirado rapé. E mais uma pigarreada.


E mais adiante, uma espirrada; daquelas de molhar a nuca de quem está à frente (até eu, que estava ao lado, limpei a minha, por puro reflexo) - mas a loirinha continuou se fazendo de desentendida, inocente. E o senhor, 'na dele', ajeita delicadamente o palito lambido numa fresta da caixa de papelão. Na hora de descer, arremata: -“Que calorão!”, e sai, animadamente. Os demais permaneceram em silêncio, e no calor.



Foto de joão sassi

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Horda Insatisfeita


Queridos Maltrapetas,

Vou aproveitar que acordei mais ou menos de bom-humor e dar alguma satisfação à minha horda de fãs.

Sim, bem sei que vocês esperam por qualquer letra deste Maltrapa, já há tempos. Não é, como pode parecer a alguns de vocês, um desleixo explícito o que tem me feito andar à margem das palavras, mas, ao contrário, um empenho e um comprometimento nunca dantes visto.

Por viciado que sou, escolhi a Seleção Brasileira como temática de minha pesquisa de conclusão de curso. Como sou muito crítico em relação ao time do Dungueta, apostei no espírito libertário e sofrido do polvo brasileiro para tirar minhas conclusões; mais especificamente, aquele que reside no Varjão, comunidade carente localizada a pouco mais de dois quilômetros de minha morada.

Assim sendo, tenho dedicado todo o tempo que consigo ao trabalho de campo, o que, logicamente, faz com que novos relatos maltrapilhos se tornem, por ora, inconstantes. Prefiro que seja assim, a ter o desprazer de ler críticas gratuitas sobre uma produção rarefeita.

De toda forma, meus impulsos literários hão de fazer desta entressafra um período de enriquecimento e aperfeiçoamento do meu ser, dando a entender que o ‘meu melhor’ está por vir, tão desconcertante quanto o vôo Jabulani e tão avassalador quanto o estampido de uma vuvuzela: Póóóóóóóónnn!


Aos de bom-gosto, o meu apreço.


O Maltrapa

terça-feira, 1 de junho de 2010

Telhas de Barro Melhoram com o Passar do Tempo

Minha casa não tem forro no teto. Tem só o teto, clássico, formado por telhas de barro. Dá uma satisfação enorme ficar olhando para elas, perdendo o pensamento em sua tonalidade terra-tempo... No tempo de antigamente.

Dependendo da posição do sol, dá para ver também aqueles lindos feixes de luz que 'furam o teto' e atravessam o ambiente, indo iluminar um ponto do chão, estabelecendo fluxos de energias visíveis por meio daquelas particulazinhas de luz que emprestam ao casual um tom sobrenatural.

Pelas frestas, de tão amplas, passam também outras coisas; desejos naturais.

Varrendo o chão de casa, na tarde de hoje, encontrei micro-florzinhas espalhadas por toda a sala; como não me apaixonar?...


Esse texto foi escrito no dia 20 de maio, em homenagem ao blog, que completou um ano de vida nessa mesma data.

Sinceramente, não saberia dizer se melhorei ou piorei como escriba. Da mesma forma, posso constatar que o ato se tornou, em algumas oportunidades, menos espontâneo do que quando do tempo em que não tinha nenhum leitor pendurado no meu ombro. Paradoxalmente, este mesmo leitor se tornou meu maior estímulo.

Há um ano, meu grande desafio era transitar longe da minha órbita umbilical, ou seja, ser capaz de CRIAR personagens e situações que não fizessem referência à minha própria existência. O último texto ('Piano Bar') demonstra que esse desafio foi suplantado.

O Antropólico Maltrapilho surgiu pelo estímulo que recebi de Marcya, minha namorada, quem se interessou por criar o layout. além de editar toda a produção literária (quando eu deixo, obviamente). Foi ela quem fez despertar em mim a necessidade de compartilhar meu mundo para com toda gente.

O termo 'antropólico' surgiu como um apelido que me foi dado no tempo em que trabalhei na FUNAI. De tanto escrever matérias favoráveis aos índios (portanto, contrárias aos interesses do Governo), o editor-chefe acabou encontrando esse termo para definir minha atuação profissional: - “Você é um antropólico, Sassi”, dizia ele, rabiscando as laudas com tanto gosto que, ao fim, elas mais pareciam desenhos de uma criança. As matérias eram quase sempre censuradas...

Quanto ao 'maltrapilho', este nasceu há muito mais tempo, quando eu tinha ainda uns nove anos de idade e estava na maior expectativa do mundo para assistir ‘Superman’, pela TV. Só que acabei pegando no sono... Acordei mais tarde, já com o letreiro subindo, e danei a chorar. Em seguida, começou a tal ‘sessão coruja’.

Meu pai foi até a cozinha e preparou um suculento prato de miojo: - “Vamos assistir a este filme, Zão, que vai ser melhor que o do super-homem!”, disse ele, aconchegando-se em meio ao edredom e travesseiros. Nunca mais esqueci. Foi o primeiro filme ‘de gente grande’ que eu acompanhei até o fim! O título? ‘O Maltrapilho’.

Por identificar-me sobremaneira, tanto com o antropólico, quanto com o maltrapilho, emprestei-lhes as alcunhas para me apresentar como tais, conjuntamente.

Quero, portanto, agradecer muito – muito mesmo - àqueles que se tornaram parceiros deste Maltrapa; principalmente aos que se pronunciaram crítica e construtivamente a respeito das antropólicas experiências aqui relatadas. Em breve, os convidarei para uma sessão coruja mais atual, ainda com direito a miojo, telhas de barro e tudo o mais que nos sirva de união e lembrança.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Piano Bar


Assim que fechou a porta, Lígia colocou a bagagem sobre uma cadeira, passou os olhos pelo espaçoso quarto e fixou o olhar nas almofadas, sobre a cama, deixando escapar um lamento qualquer.

Caminhou mais para perto e se sentou na beira do colchão, afastando as pesadas cortinas, até conseguir poder olhar, através da janela, os últimos riscos coloridos do dia que se encerravam no horizonte. Voltou o rosto para a cama e passou a mão sobre o edredom, para depois agarrar um dos travesseiros e dar mais um suspiro; desta vez, ainda mais lamurioso. Não era a primeira vez que estava ali, mas era a primeira vez que se sentia tão só.

Como empresária, Lígia era obrigada a fazer inúmeras viagens semanais. E logo na primeira vez que se hospedou naquele hotel, anos atrás, conheceu Mariano, o barman do restaurante. A sintonia entre os dois foi enorme. Tanta, que o jovem funcionário passou a bater ponto na suíte dela; naquela e em todas as estadias seguintes.

Ela, para além dos 40 anos, era uma mulher autoconfiante. Bem sucedida e bonita, cativava e receava aos homens também pela segurança e autoridade que transmitia: - “Homem tem medo de mulher inteligente!”, costumava dizer.

Com Mariano, vivia uma paixão fugaz, instintiva. O rapaz, apesar de quase 20 anos mais moço, tinha pedigree, falava bem e sabia lidar com as mulheres - e não era burro. Daí ser tão prazeroso, àquela formosa dama, passar tantas horas ao som característico do piano, embalada pela espirituosidade de Mariano, que não perdia a oportunidade de lhe fazer um gracejo ou de lhe direcionar olhares libidinosos, num ritualístico prenúncio para a luxúria que vinha a seguir.

Ainda assim, Lígia o considerava ‘puro de espírito’, e bem diferente dos yuppies mauricinhos e demais profissionais liberais que pelejavam por sua atenção, de maneira insistente e, costumeiramente, arrogante.

Naquela noite, porém, Mariano não daria o ar de sua graça.

Em sua chegada, passando pelo lounge do restaurante, Lígia dera pela falta do amante, tendo logo se informado de que o rapaz viajara para fazer um curso de aprimoramento, no exterior. Ficou tão desconcertada que mal conseguiu disfarçar a surpresa diante de um sorridente recepcionista.

Lígia tinha um dia-a-dia cheio de tarefas estafantes, e tinha nas noitadas com Mariano a fórmula para não se estressar. Aprendeu a tirar do desejo sexual saciado o combustível para participar de intermináveis reuniões e apresentações com clientes e executivos. Nem apresentação com PowerPoint lhe dava sono!

Mas, agora, tão logo soube da malfadada viagem do ‘afilhado’, nada parecia estar no lugar; nada parecia agradá-la. Nem a cama, nem os quadros, a decoração ou a bela vista da janela... – “Logo hoje, que eu queria tanto!...Que eu precisava tanto!”, choramingou, aflita. – “E nem para me avisar antes, o viadinho!...”.

Desprevenida, sentiu-se ainda mais chateada por não ter nenhum ‘plano B’; havia confiado toda sua expectativa na visita do barman...

Começou a tirar os sapatos de salto que a machucavam, e pensou, mesquinhamente, que as coisas poderiam dar errado, e que Mariano talvez fosse obrigado a voltar o quanto antes - e, de preferência, com um pedido de desculpas pela 'deserção'!

Já sem roupas, olhou-se no espelho e viu uma linda mulher! Acariciou-se, delicadamente, imaginando como seria aquela noite se tudo saísse conforme seu desejo... Passou as mãos por dentro das coxas, subiu por entre os pêlos pubianos e seguiu pela barriga, achando sensual a pequena saliência, até encontrar os seios fartos, segurá-los com volúpia, encarar a si mesma e dizer: - “Eu mereço um homem!”.

E dizendo isso, subitamente se lembrou-se de outro rapaz, também funcionário do bar, que, desde sempre, apresentava-se com um sorriso de uma malícia típica do que sabem o que os demais ignoram. Era Cristiano, o garçom engomadinho, quem lhe levava os drinks quando Mariano estava muito atarefado atrás do balcão. Tinha um cabelo bem escuro e brilhante, sempre penteado de lado, com topete; a pele alva e bem cuidada. Os olhos eram pequenos e brilhantes como azeitonas pretas em óleo virgem de oliva, e a boca volumosa e bem avermelhada. Era educadíssimo e de poucas palavras.

Lígia costumava fantasiar Mariano contando a Cristiano todas as aventuras que viviam, torcendo para que um dia viessem visitá-la, juntos. Mas bastava ela tocar no assunto que o barman se irritava, e logo tergiversava, mudando o rumo da conversa.

Já no banho, Lígia seguia alimentando a imaginação, antevendo sua chegada ao lounge e a desfaçatez com que o atravessaria, indo se sentar no banco de sempre, próximo ao piano, para então aliciar o incauto Cristiano: - “É claro que ele já sabe de tudo... Imagine se o Mariano não iria contar... Há anos que esse menino me come!... Imagine se já não contou até os detalhes, de como eu gosto de fazer e todo o resto...”, regozijava ela, de olhos fechados, sentindo a água quente da ducha percorrer todo seu corpo. Nesse momento, Lígia sorria por uma noite reinventada, e já nem se lembrava mais da tristeza de momentos atrás.

Pensava agora em Cristiano, e com tal desejo que se dispôs até mesmo a vestir uma calcinha vermelha, cheia de transparência e bem cavada que costumava guardar para as noites mais acaloradas. O contorno estava bem feito, e as pernas, depiladas. Não havia uma mancha e sequer um único pêlo encravado ou inflamado que obstruísse o perfeito delineamento de seu corpo.

Passou ainda um hidratante que deixou em sua pele uma sensação de frescor que contrastava com o ardor de suas intenções. : - “Calma, garota, calma...”, pensava, conferindo animadamente o resultado da maquiagem, reforçando o batom vermelho impecavelmente deitado sobre a boca e arqueando ainda mais os olhos para retocar o traço do lápis preto em suas bordas, bem como o brilho sob as sobrancelhas.

Antes de sair, desarrumou um pouco o ambiente, emprestando-lhe um ar mais despojado, conforme os desmandos de seus impulsos. Sentia-se ainda mais solta por conta das três taças de champanhe; a quarta, derramou-a na pia, pois ameaçou ficar mais tonta do que deveria. E quando tudo ficou pronto, ainda borrifou um pouco de perfume pelo ar. Olhou-se pela última vez no espelho e perguntou, fazendo cara de malvada: - “Vamos ver do que você é capaz, Cris!...”.

Caminhou pelos corredores com o ar renovado. Entrou e saiu do elevador com brilho no olhar. E atravessou o hall central em 'estado de luz', recebendo sorrisos e cortesias por onde passava. Quando chegou ao lounge do restaurante, levitava.

Sentou-se em seu lugar predileto, sendo logo notada pelo pianista, que não tardou em tocar sua música preferida: Moonlight Serenade. Cruzou as pernas com elegância, deixando escapar calmamente a fumaça do cigarro que acabara de acender. Em seguida, reconheceu a silhueta de Cristiano, que se aproximava, trazendo na bandeja seu Kir Royal. Ao notar o sorriso malicioso do rapaz, Lígia sentiu um comixão entre as pernas, fechando os olhos, prazerosamente...
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gravura: albertofughi.com

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Flamingo

Futebol é vida, é esperança Todo mundo gosta desde criança

No futebol a gente se cansa Mas juntando tudo parece uma dança


Futebol é alegria, é paixão E no final, todo mundo pro ribeirão


Futebol é lindo Tão lindo quanto o flamingo.


Beijo. De: João

Para: Jorge Em: Junho de 87


arte by marcya reis

domingo, 25 de abril de 2010

O Ópio do Povo


Meu pai me ensinou que futebol era coisa ‘do povo’. Desde então, para estar do lado ‘do povo’, passei boa parte da minha vida devotando à bola como a um elo entre minh’alma e a do próprio ‘povo’. Onde quer que eu fosse, em que época fosse, e sob quaisquer condições, seja ela qual fosse, era a bola que decidia meu futuro como se feita fosse, não simplesmente de couro, mas de cristal.

Antes de completar 10 anos de idade, percebi que meu destino já estava traçado. No dia do meu aniversário, meu pai me levou à Sears para que eu escolhesse o presente que eu quisesse. Enquanto meus irmãos se excitavam com toda sorte de inovações espalhadas pelos departamentos de moda, música e, obviamente, brinquedos, eu não saía do de esportes.

Era um deleite ver tantas bolas à minha disposição. Eu já sabia qual era a melhor, mas fazia questão de pegar cada uma, cheirar o couro, ver se era costurada à mão, como as do tempo do Rei, ou se era de costura automática, contar os gomos e, por fim, fazê-la rodopiar em seu próprio eixo, na ponta dos dedos, para verificar se estava oval. Então, olhava para meu pai e dizia: - “Quero esta!”.

Naquele dia não foi diferente. A não ser pelo fato dele haver, surpreendentemente, me oferecido um caiaque – prontamente recusado; para desespero dos demais. Aquela decisão me serviu como um atestado, tendo vicejado por longa data a alcunha de fanático; do cara que trocou um caiaque por uma bola. Em meu íntimo, porém, adorava ser reconhecido por esse radicalismo... Que, a meu ver, nada mais era que uma paixão vivida em sua intensidade máxima.

Foi nesse período, aliás, que estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Todos ficaram alucinados com o looping do Tívoli Parque, com os táxis amarelos ou vermelhos, quadriculados e, claro, com o biscoito Globo e o mate-limão gelado da Praia do Pepino. Eu, em explícita discordância, apelava: - “Pai, já estamos aqui há dois dias e eu não vi o Maracanã...”, questionava, cobrando-o pela não peregrinação ao nosso templo. O que acabou só acontecendo muitos dias depois, lá do alto da Floresta da Tijuca, quando então pude enxergá-lo à distância, em seu formato harmonioso e mítico, fazendo minha alma se sublevar... Era minha Meca.

Num outro momento, quando o bonde da puberdade já movimentava toda a geração coca-cola - uma gente que só falava de carros, matinês na Zoom, jeans desfiado e tênis sem cadarço -, eu não precisava me esforçar muito para manter o rótulo: recusava peremptoriamente qualquer convite para ir a shows ou boates. Enquanto a nata do rock brasiliense dos anos 80 desfilava alucinada e ovacionada pelos palcos da cidade, eu me contentava em demonstrar minha fé pelos campos da vida, em eterna devoção ‘ao povo’. E fazia graça daquela juventude perdida cheiradora de loló.

Quando um viciado acorda, antes mesmo de abrir os olhos ele já está mentalmente escravizado, pensando em uma única coisa. Era assim que eu passava o tempo; pensando em que momento eu estaria em campo. Portanto não era exagero, no meu entendimento, aproveitar a hora do café, a hora do recreio, a hora do almoço, a hora do lanche da tarde e qualquer outra hora do dia (ou da noite) para fazer o que eu tanto amava. Isso levou Johanne, minha namorada de então, a fazer a pergunta fatídica: “João, ou eu ou a bola”. Foi meu primeiro par de chifres...

E com eles, vieram outros, e também outras namoradas, outras paixões, mas nenhuma como ela, a bola; a única a me fazer transcender, dando-me uma compreensão plena do que era o viver.

E muitas outras situações foram, ao longo desses anos, pondo, paulatinamente, minha crença no ‘povo’, à prova. Mais crescidos, os irmãos já não admiravam tanto que eu não estivesse presente em um passeio de fim de semana, um casamento ou mesmo a uma viagem de família.

Quando enfim virei adulto, nada mudou muito, e minha fé no ‘povo’ apenas aumentava, não obstante o contato real com essa divindade se houvesse dado apenas por furtivas idas aos combalidos estádios da capital – montes de concreto de um puro vazio espiritual. Era chegado, portanto, o tempo do batismo. Pagão que sempre fui; de nunca me haverem comungado, sem crisma ou carisma, fui conhecer a Santa Sé.

Foi num 24 de abril, há exatos 10 anos, em companhia de Juliane, minha (única) namorada vascaína. Flamengo e Vasco se enfrentariam pela decisão da Taça Guanabara de 2000. Havia uma expectativa enorme por parte de todos, visto que Romário, o principal apóstolo presente, havia acabado de migrar do Ninho do Urubu para a Frigideira do Bacalhau, blasfemando contra a massa sem dar-se conta do pecado capital.

Adentramos ao estádio...

Um retângulo tão verde quanto mágico se pôs ante meus olhos, envolto por linhas circundantes perfeitas, até encontrar os céus do ocaso, num fim de tarde colorido e ensolarado que me conduziu, instantaneamente, ao útero da minha existência. Abobalhado e maravilhado, procurei por um local neutro, onde as torcidas se encontrassem para que eu e ela pudéssemos sentir apenas a rivalidade contundente de nossas distintas correntes religiosas.

Assim, me sentei naquela arquibancada como quem, cristianamente, ajeita-se no genuflexório momentos antes de uma aparição divina.Todos os ensinamentos de meu pai então me saltaram à cabeça. Os preceitos, a forma, o modo, o estado da alma apto a receber o espírito santo.

E pude antever o que estava por acontecer: - “João, a diferença entre o craque e o jogador comum é que, enquanto este apenas vê a jogada acontecer, o craque antevê.”, dizia ele.

E com o altar ainda vazio, vislumbrei em meu imaginário um sem-número de gols feitos por Deus Zico em tempos remotos – bíblicos, por assim dizer -, e pude vê-lo correndo em direção aos fiéis, magnéticos, inteiramente crentes, desprovidos de ouro, mas ricos em esperança e júbilo espiritual.

Eu estava apto à ascese, afeito como um anjo a entrar para o Reino dos Céus. Enquanto fazia minhas preces, porém, senti no ar uma presença incômoda, satânica.

Não, não se tratava de uma vigarice vascaína; ao me virar, percebi a presença de três impostores rubro-negros; gente rica (burgueses sem religião!), trajando o manto sagrado, num flagrante impropério aos desígnios de nossas raízes sociais.

Não eram ‘do povo’! Usavam tênis de marca, camisas último modelo e jeans limpos, azuladinhos. “Não pode ser, deve ter algum erro. Não é possível que vim ao Maracanã me sentar ao lado desses almofadinhas cheirando a Hugo Boss!!!”, pensava eu, em desespero, esquecendo-me por completo de que o Cristo não ama o pecado, embora aceite a todos os pecadores. Mas eu insistia, em franca agonia: - “Vade retro, Satanás!”.

Pois nem bem a bola rolou, e o Pet (é, este mesmíssimo Pet), em jogada genial, colocou-a na testa de nosso centro-avante, estufando a rede e fazendo a massa humana presente ao Maracanã ser arrancada do chão, tal como as águas vermelhas que Moisés separou, numa explosão de intensidade e força que jamais havia presenciado.

Fui subitamente tragado por um mar aberto de mãos, braços e abraços, sendo abraçado, agarrado, beijado, suado, berrado, amassado erguido e soerguido por aqueles mesmos três mauricinhos que, por fim, produziram em mim a sensação de maior elevação espiritual que jamais havia sentido em todo meu sacerdócio.

Foi quando percebi a síntese da nossa condição, onde nos encontramos e por que vivemos. Por uma bola perfeitamente feita, numa parábola perfeita, atingi o entendimento que engendra nossa percepção em relação ao mundo. E foram eles, aqueles benditos playboys zona-sul, os responsáveis diretos por me haverem extirpado do coração o preconceito, dando-me a exata noção e aceitação de algo que, até então, inexistia: eu era, enfim, parte do ‘povo’.



sexta-feira, 9 de abril de 2010

Capital Fria e Aconchegante


Entro na pastelaria.

Raramente vou lá, embora o pastel seja realmente muito bom. O que estraga são os proprietários, pois pensam muito no lucro, esquecendo-se da educação, especialmente aquela senhora que tá sempre de cara azeda; ô, desgraça!

Fica sempre no caixa, a cuidar da manipulação das notinhas, função que exerce de olhos voltados para baixo, a fim de estar sempre a guardá-las, suponho. É do tipo que não fala nem “de nada”.

Felizmente ela não estava, mas uma sorridente assistente, com touquinha branca na cabeça e olhinhos de índia, meio cafuza. É um contraponto perfeito.

Pedi apenas um pastel de queijo e paguei à vista, em dinheiro; RS$2,75. Fiquei devendo 5 centavos. Se fosse a velha megera ia ter cara feia.

Fui me sentar no balcão, deixando as mesas lá de fora para o casal que se beija e namora. E fiquei observando um senhor de seus 70 anos que estava logo atrás de mim, na fila do caixa.

Roupa passada, cabelos (ainda que poucos) penteados para trás e óculos de aros finos e dourados. Com gestos suaves, quase trêmulos, pagou pelo pedido e veio se sentar junto a mim: - “Vamos comer um pastel?”, emendou. - "Com certeza!..." - retruquei. Ele arrastou o banco para mais perto ainda, evocando uma intimidade que inicialmente me preocupou (de leve).

- “Eu gosto muito de pastel. Pastel é bom demais, não é não?” – perguntou ele, esfregando as mãos enquanto acompanhávamos, atentos, à pasteleira manufaturando nosso lanche. Virei e lhe respondi que sim, que eu achava que o pastel era um alimento especial feito artesanalmente... Mas ele não tirava os olhos da cozinheira, e esta, da massa, esticando-a, dobrando-a no ar, esticando uma vez mais, e novamente, até fazer o talho certo, cobrindo-o de mozzarella, pondo sobre ele nova lâmina de massa, para então espremer-lhe as bordas - coisa que toda criança gosta de fazer -para, por fim, mergulhá-lo em óleo fervente, amarelo-gasolina.

- “É especial porque a gente pode ver como ele é feito, acompanhar o ritmo... E ver como está a energia da pasteleira.” –acrescentei.

- “É verdade. Eu adoro a “Pastelino”, em Fortaleza... Você conhece Fortaleza?”
- “Não, nunca estive lá... Mas o senhor não tem sotaque de cearense; parece mais carioca...”
- “Sou carioca, de São Cristóvão”
- “Que revelou o Ronaldo Gordo...”
- “Exato!... Sou lá de São Cristóvão!
- “É a estação da torcida do Flamengo em dia de clássico.
- “Pois é... Mas comprei um terreno lá em Fortaleza; coisa linda!!!
- “Que bom...”
- “Mas moro aqui há mais de 30 anos! Desde 1977”
- “Ganhei do senhor; estou aqui desde 75”.
- “Ah...”

Meu pastel chegou primeiro e eu acabei queimando o beiço com o vapor quente.

O São Cristóvão não ficou de 'olho-gordo' no meu pastel, mas continuava a esfregar as mãos, olhando atentamente para os seus que, sendo retirados do óleo, iam imediatamente sendo postos na cestinha enguardanapada. Foi-lhe servido junto com um caldo-de-cana bem gelado.

Como tenho eu 'olho-gordo', pedi um caldo para mim também. E outro pastel:


– “Pode pôr tomate?"

- “Sim. Orégano?”

– “Orégano.”

Uma senhora rechonchuda, mais velha que eu e mais nova que ele, sentou-se ao seu lado, junto ao balcão. Enquanto isso, ele abocanhava seu pastel com vontade, esticando o queijo derretido até o limite, erguendo os braços e envergando o corpo para trás, até quase cair do banco, sem conseguir arrebentar aquela fita elástica. Com a mesma suavidade, avançava com a boca sobre o queijo, como se faz com um fio de macarrão. E continuou:
- “Brasília é horrível, mas foi aqui que ganhei dinheiro!”

Virou-se para a senhora que acabara de se sentar e perguntou:
- “A senhora, de onde é?”
- “Eu?” – assustou-se – “Sou de Minas...”
- “Então; Brasília não é horrível?” – insistiu ele.
- “É... Mais ou menos, né? É um pouco estranha...” – desculpava-se, olhando para mim, buscando algum consentimento.

- "É uma cidade compartimentada pelo poder aquisitivo de cada cidadão, né?” – completei.
- “É... Exatamente! É assim mesmo!" - empolgou-se ela, revelando um ranço qualquer; possivelmente por sentir-se, veladamente, vítima da discriminação sócio-cultural presente na Capital.
-"Uma coisa horrível!...” - prosseguiu o senhor, indignado. - “Brasília, não tem cultura! Qual a tradição daqui?”
- “Roubar, talvez....” – retruquei.
- “Mas quem rouba vem de fora!” – defendeu a mineira.
- “Eu ganhei muito dinheiro em Brasília...” – revelou ele, enquanto partia já para o terceiro pastel.
- “Roubando? Hehehe...” – provoquei.
- “Nããão; eu vim do Rio De Janeiro! Àquela época, davam tudo pra gente... Facilitavam nossa vida... Mas isso aqui é horrível!”
- “O problema é que as pessoas aqui são muito frias," – disse ela – "e ninguém conversa com estranhos. "
- “É difícil, mas acontece..." - E naquele exato instante, nos entreolhamos, já sem o pudor com o qual se encaram os desconhecidos; todos com seus pasteizinhos à mão, escorados numa bancada em proximidade física e emocional. Estávamos à vontade.

Ela então arregalou os olhos e constatou: - "Vocês também não se conhecem!", para então soltar uma gargalhada altíssima, assustando às funcionárias.

O papo prosseguiu amigavelmente e eu, com uma tirada ou outra, ora arrancava boas risadas dela, ora provocava o senhor guloso. Que se mostrou satisfeitíssimo com nossa conversa, tendo se despedido efusivamente. As atendentes se viravam em sorrisinhos e admirações, e comentavam entre si algum pensamento. A senhora mineira parecia realizada, de tão alegre, comia seu pastel sem qualquer culpa.

Despedi-me com um aceno às moças e, antes de sair, falei à mineirinha, olhando nos olhos dela e percebendo um brilho de renovação: - “Mesmo sendo fria e estranha, sempre vai haver pessoas as quais vale a pena conhecer."

Saí de lá eu também me sentindo muito bem.

sábado, 27 de março de 2010

Irmãos


. . . . Jorge, Caci, Lisa, Pedro, João, Chico . . . .

A melhor coisa do mundo é ter irmãos (logo atrás de ovo, mulher, futebol e suco gelado de limão-galego - nessa ordem). Lá em casa, éramos em quatro. Nascemos um após o outro, numa escadinha sonhada por nove entre dez mamães. As demais sonham em ter filhos gêmeos.

Gosto muito dos meus irmãos. Nunca disse que os odiava, nem mesmo por amor. Mas bem que poderia, pois somente o amor produz sensações tão intensas e contraditórias entre si. Quem não ama, despreza ou esquece; quem ama, odeia e se chateia, mas não abandona.

São vários os laços que me unem aos meus irmãos; uns bons, outros não. De todo modo, existem. E por existirem, também me fortalecem existencialmente, dando-me identidade, cara e lugar. E sensação de pertencimento. Ter irmãos é ter a certeza de que não estamos sozinhos no mundo. Estar sozinho no mundo é o mesmo que não estar.

Pois eis que crescemos, deixamos de ser crianças, e a proximidade junto aos irmãos já não é tamanha. Cada qual com suas vidas, afazeres, interesses e loucuras.

Há um certo estranhamento quando nos damos conta de que as diferenças entre você e seus irmãos se transformaram em vidas distintas; opções contrastantes àquilo que você antes imaginava como sendo “senso comum”.

Da mesma forma, é instigante perceber que seus irmãos transformaram todas as suas respectivas ‘esquisitices de infância’ em estilos destoantes ao seu... Ou que ‘velhas manias de criança’ agora são discutidas em sessões de psicanálise. Antes falavam do jeito louco do João; agora falam do louco do João...

Mas é também engraçado quando a gente escuta o irmão mais novo falar “Eu nunca gostei de arroz à grega! Isso é coisa que você inventou! Aliás, odeio berinjela ao forno e picles em conserva!”, ou então o mais velho revelar que aquela inesquecível aventura de infância não passou de um recorrente exercício de imaginação. E que aquela empregada nunca deu pra ele na noite de Natal, em 84. Nem chupou seu pau. Ou de ouvir uma estória vivenciada por todos nós, mas com abordagens totalmente originais.

Noutras situações, de uma conversa sonsa, quase nada, renasce uma mágoa: “Minha boneca Susie que eu adorava, e que vocês cortaram o cabelo... Que ódio eu tenho até hoje!!!” – relembra a irmã mais velha.

Isso sem contar que ter irmãos é muito mais seguro que backup digital. Quanto mais irmãos, mais memórias vívidas e coloridas da sua própria vida lhe estarão eternamente à disposição.

Existe muita gente por aí que, por falta de afinidade ou vontade, não tem irmãos, mas simplesmente parentes. Não é culpa de ninguém, especificamente. Provavelmente é por conta da criação, e isso é coisa que não surja apenas de uma geração. Portanto, não há mesmo necessidade de culpar ao pai, à mãe... Ou mesmo ao irmão.

Passei toda a vida enaltecendo isso; essa coisa de ter irmão...

Então, já com a idade avançadíssima dos 20 e poucos anos, informaram-me que eu havia ganhado uma nova irmã. Não um bebezinho, mas uma já crescida, que era para não dar muito trabalho.

Ela nasceu sem que soubéssemos, fruto de um ‘instinto’ largamente difundido entre as classes jornalística, artística e operária brasiliense da década de 70. Foi um tempo em que ninguém era de ninguém e todo mundo era de todo mundo. Ou quase todo mundo. Foi nessa cadência que Amanda veio ao mundo.

O aviso que tínhamos uma nova irmã causou surpresa e expectativa. Afinal, ela já tinha 18 anos, dois filhos e muita história de vida.

A aproximação foi lenta, devagar... Coisa de uns 10 anos. Mas, há dois verões resolvi aceitar um convite dela para conhecer sua família, seu lugar.

Desde então, Amanda tornou-se minha irmã. Com ela descobri afinidades que nunca encontrei nos demais. Descobri também estilos, pensamentos e instintos semelhantes aos meus. E descobri também que o tempo não é nada; quando se ama, se quer.

Há dois dias ela fez aniversário. E eu, pelo segundo ano consecutivo, não liguei. É porque estava escrevendo esse texto, só para dizer a ela o quanto ganhei.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Hip Hop Nacional - É Nóis na Fita, Mano Brown! (um texto para se ler cantando)

Dobrando a esquina de mármore, ouve-se o inconfundível ruído da periferia, expressado na batida sincopada do rap marginal. “Mente sã, corpo são; só quem tá pilhado se segura; curte a marcação! Parada bloqueada, se liga, playboyzada, que chegou a nossa raça e a barra tá pesada!...”

Então, surge um grupo de manos e minas.

Ainda é cedo, são as primeiras horas da manhã. Mesmo assim, elas dão pinta de que estão, há muito, preparadas. Caminhando à frente da rapaziada, têm os cabelos molhados, escorridos, colados na cara chapada. Lápis de olho, e maquiagem marcantes. Trazem também nas roupas, especialmente nas calças, marcas de falsos brilhantes.

As unhas coloridas e, claro, indefectíveis tênis de corrida berrantes. São elas que se põe a cantar, trazendo consigo o ritmo forte da batida que ecoa pelo alto-falante do aparelho celular.

Logo atrás, 4 ou 5 manos, com cara fechada, acompanham as minas, com menos badulaques, mas em clara expressão indolente; pura presepada.

Vão abrindo espaço, perpassando os transeuntes, ignorando os raros passantes, fazendo de todos, postes, espectadores de seus rústicos rompantes.

É a hora deles. O palco é deles. A faixa é deles. E os corredores quase vazios de piso brilhante apenas enaltecem a cara desse povo adolescente, fazendo desse instante uma alegria; a hora mais marcante do dia.

Logo, logo, porém, sumirão de cena e assumirão o ofício diário; trazendo papéis, comendo pastéis, preocupados com o horário. É a turma da Câmara: os estagiários.

Deslumbrado, cruzo por eles; passo rente e vou em frente, fazendo coro àquela gente: “Mente sã, corpo são; só quem tá pilhado se segura; curte a marcação! Parada bloqueada, se liga playboyzada, que chegou a nossa raça e a barra tá pesada!...”

terça-feira, 16 de março de 2010

Orfeu Parmênides e o Sonho De Heráclito


Após o banho, fomos nos deitar. Não era tão tarde.

O dia seguinte seria de muitos compromissos; atividades importantes que vinham sendo cumpridas à risca.

Então nos abraçamos e demos um beijo de boa noite...

Nossos lábios se tocaram de leve e nossas mãos se entrelaçaram, e depois veio a língua; logo, a sensação de calor. Pensei: "Ela tá querendo..."; ela pensou: "Ele tá querendo"... E assim, fizemos amor, desaguando num prazer infinito, imutável e único. Em seguida o sono profundo...

Uma semana depois, nosso sonho acabou; volúvel, cinzento. Foi quando me caiu ao colo uma sensação de que Parmênides poderia, então, não ter mesmo nenhuma razão...

terça-feira, 9 de março de 2010

Mãe, Esqueci a Infância na Casa da Joana!


Yago passava todo o tempo do mundo se aventurando pelo mundo exterior. Cumpria com disciplina suas obrigações em casa e as tarefas escolares, mas dedicava a vida às brincadeiras de rua; era lá que ela – a vida - fazia sentido.

Desde pequenino, acostumara-se a usufruir de tudo o que estivesse ao alcance; das brincadeiras de bola às de correr; das modas às conversas fantasiosas; de saladas-de-fruta às subidas na árvore. Muito costumeiramente voltava para casa já bem tarde. E no banho, enquanto passava a bucha sobre os pés imundos de terra, pensava, ansioso, em tudo o que faria novamente no dia seguinte.

Relembrava, sorrindo, cada jogo disputado, cada batalha travada, cada conversa ou gargalhada. Com seus 11, quase 12 anos, ele era a própria excitação concentrada. Em pouco tempo, seus impulsos alcançariam fronteiras ainda inexploradas e bem mais abrangentes da natureza humana, e o interesse cada vez mais aguçado pelas moças era o maior reflexo dessa mudança.

No entanto, e ao contrário do que pensava o guri, a aproximação junto às moças era cada vez mais difícil à medida que seu interesse aumentava. Elas já não se mostravam mais tão acessíveis como em tempos idos, quando brincavam juntos, descobrindo-se mutuamente por entre as roupas de um armário escuro, sob a cama ou metidos num canto qualquer que lhes oferecesse proteção e anonimato. Era um tempo em que as vontades eram saciadas sob o manto da inocência.

Mas quando os pêlos começam a nascer e a voz a esganiçar, o olhar lúdico da criança se perde quase que totalmente, dando lugar a uma crescente e despudorada malícia. Então, o menino passa a viver uma espécie de entressafra existencial, onde seus desejos de homem - cada vez mais aflorados - passam a não mais caber em seu corpo infantil, indo desembocar nas tortas linhas de um rosto desproporcional e cheio de espinhas. Eis aí a síntese da puberdade masculina.

Completando o quadro, as meninas da sua idade, por motivos óbvios, só se interessavam por garotos mais velhos; ‘adolescentes de verdade’, de 14 anos ou mais. E as meninas mais novas não eram meninas, senão crianças cujo único contato para com o mundo masculino se dava por meio de tapas, arranhões e muita histeria. Carinho, só para as bonecas e ursinhos de pelúcia.

Nenhum desses dois grupos, no entanto, era de seu interesse. O giovanotto gostava mesmo era das meninas mais velhas que ele; as que já tinham peitinho, bunda e cara de mulher. O foco se fazia, portanto, nas amigas das suas irmãs mais velhas, bem como nas irmãs mais velhas de suas amigas.

Sempre que ocorria uma situação onde ele pudesse se mostrar, ele se mostrava. Qualquer sinal de que era notado o fazia tocar as nuvens, sendo imediatamente guardado por ele num compartimento especial de suas memórias afetivas. A reciprocidade feminina passou a ter uma importância fundamental em sua vida.

Quando isso ocorria, passava a merecer lugar de destaque nas cotidianas e solitárias homenagens que ele prestava às mulheres, no banheiro de sua casa (ou em qualquer outro lugar). O corpo ainda em formação não produzia sêmen, mas o menino se desmanchava em prazer, várias vezes ao dia.

Esmerava-se em selecionar uma de cada vez, dedicando cada momento de intimidade a uma de suas homenageadas. No banheiro do colégio, pensava em Renata, a menina mais bonita da classe. Quando estava em casa, fazendo os deveres escolares, era Graziela, a irmã do amigo Marquinhos, quem ocupava lugar de destaque em sua imaginação. No curso de Inglês, Juliane era a bola da vez; e para cada atividade realizada, Yago elegia uma musa inspiradora. Todas elas, contudo, estavam com seus dias de diva contados...

Numa tarde, quando jogava queimada numa pracinha próximo à sua casa, Yago conheceu Joana, uma loirinha, de olhos azuis e rostinho de princesa que morava no edifício em frente ao seu. Ela tinha nove anos, adorava bater nos meninos e carregava a fama de ser chatíssima; ainda mais quando fazia uso de seus agudos sibemóis para comandar as brincadeiras.

O que fazia Yago suportá-la era sua irmã mais velha, Patrícia, quem sempre a chamava quando a noite caia. Patrícia tinha 16 anos e todos os atributos que um homem deseja, literalmente, possuir.

Bastava findar a luz, que lá vinha Patrícia a chamar a estridente Joana. Moravam com a avó que, sempre adoentada, fazia questão que as duas estivessem em casa até as 8 horas da noite. Para desalento de Yago, Patrícia nunca vinha só. Estava sempre acompanhada do namorado João Paulo. Não era difícil encontrar o casal se bolinando às escondidas, por detrás de alguma pilastra ou muro. À hora limite, João Paulo vinha se despedir de Patrícia à porta do elevador. Era uma figura irritante, com seu cabelo vermelho, um sorriso antipático e as indefectíveis sardas que se espalhavam à perfeição pela sua cara de pastel.

João Paulo e Yago se detestavam. Este odiava aquele porque invejava seus 18 anos, sua perna cabeluda e, obviamente, a namorada. Por outro lado, JP se incomodava cada vez mais por Patrícia dar exacerbada atenção ao pirralho, além de sempre lhe reservar algum elogio: - “Que lindo, este menino! Aposto que já tá namorando, né?” -, dizia ela, enquanto o namorado se impacientava cada vez mais ante a presença do ‘rival’.

Yago sonhava com o dia em que encontraria Patrícia a sós... Mas como, se ela estava sempre atrelada à avó, à irmã ou ao namorado? Um dia, porém...

Naquela tarde, ao chegar à pracinha, Yago não encontrou Joana. Não a tendo visto pelas cercanias, apelou para o interfone e descobriu que sua amiga estava em casa, jogando vídeo game. Foi convidado a subir.

Dentro do elevador, sentiu um cheiro gostoso de perfume de mulher e pensou que era de Patrícia, e pôs-se a imaginar se ela estaria em casa também...

Mas não estava.

Estava apenas Joana e a avó, Dona Fátima. Esta, afundada numa velhíssima poltrona de couro, assistia à TV (de olhos fechados), a um volume estratosférico, posto que fosse quase surda.

Joana abriu a porta e os dois foram para o quarto. Ficaram lá por cerca de duas horas, até que, num súbito repentino, Yago largou o controle do jogo e olhou para Joana.

- O que foi? -, perguntou a loirinha.
- ...
- Yago?...
- Tenho de ir embora... Agora!
- Quê?...

E já se levantando, saiu, deitando explicação pelo corredor: - “Já são 8 da noite! Sua avó vai se chatear. Tchau!” -, disse, se apressando em alcançar a porta.

De volta ao elevador, Yago não apertou qualquer botão. Apenas sentou-se e esperou.

Poucos minutos depois, um leve solavanco, e o elevador se pôs a descer. – “É ela... Só pode ser ela!...” -, exclamou, se levantado num pulo, com o coração quase a lhe escapulir boca afora.

No térreo, quando a porta se abriu, ele nem conseguiu fazer cara de surpresa ao se deparar com uma sorridente Patrícia:

-“Menino bonito!? O que você está fazendo aqui?”
-“Eu tava na sua casa, jogando videogame com sua irmã...”
-“Sei... Então vem comigo; quero que você me leve até o meu andar” -, disse ela, sorrindo maliciosamente para o garoto.

Quando a moça apertou o botão do 6º andar, Yago sentiu o corpo congelar. Ele desejou aquele momento mais do que qualquer outra coisa, mas agora, não tinha a menor idéia do que deveria fazer (se é que deveria fazer alguma coisa)!

Alheia à aflição do garoto, Patrícia se olhava no espelho e ajeitava, tranqüilamente, o cabelo algo despenteado, e também o vestido visivelmente amarrotado. Mesmo paralisado, Yago acompanhava, visualmente, cada movimento das mãos dela; o toque nos cabelos, a forma macia como tocava o próprio vestido... Viu quando, da roupa, a mãos passaram à pele, indo alisar um par de coxas bonitas, cheias de pelinhos dourados... – “Você gosta das minhas pernas, Yago?” -, perguntou. No que ele apenas assentiu, balançando a cabeça.

Quando o elevador chegou ao destino, Patrícia rapidamente se virou e pediu a ele que olhasse em seus olhos. Dentro deles, num brilho sedutor, Yago enxergou a imensidão de sua paixão ainda nascente, que logo se transformou em ardor quando Patrícia levou seus lábios de encontro aos dele, num indescritível beijo de mulher. – “Esse é o nosso segredo!...” -, disse ela, fechando a porta.

Yago não se movia, como se sua imobilidade lhe fosse garantir a perpetuação daquele instante. Tudo o que ele vivera de mais emocionante até então ficou, de repente, perdido num tempo distante.

Chegando ao térreo, suspirou profundamente antes de abrir a porta com firmeza e elegância. Ao sair, já não era mais o menino que há pouco apertara o interfone. Decidido, começou a caminhar, altivo e tranqüilo, mal percebendo que acabara de deixar para trás, sentada no chão do elevador, a própria infância.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Jussara Odeia Cama


Uma noite gostosa de sono tem grandes chances de desembocar numa manhã risonha, daquelas com sol ameno, com orvalho na grama, ao canto do galo despertador e com cheiro de café no coador.

Tenho cá para mim que esse negócio de dormir até tarde é patologia da modernidade. A cama é lugar para rituais sacros de amor e sono; preguiça é pecado. Então que inventaram a lâmpada só para estragar a noite; e com ela, o dia. Quem dorme mal, acorda mal.

Tenho uma conhecida que á assim; Jussara acorda mal todo dia. Não fosse esta uma realidade, como explicar sua cara engrupida a cada bom dia? Como entender sua expressão azeda, mesmo quando ela não está chupando limão? Só pode ser por falta de... Sono! Poder-se-ia cair no lugar comum e dizer que é por outra falta (aquela, que fica), mas seria simplificar demais.

Não adianta vir com delicadeza ou educação, pois a bicha tá sempre em pé de guerra. “Baixe as armas”, costuma provocar, outro colega nosso, na vã tentativa de suavizar seu ímpeto 'vilânico'. “É nossa Kátia Abreu!!!”, diz ele, deixando explícita a associação àquela senadora que tem, por “virtude”, a macheza xucra.

Outra característica sua é a ‘expansividade’. O termo é ambíguo, bem sei, e pode ter muitos significados; alguns bons, outros, nem tanto... Jussara tem necessidade de expandir tudo: sua voz, seus pontos de vista, seus doutos conhecimentos jurídicos e, principalmente, seu infinito particular.

Dependurada em redes sociais, tem a mania de comentar todo e qualquer assunto que, porventura, esteja discutindo com sabe-se lá quem. Tem enorme naturalidade em virar-se para o lado e mandar ver: - “Gente, eu não posso com a fulana!... Olha só o que ela está me dizendo aqui!...”. Nem se preocupa em notar que as pessoas à sua volta têm, por hábito, trabalhar durante o horário de trabalho. Ela não.

Fala, fala, fala, fala e fala. Fala mais que a mãe do Gualda. Bufa. Respira alto. Bate a gaveta com força desproporcional. Atende ao telefone ora com empáfia, ora com raiva, fazendo sempre questão de desligá-lo de maneira bruta, como se raiva tivesse. A vida, para ela, só parece existir na demonstração, na superficialidade, na aparência e, principalmente, na carência que ela exorta: “Olhem para mim, por favor!”...

Tem mania de dar bronca nos mais fracos. É natural escutá-la gritando com o filho e com a empregada, por telefone, e também com o rapaz que lava o carro, que vem até aqui entregar as chaves só para ser destratado em frente a todos. Ela se sente muito importante assim, demonstrando toda sua solteirice e seu pulso forte. Sente-se o protótipo da mulher do séc. XXI.

Talvez por isso, só ande de carro novo, pinte os cabelos de loiro-malibu, esmalte as unhas com cor berrante e só saia de casa com, no mínimo, 790 gramas em penduricalhos doirados. Jussara ama o dourado. É a prova de que ela venceu na vida. Quando visita a terra natal, banha-se em ouro para mostrar que venceu. Só não vê quem não quer.

Tornar-se seu amigo é muito fácil; basta acatar suas idéias, sugestões, ponderações e achismos filosóficos. Em prol da boa convivência, foi este o caminho que andei percorrendo durante muito tempo. Apenas que me era muito caro o enorme desperdício de tempo que daí resultava. Tive de aprender a conversar sem tirar os olhos da tela, porque se olhar para a cara dela... Vixe, é difícil de sair.

Ela te olha, te engole, te fala, te espreme contra o muro; faz de tudo para que você seja seu cúmplice – e todos sabem: a cumplicidade só se dá pelo olhar.

Para ela, o trabalho só existe quando ela está trabalhando. É daquelas que franzem a testa se alguém tosse quando ela está lendo alguma coisa ‘importante’. Coitada da moça da copa, que vem solicitamente perguntar se ela quer café. Jussara adora café, mas quando está trabalhando, incomoda-se assustadoramente com a pergunta. Nesses momentos, ela se dá ao trabalho de espalmar a mão, estendê-la no ar e dizer “Peraí...” - deixando a ‘criada’ ali, parada, esperando por uma simples confirmação. Quando vem o café, reclama que está frio ou velho: - “Quando eu trabalhava no Supremo, com o ministro tal, tomava café na sala dele!”... -, diz, esperando por um “ohhhh” de inveja que só existe na cabeça dela.

Para meu desespero, notei que ela se sentia muito mais à vontade comigo quando estávamos a sós. Era como se ela esperasse pela minha chegada para poder colocar em dia suas fofocas e indignações cotidianas: - “Olha isso aqui! O banco quer me cobrar juros de uma dívida de 5 anos atrás; que absurdo! Lembro bem que paguei tudinho! Olha aqui, tenho até o comprovante... Olha!”.

Por vezes, tentei demonstrar que seus problemas pessoais não me despertavam assim, ‘taaaanto interesse’, mas ela não entendia minha psicologia. Pensei em ser bem direto, mas assim, correria o risco de criar um clima hostil que não me agradaria. Quando eu já pensava seriamente na possibilidade de me mudar para outra dimensão, algo novo surgiu no horizonte...

Cheguei ao trabalho com a cara-de-feliz que me é peculiar. Não havia tido noite de sexo, nem acordara com os passarinhos gorjeando minhas palmeiras, mas tinha dormido bem a noite inteira.

Jussara estava lá, à minha espera. Entrei, simpático: “Hello, crazy people!”. Ela, como de costume, mal consentiu.

Liguei o computador e fiz gracinha para a senhora da copa, que me trazia a jarra d’água. (Ela me acha lindo, a copeira.)

De repente, desperta o monstro! – “Gente, olha só o que o Tostão está fazendo! Que canalhice!!!”, disse ela, iniciando uma difamadora conversa a respeito do ex-craque da Seleção Brasileira e do Cruzeiro.

O tom da voz estava alto demais para aquele horário. Além do quê, o que ela dizia não fazia jus à realidade dos fatos. E disso eu sabia, visto que acompanho tudo o que o mineirinho tem escrito, além de haver lido, recentemente, sua autobiografia. Em bom Juridiquês, desmontei toda a fofoca que ela destilava. A moça não gostou e perguntou se eu estava com algum problema, voltando-se para mim com desequilibrada agressividade. Respondi que ela estava falando sobre o que desconhecia, e isso não cabia bem a tão sapiente criatura. Então ela reclamou do meu tom de voz, no que eu perguntei se ela não dispunha de um espelho com reflexos audiofônicos em sua residência para escutar o ridículo de sua afirmação. Jussara então se calou. E assim passou o resto da manhã, e também do dia, e da semana. Está de mal.A guerra dela é minha Paz!


Espero não haver tempo para tréguas em nosso horizonte.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Chupa, Arruda - Chupa na Papuda!

Ao ver a porta do carro se abrir, tive a certeza de que o pior estava por vir. O ‘idiota do pulo’ desapareceu na multidão, deixando a todos com ar de culpa e cumplicidade. Uma figura intimidadora saiu, olhando para nós de modo ameaçador, como se oferecêssemos um real perigo ao que quer que fosse. Por fim, voltou ao carro e o comboio seguiu.

Ficamos para trás – alguns, atônitos; outros, indignados. Em comum, a perplexidade ante a aberração a qual acabáramos de ser submetidos.

O que, de caráter tão emergencial, teria levado o Estado a investir contra a própria população? Aliás, não contra as pessoas, mas contra uma tradição secular que representa nossa mais conhecida manifestação cultural em escala planetária – um símbolo nacional! Pobres escrituras... A Terra Santa prevista por Dom Bosco, o sonho visionário de JK, a Capital de todos os brasileiros, encontro de todas as culturas!... Pobre Brasília.

Sei que nunca se deve fazer esta pergunta, mas o choque fora tamanho que não tive opção; então, mandei ver na dramaticidade do ato, e, como quem suplica ao Salvador em peçonha, indaguei: “Ó, Deus, o que mais, de tão indecente, poderia ocorrer a esta infeliz cidade?...”.

Já dizia um sádico militar da Cavalaria, o Cel Marcondes, que “nada poderia estar tão ruim a ponto de não poder piorar ainda mais” – afirmativa imperativa que fazia cessar, de imediato, qualquer lamento ou choraminga dos soldados que comandava. Ainda que estivéssemos sobre areia movediça, ninguém dava mais um pio após escutar aquela máxima.

E assim, surgiu a resposta. Do fim da rua, viu-se uma movimentação brusca, logo justificada pelo avanço descortês de duas fileiras de ‘seres-brucutu’; gente ignara que vende sua força de trabalho não somente por conta do salário, mas pela desobrigação de ter de pensar, e simplesmente obedecer, executar e atacar. Por mais tacanha que pareça ser, imagino que deva haver algum tipo de reconforto existencialista nessa escolha.

Cada um trazendo um cassetete estrategicamente elevado à altura de nosso abdômen, fazendo que cada folião “sentisse”, fisicamente, a presença da tropa protetora. Pendurados em seus cintos de mil utilidades, bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta, que logo foram acionados – provavelmente por “força das circunstâncias” e violentamente investidos contra a multidão.

Como a ponta de uma lança descomunal, rasgavam, feriam e machucavam os foliões; talvez menos na carne do que na alma.

Almas idosas e até infantis, de nostalgia, mas também de fantasia, brutalmente atacadas, asfixiadas pelo gás, cegadas pelos sprays de pimenta; espancadas pela natureza bruta, desumana, violenta.

O que pouco antes fora alegria, logo desabou em correria. Por entre os vãos dos prédios comerciais escapuliam, aos trancos, pessoas imersas em fumaça e grito. Pediam água, caiam e choravam.

E logo a rua se tornou deserta, e o Carnaval cessou. Ao centro, como uma ilha, homens de preto; tristes figuras em forma grotesca.

É sabido que nossa cidade é ainda incipiente na arte da cidadania, dos esportes ou das festas. É cidade que ainda carece de identidade; crescida precocemente sob a égide do modernismo de um tempo que ainda não chegou. É também uma cidade ainda desconcertada, que tão logo nasceu, teve de ser enquadrada por atos institucionais e generais – cidade traumatizada.

Enquanto, nós, protagonistas não tomamos nossos lugares, enquanto se discutem papéis ou ações, há quem, de há muito, esteja se mexendo por entre frestas e sombras. Gente como essa, que empobreceu a história brasiliense com um episódio tão vergonhoso e facínora como o do Massacre da Pacheco Fernandes. Gente que mente, mente, mente... E também mata.

Bom Carnaval, Senhor Governador. Que as lembranças daquele dia estejam sendo, agora, reavivadas em cada canto dessa sua cela. Aproveite o tempo e componha uma marchinha, ou mesmo um frevo. O Galinho foi ferido, mas continua aceso.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Desacato ao Carnaval


O dia estava lindo para um pulo de Carnaval. Era dia de se encontrar com o Galinho – o Galinho de Brasília.

Já antes, muito antes desse encontro – ainda em casa -, sinto os prenúncios do que vem por aí. É como se preparar para ir a um estádio lotado, sendo que, desta feita, o Zico sou eu.

É possível enxergar a massa brincando, fora de si, com sorrisos à larga – e você é parte dela. O Carnaval não é balada, não é rave. É tradição; raiz.


Enquanto a gente “se guarda pra quando o Carnaval chegar”, tem-se a exata dimensão do júbilo que esse momento significa e representa para a identidade e a satisfação de ser brasileiro.

Como parecerá, aos recifenses, o nosso Galinho frente ao pernambucano? Um espirro de saudade - caricatura malfeita do estrondoso galináceo -, ou uma redenção – um pedacinho de lá pertinho da gente?

Claro, não há nada que se comparar este àquele, pois o nosso já vem com diminutivo no nome para não dar ares de insubordinação. Mesmo no Carnaval, há que se ter respeito à ordem e à hierarquia.

Súdito momesco que sou, adoro as ordens dos metais, a autoridade dos sopros e a imponência das batidas do frevo. Não choro de saudades porque nunca estive por lá, mas de emoção, alegria ou excitação, pois quem cai nessa dança... É pra se acabar!

Quanto à emoção de se estar entre mil ou um milhão, à primeira vista, pode parecer haver uma distância abissal, mas certamente há um mesmo DNA em ambos os casos. Quando se está ali, em meio ao cheiro da gente, numa vibração quase uníssona, sabe-se que a humanidade tem jeito; sente-se a energia divina da vida correndo latente no sangue; é puro poder!

A histeria da banda, inerente ao próprio ritmo do frevo, conduz todos a uma mesma freqüência emocional. Os sucessos se repetem, infinitamente, tornando-se marcas indeléveis em nossas memórias afetiva e musical. Não importa que você não saiba quem foi Capiba e que ‘Vassourinha(s)’ não seja somente um utensílio doméstico, pois quando a música te invade o a alma, elevando tua condição e tirando seus pés do chão, a razão perde o sentido. É frevo é o trio é o povo; é o povo é o frevo é o trio...

Ao meio da tarde, após estacionar meu carro numa quadra mais distante, caminho por entre a grama brasiliense, satisfeito, sentindo potentes doses de bem estar que se pronunciam mais e mais pelas ondas quentes do brilho solar, até alcançar as primárias - porém imprescindíveis - cores de nosso Galinho. Rua tomada, colorida, animada! Sol forte na testa, suor, fantasia e espuma. E tava o sapo cururu, tava a rã e tava a jia...

Encontro conhecidos meus, de agora e do tempo de meus pais. Mas tenho de estar sozinho para me juntar à multidão. Carnaval é movimento, improviso; desaviso. Vai-se para onde quer; ainda que trôpego, o destino é o Paraíso.

A única segunda-feira que é comemorada todo ano é a Segunda de Carnaval. E aquela estava realmente diferente; estava tudo dando certo demais. O bloco ia e vinha pelas superquadras candangas, causando grande alvoroço por onde passava. As crianças, nos ombros ou no chão, inventavam seus próprios passos de frevo. E toda a gente se ia, às gargalhadas e banhos de cerveja e espuma. Quem não pulava, sorria, acenava; dava passagem. E a tarde foi assim caindo, azul púrpura, purpurinada.

O Galinho então fez sua última volta pelo seu pequeno circuito, dando fim à sua performance. No entanto, não houve dispersão; o que era Galinho virou massa densa, e se transformou numa emocionante comunhão de foliões. O trenzinho com a banda já partira, e mesmo assim se escutava, lá e cá, por toda a extensão do comércio, toda sorte de celebração.

Porém, como uma sombra que não percebemos, subitamente, um verdadeiro comboio da polícia furou a multidão, causando total desconforto e estranhamento. Muitos se constrangeram. Eram sete ou oito carros com suas sirenes cor de sangue cortando nossa alegria. Como abre-alas, um grande furgão preto, blindado, cheio de militares, onde se lia "TROPA DE CHOQUE".
Foi um gesto assintoso, entendido por todos como uma demonstração de um mau-gosto poucas vezes antes visto. Somente uma distorção muito grande na concepção da relação entre a polícia e o cidadão produziria uma aparição tão grotesca e truculenta. Somente uma mente muito tacanha e bronca permitiria um confrontamento assim; certamente era coisa de gente triste, infeliz, mal amada ou amargurada. Infelizmente, o mundo também tem esse tipo de gente...
Era como se nossa festa fosse invadida por um grupo de fortões anabolizados, contra os quais a indignação poderia não ser a melhor reação; e não era. A massa se sentiu acuada. Parecia que algo de muito grave havia ocorrido, tamanho o aparato policial.

Estabelecido o corredor polonês invertido (posto que os oprimidos estavam fora dele), as ‘viaturas’ foram passando lentamente, desafiando nossa alegria, tentando conter o incontível.
Nossa reação era a indignação, percebida por sonoras vaias e ofensas contra o Governador Arruda e contra os próprios PM's. Éramos maioria e, talvez por isso, um ou outro tenha se aproveitado para mostrar que ali, naquele dia, 'quem mandava éramos nós'.

Primeiro foi uma latinha de cerveja que voou até o capô de um dos carros, e muita espuma lançada contra os vidros. Depois, um retardado entendeu que o grande lance era mesmo esculachar com os milicos, e não hesitou em saltar de bunda na tampa do porta-malas, causando certa perplexidade - em nós e nos polícias dentro do carro. Era tudo o que precisavam. O comboio parou...

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Ilha Apodrecida


Brasília tornou-se infelicidade.

Fui morar no mato porque queria ter vida à minha volta. Ver o passarinho fazer um ninho, pisar no chão de terra, ver a nuvem, o vento, o tempo; a Mãe Natureza, sabe?... Sentia a falta do seu carinho.

Um amigo que me vendia pães de maçã saborosamente integrais foi quem me deu a dica: “Lá, onde eu moro, é tudo assim, desse jeito aí que você falou”.

A primeira tentativa foi logo feita. Apareci bonito, ao natural, com barba e cabelo. E fui logo recebido pelo homem simples do local. Gostei da modéstia e da casinha recém reformada. Confirmei interesse e levei parentes para gostarem também.

Trato feito, ficou tudo acertado, firmado na oralidade. Dali a alguns dias, a mudança seria levada a cabo. Mas logo veio o desencanto: a casinha que tanto queria fora querida por outros também. Trato desfeito. Quebra de confiança. Poxa, logo com um homem da roça – de enxada na mão e tudo mais... Mas, quem desconfiaria?

Logo entendi que minha conversa tinha culpa. Quem manda falar para homem pobre que o dinheiro não vale nada? Que o valor maior está nos olhos, ou escondido, dentro do coração?

Pois foi o que fiz, cheio de ladainha e poesia, quis permear a prosa de valores verdadeiros, mas não financeiros. E as portas daquela casinha se fecharam.

Mas o tempo, o vento levou, e fez-se a próxima temporada; e mais uma empreitada.

Soube de nova casinha, a uma outra colada.

Bati palmas. Saiu de lá um sujeito franzino e dentuço, com cara de espiritualidade e roupas brancas, me lembrando a eternidade. Perguntou o meu nome e disse que ia meditar antes de me aceitar. Ao fim do dia, me ligou: "Gostei de você. Acho que vamos nos entender muito bem!”. Tornamo-nos vizinhos e grandes amigos.

Foi um tempo bom aquele... No início, quando tudo é novidade, a vida ganha contornos coloridos; até água fria e falta de energia são motivos de tranquilidade. De lá, o céu era mais bonito que o da cidade, e sempre tinha estrelas.

Enquanto isso, eu fazia tudo o que queria. O que eu mais gostava era de pular da cama e, ainda nu, ir direto ao jardim para fazer o xixi da manhã. Bocejar para as plantas é melhor do que para azulejo. De um lado, via mangas, goiabas e amoras recém-nascidas. Abaixo, formigas levando folhagem ao formigueiro. E ao longe, bem longe, os parcos sons de uma cidade da qual eu já não gostava tanto.

Aranha tinha. Barata não. Prefiro cinco aranhas a uma única barata.

E enquanto eu ia aprendendo a passar o tempo sem muito fazer, conversava com quem aparecesse. Gente diferente e sem preconceito. Gente pobre, gente simples e, como eu, cheia de defeitos. Eu, agora, tinha vizinhos à vontade; daqueles que dão “bom dia” por gosto, e não por ofício ou vício. Claro, faziam picuinha como a gente da cidade, embora fossem bem mais, gente de verdade.

Eu agora tinha janelas e portas abertas para a vida. Para as meninas que brincavam no gramado em frente, e que sempre invadiam minha casa, sorridentes. Para o vizinho que meditava. Para o amigo novo que chegava e logo se acomodava.

Foi realmente um tempo bom, um tempo novo. Que me estimula a olhar para frente, talvez olhar diferente... Já não posso mais afirmar o amor que um dia pensei sentir pela minha cidade.

Viver numa grande caixa, cheinha de gente, nunca me fez muita alegria. Invejava aqueles que, ainda que mais pobres, tinham uma turma, uma rua, uma comunidade a qual pertenciam. Eu nunca pertenci a Brasília; a uma superquadra – ainda que por ali houvesse toda a vida vivido. Mais de 30 anos em apartamentos de alto padrão não me davam alento, só solidão.

Acho que ela se tornou paradigma anticomunitário. Um reflexo espúrio do excremento mesquinho, pérfido e pútrido das autoridades que aqui cagam, cheias de cinismo e imunidade. Uma cidade que não se mexe e não se envergonha de nada. Que perde espaço para os muros e os condomínios feitos em dissonância; à perfeição dos anseios de cada individualidade.

Já não há o sonho candango, que, aliás, é palavra feia. Nunca foi adotada pelas elites que aqui chegaram com tudo já feito... Pelos próprios candangos!

Já não há tantas crianças pela grama. Já não há tantas crianças pelas ruas ou pelas quadras... Onde estão as crianças? Meteram-nas todas em grandes shoppings? Mas tantas assim? Sim, constroem-se mais shoppings e cinemas e casas de jogos e tudo mais o que for possível para tirá-las do convívio simples e real de uma vida comunitária. Dizem pertencer a várias comunidades que – pasmem! – não existem nem no papel, senão em telas – e somente nelas.

Ocupada, desordenada e desencantada. O livre caminhar perdeu rumo. O concreto virou vidro. A espontaneidade perdeu o sentido. A esperança virou desalento, medo, castigo.

E agora, Lúcio? E agora, Oscar? Porventura desconfiariam que o avião iria naufragar?

Pois naufragou a nossa Brasília, tornou-se puramente ilha, Brasólia, inglória.

Antes que derrubem meu mato, boto minha viola no saco e vou-me embora, farto.

...

...

...


FIM


Ps:Se escutarem por aí que foi este Maltrapa quem mexeu seus pauzinhos (modéstia...) para encarcerar nosso Grande Panetoneiro, desconfiem! É pura perseguição política e inveja do membro alheio. Afinal, posso não gostar muito de frutas cítricas, mas adoro infusão de Arruda!