domingo, 15 de março de 2015

SOS Militares

Saudades da ditadura? Nós somos da Pátria a guarda, fieis soldados, por ela amados!... 

                                                       
Em toda a sua história, o Brasil jamais ansiou tanto por uma data como por aquele quinze de março; nem quando “conquistou” a Independência, nem quando se tornou uma República, e muito menos quando venceu sua primeira Copa do Mundo. Apesar de pontos de inflexão históricos, nenhum teve a capacidade de mobilização criada pela expectativa da iminente redemocratização do País, em 1985.

Detentor de uma barba desgrenhada com pêlos brancos à larga, bem me lembro daquela longínqua manhã. O dia amanhecera fresco, e ainda muito cedo, de roupão e calção de banho, além de muitos tremores de frio, seguia com meu pai rumo ao Parque da Água Mineral, para uma natação matinal. Apesar do meu temor pela temperatura relativamente baixa, havia algo no ar que fazia daquela experiência algo mais solene que um mero mergulhar no frio profundo daquelas águas cristalinas: dali a pouco, tomaria posse Tancredo Neves, o primeiro presidente civil em 21 anos, sepultando um dos mais vergonhosos e autoritários períodos de nossa história – o tempo das fardas lúgubres e de suas taciturnas figuras se encerrava com aquela aguardada alvorada.

Embora eu fosse um pisquila que sequer alcançara os dez anos, tinha razoável noção sobre a vida política do país, e escutava tudo o que meu pai tinha a dizer, com grande expectativa. A luta pelas Diretas, poucos meses antes, despertara a população brasileira para uma consciência cidadã coletiva, precipitando a experiência política também entre os mais jovens. Havia mais de duas décadas, a pedagogia escolar brasileira impunha às crianças a aceitação ao sistema, e nunca o questionamento, por meio de disciplinas como Organização Social e Política do Brasil ou Educação Moral e Cívica. Ao mesmo tempo, estudantes secundaristas e universitários eram presos, espancados ou mortos.

Apesar da derrota da emenda Dante de Oliveira, ganhamos no Colégio Eleitoral, poucos meses depois. E digo ganhamos porque o Brasil inteiro se fazia presente naquele plenário quando Tancredo Neves alcançou a maioria de votos, derrotando Paulo Maluf e a direita brasileira. O hino nacional, entoado na sequência, era escutado ecoando dentro e fora do Congresso Nacional, a plenos pulmões, árduas lágrimas e intensa comoção. Após ser instrumentalizado pela ditadura como objeto de um ufanismo arbitrário, o hino vinha readquirindo seu real significado desde os comícios do ano anterior. A sensação de pertencimento e orgulho nacional atingia todas as classes e (quase) todos os partidos políticos, pois, acima de tudo, havia a certeza de que o Brasil se humanizava com a redemocratização.  

Enquanto caminhávamos à beira daquela piscina natural cravada no cerrado brasiliense, era possível sentir uma atmosfera renovadora permeando todo o ambiente, em sintonia, vislumbrando os novos e bem-vindos tempos aos quais se referia Cazuza; o dia, de fato, nascia feliz! As pessoas sorriam quando se cumprimentavam; um sorriso diferente, mais leve e mais solto, que vinha lá de dentro. Ninguém falava de lado, ninguém olhava pro chão.

Foi quando um colega de meu pai veio em nossa direção e deu a impensável notícia: - Já ouviu o rádio? Parece que Tancredo foi internado às pressas; periga não haver posse...

   - Quê?!... - Meu pai ficou incrédulo e, com expressão grave, típica de quem está maquinando uma ideia, retrucou: - Isso só pode ser coisa dos milicos... Não querem largar o osso de jeito nenhum! – Motivos para preocupação havia, e de sobra...

O martírio e as incertezas perduraram pelo resto do mês, indo findar no dia dos mártires, a 21 de abril, quando a morte do ex-futuro Presidente foi anunciada. O calvário serviu para unir ainda mais a nação, que chorou como se, com Tancredo, morresse também nossa esperança de ver erigir a verdadeira democracia brasileira. O luto era amplo, geral e irrestrito.

Passados trinta anos, também em um 15 de março, parcela da população brasileira acordou imbuída de um sentimento que, dizem – e eu não consigo entender o porquê – assemelha-se ao de então. Milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra o que consideram o pior panorama político já enfrentado pelo Brasil, visando apear a “quadrilha comunista” que ocupa o “Poder”.

Para mostrar que a bagaça é real, vestiram a camisa da seleção brasileira (Nike? CBF? Ricardo Teixeira?) e foram para a rua vociferar contra o governo e o PT, mas também contra ateus, feministas, maconheiros, umbandistas, nordestinos, abortistas, haribôs, cabeludos, Karl Marx (?) e até contra o facínora corruptor de mentes juvenis, o professor e educador Paulo Freire (???). Pediam o impeachment da Dilma, além da volta da ditadura militar em cartazes escritos, vejam vocês, em inglês. Trocaram o “Yankees, go home!” pelo “Miami, here we go!” Até a suástica estava entre os emblemas ostentados pelo coro dos descontentes. E mandavam todo aquele que discordasse para a “Cuba que o pariu!”.  Tudo “em família, pacificamente”, como frisavam os jornalistas da Globo News.

Havia gente jurando que o Lula é o anti-cristo; havia gente pensando que o Aécio assumiria a Presidência, em caso de golpe; havia gente contra o aborto e a favor da pena de morte (????); havia bonecos de petistas sendo enforcados num viaduto; e também quem imaginasse que estava ali para fazer história, mostrando que é brasileiro, com muito orgulho e muito amor. Mas não havia hinos históricos que refletissem qualquer realidade social, qualquer luta ou momento relevante da história brasileira.

O que havia, em contrapartida, era um grande vazio cidadão: nenhuma periferia, nenhuma organização indígena, nenhum movimento social de base, nada de representantes das classes artística, cultural ou intelectual minimamente relevantes. As fotos, ao contrário, revelam pessoas majoritariamente brancas, felizes, bem vestidas, tomando Heineken e Budweiser, enquanto cantam o hino nacional como prova inequívoca de seu patriotismo e compromisso para com o país; uma "gente direita”, “do bem” e, sobretudo, cristã. Vislumbrando a enxurrada de imagens produzidas pela mídia, nota-se que não há a menor diferença entre os manifestantes de hoje e aqueles brasileiros que tiveram acesso aos estádios (desculpem, arenas) durante a última Copa da FIFA, pois eram todos, majoritariamente, representantes de uma única (e ultrajada) classe econômica.

Sair às ruas é, mais que um direito, um dever de todo e qualquer cidadão que almeje mudanças. Mas ignorar a história e clamar por um estado policial é o maior desrespeito que poderia haver contra a democracia e a população brasileiras. Que me desculpem os castos e bem intencionados que cerraram fileiras nos protestos, mas a essência da mensagem produzida pelos eventos deste dia 15 é das mais elitistas e mesquinhas que se poderia obter. Se o objetivo dos que protestam é aperfeiçoar o modelo democrático e exigir respeito à Constituição, então mandaram muito mal, pois sectarismo não se combate com sectarismo. A realidade, minha gente diferenciada, está bem além daquilo que se pode ver pela tela de uma TV.

4 comentários:

Márcio disse...

Pô, cadê as fotos de ontem para ilustrar o texto, Lima Santos? Fazem falta!

O Maltrapa disse...

Contreiras, era o meu objetivo, mas o protesto acabou muito antes do que imaginei. Mal acreditei quando ouvi a repórter dizer que os manifestantes "agora se encaminham para casa", e olha que mal passava do meio-dia! Acho que essa gente diferenciada não está muito acostumada a aglomerações, salvo quando dentro de abadás coloridos. De todo modo, o importante era realçar os aspectos que envolveram e produziram este e aquele 15 de março.

Abraço,

O Maltrapa

Thaissa disse...

Como sempre..ótimo texto!

Flávio Aurélio disse...

Muito bom o artigo! Você explicitou em palavras como me sinto em relação a essas manifestações. Como se fosse uma balada cívica onde a maioria não digo que são todos vão as ruas com suas cervejas para postar na rede social "olha eu aqui na manifestação". Muito bem colocado quando João, você cita que parece aquela turba de brasileiros que tiveram acesso aos estádios. Concordo em gênero e número: "o sectarismo não se combate com sectarismo". Repito de novo! Ótimo artigo!