sexta-feira, 29 de maio de 2009

Minha Primeira Paixão - Capítulo Final


À hora da janta, enquanto sorvia a papinha de legumes que mamãe amassava com o garfo, eu pensava no assunto. Era necessário dar à minha namorada a certeza do meu querer. “Espero você compreenda”, pensei, olhando para minha mãe, que fazia aviãozinho com a colher de sopa, rumo ao “aeroporto do João”.

No dia seguinte, ao cair da tarde, lá estávamos, “como indiozinhos”, sentados em frente à nossa tia. Nenhuma dúvida que eu estava no mesmo lugar que o da véspera.

Não esperei muito tempo para dar sequência ao plano. Nem mesmo ela começou a falar e me adiantei, tocando seus pés. Antes, com a pontinha dos dedos, ainda hesitante e com o coração batendo forte; depois, mais confiante, com as mãos espalmadas, sentindo a pele e o relevo das veias e tendões ressaltados pelas tiras da sandália de saltinho baixo. Puro deleite!

Tocava seu tornozelo, delineando suas curvas, e achei por bem insinuar-me mais, ir além. O ano era o de 1981, e, infelizmente (para minhas pretenções), as calças boca-de-sino já eram démodé.

Resolvi me infiltrar. Minha mãozinha, lépida e alva como uma aranha albina baiana, começou a escalar aquela canela. Obviamente eu nem imaginava o sentido ou mesmo a existência do verbo depilar, mas hoje tenho condições de afirmar que ela não fazia isso com freqüência. No entanto, por ainda não dispor desse discernimento, achava tudo íntimo e propício.

Tinha certeza de que mesmo com metade do braço enfiado na calça Lee da tia, ninguém sequer desconfiava da operação em curso. Aliás, a balela toda começava a fazer sentido, pois já era possível inferir que o mais importante não era se ligar nas personagens, mas na vogal inicial dos respectivos nomes: Alicate, Escova, Índio, Óculos e Urso de Pelúcia. A tia queria ensinar-nos o “aéióu”! Momento histórico!

Mesmo acompanhando o “raciocínio” da estorinha, minha cabeça estava fora daquela órbita, em total perdição. Eu não era mais nada e não sentia mais nada. Melhor: eu sentia tudo e não queria saber mais de nada. Nem se neguinho havia se tocado do que estava rolando; minha vida era aquela canela (e seus pelinhos nascentes, claro). Àquela altura, eu já subia e descia o bracinho com certa naturalidade, acariciando-a até onde dava.

Apesar de já me sentir um pouco como o dono do pedaço, a tensão ainda era grande, muito embora o prazer alcançado compensasse qualquer loucura! Um prazer que eu não tinha sequer como dimensionar; sensação igual eu nunca havia sentido em todos meus seis anos de existência. Ao menos não de forma tão consciente. Eu buscava o que muito queria, e conseguia! Minha excitação era enorme, e tudo se tornara explícito, para qualquer um ver. Na verdade, quem haveria de querer prestar atenção num taradinho galego aliciador de tias? Todo mundo lá, com olhinhos vivazes e boquinhas entreabertas, ávidos por saber como terminaria a saga vocálica, e eu cá, em êxtase, metido em minha primeira experiência sexual – ainda que unilateralmente.

Eu tocava sua perna e tremia. Não poderia existir nada melhor que a perna da minha tia... Aliás, do que a batata da perna da minha tia (sim, eu já acariciava a batata!). E aí notei que ela já tinha “me sacado”. E mais; não oferecera nenhuma resistência! Fabuloso! Sim, pois ela me instigou a “querer mais”, ativando tenros instintos. Fechei os olhos e imaginei minha mãozinha percorrendo perna acima. Chegando à virilha, imaginei muitos pêlos, algo comum naqueles tempos. Tudo aquilo era, para mim, o anúncio de um noivado; nada mais nos separaria, estava claro.

Já me indagava como seria me tornar marido da minha professora. Isso certamente me daria mais autoridade no Jardim, e poderia ser ótimo para a hora dos deveres e das provas.

Sentindo que em breve escutaríamos o dingue-lingue da sineta, resolvi acabar com as formalidades. Literalmente deitado a seus pés, enfiei todo meu braço - até o ombro!-, mas não alcancei nem o joelho... E veio o dingue-lingue. E também o fim da saga. E a dispersão total.

Após a deliciosa euforia, o relaxamento... O melhor relaxamento que existe. Nem saí junto com a galera, e acho até que saí depois das menininhas. Definitivamente eu estava me tornando um cavalheiro; o ritual de passagem fora cumprido e eu estava pronto para assumir as responsabilidades do meu ato.

Ou não, pois – e aqui peço licença para o uso do chavão- o destino me pregou uma peça!...

Saí à frente da minha tia, que logo passou à minha frente, para logo à frente encontrar seu amigo motoqueiro; seu namorado. Eu sei, porque eu vi a motoca! E vi que ele usava casaco de couro preto. E que eles se beijaram. E sorriram.

Foi frustrante, mas coisa pequena, pois ela logo haveria de dar-lhe as boas novas sobre a nossa situação. Qual nada! No dia seguinte, já não foi minha “noiva” quem entrou pela porta da minha classe, mas a diretora, dizendo que seria ela a nossa tia, enquanto a nova professora não chegasse. A antiga professora teve de viajar por problemas de saúde na família(!)... Aquilo, sim, foi impactante!

Aos seis anos tudo é efêmero, tudo é de momento. Foi uma paixão súbita e passageira. Pensei naquela decepção por alguns dias. Poucos. Ou nem isso. A nova tia chegou, mas não chegava aos pés... Aos pés, da minha primeira paixão.

Como outra grande recordação do prezinho, lembro perfeitamente da experiência do feijão no algodão, o que também me maravilhou, mas menos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Minha Primeira Paixão


Mesmo não assumindo qualquer culpa, e ainda que lamentando, o fato é que não tenho como revelar o nome da minha primeira paixão. Se o soubesse, é provável que viesse a se tornar também o nome de minha primogênita. Mas não sei.

Se nada sei, ao menos sinto; e das sensações, não me esqueço.

Ela era professora de um Jardim de Infância, na 302 Norte. Teria vinte e poucos anos e parecia, aos meus olhos, a mais bela e doce mulher da Terra.

Só não gostava quando falava num certo amigo que, vez ou outra, a buscava em sua motoca possante. Sempre que isso ocorria, meu coração se contraía de ciúmes... Que ela parecia não notar, pois costumava relatar as caronas com flores na fala. Eu não me sentia magoado, mas cada vez mais apaixonado. E me continha numa espécie de resignação calculada, própria de quem tem a certeza da virada.

Não havia dúvidas de que nossas penetrantes trocas de olhar sugeriam um futuro de gozo e satisfação, a plenitude! Para alcançá-lo, bastaria declarar-me, no momento adequado; uma vez declarados os meus sentimentos, a recíproca seria ato contínuo. Por ora, procurava ludibriar meus colegas e possíveis concorrentes quanto às minhas reais intenções; eles que me aguardassem...

Lembro-me perfeitamente daquela tarde, quando os primeiros passos foram dados nesse sentido. Faltavam ainda alguns raios de sol até que escurecesse por completo, quando a professorinha reuniu seus aprendizes bem à sua frente, a fim de contar-lhes uma estorinha.
Sentou-se numa cadeira e nos chamou a atenção para o início da aventura: “Atenção de todos aqui na tia!”...

Sim, eu era um dentre tantos pimpolhos e não tinha nem seis anos completos, mas aquela mulher era tudo pra mim! Eu sabia, veladamente, que ela estava ali, naquela sala de aula, por minha causa; simplesmente isso.

Comportadamente, sentei-me a seus pés – que é o que toda mulher espera de um homem apaixonado-, e comecei a escutá-la. Tratava-se de uma fábula, tipicamente infantil, e por isso, lisérgica e nonsense. Começava com um alicate que, perambulando pelas estradas de um belo bosque, acabou conhecendo uma escova de cabelo, de quem se tornaria grande amigo. Unidos, seguiram arregimentando companheiros exóticos, tais como “o” óculos e o urso de pelúcia.

Eu, completamente dado (com a boquinha aberta), imaginava o ursinho todo escovado, de óculos, tomando sol, mas não conseguia achar uma função para o alicate. Meus coleguinhas, do mesmo modo, permaneciam encantados, apesar da total falta de sentido de tudo o que a tia nos contava. Pouco afeito que sou a fazer parte de um rebanho, fiz uso da minha arguta sensibilidade e percebi que era chegado o momento de agir...

Daria a entender, enfim, que o sinal estava verde, que o caminho estava livre! Não que fosse algo simples de se fazer; antes, o contrário. Revelar-se ao objeto de desejo é uma experiência vulcânica. É sentir o sangue virar lava e o sistema nervoso derreter, fazendo esquentar até o lobo orelhal. Trata-se de uma inflexão irreversível no porvir das coisas, ao estilo “nada será como antes”. Nesse aspecto, o sucesso ou o insucesso da empreitada não nos impede de sair incólumes, pois saímos dele mais maduros, forçosamente.

Então, iniciei uma aproximação geográfica, galgando árduos centímetros que, conquistados, custavam batucadas retumbantes em meu coraçãozinho pueril... (Pueril?!...).

Indescritíveis pensamentos tomaram minha mente inocente quando encostei meu Conga vermelho (o azul era para gente grande) na sandália dela. Imaginei que, a partir dali, tudo me seria permitido. E me assustei quando soou, do fim do vão central da escola, o toque estridente da sineta que alardeava o final do período vespertino.

Meus coleguinhas despertaram da hipnose coletiva antes que eu pudesse acreditar que meu plano fora abortado tão abruptamente, sem aviso prévio ou indicação aparente – exatamente como os surpreendentes desenlaces do amor... Mas, como assim?! Que fim levou o urso de pelúcia? Cadê a lógica da estória? -, eu me perguntava, ainda sentado no mesmo lugar, ciente de que chance igual os cupidos não haveriam de me dar.

Boicotado pelo sino, mas salvo pelo congo, ora, pois! No derradeiro momento, antes que a balbúrdia tomasse conta da classe, ela nos informou que a sequência da estorinha teria vez no dia seguinte, exatamente à mesma hora. Ganhei o dia!

Fim de tarde é um momento especial em qualquer jardim de infância. É quando se pode escutar o alarido vindo do pátio que revela a contundência da percepção infantil da realidade em relação à própria existência: gritaria, correria, risada e felicidade; eu não precisava de mais nada!

E assim, vibrando de todo e com meu contumaz ímpeto, logo me juntei ao bando de garotos alucinados, escapulindo porta afora em total dispersão pelo pátio da escola. As meninas preferiam esperar, saindo depois, mais calmamente, junto com a tia.

Num átimo, antes de imergir numa outra realidade, ainda tive tempo de pensar em como reagiriam todos quando assumíssemos a relação. Seria necessário demonstrar segurança a fim de evitar que minha tia/namorada declinasse ante as críticas que certamente surgiriam, advindas dos setores mais conservadores da nossa provinciana sociedade brasiliense...

(continua)


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Para nós emocionais, arrochos materiais


Andei passando por uns perrengues nos últimos tempos. As certezas, quando deixam de ser elas mesmas, produzem sensações de fragilidade e desamparo, deixando o sujeito meio mal da cachola.

Sentindo-me assim já há algum tempo (o suficiente para julgar-me impotente ante a necessidade de gerenciar minhas próprias angustias), lembrei da Dra. Bárbara, com quem me terapiei por quase um ano. Segundo os que me amam, eu “melhorei” naquele tempo... - ha-ha-ha! (Eu rio pra essa gente!)

Pois, ainda que rindo, estava disposto a melhorar ainda mais, e acabei procurando restabelecer um contato com ela.

Foram duas as empreitadas em que me meti a fazer terapia. As terapeutas, em ambas as situações, eram bárbaras, senhoras, loiras e vaidosas. E leoninas, que me elogiavam o tempo todo, fazendo o maior bem pro meu ego...

A primeira Bárbara, voltou para sua terra natal, e com a segunda Bárbara, me magoei.

Como mágoa sempre passa, e por, conforme relatei, não estar muito bem da cabeça, marquei um encontro com a Dra Bárbara – The Second.

A partir de então, e durante a semana seguinte inteirinha, passei a conjecturar sobres os porquês de se voltar lá, numa verdadeira peleja entre meu orgulho ferido e meu ego carente. Era pensar na consulta e pronto, estabelecia-se o conflito!

Isso porque, há dois anos, abandonei-a de forma intempestiva. Sei que ela se magoou e ficou triste, pois a terapia vinha apresentando os tais bons resultados. Agi de modo impulsivo e, durante algum tempo, nem sequer quis refletir muito sobre a possibilidade de um retorno. Encontrá-la agora demandaria um relato do que se passou desde então. Um relato minucioso, implicando numa imersão, até certo ponto, indesejada. E mergulhar nessa piscina não fazia parte dos meus planos, ainda mais com o frio que tem feito... Deu 9 graus no Ninho do Urubu!

Por outro lado, era justamente esta a razão pela qual eu queria revê-la; um auxílio no processo de sublimar experiências traumáticas... Oh, vida, que dúvida!

Por cinco dias me angustiava sempre que pensava no assunto, no que fui deixando para resolvê-lo à última hora.

Dito e feito! Até uma hora antes da consulta eu não havia me decidido. Estabelecido o conflito, abri a guarda e parti para o abraço: entre interrogações e angústias, fui.

Cheguei a ensaiar, pelo caminho, algumas formas de apresentar a situação, ou como abordaria determinada questão. Mas tudo me parecia demasiado artificial. Ainda mais a mim, que sempre apelei para a espontaneidade como instrumento imprescindível à minha socialização. E sempre funcionou bem.

Estacionei o carro tentando não pensar em coisa alguma, esperando pelo momento que se aproximava.

Quando entrei no consultório, a sala de espera estava cheia de gente, mas de uma gente muito pouco à vontade. Pareciam, em verdade, mais agoniados que eu! Havia uma série de nós sobrevoando nossa cabeça; nós emocionais... O que produzia olhares tensos, olhares tesos.

A única cadeira vazia piscou para mim. E sentei-me, ainda que um pouco constrangido, pois havia pessoas de pé. Mesmo sentado, percebi que a atmosfera estava realmente pesada.

Olhei à volta, abrangendo o olhar. Percebi que tudo estava diferente; o consultório passara por uma reforma. A cor das paredes, antes clara, agora era verde-escuro. A porta que era aqui, agora era acolá. Só a recepcionista não mudou - a Daniela – que me olhava de baixo pra cima, enquanto fingia escrever algo. O homem ao meu lado não parecia nada bem. E todos permaneciam em silêncio.

Eram três e quinze, e não tardariam a me chamar, pois eu era “o paciente das 3”.

Então a porta se abriu, e saiu de lá uma perua acompanhada de seu filho adolescente. É caso de dependência química, pensei.

A recepcionista entrou pela mesma porta, e quando saiu, pensei que seria chamado. Mas não fui. Mandou que entrassem dois rapazes.

Em outras oportunidades, quando isso ocorria, achava sempre normal, e posso dizer até mesmo que me sentia bem, pois isso significava que a “loucura” alheia era mais perigosa que a minha. Desta vez, porém, me senti desprestigiado...

Quase reclamei, mas seria ainda mais constrangedor levantar no meio daquele bando de pirados e falar: “Pô, Dani, tá doida? Não tá vendo que eu sou mais louco que aqueles malucos?” Esse pensamento me fez permanecer sentado e calado.

Enquanto eu pensava no tempo que passava, notei que o homem ao meu lado agora esfregava nervosamente as mãos. Era um sujeito calvo, de meia-idade. Tinha o rosto quadrado e o semblante de um membro do Partido Republicano dos EUA; reacionário.

A senhora perua que acabara de sair se sentou em frente à recepcionista e perguntou:

- Quanto é, minha filha?
- São 250 reais... -disse Daniela, candidamente.

Foi quando notei que meu problema não era assim, tããão urgente. Aproveitei um vacilo do psico ao meu lado para atender a um telefonema virtual e, dizendo um demorado “alô”, evadir-me do local.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Declaração de Amor a Brasília - 49 anos


Bras-ilha da Fantasia


Dia desses, coisa de um mês atrás, dei um pulo no Conjunto Nacional a fim de pegar uns óculos de sol maneiros que estavam sendo “retificados”.

De lupa e pintoso, resolvi dar uma passada no Conic a ver se encontrava antigas amizades... Quero dizer, a ver se revia uma antiga conhecida, dona de uma loja de artigos militares e afins, para a qual vou até fazer propaganda, pois ela merece!

Dia D é o nome da birosca, e tem um atendimento ótimo, além de um material de primeira! -Em off: Parece que rola uma conexão sinistra com os israelenses ou algo assim no contrabando de produtos exclusivos... - Fica lá no Conic, perto das barraquinhas de sebo, ao lado da cracolândia (por isso é melhor ir de dia).

Decidida a missão, pus-me a caminhar, no que fui, de pronto, interrompido por uma equipe da TV Câmara. Buscavam por cidadãos interessados em fazer “uma declaração” a Brasília, visto que a cidade estava por completar seus 49 anos.

Disposto eu estava. Na verdade, tava mesmo louco para que alguém perguntasse minha opinião a respeito dos rumos tomados pela nossa cidade.

Disse um monte de coisas sobre o descalabro social ora reinante nesta Capital, e a repórter perguntou: “Sim, mas você não tem nada de bom para declarar?...”

- Você me perguntou se eu queria fazer uma declaração sobre Brasília...
- Sim, mas era uma declaração de amor!...
- Se a “entrevista” for chapa-branca, então não participo -, disse, resoluto, fazendo biquinho.
- Você não gosta do céu de Brasília? Então, fala do céu!
- Você me parou para falar do céu?!...

O resultado vocês podem conferir no vídeo logo abaixo... (uau, sempre quis dizer essa frase!)

video

foto de joão sassi 

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Futebol e Paixão








O futebol é a maior paixão da minha vida.

Surgiu não sei bem como ou quando, mas é certo dizer que foi principalmente pela identificação que tenho com meu pai. Foi ele quem fez despertar em mim a noção de que o futebol era mais que uma modalidade esportiva, mas sim uma das maiores expressões culturais do povo brasileiro.

Ainda criança, com sete anos, tinha o hábito de convidar Chico, dois anos mais novo, a dormir na sala de TV, sempre que meu time jogava tarde da noite. No “meu tempo” não era comum que crianças dessa idade ficassem acordadas até mais tarde; daí a necessidade de se colocar um colchão no chão e fazer uma montanha aconchegante de almofadas (só assim o Chico topava), tendo em vista que sempre dormíamos durante a partida; quando não, antes!

Com o tempo, o futebol foi se tornando a base de quase todas as minhas vontades. Não perdia um único jogo, mesmo que fosse obrigado a escutar a transmissão em radinho de pilha. Se ia à escola, feliz, era porque pensava na hora do recreio, quando poderia jogar. Quando ia ao clube, lá estava eu, mesmo que solitariamente, a bater bola num campo vazio. Vivia “embaixo do bloco”, jogando pelo time da minha quadra ou sendo técnico de times mirim (onde eu também desempenhava a função de goleiro). Em casa, só queria saber de programas esportivos. Tenho muitos “Globos Esportes” e “Esportes Espetaculares” gravados em VHS. Tenho o jogo que Pelé disputou pela Seleça, na Itália, em 90, quando fez 50 anos. E o de despedida do Galinho, no Maracanã, em 89. E mais um punhado de outros jogos – a maioria sem qualquer importância.

Meus irmãos não eram da mesma estirpe. Estranhavam meu vício. Eu, em vão, tentava os convencer de algo que, em verdade, não poderia ser explicado. Desse modo seguimos, por muito tempo, apartados.

E assim, de repente, as coisas deixaram de ser com eram para ser como são, e eu passei a ter companhia durante os jogos. Acompanhar as partidas do Flamengo se tornou um ritual de família desde o fim de nossa adolescência. É o momento sagrado, da união, onde todos os não interessados (leia-se, namoradas, cônjuges e afins) deveriam abrir mão de qualquer anseio durante aqueles 90 minutos.

Ontem o Flamengo foi a Porto Alegre, disputar, contra o Internacional, uma vaga nas semifinais da Copa do Brasil. Era o jogo mais importante do ano, contra um adversário muito forte, num Beira-rio lotado por 50 mil colorados insanos. Ambas as equipes foram campeãs regionais, e a imprensa já alardeava a partida como sendo “uma final antecipada”, fazendo crescer nossas expectativas.

Chegou a hora! Estávamos todos em frente à TV, ansiosos, como qualquer torcedor que se preze. Excitação.

O Inter saiu na frente, após falha grotesca de nosso jogador mais marrento. A excitação dá lugar à apreensão. Fim do primeiro-tempo.


Aprendi a acompanhar aos jogos ao mesmo tempo em que acompanho meus irmãos torcendo. É gostoso vê-los se emocionar com algo que, em outras épocas, quase não lhes fazia sentido.


Iniciada a segunda etapa, o embate ficou mais nervoso e disputado. Em bela jogada coletiva, empatamos o jogo! O resultado nos favorecia; estaríamos classificados! Da tensão ao alívio. Quanto maior a tensão, maior o alívio; mais gostosa fica a vida! E todos agora sorríamos e brincávamos entre si. Mas era impossível relaxar, pois faltavam ainda 15 minutos e a pressão seria fortíssima.

Aos 44 do segundo tempo, falta (!) próximo à meia-lua rubro-negra...

Como sou o “antigão” da parada, aquele que sabe “tudo” de futebol, sou dado a arroubos premonitórios, como quem, pela experiência, tem o poder de saber o que está por vir. Desta feita, porém, calei-me. Sabia que a falta era perigosa (quase um pênalti), e falar qualquer coisa poderia ser interpretado como mau agouro.

Andrezinho, ex-jogador do Mengo, se aproxima para fazer a cobrança. Todos ficam em silêncio. A bola chutada. O goleiro assistindo. A rede estufada... O estádio explode! E nós, permanecemos em silêncio.

Ninguém se mexeu. Ninguém praguejou. Ninguém lamentou. Apenas suspiramos profundamente, coletivizando nossa frustração.

O momento em que se deflagra uma derrota é sempre doído. Mas quando se trata de uma derrota importante, a dor é bem maior.

Cessam-se as brincadeiras e os motivos para se sentir bem desaparecem. Tudo deixa de ser interessante. Nada é gostoso. A cerveja se torna amarga e o álcool ingerido só faz a cabeça ficar mais quente, em ebulição.

Encerrada a partida, fomos todos embora. No carro, um comentário meu sobre o jogo foi interrompido: “Esquece essa história!” - disse o Chico. Silenciei.

Após deixá-lo em casa, segui meu caminho.

A dor de uma derrota é, guardada às devidas proporções, como a dor do amor, posto que perdura até a próxima conquista. Mas enquanto ela não vem, haja tristeza!

Chegando ao Urubu, dei-me conta de que não estava sofrendo tanto, e estava pouco me lixando para a próxima partida (contra o Santo André, no domingo à noite, pelo Brasileirão, no pêiperviu do SPORTV), pois meu pensamento ainda estava lá, no instante do maldito gol do Andrezinho, quando a dor se fez presente em meio às pessoas que amo, e que agora são, como eu, reféns da mesma paixão. Estamos todos juntos agora. Estamos todos bem.





“Vamos Flamengo, vamos ser campeão (sic), vamos Flamengo, minha maior paixão, vamos Flamengo!!!”


quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Nó da Gravata


Aos trinta e três anos não sou pai de nenhuma criatura viva. É sonho antigo.

Se é bom ou ruim, isso não sei, mas desconfio que a missão seja mais ou menos como aquela estória de se enfiar o dedo na tomada: há de se passar pela experiência para saber do que se trata.

Na manhã de hoje, ainda que por breves instantes, senti a deliciosa sensação de ser pai!

De banho tomado e camisa social recém passada, postei-me diante do espelho para iniciar o ritual da colocação da gravata - a indumentária de maior status social no ocidente.

Apesar de gostar muito de nós mais fofinhos e avolumados, devo admitir que nunca fui bom nisso. Desconfio que por culpa da maioria de minhas antigas gravatas, que de tão raquíticas –tísicas por assim dizer-, não davam nem pra saída... Bem diferentes das minhas novas gravatas, mais caras, gordinhas e bem nutridas.

A estrela da companhia (uma italiana, lilás), aliás, conserva até hoje a mesma forma do seu debut. É que o vendedor barrigudinho que ma vendeu caprichou tanto no nó (estilo “Windsor”) que não tive coragem de desfazê-lo. Só não o considero perfeito porque, ao fim e ao cabo, a ponta da gravata não alcança a fivela do meu cinto, dificultando minha caracterização de homem moderno e antenado. Registre-se que com o paletó devidamente abotoado, ele (o nó) merece todos os louros.

Para combinar com a camisa “azul-pêéssedêbê”, escolhi uma gravata listrada, em azul-escuro e prata, que achei, meio empoeirada, na gaveta da minha mesa, no gabinete onde trabalho. Aparenta ter uns 4 ou 5 anos de uso contínuo, e apesar de um pouco puída, é da nova geração, portanto, mais bem nutrida e sorridente. E é de seda!

Levantei a gola da camisa e coloquei a gravata ao redor do pescoço. Essa é uma parte complicada, a da medição. Não sei se por desatenção ou dislexia, o fato é que nunca lembro exatamente onde deve estar a ponta da danada no início da operação; sei apenas que é “perto do saco”.

Por mais almofadinha que possa parecer, esse ritual deve ser executado de maneira altiva e altaneira, procurando entrelaçar a gravata carinhosamente, sem amarrotá-la por entre o nó feito. Esticar o pescoço, elevar o queixo e olhar-se de soslaio é um movimento clássico, capaz de produzir em seu praticante uma verdadeira sensação de superioridade (configurando um momento que deve ser dedicado à auto-reverência).

Note que é preciso estar concatenado á idéia do legado eurocêntrico, que nos moldou à imagem de lordes, cuja essência expressa a vitória da forma em detrimento do conteúdo. Do contrário, se porventura impregnado por uma ideologia humanista ou teorias esquerdistas libertárias, evapora-se o glamour, restando apenas a sensação de um auto enforcamento.

Em meio ao meu narcisismo, com o canto de olho, percebi, rente à porta, a presença de mais alguém que, de tão atenta, tornara-se partícipe do processo. Era Luíse (ou Lulu*) que, com seus 4 aninhos e olhinhos pretos de bola-de-gude, quase não percebia o mundo à sua volta, absorvida que estava pela delicadeza do ritual.

Quando ficamos assim, profundamente compenetrados, fazemos expressões únicas, as quais não se pode repetir, voluntariamente, num outro momento qualquer. É como no sexo: somente nosso(a) parceiro(a) vê nossas feições mais íntimas e reveladoras; nós, nunca.

Lulu estava imóvel, numa flagrante curiosidade infantil. Olhava para as minhas mãos, buscando entender o que elas faziam, e o porquê de tantas voltas, idas e vindas. E notei que eu mesmo, quase que por empatia, estava também hipnotizado.

Ela estava definitivamente olhando para algo que não fazia parte do seu dia a dia, algo agradável. E eu, aprendendo com ela a aprender o mundo, a ver o novo. E, lentamente, o nó ia tomando sua forma definitiva, enquanto eu, num regozijo paternal, ia me esforçando por fazê-lo, também assim, lentamente...


*Lulu é filha de Ana Paula, moça da região do Córrego do Urubu, de 25 anos, que vive numa casinha sem energia elétrica com sua mãe e quatro filhos, e faz, eventualmente, uma faxina na minha casa.