segunda-feira, 25 de maio de 2009

Para nós emocionais, arrochos materiais


Andei passando por uns perrengues nos últimos tempos. As certezas, quando deixam de ser elas mesmas, produzem sensações de fragilidade e desamparo, deixando o sujeito meio mal da cachola.

Sentindo-me assim já há algum tempo (o suficiente para julgar-me impotente ante a necessidade de gerenciar minhas próprias angustias), lembrei da Dra. Bárbara, com quem me terapiei por quase um ano. Segundo os que me amam, eu “melhorei” naquele tempo... - ha-ha-ha! (Eu rio pra essa gente!)

Pois, ainda que rindo, estava disposto a melhorar ainda mais, e acabei procurando restabelecer um contato com ela.

Foram duas as empreitadas em que me meti a fazer terapia. As terapeutas, em ambas as situações, eram bárbaras, senhoras, loiras e vaidosas. E leoninas, que me elogiavam o tempo todo, fazendo o maior bem pro meu ego...

A primeira Bárbara, voltou para sua terra natal, e com a segunda Bárbara, me magoei.

Como mágoa sempre passa, e por, conforme relatei, não estar muito bem da cabeça, marquei um encontro com a Dra Bárbara – The Second.

A partir de então, e durante a semana seguinte inteirinha, passei a conjecturar sobres os porquês de se voltar lá, numa verdadeira peleja entre meu orgulho ferido e meu ego carente. Era pensar na consulta e pronto, estabelecia-se o conflito!

Isso porque, há dois anos, abandonei-a de forma intempestiva. Sei que ela se magoou e ficou triste, pois a terapia vinha apresentando os tais bons resultados. Agi de modo impulsivo e, durante algum tempo, nem sequer quis refletir muito sobre a possibilidade de um retorno. Encontrá-la agora demandaria um relato do que se passou desde então. Um relato minucioso, implicando numa imersão, até certo ponto, indesejada. E mergulhar nessa piscina não fazia parte dos meus planos, ainda mais com o frio que tem feito... Deu 9 graus no Ninho do Urubu!

Por outro lado, era justamente esta a razão pela qual eu queria revê-la; um auxílio no processo de sublimar experiências traumáticas... Oh, vida, que dúvida!

Por cinco dias me angustiava sempre que pensava no assunto, no que fui deixando para resolvê-lo à última hora.

Dito e feito! Até uma hora antes da consulta eu não havia me decidido. Estabelecido o conflito, abri a guarda e parti para o abraço: entre interrogações e angústias, fui.

Cheguei a ensaiar, pelo caminho, algumas formas de apresentar a situação, ou como abordaria determinada questão. Mas tudo me parecia demasiado artificial. Ainda mais a mim, que sempre apelei para a espontaneidade como instrumento imprescindível à minha socialização. E sempre funcionou bem.

Estacionei o carro tentando não pensar em coisa alguma, esperando pelo momento que se aproximava.

Quando entrei no consultório, a sala de espera estava cheia de gente, mas de uma gente muito pouco à vontade. Pareciam, em verdade, mais agoniados que eu! Havia uma série de nós sobrevoando nossa cabeça; nós emocionais... O que produzia olhares tensos, olhares tesos.

A única cadeira vazia piscou para mim. E sentei-me, ainda que um pouco constrangido, pois havia pessoas de pé. Mesmo sentado, percebi que a atmosfera estava realmente pesada.

Olhei à volta, abrangendo o olhar. Percebi que tudo estava diferente; o consultório passara por uma reforma. A cor das paredes, antes clara, agora era verde-escuro. A porta que era aqui, agora era acolá. Só a recepcionista não mudou - a Daniela – que me olhava de baixo pra cima, enquanto fingia escrever algo. O homem ao meu lado não parecia nada bem. E todos permaneciam em silêncio.

Eram três e quinze, e não tardariam a me chamar, pois eu era “o paciente das 3”.

Então a porta se abriu, e saiu de lá uma perua acompanhada de seu filho adolescente. É caso de dependência química, pensei.

A recepcionista entrou pela mesma porta, e quando saiu, pensei que seria chamado. Mas não fui. Mandou que entrassem dois rapazes.

Em outras oportunidades, quando isso ocorria, achava sempre normal, e posso dizer até mesmo que me sentia bem, pois isso significava que a “loucura” alheia era mais perigosa que a minha. Desta vez, porém, me senti desprestigiado...

Quase reclamei, mas seria ainda mais constrangedor levantar no meio daquele bando de pirados e falar: “Pô, Dani, tá doida? Não tá vendo que eu sou mais louco que aqueles malucos?” Esse pensamento me fez permanecer sentado e calado.

Enquanto eu pensava no tempo que passava, notei que o homem ao meu lado agora esfregava nervosamente as mãos. Era um sujeito calvo, de meia-idade. Tinha o rosto quadrado e o semblante de um membro do Partido Republicano dos EUA; reacionário.

A senhora perua que acabara de sair se sentou em frente à recepcionista e perguntou:

- Quanto é, minha filha?
- São 250 reais... -disse Daniela, candidamente.

Foi quando notei que meu problema não era assim, tããão urgente. Aproveitei um vacilo do psico ao meu lado para atender a um telefonema virtual e, dizendo um demorado “alô”, evadir-me do local.

24 comentários:

Lívia Vitenti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lívia Vitenti disse...

Joao, Joao, meu queridao! Segundo o meu psicanalista, o pagamento faz parte da análise, e quanto mais caro você paga, é porque melhores resultados estao aparecendo! Hahahaha! Anos depois descobri que meu psicanalista era alcoolatra, e que toma seus whiskys matinais no bar onde meu pai joga no bicho/loteria! Eu só te digo uma coisa, depois de passar dois anos trabalhando têtê a têtê (como diria a minha mae) com um monte de psicologos, o melhor mesmo é conversar com um filósofo ou com um antropólogo (pois nao!) para amenizar suas angustias existenciais! E te conhecendo assim assim, te garanto que no seu caso convêm melhor um pai de santo!
Bitocas da Livia

Moema disse...

Muito bom, Joao!! Se não (senão) o seu melhor até agora!!!
E, caso queira dar vazão ao que te incomoda, posso te arranjar um psicólogo mais em conta, caso não sirva eu mesma!! hahahaha
Acabo de pensar: será que irei comentar toda vez que vc posta texto novo? Mas é que eu não resisto...

Fernando Lyrio disse...

Joãozinho,
Você, como sempre, em grande forma. Bom te ler, bom te rever nas suas linhas. Fiquei pensando aqui em algumas coisas que você me contou que dariam ótimos posts retroativos. Grande abraço, F.

Pedernique disse...

a Bárbara disse...ponha as barbas de molho e barbarize a barra da tua bárbara barbaridade...se não for ela...que seja...250 surreais? té mais...

A Colher da Inaê disse...

Jonjon, este post está ótimo...adorei!!!
Mas, se teu problema for psicos...passei uma lista de profissionais que atendem a baixo custo...hahahahhaha é só pedir que lhe reenvio...mas não perca esta oportunidade...quem sabe vc pode vir a ser o normal da familia...hahahha

O Maltrapa disse...

Hahaha!!! Adorei os comentários! Do jeito que se vê a coisa, o único maluco da estorinha sou eu! Todo mundo quer me tratar!Hahahaha!!! Parem o mundo que eu quero descer!

O Maltrapa disse...

Fernandinho, gratíssimo pelos elogios. Também tenho pensado em antigos causos que darão o que contar! Ps: só não garanto que sua foto perdurará em meu blog, pois é capaz d'eu perder todo meu rol de admiradoras...

O Maltrapa

Márcio disse...

Rol de admiradoras? Xi, variou total! Melhor remarcar essa consulta com a doutora Bárbara :)! Mas chegue umas duas horas antes, pois rendeu bem a observação da fauna da sala de espera.

O Maltrapa disse...

Nem vem com ciuminho, Márcio! Eu disse admirado-RAS!

O Maltrapa

Ps: que foto exdrúxula é esta, rapaz? Tá entrando pro time dos maltrapas?

Márcio disse...

Mais respeito aí, Lima Santos! Essa foto é uam homenagem a Zachary Smith, um de meus ídolos de infância, do tempo da TV a lenha.

virginia disse...

João, a Valen me mandou o link. Adorei o blog! Só não fui capaz de escolher meu texto preferido! Por favor, MAIS!
Beijo grande,
Virginia

O Maltrapa disse...

Tô sabendo, Só Frango! Não é o cara do Perdidos no Espaço? Agora melhorou! Até porque, nota-se que ele está usando o Manto Sagrado!

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Seja bem-vinda, Virginia, e obrigado pelos lisonjeiros elogios! Vou tentar caprichar na letra!

beijão,

O Maltrapa

Ps: quer dizer que a Valentina anda espalhando boas novas pela cidade? Bom saber!

Caci Sassi disse...

Olha, como diria Freud, o preço aventado foi um chute no saco. - Mas quem disse que ela vai te cobrar o mesmo? Tá doido? Na dúvida, volta lá, cara, e negocia.Ou tá com mania de perseguição, também?

O Maltrapa disse...

Desculpe, mamacita, mas desde então, tenho pesadelos com o cara da cara quadrada...

O Maltrapa

Marcya disse...

Por mim, podem deixar o doidinho exatamente do jeito que está: perfeito!...

virginia disse...

Oi João, não sei se a Valen espalhou demais a boa nova mas, se vc não se importa, eu mesma espalhei convites dessa sua "casa nova" aqui...
beijo!

O Maltrapa disse...

Já que Marcya falou, tá falado: pepsicologia, nunca mais! tem mina que se amarra num doidão!... Ô, loco!

Maltrapa

A Colher da Inaê disse...

Claro!!! Doidões, bonitões, charmosos que, falam e escrevem bem, quem não quer...mas um doido mais ou menos normal, com ambições de se tornar mais normal ainda pode ser uma aventura de outro mundo... pense nisso!!!
E veja pelo lado positivo,niguém quer dizer que vc seja o único louco na familia, mas incentivamos a sua iniciativa de se tornar o primeiro normal!!!!
bjos
Estou esperando mais...

A Colher da Inaê disse...

ou melhor ...o menos doido...hahahaha bjos

LudLu disse...

Hurururururuu....Tá bombando !!!!
Salve, salve Santa Insanidade !
Continuemos assim, cheios de histórias, porque no fundo, no fundo, pouco sabemos do real que nos rodeia. O importante é colocar os passos a fazer o seu principal papel- andar- ter a coragem e ir. Depois colocar a buzanfa na cadeira e descrever traços das reações humanos, deitar com a certeza que viveu.
Anjoão levantou e foi, descreveu, viveu!
Ei: tambem num entraria de jeito nenhum, ora pois!!

* Pollyana disse...

LOUCURA, LUCURA, LOUCURA, É O blog do Maltrapa ... kkkkkkkk (tô rindo de mim mesma fazendo alusão ao Luciano Huck). Essa foto tá muito feia, tá parecendo doido :S.

O Maltrapa disse...

Popó, era esta a intenção, coisinha...

O Maltrapa