sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Esperto é o gato porque já nasce de bigode



O que tem de malandro-agulha não tá no gibi; todo mundo querendo dar nó em pingo d'água...

Eu e meu parceiro estávamos famintos e cansados por passar toda a manhã dentro de um carro, no que pensamos em almoçar no Mina’s Fud, aquele restaurante mineiro que serve uma comidinha satisfatória, na W3 Norte; um pouco gordurosa, talvez, mas satisfatória... 

Aqui em Brasília, como em todo e qualquer centro urbano onde impera a falta de raciocínio governamental e de bem-estar social, cada um faz o que quer pelas ruas da cidade. Há poucos anos, este restaurante, por exemplo, não passava de um pequeno refeitório que servia PF’s aos mecânicos das oficinas situadas nas adjacências. O governo ameaçou tirar o pessoal, criou, ainda que mal e parcamente, o Setor de Oficinas Norte, fez divulgação, coisa e tal, mas continua muita gente lá, trabalhando, ainda que ilegal. E tá só aumentando; parece que tem até um projeto do GDF para legalizar todo mundo de novo e construir mais comércio. Nesse caso, sou obrigado a concordar: tem muito espaço vazio nesta cidade; pra quê tanta área verde? Só serve de abrigo pra mala, noiado e marginal. Acho que Brasília tá precisando progredir, evoluir. De pasto, o Entorno tá cheio! Que capital é essa que não tem prédio grande? Parece até que brasileiro tem medo de altura...

No Mina’s, o dono (conhecido meu) aproveitou um feriado prolongado e, para a fiscalização não pegá-lo, ergueu na tora um puxadinho caprichado. O tamanho do estabelecimento ficou jóia! Hoje dá para chamar de restaurante; tem pra mais de 50 mesas no salão! Tem também um estacionamento ao lado, mas que está sempre ocupado pelos mecânicos que aproveitam o espaço público como local de ofício, de modo que faço o óbvio; paro meu potente utilitário sobre a calçada, bem defronte o Mina’s, e todo mundo fica numa boa. A calçada é espaçosa; não fecho a passagem do cidadão, que pode passar pelo cantinho, nem atrapalho o trabalho dos mecânicos.

Na entrada, somos bem recebidos pelo menino que distribui as fichas de consumo. É um bom garoto. Por ser dimenor, recebe apenas uma ajuda de custo para trabalhar ali. É pouco, mas é melhor do que estar roubando ou se drogando, como muito pivete da idade dele.

Seu Oswaldo, o dono, acena com um sorriso por detrás da caixa registradora. Registradora é modo de dizer, pois como o sistema aqui é informal, ele não registra nada e o governo não recolhe o que deveria. Acho justo, afinal, Seu Oswaldo dá um duro danado e todo mundo sabe que os políticos aplicam mal o dinheiro dos impostos.

Dia de segunda-feira é o meu preferido, pois o pessoal da cozinha reutiliza a feijoada que sobrou da sexta e do sábado, então ela fica muito mais saborosa porque o gosto fica mais assentado – eu toco o foda-se encho o prato! Coloco um toicinho na cobertura e aceito umas lingüiças apimentadas que o Juca, que fica na chapa, traz de São Sebastião e repassa ao patrão. O abatedouro é clandestino, mas o Juca garante que a qualidade é boa; ele mesmo come dela pra provar o que diz. Couve eu não curto, nem laranja. Aproveito pra comer um monte de merda, sem que minha mulher fique me enchendo o saco. Aquilo ali é uma praga! Rola até uma branquinha para rebater. Ferreira, meu parceiro, me chama a atenção - diz que temos que trabalhar à tarde - mas uma ou duas doses não vão me derrubar. Além do mais, ninguém me viu bebendo, pô!... A gente passa o dia todo naquela porra de carro, então ninguém vai sentir meu bafo.

No Mina’s, aliás, todos nos tratam com respeito. A mulher do Seu Oswaldo, Dona Terezinha, inclusive, faz sempre questão de nos convidar para nos sentarmos com ela e com a Claudinha, filha deles dois. Claudinha tem 14 anos, mas já é gostosa e eu pegava sem dó; tenho certeza que essa menina gosta de uns tapas na cara. Essa geração de agora tá cheia de menina safada, e do jeito que a Claudinha se pinta e se veste, já sei do que ela gosta. O problema é que a mãe não tira os olhos de mim. Para azar dela, só como vitela; se Claudinha quiser se apresentar pro serviço, faço dela minha cadela.

Já perguntei pro Ferreira se ele topava convidar a menina pra uma farra e tocar o terror com ela, mas descobri que o filha da puta toca na bandinha: ele, claro, não revela, mas sei que ele curte dar a bunda. Já vi o Ferreira se esfregando com um sujeito peludo, numa quebrada de Taguá. Ele não sabe que eu sei e eu finjo que não sei. Afinal, é um profissional dedicado, o pederasta do Ferreira, por isso o aceito como parceiro. E na hora que o caldo engrossa, ele não faz feio e desce o cacete. Sujeito íntegro e macho, o viado do Ferreira.

Como também o é meu amigo Oswaldo, quem muito gentilmente não nos cobra qualquer pagamento pela refeição. Despeço-me e advirto que estou sempre nas redondezas; se precisar, é só ligar. À saída, dou um cascudinho carinhoso no menino que fica na porta: - E aí, pivete, já voltou a estudar? Não te mete com os malas daqui, hein! Não vai fumar maconha! -, e atravesso a rua, a passos esparsos, como os de um fazendeiro. Uma camionete também subiu na calçada e estacionou bem colado à porta da nossa viatura. Eu poderia multá-lo, mas tudo bem; é do filho do Seu Oswaldo e sei que ele não se demora muito almoçando.

Entro pela porta do passageiro já desafivelando o cinto do fardamento a fim de desapertar a pança, e pergunto:

   - Sorvetinho e sesta, Ferreira?

   - Sorvetinho e sesta...

   - A gente pode pegar uns picolés aqui mesmo e encostar ali, no gramado do final da L2 Norte, onde têm aquelas árvores e uma sombrinha legal... Dá pra cochilar ou curtir o lago e tal...

   - É nóis! Liga essa sirene e pisa fundo!...


imagem: joão sassi

sábado, 26 de outubro de 2013

Essa coisa apaixonante chamada Povo


Contra tudo e contra todos, mas a favor da Vida, segue o Povo.
  
Já senti meu peito cheio de paixão por um borracheiro -  Estivinelson - que me deu atenção tal, bela e sincera, que quis levá-lo comigo. Tão trabalhador e, principalmente, inocente, que nem parecia brasileiro, mas suas feições bonitamente mestiças o entregavam por inteiro. Ignorante embora astuto, além de sensível, era um talento desperdiçado, à feição de tantos outros milhões: brasileiros e ladrões. Os amigos do Rei roubam enquanto são dignos de foro especial. Estivinelson não precisa; é honesto. O mundo precisa dessa gente, dessa estirpe.

Já me apaixonei por uma negona – a banguela Sônia – que, ao lado de Gerusa, a Cigana, pedia carona por uma estrada perdida no interior do Goyaz. Ela era uma graça! Eu tô que perguntava daqui do volante e ela tá que respondia do banco de trás. Kalunga descendente de escravos, Sônia se acabava de rir com minha curiosidade: - “Sabe quantos habitantes tem no município?”, e ela; - “Ah, tem muitos... Hahahaha.”. Aí eu dizia - “Tenho uma parente que morou aqui.”, no que ela emendava, - “Conheço, sim! Hahahahaha!” - Tem coisa melhor pro encantamento da paixão que conversa sem sentido e risada desenfreada? Eu olhava pelo retrovisor e só via aquela boca sem dente aberta, numa alegria danada!

Estivinelson, com as mãos sujas de graxa, assoprava o dedão que havia sido atravessado pelos caninos de um pit-bull, na antevéspera: - “O cachorro era dum amigo meu. Tem galho não...”. O dorso da mão apresentava vermelhidão e inchaço, mas não ia ao hospital porque temia ser dispensado do posto de combustíveis onde trabalhava, caso ganhasse uma dispensa médica. Ocorreu dele tapar com esse dedo mordido a saída da mangueira de ar, inflando o danado como num desenho animado. A ferida certamente se inflamaria e sua mão poderia ficar comprometida; - “Em casa eu ponho álcool”, resignava-se...

Sônia teve 13 filhos, todos no mato, sem auxílio qualquer do poder público: - “Criei tudo vivo, na enxada; não perdi nenhum!”. Uns estudaram, outros se mudaram, mas há quem tenha ficado na roça. Sônia se sente feliz, apesar da vida dura, medida a léguas, entre uma caminhada e outra sob o sol forte do Cerrado: - “Hoje a vida tá mió!”. Sônia ri de tudo.

Estivinelson também, quando mostra seus dentes um pouco separados e um brilho raro no olhar. Sai de manhãzinha, de Planaltina de Goiás, para passar o dia todo trabalhando no Plano e recebendo tratamento subumano. Carro após carro, freguês após freguês, tudo o que recebe são ordens cheias de empáfia e pouca autoridade, além de alguma gorjeta. O carro do ano ou o reconhecimento daquela gente não está ao seu alcance, a não ser que banque o subserviente, coisa que não é. Então, para ser gente, estuda à noite, quando volta pro entorno da vida importante. Encarou um policial militar que bancava o valentão na sua rua, sem falar alto, olhando no olho; - “Se vivo fora de casa é porque trabalho e estudo, e não gasto meu tempo falando palavrão na frente da casa dos outros, inda mais fardado!...”. Estivinelson é Povo.

Ao lado de Sônia, Gerusa tentava e não conseguia - queria porque queria entrar na conversa, mas seus dentes banhados a ouro e prata chamavam mais atenção que sua prosa. Além do quê, eu já estava enfeitiçado pelo jeitinho da Sônia.

Na cidade seguinte, despeço-me advertindo que mantenha sempre o olho aberto com esses turistas, pois são todos descarados... Principalmente os de Brasília – só para ela responder com uma última gargalhada!... Vou embora com um sorriso gostoso no rosto, claramente cativado, do mesmo modo que me cativara o Estivinelson.

Ambos me cativam porque carregam uma humildade sincera, além de uma tranqüilidade inspiradora em relação à própria existência; a certeza de se fazer o possível e ir além, em busca de simplesmente viver.

Eu fico pensando quanta gente assim não vive por aí, sem se saber, até morrer...





Esse texto eu dedico a Darcy Ribeiro, Mestre brasileiro que completaria 91 voltas ao redor do Sol nesta data, e também a Lisa Sassi, que continua dando as suas, ainda que em menor número... Parabéns, minha irmã.

foto: joão sassi

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

I feel a little more blue than then

Oh, quão dessemelhante!...
Assim que as portas do turboélice se abriram, Caetano Veloso sentiu um barrufo forte de calor bater contra seu rosto; “Brasil, enfim”! Corriam quase dois anos desde o exílio. Gil ficara em Londres, enquanto ele recebera autorização especial do governo para visita de um mês ao país. Em 1971, a vertente mais violenta e inescrupulosa da Ditadura Brasileira pulsava forte, asfixiando e calando quaisquer que a ousasse contestar.

Mesmo deprimido e temeroso, Caetano fez a viagem; precisava de afeto, carinho e dendê. Tão logo seus pés tocaram o solo pátrio, ali mesmo, no sopé da escada do avião, policiais à paisana o meteram num camburão.  “Puta-que-pariu: saí da Inglaterra para vir ser preso no Brasil!” -, pensou, enquanto se espremia entre alguns soldados, no banco de trás. A linguagem corporal dos milicos destroçava sua estrutura argumentativa, posto que não houvesse palavras, senão silêncio e intimidação física. Deixaram a pista do Aeroporto do Galeão e seguiram rumo ao centro.

Ao passarem pela Avenida Presidente Vargas, o condutor se viu obrigado a diminuir a marcha por conta do tráfego pesado. Era fim de tarde de uma sexta-feira, e o Rio de Janeiro se via iluminado por uma torrente luminosa amarelada, com muita gente correndo pros botecos atrás de um chope e alguma saliência.

Caetano mantinha a fronte baixa, evitando o contato visual com seus sequestradores que tanto o violentava. Um sinal fechado, porém, fez o baiano levantar levemente o olhar, alcançando um grupo que vinha atravessando a avenida, em sua direção – reconheceu neles os rapazes do MPB-4. Caminhavam tranquilamente, confabulando e gargalhando entre si, metidos em roupas leves e violões, tendo seus cabelos e barbas soltos ao vento, trespassados pelo brilho solar da vida. Havia pouco, um par de anos atrás, estavam todos num ritmo frenético de evolução e criatividade artística, participando de festivais musicais e dando cara definitiva à música popular brasileira.

Mas isso foi ontem... Agora, Caetano estava ali, num misto de pânico e alegria, observando, pelo vidro da janela, seus amigos passarem a centímetros dele, sem desconfiar que dentro daquela veraneio jazia um baiano cuja alma suplicava por um simples olhar; um gesto de afeto que lhe desse força para se sustentar... Mas os meninos, enfim, passaram e não o viram. Foram-se.

Caetano chorou por dentro. Sentia um amor imenso por eles em meio a uma tristeza profunda. Sem espaço para indignação, o sinal abriu, o veículo arrancou e a lágrima que se precipitara represou.

Mais de 30 anos depois desse ocorrido, eu cumpria meu tempo de serviço militar obrigatório e, como soldado do exército, estava, a oito de dezembro de 1994, de serviço de guarda no Palácio do Planalto.

Após a ceia, exaustos pela jornada puxada, muitos soldados se atiravam à cama ou se jogavam pelo chão do alojamento, buscando um mínimo de descanso, enquanto outros aguardavam pela hora da troca da guarda jogando Damas ou papeando. O Palácio disponibilizava uma pequena televisão para entretenimento daqueles valorosos homens – uma exceção à regra –, e todos puderam acompanhar as notícias do Brasil e do mundo quando um tenente ligou o aparelho para assistir o Jornal Nacional: - Já vou avisando; se tiver bagunça, vou desligar e vai todo mundo fazer faxina! - ameaçou. A tropa se sentou calada e pôs-se a usufruir do melodioso timbre da voz de Cid Moreira, amortizada.

De repente, uma notícia espantosa é dada: - “Morre Tom Jobim, inventor da Bossa Nova, após se submeter a uma cirurgia, em Nova Iorque”... – disse o Cid. A tragédia anunciada, contudo, não surtiu qualquer efeito no alojamento, enquanto meu corpo se convulsionava e eu buscava amparo no olhar de alguém, sem encontrar eco.

Na tela é exibido um momento em que Caetano interrompe um show em São Paulo e começa a chorar a perda irreparável do ilustre maestro brasileiro. Todos assistiam àquilo tudo e não esboçavam reação, mantendo-se indiferentes, havendo até mesmo quem fosse insolente: “Esse Caetano Veloso puxa um fumo forte”, presepou alguém, ocultamente. Não havia drama no ar. Era um espaço vazio sem conexão com a realidade do Brasil. Decerto porque em sua profunda ignorância e alienação coletiva, desconheciam por completo o Tom, a Bossa e a palhoça.

Quanto a mim, tinha a exata dimensão do momento trágico que acabara de se abater sobre todos – incluso sobre os que o ignoravam, mas que jamais seriam ignorados pelo alcance de sua arte genialmente brasileira; eu sabia o que ele representava, o que me doía profundamente. E do mesmo modo que, mais de 30 anos antes, Caetano asfixiara suas emoções em meio à hostilidade dos militares e à própria dor, eu também chorei por dentro, calado. Até que a lágrima me escapou. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Os Demônios do Sargento Lustosa

"Se queres a Paz, prepara-te para a Guerra" -  é o mantra do Lustosa.
Vinham, naquele fim de tarde, pelas trilhas que margeiam o Lago Paranoá, à procura de uma praiazinha - um lugar para orar. À frente, Afonso puxava os cantos, prontamente acatados pelos companheiros de caminhada.

Eram coisa de seis ou sete rapazes, todos de aparência rústica; roupas feitas de pano cru, e barba e cabelos amarfanhados. Traziam violões e tambores, além de um olhar franciscano perfeitamente harmonizado às alpercatas de couro que calçavam. Na rabeira da fila, Tatiana, uma negona com olhos de noite e a cabeça ornamentada por longos dreads, os seguia em silêncio, mas igualmente inserida à atmosfera ritualística daquela pequena procissão. Iam num passo lento, ao mesmo ritmo do belo lilás-alaranjado que surgia a partir do horizonte, combinando num vívido ocaso, típico evento do Cerrado.

Um ronco longínquo e intercalado se fez ouvir, como o do motor de uma lancha ou moto-serra, mas que logo cessou. Nesse instante, aconchegaram-se numa rodinha feita em torno de um lençol branco, estendido por Tatiana de modo um tanto solene. Enquanto os demais se acomodavam com seus instrumentos, ela, como uma sacerdotisa, dispunha sobre a alvura do pano uma..., duas..., três verdes mãos, cheias de erva-do-norte; maconha da boa, plantada por eles na comunidade em que viviam.

É ela também quem prepara uma primeira tchara, no embalo produzido pelo som da afinação da rapaziada. Fazem algumas preces e dão início aos trabalhos, burni’n it on fire. Logo à primeira baforada, porém, o barulho do motor reaparece, rasgando o ar abruptamente (e agora bem próximo a eles). Nada de lancha ou moto-serra, senão um grupo de motoqueiros da polícia militar: – “Todo mundo parado! A casa caiu!” -, gritou um deles, mais exaltado, e que parecia estar no comando da operação. Atônito, o bando maltrapilho sequer esboçou reação ou tentou malocar o flagrante.

   - Todo mundo com a mãozinha na cabeça, porra!... Dá essa merda, aqui! - berrou, arrancando o baseado das mãos de Tatiana. - Olha só o tamanho desse charuto! E essa montanha de fumo aqui?!... Vão dar festinha? Bando de maconheiro safado!... Vai todo mundo pra DP!

Aquela luz calorosa que inundava o céu de poesia, ora se dissipara por completo, dando lugar a um sinistro lusco-fusco, cheio de faróis, contraluz e silhuetas confusas de policiais grosseiros. A atmosfera de harmonia dera lugar ao tipo de ambiente opressivo que tanto cativa os toscos homens-da-lei, com muita gritaria e humilhação: - Olha pro cabelo dessas porras! – dizia outro – Deve ser puro piolho! Tira essa touca, rapá!!!

   - Ô, cabo, dá um güenta nesses malas; e passa a bolsa dessa cidadã pra cá que eu quero ver o que tem aí dentro! Com um monte negão do lado, só pode ser piranha, essa guria!... – era o Sargento Lustosa dando ordens.

Ouvindo mais essa ofensa, Afonso olhou firme para os olhos do sargento que, confrontado no momento em que esperava submissão, vacilou, interrompendo a gritaria e autorizando, involuntariamente, a fala do crioulo:

   - Ela não é piranha; é nossa irmã, como todos aqui são irmãos... Inclusive o senhor.

    Pego de surpresa pela essência do discurso, Lustosa reagiu:

   - Cuidado com o que fala,“alemão”, pois eu não sou irmão de maconheiro safado, muito menos de bandido!

   - A gente é maconheiro, sim, mas não tem nenhum safado ou bandido aqui, não. Tudo o que a gente consome é fruto do nosso trabalho e da nossa fé...

   - E lá maconheiro tem fé, alemão? Cê cala essa boca que religião é coisa sagrada e cês são tudo vagabundo e pecador! Não tavam aqui fumando maconha? E maconha não é coisa de bandido? Então para de falar merda, cabeludo! – ameaçou, acariciando o coldre do 38 que carregava na cintura, mas logo voltando a se ocupar da bolsa.

Ao abri-la, porém, o sargento Lustosa, evangélico fervoroso, novamente hesitou. Sob a camada de fumo que ainda restava, o militar reconheceu uma Bíblia Sagrada. Por um instante, ficou sem entender nada, mas logo se voltou para Anselmo, furiosamente:

 - O que é que isso tá fazendo aqui, cidadão? Tão fumando a Bíblia, seus putos? Se vocês tiverem queimando fumo com a Palavra do Senhor... Se tiver faltando uma única página dessa Bíblia... Aí, vocês vão ter problemas graves, senhores... Vou apresentar o Inferno pra vocês... – dizia, pausadamente, enquanto folheava o livro sagrado. Mas não faltava nada; tava tudo lá, salmo por salmo, versículo por versículo.

   - Como eu tava dizendo, senhor, a gente tá falando de fé, – completou Anselmo -, e pra nós, fumar maconha não é pecado; pelo contrário, nos aproxima de Jah, nosso Deus. E como a gente sabe que a sociedade não aceita, a gente vem aqui pra longe para não incomodar ninguém.

   - Não fala besteira - reagiu o sargento -, que não tem essa merda de “nosso Deus”; Ele é único! Maconha não tem nada a ver com Deus! E, além de crime previsto em Lei, é pecado!

   - Crime pela lei dos homens, mas sagrado aos olhos de Jah – prosseguiu o rapaz -, e mesmo sendo considerado pecado por muitos cristãos, em Colossenses 3:13, está escrito: “Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor os perdoou.” – sentenciou, para perplexidade dos policiais. Portanto, para nós, ela é sagrada e nos aproxima de Jah... É um instrumento de fortalecimento da espiritualidade Rastafári, que é a nossa religião.

   - Eles tão falando da seita do Bob Marley, sargento: aquele maconheiro americano que canta régui...  – informou um soldado. O comentário não passou despercebido pelo grupo, e todos deixaram escapar o riso represado.

A descontração fora de hora desarmou ainda mais o espevitado Sargento Lustosa, que sentia sua autoridade moral e policial se diluir em meio às contradições que vivenciava. Para fugir à prostração, argüiu, subitamente:

   - E esses instrumentos de macumbeiros? E toda essa massa? Cadê a birita?– disse, apontando para a montanha de erva que contrastava com o pano branco. – Isso por acaso é coisa de gente cristã? Pra mim isso é coisa de traficante!

   - É nossa forma de comunhão, senhor: buscamos um local em meio à natureza para celebrar a vida, compondo músicas de louvor ao nosso Deus e às boas energias do mundo. Não consumimos bebidas alcoólicas e não queremos incomodar ninguém. Trazemos a Bíblia porque nos serve de eterna fonte de inspiração.

Sentindo-se censurado pela acuidade do rapaz, Lustosa contra-atacou entoando um tom ameaçador ao desafiá-los a cantar “uma música sagrada”: - Quero ver se é coisa de Deus, mesmo... Ô, Sidicley, baixa esse rádio seu aí pra gente escutar esses moleques fazendo uma graça! – ordenou com o braço, num gestual fascista. Reza, aí, cabeludo!

Anselmo olhou para Tatiana que até ali, como os demais, permanecera em total e cabisbaixo silêncio. Quando ela abriu a boca, transformando o discurso em melodia, o sargento ficou desconcertado com a beleza de suas palavras. Acompanhada pelos meninos, Tatiana falava da alegria e do júbilo de se fazer o Bem ao próximo como o caminho para honrar a existência humana e a Glória do Senhor na Terra.

Acostumado a maltratar usuários de maconha que freqüentavam aquelas paragens, o empedernido Lustosa se via numa situação original e contraditória, na qual o impulso de sentar a borracha naqueles marginais era, agora, substituído (ou ao menos confundido) pelo de se apiedar e não somente perdoá-los, mas de juntar-se a eles em perfeita comunhão, posto que fossem exemplos de bons cristãos!... Ou não?

Incrédulos, os demais policiais se entreolhavam sem saber exatamente o que fazer, já completamente sem espaço na cena. Notando a desmoralização total da patrulha, o comandante resolveu agir, interrompendo abruptamente a cantoria: - Tá bom, tá bom!... Já deu! Basta! – gritou, calando a todos e fazendo sinal para que seus homens montassem às motos. Fez roncar o motor e saiu em disparada, acompanhado por toda a tropa – mas não sem antes confiscar a tal erva-do-norte e deixar uma palavra amiga: - E da próxima vez, tratem de procurar uma Igreja!

  


foto: joão sassi












sábado, 18 de maio de 2013

O PT dos placebos, das poções mágicas e das revelações bombásticas

Para Marina e Heloísa, amizade e respeito são conceitos suprapartidários.

Cada um tem o direito de interpretar o mundo à sua feição e desejo. É como uma fotografia sobre o mesmo tema tirada por várias pessoas; serão todas diferentes, impregnadas pela subjetividade de cada qual, o que envolverá ângulo, distância e cálculo da luz, além de outras nuances mais que transformarão cada imagem em algo ímpar.

Assim costumam ser as interpretações políticas no Brasil quando, inspirados por ideologias distintas, cada qual vê o contexto nacional à sua moda. O que para uns é realização, para outros é retrocesso. O que para uns é necessário, para outros é supérfluo. E o que nasce como debate, logo se torna embate, dada a lógica democrática em voga.

O que vi na fala de Marina Silva, em Pernambuco, não foi nada capcioso ou de fino cálculo político, como li por aí, mas uma defesa pura e simples da fé que ela professa, e em nenhuma instância ao desequilibrado do Feliciano. Tem proliferado a produção de artigos críticos a Marina (essencialmente escritos por petistas), e percebo, com desalento, a onipresença da calúnia e da difamação - exatamente como faziam os latifundiários mais reacionários do Brasil, em sua terra natal (o Acre), tachando-a de "comunista" e macaca para baixo, em letras graúdas e hachuradas, em jornalecos locais, financiados por assassinos.

Hoje, em contrapartida, leio eminências intelectuais como, por exemplo, nosso colega cientista social Emir Sader escrever estultices sobre Marina, com a maior desenvoltura, em seus aclamados artigos políticos - ele se dá ao trabalho até mesmo de retuitar textos críticos a ela. E vejo também uma beligerância ultrapassada no "debate" proposto pelo PT, bem ao estilo George Bush: - Ou estão comigo ou são burgueses neoliberais a serviço do capitalismo e do mercado financeiro internacional... Um discursinho já meio anacrônico; defasado, por assim dizer. O dualismo causa guerras com mais facilidade. Já era hora disso estar entendido.

Escrever que a Marina "mudou de lado", sendo que ela foi fidelíssima ao Lula até ser atacada pelas costas, tendo que engolir o cego em tiroteio do Mangabeira Unger para coordenar uma área (Plano Amazônia Sustentável) da qual o cara não entendia picas, desabonando toda a luta e todo o conhecimento que ela tem foi demais! Não custa lembrar que ela era o "selo verde" do Governo Lula, e que, em toda a Esplanada, só contava com o apoio do Rosseto (Desenvolvimento Agrário) e do Gil(!) nas reuniões ministeriais, enquanto o resto da patota (futura presidenta Dilma inclusive) caía de pau nos projetos do MMA com o surrado argumento desenvolvimentista. Marina tomou muita porrada ali e só conseguia alguma conquista ao custo de sua habilidade política. E quando saiu - não foi demitida; saiu pela porta da frente, dando entrevista coletiva para a imprensa nacional e estrangeira -, o fez para forçar o Governo a cumprir com as promessas da agenda ambiental - algo que não me parece característico de nenhuma "ambiciosa" ou "vendida" ou “ególatra” ou “traíra".

Aliás, ela só virou traíra na boca da militância petista, de uma hora para outra, por se recusar a rezar o Pai-Nosso que era ensinado (pensamento único). Dali em diante, virou a Judas da Esquerda, exatamente como a companheira e amiga Heloísa Helena, expulsa do partido por não abandonar uma bandeira histórica (remembering: votou contra as reformas da Previdência e Tributária propostas pela base governista e endossadas pelo FMI e que, ao fim e ao cabo, não reformavam nada).

Em outras palavras, se o projeto de governo (ou de poder, que seja) do PT significa um discurso freqüentemente ultrapassado, totalitarista e mentiroso, eu não posso endossá-lo. Ser de esquerda, para mim, definitivamente não é isso. Esse policiamento ideológico do PT em cima da Marina, aliás, está enchendo o saco. Acusações de que ela está a serviço do Serra, do PSDB ou das ONGs internacionais, então... Que discursinho! Não vê o vexame de ficar procurando migalhas, quando há muito mais com o que se preocupar? Intriga-me essa coisa do PT manter tão próximo assim, pessoas da estirpe de um Temer, de um Renan, Sarney, de um Jáder Barbalho, um Collor, um Jucá, um Blairo Maggi, Henrique Alves e que tais. E mesmo com tanta “gente boa na varanda”, a turma do Planalto insiste em se preocupar em policiar a Marina – a Marina!?!? – produzindo “manchetes bombásticas” que aniquilem a reputação da ambientalista, culminando no vexatório episódio ocorrido em Pernambuco, quando “encontraram” razões para celebrar, com esquisita e notória euforia, a “confissão de Marina”.

Lembra-me até certa passagem engraçada de uma história do Asterix - o gaulês. Um legionário romano, após tomar uma falsa poção mágica, tenta inutilmente erguer enormes rochas para testar sua força, até que, apelando a pedras cada vez menores, ergue um pedregulho mequetrefe e exalta, algo impressionado com o próprio feito: "Sou o Superman!!!". A reação da vigilância do PT atrás de "revelações" que indiquem a "grande farsa" que Marina seria me parece idêntica, só que bem menos engraçada.


foto: joão sassi

sexta-feira, 29 de março de 2013

Luta de Classes


E um isquerinho pra nóis, o senhor teria, Doutor?

Ao meio-dia, o consultor caminhava satisfeito e pernóstico pela calçada do luxuoso bairro onde morava desde há um ano, quando tomara posse numa agência do governo. Respirava profundamente um ar que lhe parecia mais puro e levemente aromatizado por aquelas bandas. Segundo ele, não se mudara por ostentação, senão porque talvez soasse “mais condizente” com seu atual cargo uma residência “mais digna”. Dizia que se tornaria alvo de inveja da vizinhança a qual pertencera até então, caso permanecesse vivendo no subúrbio.

Lá, ainda um jovem trabalhador, fizera parte da associação de moradores do bairro onde morava, quando se sindicalizara , metalúrgico que era, participando das históricas greves do ABC, tendo até mesmo se filiado ao Partido dos Trabalhadores. Pôde, inclusive, conhecer o futuro presidente: - O Lula ficou puto comigo porque espalharam no sindicato o boato de que eu comi a namorada dele enquanto ele esteve preso, mas isso não é verdade! – relembra, achando graça pelo fato nunca haver sido comprovado.

Na verdade, ele havia se deitado com a mulher de outro colega, e é provável que este, por ocupar funções menos relevantes na hierarquia do sindicato, tenha se saído com essa como meio de desforra, alardeando por aí que o carismático barbudo teria sido feito corno por um tal Chico Piróla. É de se imaginar que, por esta razão, o suposto corneado haja disseminado um novo apelido para o garanhão, e o pessoal do sindicato passasse a chamá-lo, maldosamente, de “Chico Pirrôla” pelos corredores. Sem ambiente, sem moral e se sentindo acuado pela antiga companheirada, não viu solução que não a de aceitar um plano de demissão voluntária, abandonando a luta de classes.

Com o pecúlio obtido, empenhou-se nos estudos com a idéia fixa de arranjar emprego no Governo - mais seguro e cheio de regalias. A obstinação lhe supriu a inteligência mediana, de modo que, feita uma faculdade, agora, enfim, Francisco Pirólla (assim, com dois “éles”, como ele passou a assinar) era funcionário público; havia triunfado em sua luta, ainda que em causa própria!

Contudo, todos esses pensamentos agora lhe pareciam longínquos, perdidos na poeira do tempo, ao passo que em seu novo caminho, Pirólla desfila e vê seu próprio reflexo projetado da vitrina espelhada de um grande banco. Ele enverga um terno caro de tecido escuro e riscado, ainda que o sol esteja a pino. Os sapatos produzem um ruído sóbrio e um brilho pretensamente aristocrático. Os cabelos ondulados amassados de lado e óculos escuros à La Waldick Soriano terminam de compor o personagem. “A putada no Piauí nem sonha...”, regozija-se, planejando uma volta triunfal a Barro Duro, com carro vermelho do ano e correntes de ouro no pescoço, ao mesmo tempo em que sente falta de um chapéu.

Em seu atual emprego, sente vergonha de dizer aos colegas de onde vem, preferindo contar que é descendente de italianos (?), e que seu avô, à época da II Guerra, mudara o nome de Francesco Berolla para Francisco Piróla, a fim de evitar a perseguição política. Seu nome, portanto, “é uma continuação daquela linhagem”, como adorava dizer. Não acreditavam, mas fazer o quê?

Da fábrica não trouxera amigos. Dos que havia tido na infância, abandonara-os à lembrança. Aos colegas de repartição, era apenas o clown. E quanto aos condôminos com os quais dividia a garagem, não estabelecera qualquer comunicação. Os familiares semi-esquecidos em Barro Duro mereciam sua atenção por meio de um telefonema ou outro, mas nem desconfiavam do seu sucesso e não recebiam quaisquer dos dividendos por ele obtidos. Mesmo assim, solitário, fazia questão de exalar satisfação com a nova vida boa e sentia que o país todo ia muito bem.

Sentia-se vitorioso e chegava mesmo a cumprimentar os transeuntes que por ele passavam em sentido contrário. Com esse sorriso redentor no rosto, deu de frente com um mendigo prostrado à entrada do mercado a que se dirigia. Deteve-se, surpreso pelo contraste, mas não mudou a expressão de contentamento. Ao contrário, puxou conversa:

   - Mas que dia bonito, hein, irmão? – exclamou.

   - O senhor tem alguma moeda para me ajudar? – rouquejou aquele que lhe parecia um descendente direto de escravos, tal a secura de seus traços na pele.

   - Mas é claro! Ora, se não... – brincou Pirólla, buscando na carteira de couro de cobra os centavos inúteis. Havia muitos deles, o que o deixou mais satisfeito ainda. – Tome, fique com todas! – ofertou, estendendo a mão e fazendo cair muitas moedas quase sem valor na palma da mão do mendicante, que estava imunda. “É preciso fazer alguma coisa por esta gente”, pensou, enquanto se afastava, entrando no estabelecimento.

Tendo poucas necessidades, visto que continuava solteiro e fazia todas as refeições em restaurantes da moda, fixou-se em futilidades. Comprou um chocolate importado para uma namorada, além de prosciutto crudo (para essa mesma namorada) e mortadela com pimenta, que ele adorava. Por fim, comprou uma garrafa de espumante para ela e uma caixa de cervejas americanas em lata para si. Já no caixa, por pura curiosidade, esticou o braço e alcançou uma garrafa de suco de tomate: “Nunca tomei uma merda dessas... Dá pra comprar umas cinco latinhas de cerveja, no mínimo!”, refletiu, enquanto a moça lhe perguntava: - Vai o suco também, senhor?

Saiu assoviando de prazer, mas novamente confrontou-se, involuntariamente, com o maltrapilho que continuava jogado no chão quente, com cara de fome, cozinhando sob o sol inclemente. Dessa feita tentou disfarçar, mas o mendigo já o havia fitado nos olhos. Lembrou imediatamente que tinha pensado em comprar alguma coisa de comer para dar ao miserável, mas esqueceu-se por completo. É o tipo de indignação que ele finge ter, mas pela qual não luta e tampouco se ocupa; um pensamento furtivo que se perde dois passos adiante. Em seu íntimo, porém, sente-se bem por ao menos haver pensado naquilo.

Naquele instante, contudo, com seus chocolatinhos e mortadelas, ele fica sem-graça e se sente na obrigação de expor a nobreza de sua alma. Abre então a caixa de cervejas e puxa uma latinha para oferecê-la ao pobre coitado: - Pois muito bem!... – emendou – aí tens uma biritinha!... Está “um pouco” quente, talvez... Mas é americana; é das melhores! – e seguiu, o Pirólla, assoviando a música da parte em que havia parado.


foto: joão sassi







quinta-feira, 7 de março de 2013

A Angústia de Oscar

Eis que surge, Brasília!!! Agora só faltam as pessoas...




 É noite. Sentado onde estou, daqui vejo a Pétala do Niemeyer pelo quadrado vago da janela. Isolada em seu horizonte e rodeada de breu, aparenta-se mais a um foguete prestes a ser lançado que propriamente à bela Flor do Cerrado. É mais uma invencionice do velho Oscar que Brasília – esta cidade estranha – recebeu como legado.

Com que finalidade a cidade tenha sido construída, isso já sei. Que as profecias tenham se concretizado quanto ao seu pertencimento ao povo brasileiro, nem tanto. Afinal, onde é que este ser - o brasiliense - se sente amado, aconchegado e bem-recebido em sua própria cidade? E o que Niemeyer tem a ver com isso?

Após um início virtuoso, com meia-dúzia de belos palácios construídos, começamos a estranhar a obra do genial arquiteto por conta daquele espaço todo vazio da Praça dos Três Poderes; tudo muito duro e seco; agreste, por assim dizer. Quer dizer, não havia - fora o pipoqueiro foragido sob a sombra do cabeção do JK - qualquer ambiente de carinho ou acolhimento ao visitante, que se sentia meio pateta ali, naquele mundão de pedras portuguesas carregadas de ofuscante brancura e calor. É pouco dizer que, nesse caso, Lúcio Costa muito colaborou.

Aí veio a pomba da paz do Panteão da Pátria. Foi aplaudidíssima – afinal, “é do Niemeyer!” –, mesmo que, aparentemente, gastar combustível tenha sido sua única serventia durante anos, até que um’alm’arguta tivesse a brilhante ideia de substituir o fogo por luz. Ficou menos glamoureuse, mas também menos custeuse ao erário. Antes dos tempos bicudos chegarem, quando se podia andar por aí, a pomba, além de queimar gás, era tida por expertises como local apropriado à queima de fumo e de álcool, sendo sólida base a piteiros e bebedeiros em noites de luar. Hoje, no entanto, não se pode dar bandeira por aquelas bandas da praça, pois há bandidos em todo ao redor – por mais belas que sejam as vidraças dos palácios, seus subterrâneos estão sempre imundos; é de dar dó.

Após um hiato de vacas magras, sublevou-se meio$$$ para a construção de um complexo cultural formado por uma biblioteca-fantasma e um fornão de pizza (de nome museu) em constante descascamento e bronzeamento cerradino, cujos arrabaldes, a exemplo da Praça dos Três Poderes, nada tem de convidativo ao público que por ali se aventura. São ambos um deserto feito de nada e concreto, sem que isso signifique, pelo menos, um estacionamento decente.

Não parece ser este, aliás, o problema da recém-inaugurada Pétala. Ali, antes mesmo de desfolhá-la, o visitante poderá desfrutar de amplíssimo estacionamento em massa asfáltica de discutível qualidade – e nada mais! A reboque da lógica presente nos monumentos anteriormente citados, a Flor do Niemeyer fica num vazio profundamente brasiliense. Daí o desavisado se perguntar, “será que o homem que criou essas coisas era depressivo, coitado?” – mero reflexo do isolamento encarnado nas obras do arquiteto come-quieto.

Mas sendo assim, um hedonista dileto, óbvio não ser o caso de viver em depressão; claro que não! Todos sabem o quanto gostava de viver ou o quanto admirava as mulheres, essas provedoras de curvas e bem-estar que tanto inspiraram o jovem Oscar. Sua angústia certamente era bem outra... Mas qual? Qual a angústia de Oscar? O que o incomodava tanto que tanto me incomoda?

Incomoda saber que nossos grandes monumentos sejam tão a nossa cara, tão Brasília. São distantes, frios (apesar de quentes) e silenciosos, como se Oscar, pelas tortas vias de um comunismo distorcido, não aceitasse abrir mão do tom solene que os duros anos de chumbo perpetraram na alma da capital, criando espaços públicos não frequentados pelo público.

Não era meu intento espinafrar o velho mestre, mas minha cidade está precisando de calor humano. As caras e ainda pouco desfrutadas homenagens parecem, cada vez mais, sedimentar esse isolamento que faz o coração do brasiliense cada vez mais carente de sentimento.

PS: Essa é uma obra de ficção e todos os relatos aqui contidos são invencionices maltrapilhas. Na verdade, eu nem sei se o Niemeyer era esse mulherengo todo.


foto: joão sassi
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Memel é Foda

direitos reservado
Memel, em sua primeira aparição, demonstra todo seu espanto; não foi um mar-de-rosas.

Foi por vias tortas que ela veio parar por aqui. Dessas que nascem não se sabe exatamente como, quando, onde e por que, mas nascem, e que logo foi encontrada por dois irmãos que saracoteavam por aí, miando debaixo de algum carro. Era pequenininha. Nascera, sei lá, há duas semanas, se tanto, e as crianças se encantaram.

Levaram-na imediatamente para casa. Claro que a mãe enxotou a gatonfinha. Duas crianças e uma gatinha linda; que situação. Sem nem dizer mais nada, largou a infeliz com o porteiro, que agora, além de cuidar de uma caixa de sapatos com um gato dentro e eventualmente abrir portas, teria ainda de vigiar o estacionamento, carregar compras, levar o guarda-chuva para a senhora, cortar a grama defronte ao edifício, passar o rodo pelo prédio, resolver pepinos, e bajular o babaca do bloco por ignorância, complexo de inferioridade ou pobreza de espírito. Claro que ele não tardaria a passar a bichana adiante. Esse insensível não deve nem ter aberto a caixa.

O primeiro interfone que o cara tocou, sabedor que era do histórico dos moradores, e ela acabava de ganhar um novo lar. Quando chegou, era - como ainda é - a menor dentre cinco, a coisinha. Imagine se não sofreu na mão das outras. Fazer o quê? É a lei dos bichos, tal como é a nossa. Os baixinhos sempre se fodem, o que só muda quando ficam ricos, famosos ou inteligentes; do contrário, pancada neles. Ela teria de esbanjar muita simpatia para se criar “no meio da vagabundagem”. Passados alguns meses, parece que está conseguindo. E como é esperta, meu deus!

Antes de sua chegada, as demais já estavam entrando numas, acatando certas leis naturais artificialmente impostas pelos donos do lar, que se julgam soberanos. A disputa é árdua; neguinho(a) é folgado que dói, então há que se fazer manter o respeito – vide D2. Mas aí aparece esta criatura, ignorando toda e qualquer norma anteriormente existente, e numa doçura que não dá para crer, faz o que bem e mal entende.  Ela é inacreditável. E nem sabe que é linda assim.

Desrespeita todos os limites com naturalidade. Quer porque quer se alçar ao ponto mais alto da casa, e geralmente o alcança. As outras, macacas-velhas, observam passiva e tranquilamente. Assistem tudo sem um mio, torcendo para que ela escorregue quando estiver por suplantar a ultima escadinha de CDs empilhados; e o pior é que ela normalmente escorrega, o que faz com que eu, vez ou outra, acorde em plena madrugada - “espero que não tenha sido um dos bons”, penso então, já pegando no sono novamente.

O que marcou a vida das quatro “irmãs” mais velhas, ainda antes da chegada de Memel, foi quando uma delas fez uma manobra infeliz, na vã tentativa de subir no topo de uma antiga geladeira restaurada – um mimo que ornamenta a sala. Ora, ora, os gatos não devem, jamais: 1) entrar no quarto de dormir; 2)subir na pia da cozinha (a não ser quando a casa dorme, naturalmente) e 3)subir na geladeira altona que está cheia de artefatos inadequados para felinos.

Pois deu-se que um desses artefatos, numa dessas noites, fora preenchidos por flores esbeltas, o que chamou tanta atenção que a curiosidade quase mata o gato, literalmente. Era um belíssimo e pesado vaso de cristal – que de tão bonito, nem sei nem se poderia ser chamado de vaso -, mas que mesmo assim, foi ao que ela tentou se agarrar, no desespero de não se estabacar. Pois vieram ao chão, a desastrada, o vaso com flores, água e tudo mais, destruindo, no caminho, um antigo aparelho televisor P&B que, até aquele momento, tinha chances reais de voltar à ativa. Tive de ter uma conversa séria com essa coitada. Ela disse que sentiu muito por isso. E não é que falava sério? Nunca mais se tentou a fazê-lo.

Pois qual não foi minha surpresa esta noite, quando nossa adorável caçulinha astutamente aparece por lá, já quase botando abaixo alguns porta-retratos caríssimos que mamãe mandou buscar em Paris! Descobriu uma brecha do parapeito da janela que ia de encontro, vejam vocês, à parte superior das grades detrás da geladeira, por onde calmamente passou, subindo com facilidade ao campo minado.

Foi repreendida como não deveria, afinal, é apenas uma gatônfia linda, feliz e maravilhosa que, como costuma dizer minha mulher, “somente conheceu o amor, desde o dia que nasceu". Dá uma espécie de remorso, daqueles que mães conscientes sentem quando porventura dão uma palmada no filho pequeno. Pelo menos assim que era lá em casa. Lembro do dia em que minha mãe me deu uma chinelada; depois, ficou meia hora chorando.

Pois Memel, em muito menos tempo que isso, mesmo após uma tremenda broca – da qual pareceu não entender uma única palavras - já estava no meu colo, fazendo dengo. Tão à vontade que, já sonolenta, quando ia se escorregando por entre minhas pernas, fez trabalhar suas presas contra minha carne. É dor pra mais de metro...

Entretanto, com toda a paciência e auto-controle que não tive alguns minutos havia, e também por vê-la aproximar-se sem nenhuma mágoa, como me ensinando como se deve agir, sempre amorosamente, não praguejei para além do pensamento. Ao contrário, fiz com ela se reacomodasse, aninhando-se graciosamente, e fingi que tudo seguia na mais absoluta normalidade.

Memel é foda.


foto: joão sassi

domingo, 20 de janeiro de 2013

Seis da Manhã

Manuel Francisco dos Santos - o Garrincha
Lá fora estava ainda escuro, mas a luz não tardaria a aparecer. Deitado em meu colchonete, escutei a empregada trabalhando na cozinha.


Eram barulhinhos de talheres, xícaras de porcelana e de gordura chiando na frigideira. O dia estava quase nascido e um cheiro de manhã logo se instalaria pela casa. Cuscuz e inhame na manteiga, mingau de tapioca, café com leite e pão na chapa com ovos mexidos.

Eu adorava acordar cedo, principalmente porque estava de férias da escola, veraneando em Salvador com minha família. Tinha passado de ano com certa facilidade. Fazer contas de multiplicação era mais fácil que de divisão, mas o que eu adorava mesmo era fazer “composição”. Agora, porém, na 3ª Série, imaginava que as coisas ficassem mais complicadas.

Em silêncio, alcancei a porta do quarto e, já na sala, olhei para um relojão-cuco barulhento no exato momento em que o passarinho saiu para dar a notícia; seis da manhã. Pelos cantos, em leitos improvisados, espalhados por ali e pelo resto da casa, havia uma pessoa deitada. A morada estava cheia de gente, mas ninguém despertou. Foram seis cucos no vazio.

Entrei na cozinha e vi Hilda, a responsável pelo trabalho pesado da casa. Nascida no interior, ela costumava acordar antes das galinhas. Por mais dura que fosse a labuta, tinha sempre uma expressão de genuína cumplicidade para ofertar. Poucas palavras; sorriso simples. Criada ao pé do fogão, comida era o que ela sabia fazer de melhor na vida: cozinhava como já não se cozinha mais. Seu contato com a realidade era furtivo e dava-se, mormente, à hora em que se recolhia, ao pé do rádio, por onde recebia as notícias da vida. Era uma Macabéia sem par, donzela no mundo até seu último dia.

   _ “Já acordado, minino? Molhou o colchão?”, disse, mostrando os dentes separados, enquanto espremia a laranja fresca, à mão. Não tinha espremedor melhor que aquela mão. Dela, além de suco, saía carinho.

Abri a porta de casa a tempo de ver o sol surgir, dourando as dunas da Lagoa do Abaeté. E logo estava atravessando a rua que ficava a poucos passos da areia. Mingote de criança branca, me aproximei daquela água escura e me sentei. A areia estava fresquinha e era fina como açúcar de confeiteiro. Morria de vontade de pular n’água, mas meu pai dizia que dava doença. Então, eu só molhava os pés.

Procurei com os olhos pelas lavadeiras, sempre conversadeiras ao longo do dia e das margens da lagoa, mas não as encontrei. Nem elas, nem aquele bando de crianças que sempre as acompanhavam. Também não vi nenhum negão de cócoras admirando a imensidão. Meu pai dizia que eles faziam isso – ficar ali, de prontidão – porque tinham sempre um bagulhinho à mão. Eu não sabia o que era, mas devia ser bom, já que dia e noite, tinha sempre um deles vislumbrando a superfície plácida como se estivesse em profunda reflexão.

Não se escutava nada, nenhum ruído, além do cantar de alguns passarinhos escondidos pela vegetação. O sol já começava a subir, mas as águas do Abaeté permaneciam intocadas, como se o dia não houvesse ainda começado. Nem sinal de gente ou coisa alguma. Tudo estava parado, em suspenso, e o único movimento perceptível era do meu indicador, desafiando a areia molhada que fica no ínterim entre o branco das dunas e o coca-cola das águas.

Desenhei no chão um gol, e em seguida uma bola entrando no ângulo. Não tive tempo de desenhar quem a chutou. Nesse instante, alguém tocou meu ombro: -“Hilda disse que você saiu sem tomar café... Vamos lá?”- disse ele, meu pai, erguendo-me pelos sovacos e me colocando sobre seu cangote.

Seguimos em silêncio pela areia, à beira da lagoa, até alcançarmos o cume de uma ladeira que dava na rua de nossa casa. Passando por uma barraquinha de palha que vendia coco aos turistas, ouvia-se pelo radinho de pilha um locutor que alardeava, emocionado, a notícia do dia: - “Acaba de falecer, no Rio de Janeiro, Manuel Francisco dos Santos - mais conhecido como Mané Garrincha –, craque do Botafogo e da Seleção Brasileira! Chora o Brasil inteiro a morte de seu maior ponteiro!”.

Senti que meu pai tomou um baque. Com os olhos marejados, abriu a boca, mas não tinha o que me dizer. Eu sabia que alguma coisa grave havia acontecido. Ele então me olhou e disse: -“Garrincha partiu...”.

Atravessamos a rua em silêncio. De fato, Salvador ainda não acordara. Nem os coqueiros de Itapoã se mexiam. Entrei em casa e percebi que todos ainda dormiam. Na cozinha, Hilda ainda espremia laranjas. E o cuco ainda estava lá, inerte, parado no ar, sem vontade de voltar; marcava as mesmas seis horas da manhã.

Só os passarinhos puderam ser escutados naquele dia. Era 20 de janeiro de 1983 e, desde então, nunca mais se ouviu tantas gargalhadas e risadas pelos estádios. O Brasil perdeu seu ídolo mais brasileiro, e o futebol, sua maior alegria.

Em homenagem à memória de Garrincha e de Hilda Carolina.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Inadimplentes

O Governo cuida do Povo que cuida do Carro que...

Um bebê excitado dá um berro cuja reverberação substitui, ainda que momentaneamente, o torpor coletivo então reinante no amplo galpão. Muitos despertam da cochilada. Poucos se incomodam. A mãe ri, incentiva e provoca o filho a novos gritos.

Passam das oito da manhã. Há dezenas de pessoas diante dezenas de guichês vazios, mas nem sinal daqueles que deveriam ocupá-los a fim de poupar o enfado do cidadão. Três funcionários atendem ao público, enquanto um quarto nos olha com descaso, movimentando-se lentamente pela baia.

Boa parte dos presentes está sonolenta e impaciente. Os mais jovens flertam ininterruptamente com tabletes e celulares. Só os mais velhos parecem saber aguardar; há sinais de que a atual geração não aprendeu a ver o tempo passar, o que os faz encarar a vida como um eterno passatempo.

O bebê, agora cansado, começa a chorar, enquanto sofisticados ruídos eletrônicos cruzam o ar. Além das chamadas e das mensagens enviadas, alguém resolve ainda testar as musiquetas que tocam em seu novo celular.

O sujeito ao lado me olha torto. Parece que não entende que há quem ainda use lápis e papel para escrever. Ele estica o olho e tenta decifrar os estranhos códigos com os quais ornamento a folha virgem. Mas não consegue; minha letra é muito feia. Em todos os meus manuscritos, apenas as duas ou três primeiras linhas tem aparência aceitável, o resto é garrancho.

O quarto funcionário, enfim, assume seu guichê. É uma mulher que, a exemplo de seus pares, parece estar na profissão errada. Antes de dar início aos trabalhos, ela lança um pesado olhar de tédio à sua volta, ampliando-o mais ao longe à medida que gira o pescoço, alcançando até mesmo o último infeliz da fila da senha, quase do lado de fora do galpão. Espero não cair em suas mãos.

Cansado de viver na marginalidade, resolvi regularizar a documentação do meu carro. Além das multas, já são passados quatro anos desde que o adquiri, de segunda mão, e o nome que consta no documento não é o meu. Todas as minhas tentativas de fazê-lo, anteriormente, foram vãs. Sempre há contratempos com o DETRAN. É o tipo de angústia que alimenta o sistema, e quando os homens-da-lei chegam, o prejú é certo.

Uma gostosona espevitada atravessa o salão e todos acompanham sua evolução com solícita atenção – menos eu, que sou casado. Com uma aliança no dedo da mão, tento passar por bom cidadão. Lá onde eu moro, o porteiro me chamava de maloqueiro. Depois que meti esse anel de ouro no dedo, o tratamento passou a ser Senhor Maloqueiro.

Os bancos disponíveis estão já apinhados de gente. O povo, recebido sem qualquer fidalguia, vai se aglomerando à porta da autarquia. Para cada um que é atendido, outros dez se somam ao contingente.

O mesmo cidadão que antes bisbilhotava meus escritos, agora cochicha junto ao sujeito a seu lado: - “Isso aqui é uma bagunça! Só tem funcionário preguiçoso... Já começa mal na recepção; repare no crioulinho que botaram lá para distribuir as senhas; isso é gente?” – diz o homem, apontando para um rapaz bem jovem, um pouco magricela e desengonçado, que atendia solicitamente à turba de contribuintes. Pela ótica desse senhor, seu pecado era o de trazer na pele, no rosto, nas roupas e no corpo a marca da pobreza.

Sobre um decrépito balcão de compensado postado logo atrás dos guichês, três ventiladores embelezam o ambiente enquanto evocam o espírito reinante: estão desligados. O ar-condicionado também não avisa se está vivo ou morto. Olho para cima e percebo um grande rombo no teto. Através dele, vê-se o teto antigo, todo estragado e abandonado. Está apenas escondido pelo feio forro de plástico instalado pelo poder público que, para cuidar do público, usa dinheiro público, para lucros terceirizados, naturalmente. O local é a metáfora da política local: realidade maquiada, mas cheia de furos que permitem que a verdade seja revelada.

Já no fim da manhã perdida, cansado de esperar, ouço uma voz mecânica reproduzir meus números favoritos. Quando você vê sua senha piscar no placar, sente-se como se fora contemplado pela sorte grande! Passei em meio ao povo como um eleito (sabe-se lá para quê).

Após alguns sorrisos e boa vontade da moça que me atendeu, ouço dela uma confissão: -“Tenho pesadelos com este trabalho. Acordo no meio da noite e vejo a cara de todo essas pessoas me olhando raivosamente...”. Ela deixa claro que trabalha em condições desumanas, sofrendo fortes pressões psicológicas. Obviamente a responsabilidade não é dela ou de seus colegas. Salvo a pena que senti, recebo de bom grado as orientações sobre o que fazer para ter minha situação regularizada. Há todo um périplo burocrático ainda por realizar, com idas e vindas a este mesmo lugar.

Saindo de lá, tratei de pagar todas as taxas o mais rápido possível e esperei 24 horas “para o dinheiro cair na conta deles”, e então poder acessar o computador para agendar a vistoria obrigatória. Dei placa, dados, chassis, mas a máquina acusou erro, recusando-se a seguir com o preenchimento do formulário. Tentei inúmeras vezes; nada. Sem esse preenchimento, não recebo o boleto, não pago a transferência, não agendo a vistoria, não viro um cidadão idôneo e respeitável.

Se eu quiser deixar de viver à margem da sociedade, vou ter de voltar ao Departamento de Trânsito para fazer algo que, teoricamente, poderia (e deveria) ser feito de casa. E depois voltar novamente para fazer a tal inspeção.

Enquanto programo o meu dia de amanhã, priorizando esta inesperada incursão, escuto o repórter do noticiário local que, pela TV, anuncia: - “a cidade está cheia de blitz para surpreender os inadimplentes. Cuidado, motorista!”.

Implacável, o sistema apenas ri da desgraça da vida moderna.

E pensar que nos sobraria tanto tempo para a felicidade... 



foto: joão sassi