terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Tempo da Dor


Quando senti a boca latejando, imaginei que o pior estava por vir. Havia mais de um mês o dente se quebrara quando, em vez de pipoca, mastiguei um milho. E eu protelava ao máximo a ida ao dentista.

Passava a língua e sentia a cratera formada. E tinha sempre a preocupação de dar uma boa escovada, como se isso bastasse para manter a casa limpa... Mas quando senti a gengiva pulsando, percebi que minhas festas de fim de ano poderiam ser tenebrosas. Nada como o incômodo e pontiagudo dedo do destino para me fazer caminhar.

A dor, quando não dói tanto, passa a ser muleta. Mas quando é dor doída, vira esteira, pois faz a gente sair do lugar. Assim é nas dores do corpo e da alma; tanto quanto maior o impacto e o sofrimento, maior a possibilidade de evoluir e se transformar.

Tinha também uma outra dorzinha que estava me incomodando já havia mais de ano; esta, no ombro. Mas era dor morosa, intermitente, que não me atinava a fazer coisa alguma. Só me servia de desculpa, e nunca de estímulo. Foram necessários doze meses até que eu fosse ao ortopedista me consultar. E mais um mês até que eu fizesse os exames necessários, e ainda outros dois até que eu os levasse ao doutor para escutar o diagnóstico: Tendinopatia Subescapular no ombro esquerdo. Receituário: antiinflamatório e fisioterapia. – “Não se preocupe, pois é um tratamento revolucionário, extracorpóreo”, disse o homem de branco.

O tempo passou sem que a dor o seguisse, preferindo o aconchego do meu ombro. Junto a mim, além de não ser incomodada, ganhara ainda a companhia da dor do dente quebrado.

Resolvi agir. Marquei a primeira das três sessões e descobri que o tratamento revolucionário era patenteado por um israelense sádico. Afinal, o que dizer de uma máquina que emite choques contundentes durante intermináveis 15 minutos? Não era nada comparado à via-crúcis de Cristo, mas não perdia em nada para um Rambo em mãos vietcongues.

Após a primeira sessão - não vou mentir - deu um alento danado! Fiquei feliz por perceber que as coisas mudam quando nos esforçamos para tal; até meti um sorriso na cara! E resolvi encarar o buraco no dente.

O sorriso logo se transformou em testa franzida ao escutar a avaliação da dentista: “- Ih... Quebrou até a gengiva e esse molar é muito grande; não tem como fazer nova obturação. Vou fazer um canal.”

Enquanto ela falava sobre canais e tais, não percebi o menor remorso em suas palavras. Ao contrário, senti que ela até se excitou com essa possibilidade. Com certeza era daquelas cedeéfes que gostavam de resolver cálculos complicados e que achavam História e Geografia “coisa de aluno vagal”. Era uma mineirinha feiosinha de uns 45 anos – daquelas com cara de quem sente muito prazer; de dia trabalhando; de noite gozando.

Coincidência ou não, foram necessárias três sessões para extirpar até o último nervo de meu ex-sólido molar. Ora estava na cadeira da dentista, entre anestesias e angústias, ora estava na cadeira do fisioterapeuta, entre eletro-choques e enfermeiras sorridentes. O doutor Roberpaulo parecia muito interessado na máquina de tortura israelense, pois olhava para ela com uma doçura que não dispensava às moças. Já na segunda sessão, me elogiou e disse, calmamente, que aumentaria a voltagem: - “Já podemos começar com o 'nível II', pois você resistiu bem!...”, exclamou! “Acho que dá para chegar ao quinto nível ainda hoje!”

- O senhor é de Minas?, perguntei.
- Não, mas fiz minha especialização em Belo horizonte. Nasci em Piracanjuba, no Goiaz...
- Conheço! Próximo a Caldas Novas. Tem uma pracinha bonitinha, com coreto e charrete para os turistas, não é? Ambiente tranqüilo...
- Já foi assim. Hoje tá cheia de maconheiro... Depois que a droga chegou lá, a meninada só que fazê fumaça.
- Normal...

De vez quando, a máquina se irritava e soltava uma carga elétrica duas, ou até três vezes mais potente! Aquilo doía. Dava vontade de bater em alguém, de tanta raiva. Mas o Doutor Roberpaulo olhava para sua máquina com tanto apreço que eu me compadecia e logo esquecia, voltando ao conversê sobre o fumacê.

Pensava em chegar ao fim do ano “novinho”, sem problemas de saúde, reciclado. Mas fatos novos apareceram para enaltecer minha provação.

Era dia de festa, churrasco e bebedeira. Música de qualidade. Pôr do Sol. Fotos lindíssimas de reflexos solares e sombras inebriadas. De repente, o som, o batuque na madeira, a excitação e um maldoso prego de ponta-cabeça na palma da mão. Sangue, decepção.

Hospital, espera, injeção.

Não há de ser nada. Ademais, eu havia de estar preparado e bem disposto para fazer a mudança. Dois amigos, no entanto, não foram suficientes para amainar o peso do fogão – um legítimo Brastemp, 6 bocas, de 35 primaveras. O mal jeito me pegou bem, e minha coluna amanheceu enferma. Logo a dor de alojou entre as costelas e bastava respirar para que eu visse estrelas. Sorte que o antiinflamatório do Doutor Roberval ainda fazia efeito: servia para o ombro bichado, para o dente estragado, para a mão perfurada e, agora, para a coluna entrevada.

Uma dor me fazia esquecer a outra. Mas esta nova, a da costela, me deixava triste, de querer chorar e chamar pela mãe. Logo eu, que sempre adorei dar um espirro gutural, não podia sequer pensar em bocejar! Parecia a seta do demônio rasgando minhas vísceras!

Logo, surgiu a idéia de que poderia ser gazes. O remédio que comprei era gostosinho – de framboesa – e me fez soltar um monte de puns. Mas a dor permaneceu ainda por uma semana. Perdi boas horas de sono por conta dela.

Então, de repente, não mais que de repente. Todas elas sumiram! O dente está restaurado, a mão curada, o ombro recuperado e a costela enjeitada.

Um novo ano se avizinha, e ainda que eu não tenha a mesma empolgação de menino, estou com o espírito renovado. Não somente em 2010, mas em 2000 e sempre, estarei presente; mais contente e resistente. Não por conta do corpo, que padecerá inexoravelmente, mas pela experiência vivida, pelas coisas passadas e aprendidas.

Viver dói, mas é gostoso demais.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Maturidade Invernal

Fazia muito frio. Marcus Paulo, 11 anos, acordava bem cedo para ir à escola. No entanto, mais do que o abandono da cama morna numa gelada manhã de Inverno, o que realmente lhe tirava o humor era Laurinha, sua única irmã, mais nova que ele alguns anos.

Laurinha não tinha nenhuma obrigação em casa, de onde só saía para ir ao Jardim de Infância, à tarde. Ele, ao contrário, teve de assumir inesperadamente o papel de “homenzinho do lar” logo após a morte precoce do pai. Atordoado, via a infância cada vez mais distante.

Ela, por outro lado, divertia-se com as caretas de chateação do irmão que, querendo fugir às suas provocações, apressava-se o máximo que podia, mas nunca o suficiente. Ainda deitada, Laurinha se aninhava junto aos travesseiros e dizia “Isso aqui tá tão quentinho, Paulinho... Vai pra aula, não, bobão!”

Ele não respondia, mas a fuzilava com o olhar ainda sonolento. Sentia saudades de quando era pequenino como ela. De quando a escola era pura brincadeira e ele não tinha qualquer ingerência sobre o próprio destino; sentia saudades de não ter responsabilidades. E pensava, invejoso: “Um dia ela cresce, e aí, vai ver!...”

A rotina dele fora radicalmente alterada. Agora, além de acordar muito cedo, Marcus Paulo tinha uma série de obrigações e tarefas; como lavar a louça, comprar pão e leite, e até mesmo pagar conta de água na lotérica.

Ainda que lhe sobrasse algum tempo para a vagabundagem de outrora, lhe chateava ter que intercalar seus momentos de menino com os de homenzinho. Nada era como antes, e por mais que desejasse, jamais voltaria a ser. Quando menos esperava, lá estava Dona Célia, sua mãe, a dar-lhe uma tarefa inesperada. "Faça por você, por nós e por seu pai, Paulinho", dizia ela, constrangendo o menino.

Naquela manhã, como em todas as outras, saiu apressado e não pode tomar o café que D. Célia deixara sobre a mesa, antes de sair, ainda de madrugada, para o trabalho.
O estômago vazio lhe aumentava não somente o mau-humor, mas também a sensação de frio. Assim que abriu a porta de casa, sentiu a ponta do nariz quase congelar. O vento uivava frio em suas orelhas de abano, o que lhe causou uma insatisfação ainda maior. Quando abriu a boca para dizer um palavrão, produziu fumacinhas que o lembraram da cama, esquecida, ainda quentinha...

Invejou uma vez mais a infância da irmã, trincou os dentes e pôs-se a caminhar. A escola ficava a trinta minutos de sua casa.

Apesar do martírio matinal, Marcus Paulo sempre gostou da paisagem produzida pelo frio. Gostava de ver o céu cinza-escuro, ainda que fosse dia. Gostava das árvores despeladas e enegrecidas, com seus galhos fantasmagóricos, perfiladas pela alameda, como soldados em reverência ao “Grande Líder Paulinho”. E gostava, sobretudo, do clima de placidez que tomava conta da vizinhança; as coisas, assim, “paradas”, eram-lhe mais fáceis de ser reparadas. Não fossem as orelhas de abano, seria o Inverno sua estação preferida!

Enquanto caminhava, deixou para trás o mau-humor, os travesseiros e o cobertos; seus sonhos agora eram outros.

Chegando ao colégio, porém, seguiu rabugento, sem trocar palavras com ninguém. Assim assistiu às aulas do primeiro período; calado e faminto.

Quando olhou para o grande relógio, sobre o quadro-negro, excitou-se; faltavam poucos minutos para a hora do recreio. Não tirou mais os olhos dele. O recreio era criminoso – somente 15 minutos! – e uma eventual perda de tempo poderia lhe custar caro.

A cada volta do ponteiro maior, um sorriso se insinuava em seu rosto. Quando soou a sineta, estava porta afora, zunindo pelos corredores.

Em trinta segundos, era mais um entre dezenas de moleques que se acotovelavam e se esgoelavam em frente à lanchonete, implorando para que uma das duas senhoras que ali atendiam lhe desse alguma atenção. Àquele instante, Marcus Paulo desejou ser maior e mais crescido do que era.

Não havia fila ou ordem; ganhava quem tinha o sovaco mais alto. A única esperança de ser notado requeria um tanto de força e outro tanto de sorte. Em meio aos cotovelos e sovacos mal-cheirosos, viu menino rindo e até chorando. Por fim, alcançou o balcão, sobre o qual se debruçou para então levantar a ficha e gritar, repetidamente: “Um cachorro-quente! Um cachorro–quente! Um cachor...”-, e ser atendido. Então, tudo mais silenciou...

Viu a ficha sendo tomada de sua mão por uma das senhoras, e ela conferindo o carimbo “cachorro-quente”. Viu quando a senhora pegou, de dentro dum cesto, o seu pão já envolto num saquinho plástico. Viu quando ela pegou a faca de serra e fez um corte em sua superfície macia. E quando abriu a tampa da panela de alumínio, deixando escapar uma inebriante quantidade de vapor quente. E também quando deitou a salsicha sobre o pão, finalizando tudo com uma caprichada concha de molho de tomate e cebola. “Tô!” -, disse ela, entregando-o a Paulinho.

Com seu bem mais precioso em mãos, a meta agora era conseguir sair – algo quase tão difícil quanto entrar. De cabeça baixa e o lanche junto ao peito, Marcus Paulo ergueu os cotovelos e saiu chifrando quem encontrasse à sua frente; só assim para lidar com o mundo-cão.

Da lanchonete, escapuliu pela lateral do pátio e desceu um lance de escadas, de onde avistou os pinheiros perfilados que lhe dariam a devida proteção. Caminhando pelo descampado, sentiu novamente o vento abanar suas orelhas, mas logo alcançou a árvore pretendida. Nela, as raízes cresceram a ponto de formarem uma reentrância que a ele servia como barreiras e, ao mesmo tempo, recosto. Ali, Paulinho costumava se aninhar às escondidas, envolto em sonhos e devaneios próprios de quem precisa de um tempo só seu para pensar nas coisas da vida.

Confortavelmente instalado em seu trono, olhou para os lados e não viu ninguém. Resolveu, então, abrir o saquinho plástico de seu lanche. Dali, viu a fumacinha que saía, fazendo com que sentisse a melhor das sensações, além de deixá-lo com a boca cheia d’água...

A primeira mordida era ritualizada, e também a segunda e todas as demais, até a última. Marcus Paulo não sabia, mas a cada mastigada, a cada engolida, sentia o tamanho do prazer que só a maturidade dos seus 11 anos podia lhe conferir. O resto do dia, passou-o felicíssimo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Zizinho - Ao Mestre com Carinho


A campanha no Brasileiro não engrenava de jeito nenhum. O Flamengo alternava jogos ruins com outros ainda piores. A verdade é que, tal como o próprio time, a torcida do Mengo nunca assimilou muito bem a fórmula dos pontos corridos. A Magnética gosta de embates épicos e sofridos, daqueles difíceis de esquecer, para depois poder contar aos filhos e netos, “eu fui!”.

A próxima partida era contra o Grêmio; adversário sempre tinhoso, duro de ganhar. Mas o jogo era no Maracanã, onde o Mengo tem de vencer; obrigação moral, venha jogando bem ou mal. Àquele momento, dos últimos 18 pontos disputados no campeonato, o Fla ganhara apenas 5!

A torcida era toda rubro-negra, e naquele final de tarde, num modorrento sábado de inverno, não mais que 20 mil gatos pingados resolveram dar as caras – um número raquítico, quando se fala na maior torcida do mundo. Gremistas, só uma meia-dúzia de 3 ou 4.

Eu já havia estado no Maracanã anteriormente, mas em partidas decisivas, e sempre contra times do próprio Rio de Janeiro. Mesmo quando tomamos de 5x1 do Asco da Gama, na final da Guanabara de 1999, a experiência fora enriquecida pela rivalidade e pelo colorido das duas torcidas, que cantaram antes, durante e após a peleja, dentro e fora do estádio.

Deste feita, porém, num cenário bem diferente, a esperança era a de que o time se incumbisse de tomar as iniciativas dentro de campo, proporcionando alguma felicidade àquele tão descrente torcedor rubro-negro.

O público estava concentrado no “setor verde”, tradicionalmente ocupado pela Raça Rubro-Negra, maior torcida organizada do Brasil. Ainda que muitos cantos houvessem sido entoados no início da partida, a verdade é que o clima não era de muita festa e o time não acertava nada. À medida que a torcida chiava, mais nossos heróis se desconcentravam, errando passes fáceis ou perdendo gols certos.

Já quando os jogadores voltaram para o segundo tempo, os gritos de estímulo deram lugar a vaias, e depois, a xingamentos contundentes. Os únicos a festejar estavam concentrados numa minúscula área, do outro lado do estádio: eram os tais 3 ou 4 gremistas que, a cada contra-ataque do tricolor gaúcho, tiravam o maior sarro da galera do urubu.

A tarde havia se acabado, e também a nossa paciência. O céu ficou escuro ao mesmo tempo em que uma chuvinha malvada começou a cair sobre nós. Estávamos coletivamente emputecidos!

De repente, um jogador do Grêmio faz falta violenta e é expulso. O fato só piora as coisas pro Mengo, pois a torcida passou a pressionar ainda mais, deixando os jogadores ainda mais atarantados. Aproveitando-se dos ânimos acirrados, os gremistas quase marcaram em dois rápidos contra-ataques, aumentando exponencialmente a ira da galera.

Para piorar, Obina - o Anjo Negro, nosso maior xodó - se joga na área na desesperada tentativa de cavar um pênalti. Resultado: tomou o segundo cartão amarelo e também foi expulso. A torcida enlouqueceu.

Não há pior decepção que aquela alimentada pelo álcool. Eu já havia entornado uns 5 copaços de celveja, sem contar as que foram digeridas antes do pleito. A cada chute mal dado, vinha lá de dentro um arroto cada vez mais azedo, amargo e indigesto. Tinha vontade de invadir o campo e mostrar àquela corja como se chuta uma bola com respeito e carinho, à La Pet, Zico ou Zizinho.

Num momento assim, quando se cria uma sinergia entre os presentes, é comum se virar para o torcedor ao lado e conversar com ele como se da família fosse. É como um grande salão de beleza, com a diferença que o único assunto é a alegria (ou ódio) que se sente. Só não dá para ficar calado. É num momento assim que até a raiva aproxima os homens.

E naquele momento, já com os 45 minutos findados, o ódio fazia de nós bestas raivosas, irmanadas por um processo de sofrimento coletivo que, ao fim e ao cabo, era justificado pela paixão comum a todos nós. Nos sentíamos traídos pela mesma e deliciosa namorada.

E de repente – não mais que de repente -, já nos acréscimos, um lançamento é feito; o goleiro se antecipa ao atacante flamenguista e dá um chutão... E “fura” espetacularmente, deixando a bola rolar, macia, até os pés de “Renato Pelé”, que só tem o trabalho de empurrá-la para o fundo do filó... BUM! Explode o Maracanã!...

A turba, ensandecida, agora é só sorrisos e urros de prazer! A namorada voltou; linda, com carinha de arrependida! A massa se envolve, se abraça e chora, aliviada, extasiada. O que era dor virou pó; o que era amor, só...

Saímos, eu e meus novos 19.999 novos amigos, enlouquecidos pelas galerias do Maraca, num turbilhão afetivo sem precedentes.

Eu, que já segurava o pinto há mais de meia-hora, corri ao banheiro para me aliviar. Segurei o copo com os dentes e, com a cabeça encostada no azulejo, senti o inigualável prazer do mijo contido que finalmente encontrava a porta de acesso aos céus. Sim, o mictório do Maraca era meu céu, e ao meu lado, outros anjinhos, também com a cabeça lhes servindo de apoio, também com o copo entre os dentes, acompanhavam, com grunhidos nasais, o mantra que ainda ecoava das arquibancadas, transmitindo a todos a deliciosa sensação do Paraíso: “Ô,ô,ô,ô,ô – ô ô,ô,ô,ô,ô – ô, que torcida é essa?”

Se num campeonato onde o Flamengo não tinha chance de nada, uma vitória safada foi assim comemorada, não quero nem saber o que será de mim no próximo domingo, contra o mesmo Grêmio, numa final de campeonato... Obrigado, Senhor!!!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Maior Torcida do Mundo

É domingo, e as expectativas são as melhores...

Já ouvi alguém dizer que o melhor mesmo é não ter expectativas, pois tanto maiores serão as decepções. Acho esse papo coisa de gente amargurada; puro cinismo existencial – coisa de quem tem medo da felicidade e do mundo real.

É domingo! É dia para se acordar ao lado de quem se quer. De café gostoso. De banho de cachoeira. De almoçar camarão (e ficar com a pança cheia). De correr pela grama e brincar no Festival de Cultura Brasileira. De beber e ficar doidão para assistir o jogo do Mengão (que, sim, será hexacampeão)! Enfim, é domingo!

Logo cedo, antes mesmo do desjejum, o primeiro entrave surge do chão. Era uma ave – um sabiá – que apareceu por lá. Debatia-se por nada, e não aparentava qualquer dano. Mesmo assim, foi levada ao veterinário para ser analisada. “-É um sabiá; uma fêmea”, revela a roliça atendente. Ficamos na expectativa de que melhorasse, já nos despedindo, retomando o itinerário preparado para aquele domingo.

Na padaria, a mesa. O pedido. O jornal. Perco preciosos minutos tentando localizar a página que me interessa. Mas falta o caderno de esportes – logo o caderno de esportes! Reclamo ao dono, que prontamente “rouba” o suplemento do próximo jornal e me entrega. Algum leitor ficará sem saber dos esportes.

Volto à mesa com o suplemento roubado e dois yakultes que peguei no refrigerador. A nova mania é tomar Yakult. Mas a validade está vencida. Os lactobacilos vivos já haviam morrido há uma semana... Reclamo novamente ao dono, e ele diz que logo trocará os yakultes. Enquanto isso não ocorre, os desavisados que tomem o mórbido coquetel. Começo a duvidar da lisura daquele comerciante.

Quando o pedido chega, já não há tempo para ler o jornal. A falta de sintonia entre meu ritual e o mundo real me deixa um pouco incomodado. Mas a garçonete não tem culpa. Ela apenas está cobrindo a folga da titular. Falta-lhe traquejo, como a todo reserva.

Mas ainda é domingo; ainda é dia. Dia quente, perfeito para um mergulho nas frescas águas de uma cachoeira. E é lá que vai dar nossa trilha...

Mas alguma coisa aconteceu. Pela força das águas, as pedras rolaram e, se não criaram limo, preencheram boa parte do córrego urubulino. O “poção” virou um frustrante “banheirão”. Passo a mão pelo fundo e recolho algumas amostras. Penso em sabotagem, mas parece que foi trabalho da mãe natureza, terra nostra. Tenho de me resignar. É domingo.

Voltamos ao lar. Tempo para amar.

O relaxamento. O sorriso nos lábios. Os corpos deitados, arejados.

O banho renovador. A roupa leve. A fome bem vinda, frutificada pelo amor.

No restaurante não houve surpresas. Aprendemos a dosar a casquinha de caranguejo, a cerveja, o camarão e, por fim, o beijo. Tudo na dose que tinha de ser. As expectativas voltam a crescer. A tarde se enseja. É domingo.

Plenamente satisfeitos, abandonamos os planos originais e buscamos novamente o acolhimento perfeito. Da casa. Do sofá. Do ventilador. Da vodca com guaraná.

Ela, que nem sabia muito o que era futebol, agora adora, e me assiste enquanto eu assisto ao jogo (que nem era nosso, mas do Botafogo!). E diz que eu poderia ser juiz, comentarista ou até jogador.

Um gole. Um gol. Mais goles. Mais gols! Surpresa no Engenhão: Fogão volta a ser Fuderosão! Era uma expectativa que eu nem tinha, mas que me fez correr à janela e, como nos velhos tempos, urrar grosserias ao time derrotado: que la chupen os são-paulinos de plantão! Afinal, é domingo!

Ao cair da tarde tudo estava pronto para que o tão temido fim de domingo se transformasse num irretocável dia lindo. Seria o momento em que todas as agremiações sentiriam uma saudável inveja do que é ser rubro-negro, vendo a alegria - o júbilo! – do mais popular torcedor brasileiro.

Quando o time do Flamengo surgiu na boca do túnel, pisando o sagrado gramado do Maracanã, os 85 mil presentes fazem surgir um monumental mosaico, trazendo uma acachapante mensagem: A MAIOR TORCIDA DO MUNDO FAZ A DIFERENÇA.

Até mesmo os rivais gostariam de ter visto o que teria sido da noite de ontem se os jogadores do Mengo houvessem feito a devida leitura daquela mensagem, suprindo as expectativas de uma Nação que, há 17 anos, não sabe o que é ser campeão brasileiro. Mas não foi bem assim.

A festa ainda é dos outros.

Aos que, por ora, zombam da minha desgraça e também da dor alheia, deixo-lhes, com um sorriso amarelo, um recado singelo:

“Quem me vê sempre parado, distante garante que eu não sei sambar





Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar”

(Chico Buarque)




No dia 6 de dezembro, estarei lá, junto aos meus, numa festa tamanha que quarta-feira de cinzas nenhuma porá fim. Estão todos convidados.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia Nacional da Consciência dos Branquelinhos da Bunda de Geléia


Um desses almofadinhas moralistas que preenchem as manhãs televisivas deste país abre seu programa anunciando que hoje é o Dia Nacional da Consciência Negra, mas avisa que não vai nem falar sobre racismo. Segundo ele, é a mesma coisa que falar de burrice; "nem vale a pena".

Para quem não sofre na pele o preconceito de pele é relativamente fácil dizer uma asneira assim.

Fiquei pensando se toda a gente preta do estúdio onde ele trabalha passasse a tratá-lo por aquele ”Branquelinho da Bunda de Geléia“; aposto que sua noção entre racismo e burrice ganharia novos contornos.

O racismo é fruto da ignorância e do preconceito disseminados, sistematica e triunfalmente, ao longo dos séculos.

Não se trata de uma patologia da pele alheia, mas da própria alma. Desenvolver a consciência sobre essa condição não é tarefa das mais fáceis. Implica em algo muito mais além do simples discernimento entre o certo e o errado, mas numa revisão crítica da nossa própria essência, reformulando profundamente a visão que temos de nós mesmo e do outro.

Não faz muito, num tempo em que eu já era nascido, um desses branquelinhos da bunda de geléia (e que se auto-intitulava Presidente da África do Sul), defendeu o apartheid pronunciando um irretocável sofisma: - "Diferenças existem e devem ser respeitadas! Por isso é que defendemos que os brancos devem continuar a serem tratados como brancos e os negros como negros - que é o que são." Nesse tempo, Nelson Mandela já se encontrava preso numa ilha, condenado à prisão perpétua, enquanto a comunidade internacional se calava - exatamente como o branquelinho mudo da TV.

Sobre Mandela, aliás, reconheço que sabia muito pouco. Não imaginava, por exemplo, que ele fora um brilhante advogado ou um ativo praticante do boxe, e também que era alto, forte e bonito, sendo admirado por todos, à exceção (claro!) dos branquelinhos, que temiam o negão, de quase se cagarem nas calças. Mandela os olhava nos olhos.

Certa vez, foi ao tribunal como advogado de defesa de um rapaz preto acusado de estuprar uma jovem branca. O juízes, promotores e advogados de bunda de geléia não toleravam o olhar altivo de Mandela, e era esperada uma condenação exemplar. Com o efeito, a missão de Nelsinho era inglória: Como travar um debate justo com uma gente eivada de preconceito e orgulhosa do racismo que exibiam como bandeira?

Contrariando as normas de então, solicitou a presença da vítima para que pudesse, ele mesmo, inquiri-la sobre o ocorrido! Não obstante tal "infâmia", o tenaz advogado aproximou-se da pobre moça e, em tom claro, para que todos os presentes pudessem escutar, perguntou-lhe em que condições havia se dado o estupro, e em que momento se dera a penetração. A jovem entrou em pânico.

Afinal, como revelar detalhes tão sórdidos em frente a todos seus familiares e membros de sua casta? Como admitir um ato tão vil e nojento, se somente a idéia de haver sido penetrada por um homem de cor lhe era de tal modo repugnante que faria, dela mesma, uma mulher para sempre condenada moral e fisicamente por sua própria gente?

Por fim, ela negou veementemente a possibilidade de haver sido violentada, pondo fim ao julgamento e dando a liberdade a um criminoso. O desejo de vingança sucumbiu ao ódio que ela mesma carregava em seu DNA. O preconceito dela fora maior que o próprio trauma emocional e da dor que certamente a acompanharia pelo resto da vida.

Mandela, tal como Gandhi, João Cândido ou Zumbi dos Palmares são exemplos lapidais de uma gente que, mesmo sob o tacão da violência, do preconceito e do racismo, ofereceram a inteligência como instrumento de resistência e liberdade.

Ter uma bunda de geléia não é uma escolha nossa; preservar sua cabeça cheia de cocô é. Um dia aprenderemos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Solicitação de Reintegração

Se me perguntarem, “Acreditas nos sentimentos humanos?”, responderei que sim.

Não gosto de normas ou padrões sociais de conduta. Acho-os empobrecedores no tocante à natureza humana, tal qual a concebo; sensual, criativa, libertária! Normas e padrões geralmente são o contrário, tendendo a nivelar tudo ali, pela altura da sola do sapato.

Sou afeito à subjetividade humana posta em forma de improviso, espirituosidade e, principalmente, graça. É desse espaço emocional que precisamos para escapar à mediocridade imposta. É o espaço ideal para a comunicação real, direta, despojada de arroubos civilizatórios que tanto nos limitam e oprimem, normatizando e padronizando nossa existência.

A quebra desse tipo de paradigma está - como tudo nessa vida - na mente de cada indivíduo. Quando desativamos esse sistema dentro de nós, estimulamos o outro a fazer o mesmo, desencadeando uma onda de anarquismo existencial em cadeia.

(...)

Não sei quantas vezes já havia sido desligado ou jubilado da Universidade de Brasília, mas sempre soube que, para o primeiro caso, cabia recurso.

As justificativas sempre eram as mais variadas possíveis, mas se concentravam na figura daquele que era, além de aluno, arrimo de família. Eu mesmo utilizei esse estratagema em minha “estréia”, só porque pagava a conta do condomínio e da luz lá de casa.

Mas a partir da terceira ou quarta vez que a instituição “te desliga”, os argumentos vão se escasseando. Era, pois, esta a minha preocupação quando abri a correspondência da UnB, delicadamente enviada por correio ordinário – o que parecia combinar com um aluno igualmente ordinário.

Se bem tivesse um emprego extenuante, sem hora para começar ou terminar, minhas mãos se recusavam a preencher a solicitação de reintegração com essa argumentação. O motivo? Eu estava apaixonado – platonicamente apaixonado...

Por quase todo um ano não pensei em outra mulher que não nela. Não sentia tanta alegria com um gol do meu time quanto a que sentia ao pronunciar o nome dela. Por quase todo o ano, aliás, não pensei em outra coisa que não nessa mulher. Estudos, trabalhos, todo o resto era resto; minha vida era gasta em pensamentos e esperanças pouco realizáveis. Não que me faltasse vontade, mas a tontinha era refém de um namorado dominador...

Isso tudo escrevi no documento solicitado pela universidade, e entreguei-o, ferido pela paixão não correspondida, mas romanticamente vingado pela nobreza do meu ato. Ali estava a minha verdade.

Algum tempo se passou desde então, até que recebi um telefonema do Departamento de Atendimento ao Aluno. Do outro lado da linha, uma senhora quis confirmar o que acabara de ler: “–O senhor escreveu aqui que... Que estava apaixonado; é isso mesmo?” Diante da minha confirmação, fui convidado para uma entrevista.

Na data marcada, fui recebido em uma sala onde, além da senhora que me convidara, estavam quatro outras moças, aparentemente à toa. Revelaram um ar de expectativa tão logo me apresentei. “–É ele!...”, cochichou uma delas às amigas.

Levantei a sobrancelha, como se não tivesse escutado, e me sentei. A entrevistadora trazia uma pasta com minha documentação, histórico acadêmico e etc, mas retirou apenas a ficha de solicitação de reintegração. Olhou para o papel e para mim, como se pudesse (ou quisesse) conferir a autenticidade do documento, associando-o à minha sorridente pessoa.

- Você escreveu aqui que... Hum... Você trabalha?
- Trabalho. -, respondi.
- Sei, sei... Mas aqui não está escrito que você trabalha...
- Pois é...

Outras duas moças entraram na sala, juntando-se às outras, que acompanhavam tudo em silêncio absoluto. A entrevistadora continuou:

- Mas por que, então, não mencionou que o trabalho poderia estar atrapalhando sua vida acadêmica? Não seria o caso?
- Seria uma mentira.
- ?... Mas não é verdade? Por que, então, seria mentira?
- Por que nem do trabalho eu estava dando conta...
- Não? E por quê?

Olhei para as moças e disse, após uma pausa cafajestosa: “Por que eu estava apaixonado, e quando me apaixono, o mundo não existe para mim...”

Ouviu-se um suspiro coletivo na sala.

Na semana seguinte, recebi a confirmação do meu pedido.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Futuro do País a Nós Pertence


Sentado à mesa da engordurada lanchonete, Horácio Augusto, funcionário público relapso e de rechonchuda forma, delicia-se comendo um "Xis-Tudo", pouco se importando com o molho rosé que a gula faz respingar na camisa.

Bem atento ao bacon, Horácio não percebe a aproximação de um menino sujo e esfarrapado que, coçando o braço, se dirige a ele.

- Com licença, tio... O senhor poderia me comprar um sorvete como aquele ali? - diz a criança, apontando para a desgastada foto de um suntuoso sundae, pendurada na parede da bodega.

Incomodado, tanto pela presença inoportuna do pirralho como pelo seu aspecto desagradável, Horácio lhe direciona um olhar de reprovação. Constrangido, o garoto se afasta, e logo o comilão volta sua atenção ao volumoso sanduíche.

A nova mordida, porém, não teve o mesmo impacto prazeroso que as anteriores. Por instinto, Horácio virou a cabeça em busca do menino, mas não o viu. E sentiu um inusitado incômodo dentro de si por não havê-lo ajudado.

Não era, na verdade, propriamente uma ajuda; e talvez fosse bem mais que isso. Era, senão, a satisfação de um desejo! Fosse uma mera ajuda, pensava, ele haveria pedido dinheiro, e não sorvete. E eu não o ajudei... Quer dizer, não tive vontade de satisfazer seu desejo... Que merda...

Esse raciocínio o incomodou ainda mais. Sentiu-se mesquinho, avarento.

Lembrou de quando era criança, e de como eram saborosamente apreciados os momentos em que podia comer seus doces prediletos. De quando economizava suadas moedas para ir à padaria, onde comprava pirulitos de chiclete, picolés e chocolates, e de como se escondia para não ter de dividi-los com mais ninguém...

Lembrou de como se esgueirava pelos bambuzais, próximo à sua casa, embrenhando-se em seu interior, dando numa clareira natural. E lá, encontrava papelões sobre os quais se deitava, ficando protegido da palha e de seus pelinhos piniquentos. Enquanto se lambuzava com as guloseimas, lia as revistinhas em quadrinhos que ele mesmo escondia por ali, ao passo que era, inconscientemente, adormecido pelo ranger dos bambus e pelo hipnotizante baile de suas copas, balançando ao vento...

Eram instantes mágicos, em que usufruía de total autonomia, desfrutando de “sua” comida, “suas” revistinhas, “seu” espaço; seu tempo, enfim. Lembrou-se de como aquilo lhe dava autoconfiança, empregando à sua volta ao lar uma atmosfera ímpar de reafirmação e construção de sua própria personalidade. E pensou em como teria sido ruim se, em seu mundo infantil, não pudesse nunca ter tido aquele tempo, quando era rei de si mesmo, em como sua vida teria sido mais sem graça e vazia. Por fim, sentiu-se responsável pelo futuro daquela criança suja e miserável.

Com o olhar no vazio, Lembrou-se, da figura que há pouco lhe importunara; dos grandes olhos assustados, do cabelo desgrenhado e da cara suja do menino. E também da camisa frouxa e rasgada, caída pelo ombro, em contraste às palavras delicadas e respeitosas que o garoto utilizou, tendo pedido “licença” e o chamado de “senhor”. Isso o fez sentir-se um desgraçado, pois se tratava obviamente de uma alma pura, e que, se não fosse bem tratada, poderia logo descambar para a vida bandida, tornar-se um pivete, depois marginal!...

À sua volta, alheios à sua angustia, outros clientes comiam, tranquilamente - exatamente como Horácio fazia há poucos minutos. “E ninguém se importa; ninguém dá a mínima!!!... – pensou, indignado. Subitamente, num misto de culpa e benevolência, levantou-se, comprou um enorme sundae de chocolate com caramelo e saiu em busca do menino, porta afora, em direção ao estacionamento.

Nada... Apenas o sol escaldante das duas horas da tarde de um abafado dia de verão. Olhou para um lado e para o outro. Caminhou por entre os carros. Andava como se estivesse sem rumo. Um outro quase o atropela, mas ele ignora, parecendo estar mais preocupado em encontrar o pirralho.

O sundae, derretendo ao sol, começa a escorrer pelas mãos de Horácio; depois pelos braços. Enquanto isso, ele, cada vez mais desesperado, já pensa no pior, e imagina o menino metido num buraco, cheirando cola, fumando crack, a ponto de perder a infância - e tudo por sua culpa, por sua falta de compaixão!!!

Desnorteado, tropeça na calçada; quase cai. Troca o sundae de mãos, limpa o suor da testa, melecando-a de sorvete. Passa a mão na calça, sujando-a também. E pergunta aos transeuntes pelo garoto: - “Não viram uma criança com cara de bom menino?”, indaga aos que passam, sem nem resposta esperar.

Dá toda uma volta no quarteirão e então, começa a sentir cansaço. Esbaforido, recosta-se numa mureta, todo suado e sujo de sorvete, lembrando que já passa da hora de voltar ao trabalho. Mas está ali, todo melado, com aquele pote de sorvete semi-derretido escorregando em sua mão, sem saber o que fazer com ele.

E então, prestes a desistir, já numa última olhada, percebe a presença do moleque, imiscuído entre dois arbustos, com a cabeça entre os joelhos e o olhar fixo no chão – escondido como ele mesmo gostava de fazer.

- Ê! Ô, rapaz! Te procurei por todo o quarteirão! - exclama Horácio, refazendo-se do cansaço e limpando o resto de caramelo que restava em sua testa. O menino levanta a cabeça e olha, desconfiado.

-Eu?

- É claro! Você não quer o sorvete? - diz, oferecendo-lhe aquele caldo doce e derretido.

A criança estica as mãos. Horácio hesita um pouco por conta da sujeira que elas trazem, mas entrega o copo, sorridente. E pergunta pelo seu nome: “Wanderson.” – responde.

- Tome aqui, Wanderson; é de caramelo!... Você gosta?
-Gosto sim... Obrigado – diz, timidamente.
- É, deve ser muito bom mesmo... Mas não vá fazer coisas erradas por aí, certo?...
-Coisa errada?!.. Não, não... – diz ele, jogando instintivamente um pedaço de plástico no chão, sem ao menos tirar os olhos do copo de sorvete.
O gesto, no entanto, causa surpresa em Horácio que, para espanto de Wanderson, solta um berro: “No chão não!!! Tem que jogar no lixo, como é o certo! Tem que fazer sempre o certo, viu?", ensina, afastando-se do moleque.


Enquanto Horácio Augusto caminha, vai refletindo sobre a boa ação que julgara realizar, e filosofa sobre sua "fantástica" atitude - como se ela representasse o início de um momento histórico para sociedade brasileira. Por fim, deixa arrebatar-se: “Muito bem, muito bem!... É imprescindível que haja pessoas a preocupar-se em educar as crianças deste País!..." , e, lambendo os dedos, conclui: - "O que seria de nós se não fosse por gente assim, como eu?!...”.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dois de Novembro




"O importante não é saber o que fazer com

o destino, mas saber o que fazer com

o que o destino fez com você."


(Sartre)




Há pessoas que carregam a pecha de amargas durante toda sua vida. Parecem não se incomodar, apostando sempre na manutenção de uma dor injusta, relutando a se rebelarem contra o dissabor que lhes foi servido à mesa do destino.

Por trás de um comportamento azedo há sempre um nó emocional – daqueles bem dados, como em cadarço molhado. A falta da atenção materna ou o excesso da violência paterna são evidências fortes, mas o que parece tirar de vez o açúcar da vida é o Amor rejeitado.

Moema, minha avó, teve uma vida assim, marcada pela falta de atenção, de carinho e de amor; uma mistura cítrica.

Mas o que fez sua alquimia afetiva se tornar ácida foi o tempero do abandono, que a deixou viúva em vida; primeiro, dos pais, depois, do marido, com cinco crias a tira-colo.

Apostava, em seu íntimo, que a Justiça Divina haveria de retocar-lhe o tropeço, devolvendo-lhe o homem amado e a alegria de uma família modelo. Enquanto isso não ocorria, contudo, relutava em debelar-se do pranto.

Apesar dos bonitos olhos azuis, seu rosto era triste, dum conformismo opaco e mal disfarçado, tão comumente visto nos semblantes divorciados da felicidade. E mesmo com alguma boa intenção, demonstrada pelos confortáveis coletes de lã feitos em crochê, sempre havia razão para acreditar que ela estava insatisfeita, pois reclamava de tudo, de todos.

Lembro à perfeição quando, numa tarde, passou por nós, seus netos, enquanto almoçávamos num restaurante próximo à sua casa. Assustada com “todas aquelas crianças agitadas” e sem naturalidade para beijos ou abraços, deixou rapidamente o local, pensando alto: “São uns selvagens!”. Meu pai demorou anos para digerir esse desconforto.

Foi uma expressão infeliz e forte que ficou marcada no meu inconsciente, afastando minha avozinha do meu convívio por muitos anos. Felizmente, com o tempo, isso começou a mudar.

Como das relações humanas o mínimo a se esperar é tudo, pude, já “hômi feito”, reinterpretar as marcas em seu rosto. Passei a visitá-la semanalmente, e a cada encontro, uma expressão de leveza, ainda que tênue, surgia em sua face. Já aceitava o carinho do meu sorriso e o calor do meu abraço. Ela me preparava chá e bolo, como só as avós fazem. E me servia em xícara de porcelana nobre, com motivos orientais em alto relevo e colherinha de prata. Ao final, exclusivamente para me agradar, dava-me sorvete de abacaxi.

Quando estava inspirada, falava da inteligência dos filhos ou de curiosidades da família e de sua própria vida. Chegou a fazer um Mestrado em Sociologia, na Cidade do México. E trabalhou na Fundação Nacional do Índio.

Todas as abordagens que fazia sobre a vida, porém, não iam além do próprio desejo não atendido: família e estabilidade. Dizia que eu deveria “fazer tudo certinho”, “não criar confusão” e “estudar muito”. Mas sempre me chamava pelo nome de um dos meus irmãos, e freqüentemente fazia alusão a experiências que também não eram minhas – chegando a ser, muitas vezes, dos meus tios!

Certa vez, quando me contava sobre o longo caminho que teve de percorrer para comprar aquele pote de sorvete, algo muito surpreendente aconteceu. Mal ela acabara de dar desfecho ao relato, quando me perguntou se eu queria mais. Como recusar oferta de avó pode render alguma maldição, aceitei. Ela então foi à cozinha, e assim que retornou, começou a me contar sobre o longo caminho que teve de percorrer para comprar aquele pote de sorvete... Do mesmo jeito, com todas as ênfases e entonações há poucos minutos utilizadas. Fiquei sem fala. A partir daquele fato, tive a certeza de que nossa relação ficaria, no mínimo, algo psicodélico.

Mas não houve como saber. Devido a recomendações médicas, Moema se mudou dali a poucos dias para usufruir os ares de uma cidade litorânea. Passou os últimos anos de sua vida em Salvador.

Voltou a Brasília quando, após uma queda, bateu a cabeça no chão e precisou receber tratamento adequado. Assim que ela chegou, fui visitá-la. Estava paralisada por um derrame e nada falava. Mesmo assim, trocamos sentimentos. Pude olhar em seus olhos, ainda azuis – e agora mais brilhantes – que ela não estava mais triste, que não guardava mágoas e que não trazia mais, enfim, a dor do rancor.

Dois dias depois, morreu. Não fui ao seu enterro.

No Dois de Novembro, quando entes perdidos são enaltecidos, penso em minha Vó Moema e não me sinto triste. Tampouco tenho vontade de ir ao cemitério.

Não sinto que uma visita seja significativa dentro do contexto em que construí minha relação com ela. Prefiro investir nas boas lembranças, como na satisfação de pensar que ela, ao fim da vida, já sabia o quanto era doce o viver.
.
"Somente o tempo, o tempo só
Dirá se irei luz ou permanecerei pó
Se encontrarei Deus ou permanecerei só
Se ainda hei de abraçar minha vó"

(Gil, em versão de letra de Robert Nesta Marley)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um Luar Desbundante

Ao contrário de seus amigos de então, Caetano sempre foi um adolescente desapegado aos vícios mais comuns da sua geração.

Não demonstrava interesse em ir a shows de rock ou a boates da moda. Não via graça nenhuma na mesa de um bar, e muito menos em passar o tempo falando sobre carros e motores. Salvo alguns goles de Biotônico Fontoura, não havia posto, até então, qualquer substância alcoólica em sua boca.

Para não ser de todo diferente, deve-se registrar que pensava sempre em sexo – o que, em linhas gerais, fazia dele um típico adolescente.

Costumava ficar recolhido em seu quarto, perdido em devaneios que registrava poeticamente em seu diário, e pouco saía; nem mesmo nos finais de semana. A verdade é que chegou a se divertir muito mais aos doze, treze anos quando ainda era meio menino, do que aos dezoito, quando a aproximação junto às mulheres já não se dava de forma tão espontânea, dado que se sentia ainda um meio homem. E tímido. Passava o tempo tentando entender como se aproximaria delas indo dormir tão cedo...

Naquela noite, após registrar ardentes desejos em seu diário, Caetano olhou para a janela e tentou compreender a excitação de uma sexta-feira. A chuva fina que caíra durante a tarde deixara poças d’água pelo asfalto, multiplicando o cintilar e as cores das luzes da noite. Em frente à sua janela havia um posto de gasolina, onde se situava também uma loja de produtos de conveniência.

Eram quase 10hs e o movimento de carros era intenso. Na linha do horizonte, a borda amarela da lua cheia se pronunciava. Observou garotões excitados e moças que falavam sem parar. Enquanto eles se empurravam pelo estacionamento e compravam bebida, elas permaneciam no carro, entre fofocas, risos e gritinhos.

Mas não se identificava em nada com eles. Da janela, ele esticava a vista, talvez na esperança de que uma delas percebesse sua presença, e por ele largasse toda aquela “vida bandida”... Mas por mais que tivesse brilho no olhar, Caetano se colocava muito distante da realidade para poder iluminá-la.

Não se sabe, porém, se pelas influências da lua ou se por motivos outros, fato é que Caetano sentiu, naquele momento, uma agitação incomum. No dia seguinte, teria de acordar cedo para ir treinar... Mesmo assim, ousou!

Meteu-se numas calças folgadas e tirou do armário uma camisa bem confortável. Contra o frio, um casaco bem quentinho. E saiu à rua.

Em frente à porta de casa, decidiu o itinerário; nada mais simples: iria caminhando até encontrar uma rua bem movimentada. Daria uma pernada e voltaria, bastando para saciar suas vontades e suas carências – ao menos nas aparências.

Antes, deu uma rápida passada pelo posto, onde comprou comprou um litro de iogurte de pêssego. E pôs-se a caminhar.

A noite estava realmente interessante! Fresca, calma, insinuante. Nada como a brisa quando se tem calor guardado dentro do peito. Os passos eram dados sem pressa, procurando cada graveto ou superfície que pudesse produzir um ruído novo. E o iogurte, então, descia como goladas de scotch, dando a ele a sensação de ser um poeta perdido madrugada afora. Buscava o glamour das meias-luzes dos postes e falava sozinho, como se acreditasse que Deus o estivesse guardando, escutando a cada cochicho.

Ao chegar, deparou-se com uma avenida tomada por habitantes da alcova.

Por entre roqueiros, artistas, cabeludos e muitas latas de cerveja, avistou Regina, colega de escola.

De traços finos e sobrancelhas sinuosas, era uma linda mulata. A beleza fora roubada da mãe, que chegou a ser eleita Miss Mato Grosso em tempos idos; a sensualidade, herança dos subúrbios e das praias do Rio de Janeiro, onde nasceu o pai.

E não era só isso: Regina, além de linda e exageradamente sensual, guardava, há mais de ano, uma grande paixão por Caetano. Paixão não correspondida que, recolhida, ainda lhe doía no fundo do peito.

Quando se conheceram, ele tinha namorada e lhe era fiel. Agora, sem razão para retidões, Caetano era somente impulso.

Regina estava sentada na calçada, cabisbaixa, alheia ao caos que imperava ao seu redor. Ele, apesar de atraído, não encontrara, ainda, meios para corresponder aos sentimentos dela. Aproximou-se.

- Regina?... -, disse, tocando o ombro da moça, que parecia enxugar algumas lágrimas. Ele insistiu: - O que tá fazendo aí?
- Tô sentada...
- Sim, mas... Mas, aí?!
- É.
- (...) Parece que tá meio sujo, esse chão...
- É, parece.

O ambiente estava carregado, mas mesmo sentada no chão, Regina não pertencia àquele local. Ele, pouco afeito a toda aquela agitação, resolveu arriscar e convidou-a para “uma caminhada”. Sem nada dizer, ela se levantou e seguiu Caetano.

Enquanto caminhavam, Regina não falou – e nem iogurte aceitou. Caetano procurava palavras certas ou coisas que a pudessem agradar, mas nada a fazia sorrir. De repente, passando exatamente pela frente de sua casa, Caetano, muito maliciosamente, sugeriu: - “Veja, Regina, é aqui que eu moro...”, e sem pensar muito, arrebatou, - “Quer subir?”. Regina o fitou por alguns segundos e novamente acatou a idéia do amigo. Não falou qualquer “porém”, o que o deixou apreensivo, e também esperançoso.

Todos os devaneios que imaginou da janela apequenaram-se diante daquela situação. O que há poucos instantes lhe parecia tão inalcançável mostrava-se, agora, uma tangível realidade.

Enquanto subiam a escada, trocaram olhares, mas nenhuma palavra. À porta de casa, tranqüilizou-a: -“Não se preocupe; estamos sozinhos...”.

Chegando ao seu quarto, abriu a grande janela, revelando uma lua já majestosa e dona dos céus. Ela, por sua vez, simplesmente se jogou pesadamente sobre a cama. Isso o incomodou: - “Regina, você não pode se deitar com esta calça... Você estava sentada no chão sujo e... -, antes que ele pudesse terminar – e como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo -, Regina se levantou e tirou a calça, deitando-se novamente...

Nem em seus pensamentos mais descarados ele encontraria espaço para um diálogo tão fluido como esse. Regina, com seus 17 anos, não fizera qualquer objeção a tudo o que lhe fora proposto, e estava, agora, deitada em sua cama, com a barriga para baixo, trajando uma singela calcinha branca com rendinhas...

A desavergonhada exposição da bunda majestosa de Regina fez Caetano se sentir totalmente à vontade. A ponto de se esquecer de todas as falas e argumentos que havia ensaiado para momentos como aquele. Regina os fez desnecessários.

Ao olhar para aquele espetáculo, Caetano sentiu o pau se avolumar abruptamente. Pelo vão da janela, o brilho lunar, quase azul, deu um tom fluorescente às rendas da calcinha dela, aumentando o contraste com sua pele morena, lisa e macia, que ele agora tocava suavemente, estimulando-a a exalar o marcante cheiro do sexo...

Ante a total aceitação da parceira, Caetano apressou-se em lançar longe toda a roupa. E logo estava deitado aos pés dela, percorrendo toda a extensão de suas pernas com as mãos... Depois com o nariz... Até tocá-la com os lábios... E a língua... Descobrindo, por baixo da calcinha branca, um sexo pleno, vermelho, que pulsava, latejante...

E então, já totalmente entorpecido de prazer, Caetano pode aprender, pelo toque quente e molhado do corpo de Regina, que havia, afinal - e para além das palavras - formas efetivamente verdadeiras de se comunicar com alguém.

Até hoje, pouco se falam, embora entendam-se à perfeição.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Moça dos Pastéis


















A Moça dos Pastéis se arruma para o trabalho.





Ser consultor de finanças de uma multinacional era mera conseqüência de sua introspecção. Aos 25 anos, Igor, moço tímido e de gestos contidos, sempre buscou na exatidão da ciência as respostas para a própria existência e também a satisfação que não dispunha para dar ao próprio coração.

Foi assim, na solitária infância de um filho sem irmãos e, com mais ênfase, na adolescência, quando não fez amigos ou - menos ainda - namoradas.

Não que fosse feio – não era -, mas uma rígida educação religiosa atrelada à insegurança de uma mãe abandonada pelo marido terminou por impingir-lhe à personalidade um forte conservadorismo, e isso o impedia de ir além das recomendações domésticas.

Em casa, nada era feito sem a amarga anuência da mãe. Mesmo quando tomava a atitude correta, não recebia elogios ou reconhecimentos.

O medo de um novo abandono fez com que a mãe o tratasse com aparente desvelo. Mas o carinho cotidiano, Igor não recebia. Nem o toque amoroso. Nem palavras de conforto que lhe fortalecessem o espírito. Ao contrário, a cada dia Igor ia se sentindo menos do que era. E entendeu que, para não ser repreendido, bastava que acatasse as vontades de sua mãe. Tornou-se, por vias tortas, um ser demasiadamente respeitador.

Não tivera um pai em quem se espelhar. A respeito de quem, aliás, sempre escutou as piores coisas, exaustivamente pontuadas por sua magoada mãezinha: – Um mulherengo! Homem sem respeito! Que não sabe o que é a Família!... Um pervertido!... – e completava, olhando para o jovem Igor: Não olhes jamais para mulheres da rua, meu filho; não seja um desgraçado aos olhos de Deus, como foi teu pai.

Para Igor, todas as mulheres que via na rua eram mulheres da rua. E apesar de admirá-las em seu íntimo, não demonstrava qualquer apreço por medo de desgraçar-se.

Do mesmo modo que entrou na faculdade de economia, saiu: com medo da desgraça divina e um crescente pavor da presença feminina. Esperava, aliás, que um dia o Senhor lhe pusesse à frente uma mulher de caráter ilibado e modos corretos. E quando isso ocorresse – estava certo – saberia reconhecê-la.

Por ora, preferia refugiar-se em números, cálculos e fórmulas que, mesmo sem falas ou gestos, eram os únicos a lhe darem alguma satisfação. Escutar primos e amigos relatarem suas experiências amorosas foi deixando de lhe ser excitante, tornando-se cada vez mais angustiante.

Isso, porém, começou a mudar com o novo emprego. Não por conta do ofício, encarado sempre com seriedade e mesmo prazer, mas por conta da moça dos pastéis.

Dela, nunca perguntou nada. Nem ousou trocar olhares. Temia ser mal interpretado; que lhe pensassem coisas vãs, levianas, e mesmo pecaminosas! Mas fazia questão de sair de casa com espaço na barriga reservado para dois pastéis de palmito. Era um momento raro em sua vida, quando se permitia esquecer um pouco da exatidão dos números.

Encolhia-se sempre num canto do balcão, de onde sonhava com essa moça a preparar-lhe pastéis – todos-, podendo fitá-la por horas, sem a necessidade de revelar seus verdadeiros desejos. Mas não ousava sequer pensar na hipótese de um diálogo – Não! Afinal, via-se que, apesar de bela, era “da rua”.

Ainda que fosse discreta – e ela era -, uma moça distinta não usaria aquele tipo de maquiagem. E também aquele cabelo em coque, revelando a desconcertante nudez de sua nuca. Nem saias como aquelas, que lhe deixavam as grossas coxas à mostra. E também as sandálias, sempre de salto, que revelavam o firme torneado de suas panturrilhas e tornozelos. E o olhar? O que dizer daqueles olhos amendoados em verde-claro? Ou daquele rosto, cujas maçãs davam para se comer?... Enfim, não havia dúvidas: era gente da ralé!

Quando ela faltava, já tendo ele comprado as fichas no caixa, revoltava-se, metendo os pastéis num saco para, em seguida, abandoná-los na primeira lixeira. “Só me servem se forem dela”, pensava, resignado.

Na empresa, toda aquela devoção aos números e às tarefas lhe conferiu célere projeção. Era invejado, admirado – até respeitado! -, mas não sabia disso.

E assim, alheio ao mundo, Igor chegou ao trabalho para cumprir apenas meia jornada; era 31 de dezembro.

Naquela manhã, encontrou a moça dos pastéis mais bonita que nunca. Não havia nada de diferente na roupa ou no cabelo, mas seu espírito estava reveladoramente festivo. Atento a tudo, Igor observou-a preparando uma grande jarra de suco. Mas estranhou que não o tivesse servido a ninguém. Instintivamente, deixou escapar:

- É de limão?

Ela então levantou os olhos, fazendo Igor estremecer. Nunca haviam ido além dos pastéis...

- Sim, é de limão... – disse, servindo-lhe no mesmo copo em que bebia. Nervoso, e sem saber o que dizer, Igor entornou o copo inteiro para dentro, o que lhe trouxe a indescritível (e até então por ele desconhecida) sensação do calor alcoólico. –É caipirinha -, revelou ela, sorrindo maliciosamente. E estava agora mais linda do que nunca!

E Igor, mais do que calor, sentiu euforia. A surpresa lhe parecia ter retirado as amarras da alma; queria mais!

Ainda com os olhos lacrimejantes, Igor devolveu-lhe o sorriso, mas antes que pudesse revelar sua felicidade, percebeu a intensa movimentação de funcionários em direção à portaria do edifício. –Deus meu! Estou trabalhando!!!-, pensou. E apressou-se em devolver o copo e desejar-lhe um feliz ano novo, para sair, atabalhoadamente.

-Mais tarde tem mais! -, ainda gritou ela.

Passou toda a manhã em grande conturbação. Não fez cálculos matemáticos, não atualizou qualquer planilha, não produziu, enfim, nada! –Encarnou o espírito do réveillon, Igor? -, observou um colega, insinuando que o respeitável funcionário estivesse com a cabeça nas nuvens. E estava mesmo.

Igor nem respondeu. Estava fascinado como uma criança em seu último dia de aula. Nunca sentira aquilo antes; uma euforia tão genuína, uma alegria tão intensa, somente... Somente por estar vivo! E o melhor é que o sorriso da moça dos pastéis aparecia em todos os seus pensamentos, acariciando-lhe o ego virgem. O olhar que ela lançou sobre ele, então, provocava pontadas logo abaixo do estômago.

Ao meio-dia, a liberdade!

Bateu o ponto antes mesmo que os demais. No caminho, pensava em beber mais um copo de caipirinha, em comer mais uns pastéis para, então, convidar aquela moça para um passeio. Agora, ela já não se parecia mais com uma qualquer. Nada disso. Pensava nela ao seu lado, assistindo à TV, preparando o jantar, cuidando das crianças...

Quando chegou à lanchonete, porém, não a viu. E perguntou por ela:






- Ei, você aí, do caldo de cana! Cadê a moça dos pastéis?!



- A "Peruana"? Encheu a cara e bateu boca com o dono. Foi despedida na hora! Saiu daqui diretim pra rodô!

Perguntou pelo nome e pelo endereço, mas ninguém sabia: - Dizem que veio da Bolívia, e que estava ilegal aqui. Ninguém sabe mais nada. Parece que mora com uma amiga em Águas Lindas...

Por breves segundos, entre a decepção, a raiva e o delírio, Igor pensou em ir atrás dela. Mas como, se não sabia sequer o nome? E onde, se não tinha qualquer referência?

Naquele dia, não voltou para casa. E após as festas de fim de ano, também não retornou ao trabalho. O único que informava alguma coisa era o rapaz do caldo de cana, que diz ter ouvido que Igor agora vende pastéis em Águas Lindas... E vai muito bem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Saindo do Armário


Após algumas temporadas perambulando por corredores universitários, fui ficando mais vagabundo e presunçoso. Do tipo de cara que entra em qualquer sala demonstrando intimidade, falando “e aí” para o professor e vai se sentando no melhor lugar.

Gostava de provocar os professores quando estes pareciam querer subestimar a inteligência dos presentes. Consistia numa estratégia que os estimulasse a fazerem colocações menos levianas e coisa e tal; a idéia não era de confrontação. Ainda que de conteúdo político, eu procurava sempre colocar pitadas de humor, o que, não raro, poderia transformar uma aula desinteressante num risadio coletivo.

Bartolomeu foi um desses mestres (aliás, “doutor”) que merecia provocação contínua, tal sua soberba.

Nascido e criado num Rio ainda glamoroso, expressava-se de forma imperial. Com suas bochechas trepidantes, possuía um gestual repleto de pernosticismo e uma fala lenta, algo pedante. Só se referia às grandes empresas como “transnacionais”, como se, num esforço policarpiano, quisesse revelar ao mundo sua “descoberta neolinguística”.

Em sua patente vaidade, julgava-se progressista, daqueles que se referem aos próprios ideais revolucionários da juventude como “características de um tempo”. Em tempos atuais, no entanto, dava-se ao luxo de discutir, durante as aulas, seus whiskeys preferidos e os blends mais renomados: “Só tomo Black Label”, dizia, cheio de orgulho. Tinha cara de pedófilo, daqueles que gostam que as crianças o chamem “tio Bartô”.

Em pouco tempo, "conquistei" aliados. A maioria, informais, que apenas gargalhavam com a galhofa, embora houvesse
quem rompesse o anonimato, revelando também suas discordâncias em relação ao Bartô, ficando este cada vez mais estereotipado. Ganhou logo a alcunha de “senhor do universo”.

Com o passar do semestre, aquela foi se tornando a aula mais atrativa. O número de faltosos diminuiu, tão interessante ficara o ambiente. Quando eu levantava a mão ou coçava o cavanhaque, Bartolomeu se mexia em sua mesa, incomodamente, já a espera do embate.

Notei que ele, apesar de PhD, etecétera e tal, não possuía lá “todo” esse conhecimento, principalmente quando escapulíamos para fora do academicismo. Aí ele se perdia, ficava nervoso, ainda que demonstrasse enorme espontaneidade em abandonar o tema para regozijar-se com suas aventuras no estrangeiro (para além dos prazeres etílicos).

Certa vez, enquanto discutíamos algumas regras internacionais sobre fronteiras em regiões de floresta, nosso mestre entendeu por relatar uma situação de perigo que vivera na selva, anos atrás, acompanhado de um professor colombiano...

- Acompanhado, né? Hum... -, interrompi eu, olhando maliciosamente para a turma.

Bartolomeu fez que não escutou, e seguiu com sua ladainha, dizendo que o avião ficara desorientado, no que ele e seu parceiro se viram obrigados a passar a noite, na selva...

- Na selva... Hummmmmm...

Ele foi ficando vermelho. E a cada detalhe da aventura, bastava que eu fizesse “hum” para que Bartô se perdesse na lógica do relato. A turma divertiu-se a valer, e até Alícia, a monitora que nunca ria e só fazia comentários pertinentes, perdeu o rebolado naquele dia, deixando o mestre sem cobertura moral. Dali em diante, parou de responder às provocações; as classes ficaram mornas.

Apesar das provocações e das piadas, fui aprovado, dando prosseguimento ao meu antropólico périplo pelas fileiras acadêmicas.

Numa dada noite de sexta-feira, numa festinha porralôca, reconheci Alicia, que estava irreconhecível, tão alegremente bêbada se mostrou.

Veio pra cima de mim na maior intimidade, sendo que nunca havia falado comigo. “Joããããão!!!”. E disse que tinha uma coisa inacreditável para me contar.

- Sabe o Bartolomeu?
- Claro! Como esquecer?
- Pois ele tem você engasgado na garganta!... -, disse ela, entornando mais uma golada de wodka, e quase tropeçando na calçada.
- Comigo? Por quê?
- Lembra daquela estória que ele contou, sobre um lance na selva, com um colombiano? Pois então, logo depois daquela aula, ele foi embora e nem passou pelo departamento...
- Sei...
- ...e voltou todo estranho no dia seguinte. A gente tava preparando um material para a próxima aula, no que ele olhou para mim e perguntou “Você acha que tenho cara de homossexual?”!

Eu e Alícia demos uma enorme gargalhada, mas logo fiquei sem fala. Ela então me disse que o pobre Bartô encasquetou com minhas insinuações, e que não parou mais de questioná-las, até o fim do semestre! “Por que o João falou aquilo?”. Será que a turma desconfia de alguma coisa em relação a mim?”, “Você já escutou mais algum comentário?”...

- Mas como é que pode, um cara que se diz tão preparado, viajado e estudado, dar bola pruma brincadeira marota?...

- Pois é -, emendou ela-, eu nunca tinha desconfiado de nada, mas de tanto ele insistir com o assunto, agora tenho certeza! E o mais engraçado é que ele não te esquece! -, disse Alícia, já se perdendo em meio à balbúrdia estudantil.

Títulos, prestígio, livros... Toda uma carreira dedicada à antropologia, aos estudos, à Academia!!! E nada -nada!- fora, no entanto, capaz de fazer Bartolomeu sentir-se à vontade em sua existência.


Quando a verdade fala, o homem cala.


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photografie: joão sassi

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Gaia Now! - Celebrando o Prêmio Nobel sem Fazer Cara de Pastel


"Que alguém tenha um PHD não significa necessariamente que ele saiba mais que as pessoas que vivem de um recurso. Há muito conhecimento local que temos que respeitar".

Foram estas algumas das palavras expressadas pela cientista social Elinor Ostrom, logo após se agraciada com o Prêmio Nobel de Economia deste ano.

Houve um tempo – um tempo não muito distante dos dias de hoje – em que muitos dos países europeus, bem como alguns outros espalhados pela Ásia, Oceania e América do Norte, eram tidos como exemplos de nações desenvolvidas e civilizadas.

O restante do mundo buscou (e ainda busca), por décadas, séculos a fio, alcançar o padrão político, social, econômico, militar e cultural estabelecido por tais nações. Éramos todos, ora como colônias, ora como pátrias subdesenvolvidas, vítimas de uma visão etnocêntrica, a nós imposta pela dominação física e/ou cultural por parte de nações mais “poderosas”.

Não se contesta aqui o grau de desenvolvimento ou de civilidade alcançado por aquelas sociedades, mas se torna cada vez mais necessário discutir seus parâmetros.

Será que hoje, com o planeta atravessando um delicado processo de complicação das condições climáticas, esses parâmetros seriam os mesmos?

Será possível, que numa era de elevadas conquistas científico-tecnológicas como a nossa, tenhamos ainda a disposição de estabelecer modelos de desenvolvimento anacrônicos, como se estivéssemos em plena Revolução Industrial?

O que seria da humanidade, se toda nação resolvesse adotar fontes poluentes e não-renováveis de energia em alta escala? O Brasil, com todas as condições que vem elencando nos últimos anos, tem o direito de fazer como, por exemplo, os chineses (cujas impressionantes conquistas econômicas não escondem os desastres ambientais daí decorrentes)?

A resposta, claramente, é não.

Dados que anteriormente eram concebidos como alarmistas e sem fundamento são, a cada dia, referendados pela ciência, deixando claro que a humanidade encontrou, afinal, um ponto de inflexão.

Hoje sabemos que já foi ultrapassado o ponto-limite onde a Terra, tal qual um organismo vivo, consiga se regenerar em relação a tudo o que vem sendo destruído/modificado pelo ser humano. O Planeta está enfermo.

Apesar de desenvolvidas e civilizadas, as nações às quais me referi no início do texto encontraram, na virada deste milênio, bem como na manutenção dessas condições, um paradoxo que antes não existia, dado que não podem continuar a se desenvolver e a produzir bens sem novas fontes de energia alternativas que substituam fontes fósseis e termelétricas.

O modelo chinês, portanto, não nos serve de parâmetro. Nem o norte-americano, nem o asiático ou o europeu. O modelo a ser seguido ainda está sendo criado.

Não por uma nação do BRIC (o grupo de países emergentes onde se encontra o Brasil) ou por qualquer um dos tigres asiáticos. Muito menos pelas ambientalmente combalidas nações européias e norte-americanas. E sim por todas elas.

Não há, ante as necessidades do homem, mais espaço para visões unilaterais que ao longo do tempo produziram distorções e catástrofes que, direta ou indiretamente, atingiram a todos, fazendo do mundo o que ele é hoje.

Foi-se a era dos pólos opostos e dos maniqueísmos ideológicos. Aqueles que insistem em encenar essa peça revelam-se, cada vez mais, atores decadentes, num papel que já perdeu, há tempos, a importância, e mesmo o glamour.

Vivemos a era da conjugação das idéias e das forças; uma era onde não há uma limitação clara de onde atua um e outro; a era da integração das metas, do pensamento interdisciplinar e do comportamento transversal, plural, heterogêneo.

Ao contrário, portanto, do que sempre vimos e nos acostumamos a acatar, as necessidades da contemporaneidade nos obrigam a rever conceitos, padrões e modelos; a re-inventar.

Foi, pois, muito contente da vida que recebi o anúncio do Nobel de Economia. Em seus estudos, Elinor Ostrom alerta a todos nós que a ciência econômica precisa integrar outros conhecimentos e considerar a sabedoria local para lidar com desafios da atualidade, como o gerenciamento de recursos naturais.

Seus estudos são uma demonstração categórica da necessidade de enxergar o mundo com outros olhos. Uma de suas mais importantes conclusões foi a de que algumas políticas governamentais acelerariam a destruição dos recursos naturais, enquanto que, por outro lado, alguns usuários daqueles mesmos recursos (p.ex. pescadores, agricultores, madeireiros) investiriam mais tempo e energia para alcançar a sustentabilidade em nome de um interesse comum, em longo prazo. O período de defeso de certas espécies aquáticas, quando se deixa de pescar por um determinado período, a fim de preservar o nicho ecológico equilibrado, é um ótimo exemplo, e que há tempos é adotado por diversas populações ribeirinhas e tradicionais.

Em outras palavras, é como imaginar que o conquistador português houvesse desembarcado por aqui disposto a conhecer e a aplicar todo o conhecimento autóctone em associação ao seu, na tentativa de se estabelecer a maneira mais racional e respeitosa de se integrar ao meio ambiente.

Que delícia seria o Brasil, não é mesmo? Tendo todo o conhecimento daquela gente, acumulado por séculos, à sua disposição, para a construção do país do futuro...

Se isso sempre nos pareceu fantasioso ou mesmo idealista, as conclusões encontradas por Ostrom surgem como um alento: a partir delas, os conquistadores dos dias atuais - sejam eles governantes, multinacionais ou nações - deverão adotar uma postura mais sensata e humana: substituir a arrogância pela humildade como instrumento de contato será condição sinequanon para garantir a própria subsistência, deles e do Planeta.
photografie by NASA

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Revolução é uma Merda!

*


Nós somos da pátria a guarda, fiéis soldados, por ela amados...
O aplicado Sargento Lourival, na maturidade dos seus vinte e poucos anos, mais uma vez deixava sua residência com ares de transtornado; desta feita, visivelmente irritado. Lucélia, sua mulher e companheira desde sempre, por alguma razão, o estava agora confrontando. Sentira-se ultrajado pelas palavras da esposa.

Não que o casamento estivesse em crise, pois o que se via era uma união estável entre aqueles dois que, sem dúvida, haviam conseguido fazer o amor entre eles perpassar incólume à rotina dos anos vividos. Eram, de fato, felizes.

Ela, sonhando com a maternidade. Ele, ardorosamente dedicado à farda verde-oliva, havia já sete anos. Recentemente fora promovido a 3º Sargento de Infantaria; motivo de empenho e alegria, mas também de infortúnios...

Lucélia se orgulhava do marido militar que, desde a juventude, prometera a ela defender, com a própria vida, a pátria e a família. O ingresso no Exército coincidira com o Golpe militar de 64, e ela sempre os apoiou – ao golpe e ao marido.

Mas, à medida que o regime se tornava mais violento e ditatorial, mais Lourival era requisitado em seu ofício, mais sua escala de serviço aumentava e mais missões obscuras lhe eram dadas, apartando-o do convívio junto a Lucélia, e esta da realização materna. “A Pátria está segura, mas e minha família, que ainda nem tenho?”, perguntava-se, cada vez que, deitada, olhava o travesseiro ao lado, intacto.

Por vezes, arrumou-se, encheirou-se e empetecou-se para ele, tal qual uma fêmea cujas necessidades não vão além do desejo do coito, do desejo de ser envolvida pelas mãos rudes e olhares desinibidos do parceiro, que, por fim, não aparecia, deixando-a, em princípio, frustrada, mas logo, magoada.

Por amor, as mulheres fazem qualquer coisa; quando magoadas, vão além.

A cada noite solitária, escutava as mesmas justificativas, sempre embasadas pelas “necessidades da revolução”. Lourival dizia que os comunistas estavam invadindo o Brasil, e que por isso era necessário estar em constante estado de alerta.

Ele não notara, mas Lucélia já não demonstrava o mesmo orgulho por sua atividade. Menos ainda quando, por conta da visita de um primo, ela escutara dele sobre certos abusos que os militares estariam cometendo em escuros porões. Ela nunca ficara sabendo daquele tipo de atividade. Pensar que Lourival pudesse ser um torturador a deixou sem ação. Sentiu-se enganada.

Seu desgosto era crescente, de modo que não saiu em defesa do marido, como faria em outros tempos. Surgiu daí um sentimento de raiva da vida que levava. Não achava justo se sacrificar para que seu marido sacrificasse a outros.

A partir de então, e cada vez mais, ao invés de beijos, despediam-se, friamente. A petulância da antes dócil Lucélia o atarantava. Sentia-se desafiado em sua autoridade. E, como se não bastasse, passou a ter que conviver com as desconcertantes palavras alardeadas pelo primo da esposa que, pouco antes de partir, olhou maliciosamente para ele e disse “Essa revolução é uma merda!” – palavras que não lhe saíam mais da cabeça e, pior, também da boca da companheira, cujo sentimento era o mesmo de uma mulher traída – por uma revolução que destruía seus sonhos, enquanto o marido a ela se entregava de corpo e alma.

“Então é assim...”, concluiu Lucélia.

Foi, pois, possuída por um sentimento de abandono que, àquela manhã, logo após servir a Lourival o café, perguntou-lhe, asperamente: “Volta hoje?”. Diante da negativa, correu à janela e, para desespero do sargento, gritou a plenos pulmões: “A revolução é uma meeeeeeeeeerda!!!”.

Lourival quase cai da cadeira com o inusitado da ação, e, ato-contínuo, se lança ao encontro do corpo dela, derrubando-a no chão.

Bufando, olha para ela com ódio e diz: “Nunca mais repita isso, está me entendendo? Nunca mais!!!... Ou se acaba esse casamento!” -, e sai, furiosamente.


Lucélia, ainda estirada, olha para porta de casa, aberta, mas nem pensa mais no que acontece lá fora, pois está perdida em pensamentos seus, de desejo e de vingança, e até sente prazer...

Quanto ao sargento, seguiu caminhando em direção ao ponto de ônibus, transtornado pela falta de disciplina em sua casa, nas ruas e no mundo. Pensava menos na esposa que no maldito primo que lhe enfiara tais asneiras na cabeça... “Maldito duma figa!”... Malditos comunistas!... Filhos duma puta sem patriotismo! Temos que dar cabo a essa gente!...”-, pensava o militar, enquanto caminhava apressado, destemperado pelas ruas do bairro.

Apesar de esbaforido, não estava atrasado. Entendeu por entrar numa padaria onde pudesse concluir o café e também enxugar o suor que lhe caía da testa às têmporas, ameaçando borrar seu fardamento.

De rosto lavado, sentou-se ao balcão e pediu uma média, “bem forte”, pontuou.

Enquanto esperava, porém, o grito da mulher não parava de ecoar em seus ouvidos, não deixando com que aquietasse a ebulição em seu peito. Sentia, na verdade, vontade de dar-lhe umas bolachas, mas a respeitava muito. Então voltava sua ira ao primo, e continuava a praguejar, sem remorso.

De repente, escutou da boca de um senhor sentado numa mesa próxima: “... é culpa dessa revolução, que é uma merda!”. Foi o estopim!

Como se já houvesse ensaiado aquele mesmo ato uma centena de vezes, não hesitou: girando violentamente o corpo e sacando um par de algemas, agarrou o homem, acusando-o, “comunista!!!”

- Espere, senhor...
- Comunista safado! Vai aprender a respeitar a revolução!
- Mas, sargento, eu...
- Cale a boca, seu imundo! -, berrou Lourival, algemando-o.
- Eu posso ao menos me identific...
-Já disse para calar a boca! -, disse o sargento, aplicando uma gravata no indefeso homem, ao passo que o arrastava para fora do estabelecimento.

A delegacia era do outro lado da rua, e para lá seguiu Lourival, arrastando o infeliz pelo pescoço, que mal conseguia respirar.

- É uma merda? É uma merda, é? Pois sim! Vai ver o que é se meter na merda, seu comuna de bosta! -, repetia o sargento, já entrando na delegacia. O delegado, do fundo de sua sala, esticou a vista para melhor ver, e logo se apresentou

- Pois não, sargento?... O que aconteceu?-, perguntou.

Dando um cotovelaço nos rins do prisioneiro- que caiu de joelhos -, Lourival respondeu:

- Enfia este merda aqui nas grades, e dê a ele um xarope de tosse, ou algo melhor!... Estava no comércio, Seu Delegado, alardeando que a revolução é uma merda!... Mete ferro nesse velho comunista filho da puta!

No chão, e ainda algemado, o senhor buscava um pouco de ar. Antes que o levassem, conseguiu pedir para que conferissem sua identidade. O silêncio tomou conta do ambiente. Como ninguém se mexia, o delegado então conferiu a identidade... E constatou que o elemento em questão era o senhor Avilásio Martins Santa Cruz - General da Reserva...

Lívido, Lourival permanece imóvel. O delegado, entre a surpresa e o temor, ordena a imediata prisão do sargento, chamando-o incompetente, bisonho e palermão. Humilhado com nunca se sentira em toda a carreira, Lourival escuta impropérios de todos os policiais presentes ao recinto, que são ditos aos berros, com o explícito e lacaio intento de agradar ao insultado general.

As algemas de Santa Cruz são retiradas. Este, por sua vez, levanta-se serenamente e, ajeitando a gola da camisa amarrotada, pede ao delegado a autorização para ter uma "última palavrinha" com o novo detido.

Sentado no fundo de uma cela, sozinho, o sargento não conseguia estabelecer uma linha de raciocínio lógico que o permitisse compreender o que havia acontecido, ou que explicasse como ele fora parar ali. Logo ele, merecedor de tantos elogios e da aprovação de todo seus superiores hierárquicos... Como fora parar ali, sendo acusado justamente por defender sua amada revolução?!... Quanta injustiça!

Os acontecimentos se passavam de modo desordenado em sua cabeça (agora, completamente mergulhada em confusos pensamentos); a esposa, o primo, a revolução, a prisão do general... Tudo estava interligado e nada parecia fazer o menor sentido... Então, entra o Santa Cruz.

Lourival se põe de pé e atende ao dedo indicador deste, que se dobra, ordenando-o que se aproxime. O sargento, num gesto marcial e enxuto, se posta à frente do general, esperando pelo pior. Este se abaixa um pouco e, ao pé de seu ouvido, lhe diz, num cochicho: “Eu não disse que essa revolução é uma merda?!...”.




foto: joão sassi







*livre adaptação de anedota dos anos 70







terça-feira, 6 de outubro de 2009

Violência e Paixão


Dicó é tido por toda a vizinhança como um bom rapaz. É novo, de uns 20 anos, mas exala um ar de responsabilidade que muita gente adulta não possui. E é sensível.

Costuma caminhar por aqui e por ali, como se estivesse tomando conta de tudo, levando sempre um surrado violão a tira-colo. É excelente músico. Também toca flauta, percussão e outros sons agradáveis.

Já tinha ouvido muito falar dele; que namorava a Tatiana - uma menina novinha da rua de baixo; que estava organizando um grupo de voluntários para limpar as margens do córrego; que era, enfim, um garoto muito boa-praça.

Quando o conheci, sorriu sem parar. Parecia sempre solícito, como se também me admirasse por sempre haver ouvido falar bem de mim.

Não gosto muito disso. Sou meio mocado, e quando neguinho vem com tanto sorriso... Desconfio! A não ser que tenha motivo; uma piada é uma ótima desculpa. Eu sempre uso. Mas sem piada não dá.

Há muito, porém, não escutava mais nada a respeito do bom rapaz. Até a manhã de hoje.

Estava deitado - esticado na rede da varanda -, curtindo a sensação de um jardim umedecido e esverdeado pela chuva da madrugada, enquanto saboreava Tchekov. Desde há anos, tem sido ele o meu grande parceiro matinal. Muitas vezes acordo sem ter o que comer, sem água ou sem roupa passada. Mas basta mergulhar em suas palavras para que eu me sinta reconfortado e pleno.

Reconfortado estamos quando nos sentimos felizes por viver; pleno é quando rimos, gargalhamos e até choramos para as paredes, para um objeto ou animal. Ou simplesmente cantamos.

Estou lendo um livro de contos desse velho russo, mas que nunca acaba, pois sempre gosto de recapitular umas duas ou três passagens, antes de dar início a uma nova empreitada. Faz 5 meses que cheguei à página126; hoje estou na 127...

E foi dentro desse espectro de reconforto e plenitude - sim, àquela altura eu já dera início a um verdadeiro momento cênico, tanto eu ria e me emocionava com o que lia-, que apareceu Allan, meu senhorio. Pousei o livro sobre o colo e o cumprimentei, serenamente; mas notei que ele trazia consigo um ar preocupado: “tenho uma má notícia”, anunciou.

Allan então me contou que Dicó estava sumido há algum tempo, pois sua relação com Tatiana, a moça da rua de baixo, havia terminado. Ela não o queria mais. Mesmo assim, continuavam a se encontrar, esporadicamente, para matar as saudades e, principalmente, as vontades que permeiam os pensamentos, pingulins e xoxotinhas de qualquer um que tenha entre 16 e 21 anos. Tatiana tem 16.

Ao mesmo tempo, a mocinha, inebriada pelos prazeres de sua tenra plenitude existencial, inventou de chamar o ex-cunhado, que por ali nada fazia, para alguns momentos de luxúria, quando o ex-oficial por ali não aparecia.

Tudo ia muito bem, até que Tatiana, em pleno deleite com o novo amiguinho, foi flagrada pela mãe, que não gostou de ver sua pequerrucha em posições íntimas sobre sua própria cama de casal.

Houve escândalo. Vizinhos abriram as janelas para espiar, e papagaios, periquitos e sabiás certamente hão de ter voado para outro lugar, tantas foram as demonstrações de moralismo dadas pela voyeur intrometida; todas em altos decibéis. Eu mesmo tenho de admitir que não estava por lá, mas a esta conclusão é fácil se chegar, quando a dona da boca tem uma bocarra em seu lugar.

Tão alta foi a bronca, que as reverberações daquela maré alcançaram o ouvido de Dicó, fazendo-o sentir-se como se em meio às correntes de um mar ressaqueado estivesse. O coração pulava dentro do peito, machucado, em estrebuchos que só o desejo preterido poderia dar jeito. Foi tirar satisfações.

Pegou a menina pelo braço, olhou raivosamente para o irmão, que correu, e levou-a para um lugar onde não houvesse ninguém: a varanda da minha casa.

Lá, houve ainda mais discussão. E violência. Dicó, cego de ciúme e dor, agrediu Tatiana, empurrando-a violentamente contra a quina de uma mesa, fazendo com que ela caísse e batesse o rosto contra o chão. Parece que houve ainda algum safanão, e como resultado, um rosto ensangüentado, semidesfigurado.

A mãe de Tatiana chamou a polícia e todos foram para a delegacia.

Hoje, Tatiana repousa na casa de um parente, longe dali. Dicó, que fez 21 anos na véspera do ocorrido, está detido.

Dizendo isso, Allan se levantou e ficou me fitando. Olhei para ele e fiquei refletindo um pouco...
A poucos metros de mim, no chão, visualizei marcas de sangue. Pensava que eram do cachorro. Imaginei o embate, a covardia, a cena em si, e arrematei:

- "Tá na genética da gente, na hereditariedade do Homem; todo mundo é corno. Mas daí a... Acho lamentável! Deplorável, mesmo...".
Com um sinal de anuência, mas em silêncio, Allan pôs-se a caminho de casa.
Voltei os olhos para livro e, como se encontrasse a inspiração necessária, emendei: "E tem mais: Se reagíssemos sempre assim, não haveria Tchekov que nos devolvesse a alegria do viver!".

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Brasil-Acima-de-Tudo!

Dentre as coisas mais emocionantes e bonitas que tenho como um presente da vida está o Hino Nacional Brasileiro.

Tudo bem que futebol, mulher e ovo cozido com gema mole –este em primeiro lugar- sejam coisas de outro mundo, insubstituíveis, mas o hino nacional... Pô, o hino é muito fodão mesmo! E digo isso, literalmente, da boca para fora.

Não é que ele seja menos ou mais bonito que qualquer outro hino, pois se trata de uma questão de preferência pessoal e patriotismo declarado. Gosto da letra, da métrica e da melodia.

Dos símbolos pátrios, e ainda que reconheça a beleza e originalidade de nossa bandeira, o hino é o que mais me representa, disparado. Quanto ao brasão ou ao selo real, dispenso comentários.

Nasci numa terça-feira, durante uma ditadura militar, quando se tinha menos liberdade para viver. Mesmo assim, minha infância foi plena, feliz e intensa. Soube, desde pequeno, da existência do Mal, embora tenha sempre sido tratado como um valioso Bem. Assim sendo, e ainda que por imposição cívica, entendi que o hino era, sobretudo, brasileiro.

Quando dos meus oito anos, ainda no primário, tínhamos um dia na semana (a terça-feira) em que se realizava o hasteamento da bandeira. O LP que continha o hino era tocado numa vitrolinha com amplificação caseira. Eu adorava!

Não pela bandeira ou pelo hino –reconheço- mas porque “atrapalhava” a aula. E porque dava pra fazer “bagunça”. E porque era uma oportunidade deliciosa para eu me esbarrar na menina pela qual eu estivesse apaixonado. Eu sempre estava apaixonado.

Três alunos –geralmente os melhores- eram escolhidos para a honrosa função. Eu nunca fui agraciado com tal honraria, mas o Édson, filho da professora e protótipo de menino perfeito (ainda que excessivamente sardento, feio e do cabelo vermelho), era sempre um dos escolhidos. Tão logo a agulha tocasse a bolacha, contudo, eu já nem me lembrava da existência do Ferrugem. Preferia ficar tentando fazer meus coleguinhas rirem por meio de caretas engraçadas. As caretas que eles faziam de volta eram igualmente engraçadas, mas hilário mesmo era olhar para uma careta ao mesmo tempo em que se olhava para a tia, logo ao lado, com cara de flagra!

Como resultado, a associação entre o hino e uma sensação de bem-estar estabeleceu-se naturalmente em meus subterfúgios emocionais. Eu aguardava a “hora do hino” com a mesma ansiedade que aguardava a aula de educação física ou de artes, quando tudo o que eu fazia era divertido.

Na seqüência, por um período relativamente breve, fui “Lobinho” – uma espécie de microescroteirinho. Apesar de lidar muito mal com o autoritarismo inato àquela instituição (era rebelde e indisciplinado), conquistei alguma simpatia entre os líderes da alcatéia por, ainda novo, haver já decorado um bocado daquela rebuscada letra.

Após o fim da ditadura, o hino virou coqueluche nacional ao ser liricamente cantado por Fafá de Belém, em prol das “Diretas, Já!”, e também, logo em seguida, por conta do “passamento” do Tio Tancra.

E mesmo quando ia mal a política e também o futebol, o canto da nação era entoado em ginásios, autódromos e tatames, mundo afora. Isso dava sustentação ao orgulho nacional.

O momento crucial para a consolidação da minha admiração se deu enquanto estive, involuntariamente, servindo à pátria (amada, idolatrada, salve, salve).

Toda terça-feira, o Regimento se reunia no pátio central do quartel, numa série de intensas evoluções por parte de todos os esquadrões, para escutar as ladainhas do Comandante.


Isso envolvia centenas de militares. Eu curtia muito o movimento das massas, principalmente quando éramos recebidos pelo Pelotão da Fanfarra, ao som de Besame Mucho, versão ragga-techno-marcial-mix; eu simplesmente pirava!

Após todos estarem perfilados, em ordem, vinha o hino... Também por meio de uma vitrola e um bolachão, como nos tempos remotos. A primeira parte é belíssima, e a segunda, maravilhosa!

“Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada...”


Ao cantar essa estrofe (sempre, sempre, sempre...), eu sentia uma emoção profunda, de arrepiar os pêlos e derramar lágrimas; um orgulho visceral! Sequer me envergonhava pelos olhos marejados, afinal, aquele momento era, indubitavelmente, o único pelo qual valia à pena estar ali.
A passagem pelos Dragões só aumentou minha paixão pelo hino. Escutá-lo, cantá-lo ou assobiá-lo tornara-se, para mim, um prazer real.

Back to present, vinha eu, na bela manhã da última terça-feira (!), a conduzir meu bólido, rumo ao trabalho, deslizando-o por uma via inóspita quando, por aparente tédio, liguei o estéreo.

Passei pelas minhas estações favoritas e não encontrava nem música nem notícia, até que, subitamente, reconheci os acordes... Era ele, o hino!!!

Aumentei o volume e soltei a voz...!
E tal qual na infância, exatamente como na adolescência, eu cantei, eu sorri, eu chorei; eu me senti feliz!

"Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,Brasil!"