segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Maior Torcida do Mundo

É domingo, e as expectativas são as melhores...

Já ouvi alguém dizer que o melhor mesmo é não ter expectativas, pois tanto maiores serão as decepções. Acho esse papo coisa de gente amargurada; puro cinismo existencial – coisa de quem tem medo da felicidade e do mundo real.

É domingo! É dia para se acordar ao lado de quem se quer. De café gostoso. De banho de cachoeira. De almoçar camarão (e ficar com a pança cheia). De correr pela grama e brincar no Festival de Cultura Brasileira. De beber e ficar doidão para assistir o jogo do Mengão (que, sim, será hexacampeão)! Enfim, é domingo!

Logo cedo, antes mesmo do desjejum, o primeiro entrave surge do chão. Era uma ave – um sabiá – que apareceu por lá. Debatia-se por nada, e não aparentava qualquer dano. Mesmo assim, foi levada ao veterinário para ser analisada. “-É um sabiá; uma fêmea”, revela a roliça atendente. Ficamos na expectativa de que melhorasse, já nos despedindo, retomando o itinerário preparado para aquele domingo.

Na padaria, a mesa. O pedido. O jornal. Perco preciosos minutos tentando localizar a página que me interessa. Mas falta o caderno de esportes – logo o caderno de esportes! Reclamo ao dono, que prontamente “rouba” o suplemento do próximo jornal e me entrega. Algum leitor ficará sem saber dos esportes.

Volto à mesa com o suplemento roubado e dois yakultes que peguei no refrigerador. A nova mania é tomar Yakult. Mas a validade está vencida. Os lactobacilos vivos já haviam morrido há uma semana... Reclamo novamente ao dono, e ele diz que logo trocará os yakultes. Enquanto isso não ocorre, os desavisados que tomem o mórbido coquetel. Começo a duvidar da lisura daquele comerciante.

Quando o pedido chega, já não há tempo para ler o jornal. A falta de sintonia entre meu ritual e o mundo real me deixa um pouco incomodado. Mas a garçonete não tem culpa. Ela apenas está cobrindo a folga da titular. Falta-lhe traquejo, como a todo reserva.

Mas ainda é domingo; ainda é dia. Dia quente, perfeito para um mergulho nas frescas águas de uma cachoeira. E é lá que vai dar nossa trilha...

Mas alguma coisa aconteceu. Pela força das águas, as pedras rolaram e, se não criaram limo, preencheram boa parte do córrego urubulino. O “poção” virou um frustrante “banheirão”. Passo a mão pelo fundo e recolho algumas amostras. Penso em sabotagem, mas parece que foi trabalho da mãe natureza, terra nostra. Tenho de me resignar. É domingo.

Voltamos ao lar. Tempo para amar.

O relaxamento. O sorriso nos lábios. Os corpos deitados, arejados.

O banho renovador. A roupa leve. A fome bem vinda, frutificada pelo amor.

No restaurante não houve surpresas. Aprendemos a dosar a casquinha de caranguejo, a cerveja, o camarão e, por fim, o beijo. Tudo na dose que tinha de ser. As expectativas voltam a crescer. A tarde se enseja. É domingo.

Plenamente satisfeitos, abandonamos os planos originais e buscamos novamente o acolhimento perfeito. Da casa. Do sofá. Do ventilador. Da vodca com guaraná.

Ela, que nem sabia muito o que era futebol, agora adora, e me assiste enquanto eu assisto ao jogo (que nem era nosso, mas do Botafogo!). E diz que eu poderia ser juiz, comentarista ou até jogador.

Um gole. Um gol. Mais goles. Mais gols! Surpresa no Engenhão: Fogão volta a ser Fuderosão! Era uma expectativa que eu nem tinha, mas que me fez correr à janela e, como nos velhos tempos, urrar grosserias ao time derrotado: que la chupen os são-paulinos de plantão! Afinal, é domingo!

Ao cair da tarde tudo estava pronto para que o tão temido fim de domingo se transformasse num irretocável dia lindo. Seria o momento em que todas as agremiações sentiriam uma saudável inveja do que é ser rubro-negro, vendo a alegria - o júbilo! – do mais popular torcedor brasileiro.

Quando o time do Flamengo surgiu na boca do túnel, pisando o sagrado gramado do Maracanã, os 85 mil presentes fazem surgir um monumental mosaico, trazendo uma acachapante mensagem: A MAIOR TORCIDA DO MUNDO FAZ A DIFERENÇA.

Até mesmo os rivais gostariam de ter visto o que teria sido da noite de ontem se os jogadores do Mengo houvessem feito a devida leitura daquela mensagem, suprindo as expectativas de uma Nação que, há 17 anos, não sabe o que é ser campeão brasileiro. Mas não foi bem assim.

A festa ainda é dos outros.

Aos que, por ora, zombam da minha desgraça e também da dor alheia, deixo-lhes, com um sorriso amarelo, um recado singelo:

“Quem me vê sempre parado, distante garante que eu não sei sambar





Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar




Tô me guardando pra quando o carnaval chegar




Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar”

(Chico Buarque)




No dia 6 de dezembro, estarei lá, junto aos meus, numa festa tamanha que quarta-feira de cinzas nenhuma porá fim. Estão todos convidados.

18 comentários:

Marcelo Mayer disse...

olha, reconheço ser uma torcida linda e a aior. mas tenho que admitir que a torcida mais fiel é a minha, do timão. hehe... é pra provocar.

o flamgo jamais fará uma invasão como nós fazemos.

enfim, mais uma vez digo... é pra provocar. sempre falo que meu soinho é uma final entre timao e manego no maraca, com torcida meio a meio. pq sera as duas torcidas quwe melhor representam o futebol e o povo. ano que vem, libertadores será da massa!!!

abraços corinthianos, meu caro! rs

Márcio disse...

Yakult? Tenho uma receita ótima: duas garrafinhas + uma dose generosa de vodka + gelo à vontade. Bater tudo na coqueteleira. Bom demais! Quanto ao jogo, já disseram que torcedor sábio é o que comemora antes! Não vi a amarelada da mulambada, mas gostei da apimentada que ela deu no campeonato. Quero que 4 times cheguem à última rodada empatados em primeiro lugar. O inusitado me interessa! Abração!

O Maltrapa disse...

Marcelo, que eu me lembre, foi na Libertadores de 1993 que Flamengo e Corinthians se enfrentaram. O duelo, contudo, foi pela primeira fase e, salvo engano, travado em solo matogrossensse! Placar final: 2x2. Mas fique tranquilo; ano que vem tem mais, e não vai haver Robolão que dê jeito no Timão!

Falou!

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Márcio, não sou muito afeito a coquetéis, mas vou aceitar sua sugestão na partida de domingo, quando -anote - o Mengo vai ganhar por 3x1 do Coringão do Robolão.

Quanto a esse seu gosto pelo inusitado... Já não basta você torcer pelo Bahia? Hahahaha!!!

Abraço forte,

O Maltrapa

Ps: Brincadeira. Salve o Bahia - eterno tricolor de aço!!! Hahahaha!!!

Anônimo disse...

João!

Bacana demais as coisas que vc escreve... gosto do jeito certeiro mas deprentecioso que as palavras se organizam nos seus textos.

Um beijo!

Lu

O Maltrapa disse...

Obrigado, Lu, mas esteja certa de uma coisa: de pretensões, tenho todas! :P

Pinte sempre por aqui!

Beijo,

O Maltrapa

carol sakurá disse...

Caramba,maltrapa!

Que delícia de texto!
Coeso e com final emocionante.
Admito que não tenho muita simpatia pelo FLA,mas não posso deixar de reverenciar a torcida maravilhosa.

Pena que não deu!

Beijos!

Carol Sakurá

O Maltrapa disse...

Carol, reverenciar o belo é um dever, e a torcida do Mengo é um caso à parte - com todo o respeito que as demais merecem.

E se ainda não deu, haverá de dar! Quem viver verá!

Beijo grande,

O Maltrapa

Marina disse...

muito bons, foto e texto!

O Maltrapa disse...

Valeu, Marinota, também curti a foto, mas não é minha! Quando eu estiver lá, em meio à Magnética, no dia 6, prometo fazer uma ainda mais bonita, ok?

beijo,

O Maltrapa

De Azevedo Coe disse...

É isso aí, João,
ainda há esperança. "Domingo, eu vou ao Maracanã. Vou torcer pro time que eu sou fã. Vou levar foguetes e bandeiras..."
Saudações rubro-negras!

O Maltrapa disse...

Pois então é melhor correr, De Azevedo, pois os ingressos começarão a ser vendidos nesta Quinta, dia 26!

...Não quero cadeira numerada/vou sentar na arquibancada/pra sentir mais emoção/porque meu time bota pra fuder/ e o nome dele são vocês quem vão dizer, ô-ô-ô-ô...

Grande abraço,

O Maltrapa

Luna Cortez disse...

que post lindo, eu até me emocionei. =~~~

pareceu meu domingo, no caso eu era ela, hahaha. só que sendo você.
assisti o jogo do botafogo com meus amigos gays, então no caso, o homem era eu, somente eu.rs
eu gritei, urrei, e até fiquei rouca, e quando começou o jogo do FLA, eu já tava levemente alcolizada, hahaha, por ter torcido tanto contra os bambis, e ter comemorado a derrota deles, claro. Mas fiquei arrazada com o FLA, espero que o Goiás, jogue com os bambis do jeito que jogou com o FLA. enfim. não aguento mais sentir meu sangue esquentar quando zombam de mim. hahah

a maior torcida do mundo faz mesmo a diferença, e é linda né?

beijos rubro-negros.

:)

O Maltrapa disse...

Fique tranquila, Luna, porque eu vou mandar um "salve" pra você lá do meio da Magnética!

Quem nos ofende, humilhando, pisando, pensando que a gente vai aturar, pode esperar; nosso Carnaval vai chegar... Ah, se vai!

Beijões Rubro Negrões Fuderosões,

O Maltrapa

Márcio disse...

Mantenho forte meu lado torcedor (Bora Bahêa, minha porra!), mas hoje em dia , a exemplo do enfoque do livro de Alex Bellos, me interessa mais o lado lúdico do futebol, o que gira em torno dele (e não é pouco), as muitas reações que provoca, direta ou indiretamente, nas pessoas de todo mundo e nos brasileiros em particular. Na hora de acompanhar um jogo, acho importante a pluralidade de torcidas diferentes. Na Fonte-Nova sempre preferi sentar num setor que recebia, sem atrito, torcedores de Bahia e Vitória. Ali era muito mais prazeiroso rir com as gozações de parte a parte, ver o desespero e o êxtase simultâneos que um gol pode provocar, e muito mais. Tudo isso me (com)move muito mais que a unanimidade de uma só torcida, por mais belos que sejam os espetáculos que proporciona, a exemplo da do Flamengo.

Senti falta de mais comentários femininos aqui, além dos de Luna e Carol - será que o futebol não está mexendo com as mulheres?

Para terminar: cuidado com a maldição dos gorduchos! Depois do estrago que Cabanãs fez no rubro-negro em tempos recentes, é melhor não dar mole para Ronaldo barrica no domingo!

O Maltrapa disse...

Márcio, assisti à final da Guanabara de 1999 (Vasco) e do Carioca de 2007 (Botafogo) em torcida mista. É realmente uma delícia poder curtir, em meio aos adversários, energias tão intensas, pois há sempre o gostinho da vitória e da derrota, juntinhos.

Por outro lado, estar no meio da sua galera, sabendo que há milhões fora do estádio, espalhados por todo o país, nos dá uma sensação de felicidade coletiva estrondosa, como uma potente dose de vida introjetada veia adentro, estuporando as válvulas cardíacas e todos os alvéolos pulmonares; é assim que me sinto gente!

Quanto à mulherada,a dificuldade consiste em compreender a essência da regra do impedimento, hehehe...

Abração,

O Maltrapa

Dias de Setembro disse...

Na verdade, como você sabe, João, sou vascaína e, portanto, estarei torcendo CONTRA o flamento.
Aliás, era flamenguista, mas pra dar uma força pro ex-marido, acabei torcendo pro vasco, tomei gosto e fiquei...também sou outros, como o Vitória, Vila Nova etc, ando pelos estados e vou me identificando futebol afora, então, Márcio, essa tese de que mulher não gosta de futebol pra mim não funciona, a gente só não fica ligado nos detalhes de impedimento etc mas isso não é o mais importante...
Tita

O Maltrapa disse...

Como se pode observar, caro leitor, a Tita é vascaína por conta do ex, o que, por associação, explica a eterna síndrome de vice que a bacalhoada carrega, hehehe...

Valeu pelo título da Segundona, Tita!!!

Beijo,

O Maltrapa