sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Futuro do País a Nós Pertence


Sentado à mesa da engordurada lanchonete, Horácio Augusto, funcionário público relapso e de rechonchuda forma, delicia-se comendo um "Xis-Tudo", pouco se importando com o molho rosé que a gula faz respingar na camisa.

Bem atento ao bacon, Horácio não percebe a aproximação de um menino sujo e esfarrapado que, coçando o braço, se dirige a ele.

- Com licença, tio... O senhor poderia me comprar um sorvete como aquele ali? - diz a criança, apontando para a desgastada foto de um suntuoso sundae, pendurada na parede da bodega.

Incomodado, tanto pela presença inoportuna do pirralho como pelo seu aspecto desagradável, Horácio lhe direciona um olhar de reprovação. Constrangido, o garoto se afasta, e logo o comilão volta sua atenção ao volumoso sanduíche.

A nova mordida, porém, não teve o mesmo impacto prazeroso que as anteriores. Por instinto, Horácio virou a cabeça em busca do menino, mas não o viu. E sentiu um inusitado incômodo dentro de si por não havê-lo ajudado.

Não era, na verdade, propriamente uma ajuda; e talvez fosse bem mais que isso. Era, senão, a satisfação de um desejo! Fosse uma mera ajuda, pensava, ele haveria pedido dinheiro, e não sorvete. E eu não o ajudei... Quer dizer, não tive vontade de satisfazer seu desejo... Que merda...

Esse raciocínio o incomodou ainda mais. Sentiu-se mesquinho, avarento.

Lembrou de quando era criança, e de como eram saborosamente apreciados os momentos em que podia comer seus doces prediletos. De quando economizava suadas moedas para ir à padaria, onde comprava pirulitos de chiclete, picolés e chocolates, e de como se escondia para não ter de dividi-los com mais ninguém...

Lembrou de como se esgueirava pelos bambuzais, próximo à sua casa, embrenhando-se em seu interior, dando numa clareira natural. E lá, encontrava papelões sobre os quais se deitava, ficando protegido da palha e de seus pelinhos piniquentos. Enquanto se lambuzava com as guloseimas, lia as revistinhas em quadrinhos que ele mesmo escondia por ali, ao passo que era, inconscientemente, adormecido pelo ranger dos bambus e pelo hipnotizante baile de suas copas, balançando ao vento...

Eram instantes mágicos, em que usufruía de total autonomia, desfrutando de “sua” comida, “suas” revistinhas, “seu” espaço; seu tempo, enfim. Lembrou-se de como aquilo lhe dava autoconfiança, empregando à sua volta ao lar uma atmosfera ímpar de reafirmação e construção de sua própria personalidade. E pensou em como teria sido ruim se, em seu mundo infantil, não pudesse nunca ter tido aquele tempo, quando era rei de si mesmo, em como sua vida teria sido mais sem graça e vazia. Por fim, sentiu-se responsável pelo futuro daquela criança suja e miserável.

Com o olhar no vazio, Lembrou-se, da figura que há pouco lhe importunara; dos grandes olhos assustados, do cabelo desgrenhado e da cara suja do menino. E também da camisa frouxa e rasgada, caída pelo ombro, em contraste às palavras delicadas e respeitosas que o garoto utilizou, tendo pedido “licença” e o chamado de “senhor”. Isso o fez sentir-se um desgraçado, pois se tratava obviamente de uma alma pura, e que, se não fosse bem tratada, poderia logo descambar para a vida bandida, tornar-se um pivete, depois marginal!...

À sua volta, alheios à sua angustia, outros clientes comiam, tranquilamente - exatamente como Horácio fazia há poucos minutos. “E ninguém se importa; ninguém dá a mínima!!!... – pensou, indignado. Subitamente, num misto de culpa e benevolência, levantou-se, comprou um enorme sundae de chocolate com caramelo e saiu em busca do menino, porta afora, em direção ao estacionamento.

Nada... Apenas o sol escaldante das duas horas da tarde de um abafado dia de verão. Olhou para um lado e para o outro. Caminhou por entre os carros. Andava como se estivesse sem rumo. Um outro quase o atropela, mas ele ignora, parecendo estar mais preocupado em encontrar o pirralho.

O sundae, derretendo ao sol, começa a escorrer pelas mãos de Horácio; depois pelos braços. Enquanto isso, ele, cada vez mais desesperado, já pensa no pior, e imagina o menino metido num buraco, cheirando cola, fumando crack, a ponto de perder a infância - e tudo por sua culpa, por sua falta de compaixão!!!

Desnorteado, tropeça na calçada; quase cai. Troca o sundae de mãos, limpa o suor da testa, melecando-a de sorvete. Passa a mão na calça, sujando-a também. E pergunta aos transeuntes pelo garoto: - “Não viram uma criança com cara de bom menino?”, indaga aos que passam, sem nem resposta esperar.

Dá toda uma volta no quarteirão e então, começa a sentir cansaço. Esbaforido, recosta-se numa mureta, todo suado e sujo de sorvete, lembrando que já passa da hora de voltar ao trabalho. Mas está ali, todo melado, com aquele pote de sorvete semi-derretido escorregando em sua mão, sem saber o que fazer com ele.

E então, prestes a desistir, já numa última olhada, percebe a presença do moleque, imiscuído entre dois arbustos, com a cabeça entre os joelhos e o olhar fixo no chão – escondido como ele mesmo gostava de fazer.

- Ê! Ô, rapaz! Te procurei por todo o quarteirão! - exclama Horácio, refazendo-se do cansaço e limpando o resto de caramelo que restava em sua testa. O menino levanta a cabeça e olha, desconfiado.

-Eu?

- É claro! Você não quer o sorvete? - diz, oferecendo-lhe aquele caldo doce e derretido.

A criança estica as mãos. Horácio hesita um pouco por conta da sujeira que elas trazem, mas entrega o copo, sorridente. E pergunta pelo seu nome: “Wanderson.” – responde.

- Tome aqui, Wanderson; é de caramelo!... Você gosta?
-Gosto sim... Obrigado – diz, timidamente.
- É, deve ser muito bom mesmo... Mas não vá fazer coisas erradas por aí, certo?...
-Coisa errada?!.. Não, não... – diz ele, jogando instintivamente um pedaço de plástico no chão, sem ao menos tirar os olhos do copo de sorvete.
O gesto, no entanto, causa surpresa em Horácio que, para espanto de Wanderson, solta um berro: “No chão não!!! Tem que jogar no lixo, como é o certo! Tem que fazer sempre o certo, viu?", ensina, afastando-se do moleque.


Enquanto Horácio Augusto caminha, vai refletindo sobre a boa ação que julgara realizar, e filosofa sobre sua "fantástica" atitude - como se ela representasse o início de um momento histórico para sociedade brasileira. Por fim, deixa arrebatar-se: “Muito bem, muito bem!... É imprescindível que haja pessoas a preocupar-se em educar as crianças deste País!..." , e, lambendo os dedos, conclui: - "O que seria de nós se não fosse por gente assim, como eu?!...”.

21 comentários:

Marcelo Mayer disse...

o maior prazer desse menino é tomar uma coca-cola que tanto nos afasta de seu mundo

muito bom!

Edgard disse...

muito bom...

Márcio disse...

Escriba, seu texto deixa claro como a relação com a comida revela um lado importante das pessoas. Uma vez - eu devia ter uns dez anos de idade - estava em Salvador na loja de departamentos Duas Américas, cuja lanchonete era famosa por ter o mais gostoso sanduíche misto da cidade. Sentado no balcão, ao lado de minha mãe, estava pronto para me deliciar com a especialidade da casa quando, num vacilo, deixei-a cair no chão. Retado da vida, fiz menção de resgatar o sanduba do piso emborrachado, iniciativa prontamente abortada por olhar fulminante de minha mãe. Ainda nem sabia se teria ou não direito a outro misto quando dois meninos de rua (se bem que naquele tempo essa denominação nem existisse) que estavam por perto começaram a se engalfinhar no chão, numa batalha para ver quem levaria o sanduíche perdido. Fiquei tão pasmo com a cena que até perdi a fome. Terminei o suco de laranja que estava tomando e fomos embora, eu e minha mãe.
"O maior prazer desse menino é tomar uma coca-cola que tanto nos afasta de seu mundo"? Tentei entender, mas não consegui. Dá para explicar aí, Marcelo? Voltei até ao texto para procurar uma coca-cola, mas só achei sorvete mesmo.

O Maltrapa disse...

Lembro que você já me havia feito esse relato do sanduba, em Salvador, mas num outro contexto, Marcio. Acho que a hora do rango deve ser a hora em que mais nos revelamos "humanos" (ainda que por vias "selvagens"); faz sentido?

Quanto ao lance da coca-cola... Só o Marcelo pode explicar!

Abraço forte!

O Maltrapa

Ps: valeu, Planet!

O Maltrapa disse...

Ps: quando digo "rango", digo "rango", no sentido mais amplo que há... Hehehe! :p

O Maltrapa

Marcya disse...

Vamos todos aliviar nossas consciências e nos regozijar com Xis-Tudo e milk shake de caramelo! Como diria Quincas Borba, "ao vencedor, as batatas!"...


(Ah, quase esqueci: E.T. phone home, Marcelo.)

carol sakurá disse...

Maltrapa,

Conto Belíssimo!
Eis a nossa humanidade!
Como conseguimos sermos bons e desprezíveis em instantes.
Adorei!

Beijos!

Carol Sakurá

O Maltrapa disse...

Aliviar a consciência é fácil, Marcya; o difícil é torná-las leves, alimentando-as exclusivamente com caramelo, bacon e hipocrisia...

Beijos saudosos...

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Falou e disse, Carol: "bons e desprezíveis", em segundos. É a tal "raça humana", que, segundo Gil, roubou uma semana do trabalho de Deus (enquanto que o resto parece estar, agora e sempre, por conta do diabo...).

Beijo,

O Maltrapa

Amarilis disse...

Que bonito o seu texto. Muito emocionante.

Outro dia, quando fui pegar o carro, um menino da idade do meu filho chegou junto e perguntou se podia ir embora com a gente. Fiquei com uma vontade de levar pra casa... aí pensei que não era assim, pensei na mãe dele, no sumiço do menino de rua. Sei lá. Ele deve ainda estar por lá e na minha vida ainda tem espaço pra mais um. A minha carência se refletiu na dele.

Quem já não correu atrás de alguém com um sorvete derretendo nas mãos?

Beijo pra você.

O Maltrapa disse...

Também achei emocionante o seu relato, Amarilis. Deu pra ver a naturalidade do seu ato, seu instinto materno generoso, como se fosse normal a idéia do seu filhote ganhar um irmão assim, de uma hora para outra... Mas fiquei pensando também o que se passa na cabeça e no coração de uma criança que "pede para ser levada" por alguém, tão espontaneamente, imaginando a possibilidade de mergulhar num outro mundo... É uma situação muito delicada.

Sempre bom tê-la por aqui.

Beijo grande,

O Maltrapa

Deusa disse...

Olaaaaaaaa meu querido
Vim aqui te deixar um Abraço Bem Apertado
beijoooo

Luna Cortez disse...

Maltrapa, aqui estou eu L, de volta ou não. Resolvi comentar pelo meu blog pessoal, acho que é permitido né?rs

Quando pensei que Horácio estava permeado de humanidade, ele age de forma desprezivel. Carol disse tudo, não preciso acrescentar nada.

ele teve apenas um súbito momento de humanidade, e logo se transformou numa pulha e desceu ao nível em que sempre esteve.

Um beijo, L.

Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O Maltrapa disse...

Abraço recebido, Deusa!

Em troca, deixo-lhe um beijo,

O Maltrapa

___________________________________

Olá, L., ou melhor, Luna! E então, estava de férias? Hahaha!!!

Acho que sua impressão sobre o texto bateu com a minha. Por um breve e derretido instante, Horácio conseguiu ir além das suas necessidades imediatas (bacon?) para se enxergar na posição do outro, e assim, evoluir - humanamente falando.

Ao invés, porém, de se aprofundar no assunto, desejando que o garoto e todos os demais sentissem, metaforicamente, as benesses de um bambuzal ao vento, preferiu dar-se por satisfeito, apelando para o funesto mantra cristão de "fazer a sua parte e ficar com a consciência tranquila". No caso, as dimensões da "parte" dele refletem, em grau e intensidade, o nível de sua consciência.

Beijo grande,

O Maltrapa

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Nossa, Ana, o negócio bateu mesmo, hein? Vou ter de abrir um espaço mais amplo para comentários assim, hahaha!!!

Gostei das suas impressões, mas não tenho a pretensão de querer que o leitor entenda isso ou aquilo, especificamente. Obviamente, e do mesmo modo, não desejo que ele não entenda nada (Marcelo?). Minha satisfação é alcançada a partir do momento em que o texto suscita a reflexão por parte de quem o lê (exatamente como ocorreu com você).

A questão do EGO é flórida em nossa sociedade, e não por outra razão, este Maltrapa percebeu que antropólicos caminhos poderiam revelar uma realidade mais aprazível e humana; sensível, por assim dizer.

No mais, escreva, comente, exploda!

Beijão,

O Maltrapa

Márcio disse...

Escriba, voltei a ler o texto e só agora atentei, no último parágrafo, para a referência ao uso da vaga destinada a deficientes físicos. Na boa: achei esse detalhe totalmente dispensável! Você já havia dado, ao longo do texto, a exata medida do barnabé Horácio Augusto, com todas as suas inseguranças e contradições. Qualquer dúvida quanto a seus valores fica esclarecida com a frase "O que seria de nós se não fosse por gente assim, como eu?!...”, que acho que poderia muito bem ser a última. O que vem depois me parece desnecessário, forçado, como se você quisesse colocar numa frase o que já ficara bem posto ao longo de todos os parágrafos anteriores. Para mim isso ficou claro.

O Maltrapa disse...

Também prefiro assim, Marcio.

Valeu!

O Maltrapa

Roseane z disse...

Maltrapa, lição de casa:assistir ao filme " the last supper " ( em portugues, virou " o último jantar" )1995-US..Na minha modesta opinião,nele, está o que de melhor poderia se comentar sobre o texto acima.Não perca!!!!!.bbjjiinns da Z.

p.s.- se vc tiver NET,vai reprisar no sábado,28/11,ás 14:15-canal 76.

O Maltrapa disse...

Salve, salve, Ms. Z! Everything in the Peace of the Lord? Espero que sim!

Partindo de você, a sugestão deve ser boa. Vou assistir ao filme, com certeza!


Beijão,

O Maltrapa

Ps: "lição de casa" é ótimo!!! Hahaha!!!

Marina disse...

muito bom mesmo e ficaria ainda melhor se o Horácio não tivesse uma interpretação tão clara e psicologizante das coisas, mas apenas essa sensibilidade que veio à tona através de um pedido.

O Maltrapa disse...

É como se a sensibilidade de Horácio não aflorasse por mais tempo que o que leva um sundae derretendo ao sol...

O Maltrapa