sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Saindo do Armário


Após algumas temporadas perambulando por corredores universitários, fui ficando mais vagabundo e presunçoso. Do tipo de cara que entra em qualquer sala demonstrando intimidade, falando “e aí” para o professor e vai se sentando no melhor lugar.

Gostava de provocar os professores quando estes pareciam querer subestimar a inteligência dos presentes. Consistia numa estratégia que os estimulasse a fazerem colocações menos levianas e coisa e tal; a idéia não era de confrontação. Ainda que de conteúdo político, eu procurava sempre colocar pitadas de humor, o que, não raro, poderia transformar uma aula desinteressante num risadio coletivo.

Bartolomeu foi um desses mestres (aliás, “doutor”) que merecia provocação contínua, tal sua soberba.

Nascido e criado num Rio ainda glamoroso, expressava-se de forma imperial. Com suas bochechas trepidantes, possuía um gestual repleto de pernosticismo e uma fala lenta, algo pedante. Só se referia às grandes empresas como “transnacionais”, como se, num esforço policarpiano, quisesse revelar ao mundo sua “descoberta neolinguística”.

Em sua patente vaidade, julgava-se progressista, daqueles que se referem aos próprios ideais revolucionários da juventude como “características de um tempo”. Em tempos atuais, no entanto, dava-se ao luxo de discutir, durante as aulas, seus whiskeys preferidos e os blends mais renomados: “Só tomo Black Label”, dizia, cheio de orgulho. Tinha cara de pedófilo, daqueles que gostam que as crianças o chamem “tio Bartô”.

Em pouco tempo, "conquistei" aliados. A maioria, informais, que apenas gargalhavam com a galhofa, embora houvesse
quem rompesse o anonimato, revelando também suas discordâncias em relação ao Bartô, ficando este cada vez mais estereotipado. Ganhou logo a alcunha de “senhor do universo”.

Com o passar do semestre, aquela foi se tornando a aula mais atrativa. O número de faltosos diminuiu, tão interessante ficara o ambiente. Quando eu levantava a mão ou coçava o cavanhaque, Bartolomeu se mexia em sua mesa, incomodamente, já a espera do embate.

Notei que ele, apesar de PhD, etecétera e tal, não possuía lá “todo” esse conhecimento, principalmente quando escapulíamos para fora do academicismo. Aí ele se perdia, ficava nervoso, ainda que demonstrasse enorme espontaneidade em abandonar o tema para regozijar-se com suas aventuras no estrangeiro (para além dos prazeres etílicos).

Certa vez, enquanto discutíamos algumas regras internacionais sobre fronteiras em regiões de floresta, nosso mestre entendeu por relatar uma situação de perigo que vivera na selva, anos atrás, acompanhado de um professor colombiano...

- Acompanhado, né? Hum... -, interrompi eu, olhando maliciosamente para a turma.

Bartolomeu fez que não escutou, e seguiu com sua ladainha, dizendo que o avião ficara desorientado, no que ele e seu parceiro se viram obrigados a passar a noite, na selva...

- Na selva... Hummmmmm...

Ele foi ficando vermelho. E a cada detalhe da aventura, bastava que eu fizesse “hum” para que Bartô se perdesse na lógica do relato. A turma divertiu-se a valer, e até Alícia, a monitora que nunca ria e só fazia comentários pertinentes, perdeu o rebolado naquele dia, deixando o mestre sem cobertura moral. Dali em diante, parou de responder às provocações; as classes ficaram mornas.

Apesar das provocações e das piadas, fui aprovado, dando prosseguimento ao meu antropólico périplo pelas fileiras acadêmicas.

Numa dada noite de sexta-feira, numa festinha porralôca, reconheci Alicia, que estava irreconhecível, tão alegremente bêbada se mostrou.

Veio pra cima de mim na maior intimidade, sendo que nunca havia falado comigo. “Joããããão!!!”. E disse que tinha uma coisa inacreditável para me contar.

- Sabe o Bartolomeu?
- Claro! Como esquecer?
- Pois ele tem você engasgado na garganta!... -, disse ela, entornando mais uma golada de wodka, e quase tropeçando na calçada.
- Comigo? Por quê?
- Lembra daquela estória que ele contou, sobre um lance na selva, com um colombiano? Pois então, logo depois daquela aula, ele foi embora e nem passou pelo departamento...
- Sei...
- ...e voltou todo estranho no dia seguinte. A gente tava preparando um material para a próxima aula, no que ele olhou para mim e perguntou “Você acha que tenho cara de homossexual?”!

Eu e Alícia demos uma enorme gargalhada, mas logo fiquei sem fala. Ela então me disse que o pobre Bartô encasquetou com minhas insinuações, e que não parou mais de questioná-las, até o fim do semestre! “Por que o João falou aquilo?”. Será que a turma desconfia de alguma coisa em relação a mim?”, “Você já escutou mais algum comentário?”...

- Mas como é que pode, um cara que se diz tão preparado, viajado e estudado, dar bola pruma brincadeira marota?...

- Pois é -, emendou ela-, eu nunca tinha desconfiado de nada, mas de tanto ele insistir com o assunto, agora tenho certeza! E o mais engraçado é que ele não te esquece! -, disse Alícia, já se perdendo em meio à balbúrdia estudantil.

Títulos, prestígio, livros... Toda uma carreira dedicada à antropologia, aos estudos, à Academia!!! E nada -nada!- fora, no entanto, capaz de fazer Bartolomeu sentir-se à vontade em sua existência.


Quando a verdade fala, o homem cala.


.

photografie: joão sassi

21 comentários:

Márcio disse...

Agora, a pergunta de 1 milhão de dólares: deu pra passar?? :)

O Maltrapa disse...

Hahahaha!!! Bela tentativa, Só Frango...

:p

O Maltrapa

as viciadas disse...

professor gay e reprimido escondido atrás de livros, e mestrados e PhDs.ui ui ui.clássico.


É assim que vc pega os bobos.
Insinua, se o individuo ficar nervosinho e preocupado, pode ir atrás, que onde há fumaça há fogo.

;D

Bjone,L.

Amarilis disse...

Hummm, João, que coisa mais antiga esse tipo de brincadeira. Ainda mais pra um cara jovem e antropólico como você!

Sou da seguinte opinião: ninguém deve ser trancado no armário, nem obrigado a sair dele, muito menos ter que dar satisfação.

Se eu fosse sua professora, te punha de castigo. Hahaha.

Beijão.

Ludnagaitada disse...

kkkkkkkkkkkkk...
Terrível você, em Anjoão!?
Adoro os encontros da verdade com a máscara. Quando ela não se sustenta, caiu eu na gaitada.kkkkkkkkkkkkkkkkkkk...
Vi tuuuuuudo !!!
O PHDzão não conseguiu segurar o rojão do João.Ririririi...
Dava tudo para estar lá, afff se dava!!!
Lud na gaita, na gaitada.

Marcya disse...

Interessante notar como um simples pigarrinho pode desmontar convicções pouco fundamentadas... Não há PhD que resista.
Ótimo texto, belo argumento; mais um para a galeria dos roteiros!
Beijos!

O Maltrapa disse...

Pois é, Dona Viciada, clássico! Mas, cá pra nós, um "pusta e renomado" cientista social ser vencido por um mísero pigarrinho?!... Pô, pelamordedeus, onde é que vou educar meus filhos? Hahahaha!!!!
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Amarilis, suas sensatas opiniões sempre encontram eco neste jovial coração maltrapilho. Desta feita, no entanto, sou obrigado a declarar que uma "maior falta de contato (ui)" entre nós pode ter-lhe causado a confusão. Explico: não sou do tipo de gaiato que faz "hum", mas, sim, "hum"... Sacou a diferença?
Quem conhece o meu verdadeiro "hum", sabe que o mesmo se deu em tom de chacota camaradal, onde a pseudo-vítima teria todas as razões para rir com as insinuações criadas às claras, sem qualquer desfaçatez. O problema é que ele não tinha a consciência tranquila, e acabou revelando o que ninguém esperava. Aí, eu é que pergunto: tem culpa eu? Hehehe...

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Lud Lu, mostra aí para a Amarilis como é o meu "hum"! Rum! Hahahahaha!!! Pum!

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Marcya, minha linda, qual o nome da Editora? Tava mesmo precisando de um estímulo como esse para voltar a escrever melhor...

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Enorme beijo em todas vocês, nesta bela e chuvorosa manhã dominical!

Êita, que essa é a horda de fãs mais feminina do Brasil! Te cuida Sílvio!!!

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E viva o horário de verão! Uêba!

O Maltrapa

Marina disse...

Texto muito bem escrito. Me impressiono com a habilidade que você adquiriu com as palavras nos últimos anos. Quanto ao conteúdo, desaprovo escolher alguém para santo, não importa quão ridícula a pessoa possa parecer. Beijos

O Maltrapa disse...

Obrigado, Marinota! Acordou cedo para ver o Barrichello? Hahahaha! VRUM!

Dêxávê se te exprico: o ambiente em classe se tornou muito bom com as provocações. Como eu disse, elas tinham o intuito de fazer o teacher se tocar em relação a certas baboseiras por ele ditas. Talvez eu tenha, por pirraça, transmitido ao leitor a impressão de que eu só queria ridicularizá-lo; não era.

Conforme explicação no "balãozinho" anterior, a descoberta desse dia foi meramente casual. Se ele apenas risse com as insinuações, tudo ficaria como dantes; sem cristos ou santos.

Todo mundo tem o sagrado direito de dar o que quiser a quem quiser; e este esteve longe de ser o ponto nevrálgico. Agora, se o cara inventa de falar besteiras numa sala de aula, e ainda quer tirar onda de fuderosão? Ora, vá....!
Beijões,

O Maltrapa

ps:Fuderosão, só o Mengão!

A Colher da Inaê disse...

Estou me tornando repetitiva... mas vc é deeeemais... adorooo seus textos.
Conheço bem essa coisa de pessoas se investirem de sabedoria em nome dos títulos que possuem e não da real bagagem que trazem...mas vc não deixa passar... isso já me deixa mais aliviada...saber que "alguem" desmascara na cara dura... no sapatinho...
Bjos...
E vc tem mesmo razão: FUDEROSÃO SÓ O MENGÃO!!!!!!!

Márcio disse...

Galhofas à parte, Lima Santos, Amarilis tem razão: quem não te conhece, pode te tomar por politicamente incorreto ao ler o texto. Mas isso não é de espantar, pois as múltiplas interpretações, desejadas ou indesejadas, sempre vêm, e é melhor que seja assim, para que o autor se dê conta do alcance de seu texto.

O Maltrapa disse...

Pode continuar a ser repetitiva, Inaê; meu ego adora! Hahahaha! E cá entre nós, a tendência é só melhorar...

Dá-lhe, Mengo!

Beijos,

O Maltrapa

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Aí, Só Frango, gostei do comentário! Acho que você tá certíssimo quanto às múltiplas interpretações de um texto, bem como em relação ao alcance de nossas palavras.

A Amarilis estaria certa se eu efetivamente fizesse o tipo politicamente incorreto. Quem disse que a falta de um conhecimento (em relação a mim) poderia confundir o leitor fui eu - e não ela -, cidadão!

Abração,

O Maltrapa


Ps: já que seu Baêa tá mal, valeu por torcer pelo Mengão na tarde de ontem! Hahaha!

Márcio disse...

Mas a questão é a seguinte, escriba: quem lê não tem a obrigação de conhecer pessoalmente o autor. Imagine seu texto fora do blog, reproduzido num e-mail qualquer. Não seria natural que um leitor avulso tivesse a reação de Amarilis?

O Maltrapa disse...

Mas eu disse exatamente o que você acabou de dizer, rapaz! "Desta feita, no entanto, sou obrigado a declarar que uma "maior falta de contato (ui)" entre nós pode ter-lhe causado a confusão." -, ou seja, admiti que a interpretação dela é legítima (ainda que não seja verdadeira), e que se deu,provavelmente, por não nos conhecermos. Não disse que ela TEM que me conhecer ou ME interpretar como eu quero.

Abraço,

O Maltrapa

Ps: Aliás, a própria Marina, que me conhece muito bem, deixou aqui um comentário que também trazia uma interpretação pessoal (com a qual discordei) em relação à minha atitude.

Por fim, acho que as múltiplas interpretações são sempre saudáveis e bem-vindas, pois, no mínimo, nos ampliam os horizontes.

Márcio disse...

"Legítima (ainda que não verdadeira)"? Aí não dá, escriba, pois essas palavras são sinônimas! Fica melhor sem os parênteses.

O Maltrapa disse...

Pô, Contreiras, cê tá apaixonado por mim? Ou tá me provocando só por gracinha?

De acordo com o Aurélio, "legítimo" tem como umas das acepções aceitas "lógico", "procedente".

Quis, portanto, deixar claro que o raciocínio da Amarilis procede (visto que ela não tem obrigação de me conhecer ou de me interpretar do jeito que eu gostaria), ainda que não reflita a verdade das minhas intenções ou dos meus atos.

Muita coisas, aparentemente lógicas, não fazem o menor sentido nessa vida, meu camarada...

Um abraço,

O Maltrapa

Amarilis disse...

Márcio e João, to aqui rachando de rir de vocês. Nunca pensei desencadear tanta polêmica... Hahaha. A propósito, Márcio, faz tempo que venho me perguntando, o que é essa coisa azul na sua cabeça? Uma compressa pra esfriar a cuca? Rs.
Beijo pros dois.

Márcio disse...

É uma bolsa de gelo, para que eu aguente a dor de cabeça que é fazer o dono do blog aceitar uma opinião diferente da dele (rs)!

O Maltrapa disse...

Tá vendo, Amarilis; vai dar trela... Dá nisso! Agora vai recomeçar a zorra toda...

O Maltrapa

Roseane z disse...

Restrinjo meu comentário a uma só
frase,aliás,de sua autoria:“Só me é possível ver nos outros o que posso ver dentro de mim".E,olha que,eu nem tô apaixonada,nem tô te provocando "de graça"!(bem,talvez um pouquinho...talvez eu sinta por vc. o mesmo que vc. sentia pelo velho “Bartô”: vontade de se divertir!).
Saudações Venusianas! “Que a paz e a prosperidade estejam contigo”
(Dr.Spock-orelha-pontuda)

O Maltrapa disse...

Hahaha! Ao contrário dele, não creio que tenha muito a esconder, garrrota; todas minhas (in)tenções são explícitas, estilo selvagem (uêba!)...

Grande beijo, Ms. Z!

O Maltrapa