quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Moça dos Pastéis


















A Moça dos Pastéis se arruma para o trabalho.





Ser consultor de finanças de uma multinacional era mera conseqüência de sua introspecção. Aos 25 anos, Igor, moço tímido e de gestos contidos, sempre buscou na exatidão da ciência as respostas para a própria existência e também a satisfação que não dispunha para dar ao próprio coração.

Foi assim, na solitária infância de um filho sem irmãos e, com mais ênfase, na adolescência, quando não fez amigos ou - menos ainda - namoradas.

Não que fosse feio – não era -, mas uma rígida educação religiosa atrelada à insegurança de uma mãe abandonada pelo marido terminou por impingir-lhe à personalidade um forte conservadorismo, e isso o impedia de ir além das recomendações domésticas.

Em casa, nada era feito sem a amarga anuência da mãe. Mesmo quando tomava a atitude correta, não recebia elogios ou reconhecimentos.

O medo de um novo abandono fez com que a mãe o tratasse com aparente desvelo. Mas o carinho cotidiano, Igor não recebia. Nem o toque amoroso. Nem palavras de conforto que lhe fortalecessem o espírito. Ao contrário, a cada dia Igor ia se sentindo menos do que era. E entendeu que, para não ser repreendido, bastava que acatasse as vontades de sua mãe. Tornou-se, por vias tortas, um ser demasiadamente respeitador.

Não tivera um pai em quem se espelhar. A respeito de quem, aliás, sempre escutou as piores coisas, exaustivamente pontuadas por sua magoada mãezinha: – Um mulherengo! Homem sem respeito! Que não sabe o que é a Família!... Um pervertido!... – e completava, olhando para o jovem Igor: Não olhes jamais para mulheres da rua, meu filho; não seja um desgraçado aos olhos de Deus, como foi teu pai.

Para Igor, todas as mulheres que via na rua eram mulheres da rua. E apesar de admirá-las em seu íntimo, não demonstrava qualquer apreço por medo de desgraçar-se.

Do mesmo modo que entrou na faculdade de economia, saiu: com medo da desgraça divina e um crescente pavor da presença feminina. Esperava, aliás, que um dia o Senhor lhe pusesse à frente uma mulher de caráter ilibado e modos corretos. E quando isso ocorresse – estava certo – saberia reconhecê-la.

Por ora, preferia refugiar-se em números, cálculos e fórmulas que, mesmo sem falas ou gestos, eram os únicos a lhe darem alguma satisfação. Escutar primos e amigos relatarem suas experiências amorosas foi deixando de lhe ser excitante, tornando-se cada vez mais angustiante.

Isso, porém, começou a mudar com o novo emprego. Não por conta do ofício, encarado sempre com seriedade e mesmo prazer, mas por conta da moça dos pastéis.

Dela, nunca perguntou nada. Nem ousou trocar olhares. Temia ser mal interpretado; que lhe pensassem coisas vãs, levianas, e mesmo pecaminosas! Mas fazia questão de sair de casa com espaço na barriga reservado para dois pastéis de palmito. Era um momento raro em sua vida, quando se permitia esquecer um pouco da exatidão dos números.

Encolhia-se sempre num canto do balcão, de onde sonhava com essa moça a preparar-lhe pastéis – todos-, podendo fitá-la por horas, sem a necessidade de revelar seus verdadeiros desejos. Mas não ousava sequer pensar na hipótese de um diálogo – Não! Afinal, via-se que, apesar de bela, era “da rua”.

Ainda que fosse discreta – e ela era -, uma moça distinta não usaria aquele tipo de maquiagem. E também aquele cabelo em coque, revelando a desconcertante nudez de sua nuca. Nem saias como aquelas, que lhe deixavam as grossas coxas à mostra. E também as sandálias, sempre de salto, que revelavam o firme torneado de suas panturrilhas e tornozelos. E o olhar? O que dizer daqueles olhos amendoados em verde-claro? Ou daquele rosto, cujas maçãs davam para se comer?... Enfim, não havia dúvidas: era gente da ralé!

Quando ela faltava, já tendo ele comprado as fichas no caixa, revoltava-se, metendo os pastéis num saco para, em seguida, abandoná-los na primeira lixeira. “Só me servem se forem dela”, pensava, resignado.

Na empresa, toda aquela devoção aos números e às tarefas lhe conferiu célere projeção. Era invejado, admirado – até respeitado! -, mas não sabia disso.

E assim, alheio ao mundo, Igor chegou ao trabalho para cumprir apenas meia jornada; era 31 de dezembro.

Naquela manhã, encontrou a moça dos pastéis mais bonita que nunca. Não havia nada de diferente na roupa ou no cabelo, mas seu espírito estava reveladoramente festivo. Atento a tudo, Igor observou-a preparando uma grande jarra de suco. Mas estranhou que não o tivesse servido a ninguém. Instintivamente, deixou escapar:

- É de limão?

Ela então levantou os olhos, fazendo Igor estremecer. Nunca haviam ido além dos pastéis...

- Sim, é de limão... – disse, servindo-lhe no mesmo copo em que bebia. Nervoso, e sem saber o que dizer, Igor entornou o copo inteiro para dentro, o que lhe trouxe a indescritível (e até então por ele desconhecida) sensação do calor alcoólico. –É caipirinha -, revelou ela, sorrindo maliciosamente. E estava agora mais linda do que nunca!

E Igor, mais do que calor, sentiu euforia. A surpresa lhe parecia ter retirado as amarras da alma; queria mais!

Ainda com os olhos lacrimejantes, Igor devolveu-lhe o sorriso, mas antes que pudesse revelar sua felicidade, percebeu a intensa movimentação de funcionários em direção à portaria do edifício. –Deus meu! Estou trabalhando!!!-, pensou. E apressou-se em devolver o copo e desejar-lhe um feliz ano novo, para sair, atabalhoadamente.

-Mais tarde tem mais! -, ainda gritou ela.

Passou toda a manhã em grande conturbação. Não fez cálculos matemáticos, não atualizou qualquer planilha, não produziu, enfim, nada! –Encarnou o espírito do réveillon, Igor? -, observou um colega, insinuando que o respeitável funcionário estivesse com a cabeça nas nuvens. E estava mesmo.

Igor nem respondeu. Estava fascinado como uma criança em seu último dia de aula. Nunca sentira aquilo antes; uma euforia tão genuína, uma alegria tão intensa, somente... Somente por estar vivo! E o melhor é que o sorriso da moça dos pastéis aparecia em todos os seus pensamentos, acariciando-lhe o ego virgem. O olhar que ela lançou sobre ele, então, provocava pontadas logo abaixo do estômago.

Ao meio-dia, a liberdade!

Bateu o ponto antes mesmo que os demais. No caminho, pensava em beber mais um copo de caipirinha, em comer mais uns pastéis para, então, convidar aquela moça para um passeio. Agora, ela já não se parecia mais com uma qualquer. Nada disso. Pensava nela ao seu lado, assistindo à TV, preparando o jantar, cuidando das crianças...

Quando chegou à lanchonete, porém, não a viu. E perguntou por ela:






- Ei, você aí, do caldo de cana! Cadê a moça dos pastéis?!



- A "Peruana"? Encheu a cara e bateu boca com o dono. Foi despedida na hora! Saiu daqui diretim pra rodô!

Perguntou pelo nome e pelo endereço, mas ninguém sabia: - Dizem que veio da Bolívia, e que estava ilegal aqui. Ninguém sabe mais nada. Parece que mora com uma amiga em Águas Lindas...

Por breves segundos, entre a decepção, a raiva e o delírio, Igor pensou em ir atrás dela. Mas como, se não sabia sequer o nome? E onde, se não tinha qualquer referência?

Naquele dia, não voltou para casa. E após as festas de fim de ano, também não retornou ao trabalho. O único que informava alguma coisa era o rapaz do caldo de cana, que diz ter ouvido que Igor agora vende pastéis em Águas Lindas... E vai muito bem.

18 comentários:

Marcelo Mayer disse...

isso deveria se chamar cotidiano # 3
como seqüencia de chico, e toquinho e vinicius

Moema disse...

Mto bom! Excelente! Melhor ainda em uma dia sombrio e doente... Curou minha alma e meu coração!
E, se pouco me lembro, lembrou-me um pouco o jeito do Machado de Assis escrever... Estou certa? Ou estou doida?
Bj carinhoso

O Maltrapa disse...

Que bela sexta sombria, Brasil! Primeiro o Mistermáier me põe em companhia de Chico, Vinícius e Totó; e agora, você me convida a sentar com Machado... Io sono senza parole!

Tá ficando bom esse troço!

Valeu, Mistermáier!

Beijão, Brasil!

O Maltrapa

Márcio disse...

Já eu, escriba, vou te por ao lado de Clarice Lispector, que, segundo soube esta semana, iniciou um livro com uma vírgula. E vírgula é o que não está faltando no texto, recheado de apostos bem colocados. Mas devo dizer que algumas, marcando pausas, me pareceram desnecessárias. É o caso de "Dela, nunca perguntou nada". Para mim, essa frase ganha muito mais ritmo sem a vírgula, mas aí já é questão de estilo seu.
Os detalhes da moça do pastel me fizeram lembrar o filme "O Cheiro do Ralo" (viu?), que achei do caralho. Estranhamente não consegui imaginar Brasília como cenário da história, mas alguma lanchonete do Conic ou do SCS deve corresponder à de sua descrição.

O Maltrapa disse...

Valeu pelo toque, Márcio! Talvez a fala pausada seja uma forma de estabelecer um contraponto ao ritmo da contemporaneidade, que acho asfixiante. Mas acho sua crítica válida e bem vinda.

A diferença entre a Moça do Pastel e a do Ralo é o cheiro, meu amigo...

Abraço forte,

O Maltrapa

Ps: Chico, Vinícius, Machado, Clarice... Acho que vou dar uma festa!

Marcya disse...

Eu ia dizer que o final me lembrou muito a saga de "Griffin & Sabine", criada em forma de postais pelo escritor - que também é ilustrador e artista plástico Nick Bantock. Posso evocar ainda o seu guru Tchekhov, pelo final sem fim. Mas depois que vi a nova foto do post, senti um gostinho de Nelson Rodrigues sem tragédia, mas com muita sacanagem para a cabecinha de um rapaz tão puro.
Pode fazer a festa!
PS: Quanto às vírgulas, me agradam.

O Maltrapa disse...

Sacanagem? Rapaz puro? Onde? Hahaha!!!!

Quanto à influência tchekoviana, sempre haverá; não passo sem ele.

E por se falar em "feixta", o Ninho tá em ponto de bala! Se Vinícius trouxer a birita, Chico o samba e Clarice as netinhas, a esbórnia não terá fim antes de segunda-feira, hehehe...

Beijos...

O Maltrapa

Ps: Machado disse que não vem, pois é avesso a putarias. E o Toquinho... Ah, ele é muito chato!

Márcio disse...

Os que se dizem aversos a putarias são certamente os maiores pervertidos. Na Folha de São Paulo de hoje (24/10) tem uma crônica de Drauzio Varella que é parente próxima da sua. Leia e diga o que acha do parentesco. Se não conseguir, me fale, que te envio por e-mail.

Dias de Setembro disse...

Márcio, concordo com você, a essência das crônicas é a mesma, ambas maravilhosas.
João, a foto também tá perfeita! rsrss
Beijo, Tita

as viciadas disse...

minha primeira leitura de um dia inteiro de ressaca.

Sabe quando você lê, e imagina todas as cenas? pois, consegui visualizar todas elas..Igor entornando o copo de caipirinha guela a baixo, os olhos amendoados da moça, e até as maçãs, adorei mesmo. curou minha ressaca, pasme! rsss.

Beijos meu caro Maltrapa;


L.

Ana disse...

Ainda observo a foto e me pergunto, o que tal coisa tem a ver com pastéis, caldo de cana, limão, Àguas Lindas e Bolívia?
Sim...tem tudo a ver!

O Maltrapa disse...

Márcio e Tita, vou dar uma olhada na crônica do Drauzio e "ver diqualé"; depois comento. Cá entre nós, creio que o Dr. Varella seja chegado a uma boa putaria, no melhor dos sentidos, hahaha! Ele parece que tem uma boa cabeça.

E a foto? Também achei uma beleeeeza!

Beijão pros dois,

O Maltrapa

Ps: no caso do Machado, Márcio, não é que ele se dizia contra; apenas entendo que o espírito dele se divertia de outra maneira.

O Maltrapa disse...

Pois é, Vicious Girl, eu também fico viajando nas cenas das coisas que escrevo, logo após publicá-las; é como saborear o chocolate que derreteu nos dedos. O melhor, porém, é que que posso partilhar esse sabor com muita gente!

Beijão,

O Maltrapa

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Ana, que bom que você conseguiu ver o sentido da foto em relação ao texto. De facto, ela tem tudo a ver! De bobo, Igor só tinha a cara...

Seja bem vinda!

Um abraço,

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Márcio, acabei de ler o texto do Varella (agora que já li, posso tirar o "Dr."). Igor e John tem tudo a ver. Gostei pacas!

Viver é isso; não tem pra onde correr. Aliás, tem que correr pro abraço da vida! Quem fica parado é poste!

Abração e obrigado pelo toque,

O Maltrapa

Celamar Maione disse...

Tenho medo de personalidades " ingênuas" como a do Igor. Carinhas de santos e etc e tal.
Homens com criação " reprimida" , quando tornam-se adultos, geralmente são pervertidos ou até batem em mulher. Pela educação repressora, acham que sexo é sujo e nós mulheres pagamos pelo " desvio"....
Adorei o conto ! Prende a atenção do leitor.
E não imagina esse o final.
Abração !

O Maltrapa disse...

Mais uma vez, Maione, estou de acordo. Imagino que você, na condição de mulher, tenha muito mais propriedade para falar sobre essa questão do "macho reprimido".

Li a entrevista de uma experiente diplomata, onde ela dizia que os americanos, por sua formação conservadora e protestante, eram os piores amantes do mundo; após o coito, começavam a chorar e a dizer que não prestavam, pois tinham esposa e filhos em casa... Enfim, um comportamento tipicamente deformado de quem não tem, obviamente, espontaneidade ou clareza em relação aos próprios sentimentos.

Em tempo: a mesma diplomata cita os franceses como "os melhores", pois sempre se preocupavam em fazer a parceira gozar.

Abraço e obrigado pelo comentário,

O Maltrapa

carol sakurá disse...

Maltrapa,

Adorei sua linguagem imagética!
Delírio!

Respondendo ao seu coment lá no Le Poete:Acho que as Aves estão dominado o Brasileirão...rs

Contra o cruzeiro,torço até pelo FLA.srsrsr

Beijos!

Carol Sakurá

O Maltrapa disse...

linguagem imagética... Gostei! As palavras nos levam a qualquer lugar, mas uma foto como a da moça dos pastéis também pode quebrar o maior galho! hahaha!

Domingo tem Galo x Urubu! Vai faltar pena no Mineirão!

beijão,

O Maltrapa