quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Brasil-Acima-de-Tudo!

Dentre as coisas mais emocionantes e bonitas que tenho como um presente da vida está o Hino Nacional Brasileiro.

Tudo bem que futebol, mulher e ovo cozido com gema mole –este em primeiro lugar- sejam coisas de outro mundo, insubstituíveis, mas o hino nacional... Pô, o hino é muito fodão mesmo! E digo isso, literalmente, da boca para fora.

Não é que ele seja menos ou mais bonito que qualquer outro hino, pois se trata de uma questão de preferência pessoal e patriotismo declarado. Gosto da letra, da métrica e da melodia.

Dos símbolos pátrios, e ainda que reconheça a beleza e originalidade de nossa bandeira, o hino é o que mais me representa, disparado. Quanto ao brasão ou ao selo real, dispenso comentários.

Nasci numa terça-feira, durante uma ditadura militar, quando se tinha menos liberdade para viver. Mesmo assim, minha infância foi plena, feliz e intensa. Soube, desde pequeno, da existência do Mal, embora tenha sempre sido tratado como um valioso Bem. Assim sendo, e ainda que por imposição cívica, entendi que o hino era, sobretudo, brasileiro.

Quando dos meus oito anos, ainda no primário, tínhamos um dia na semana (a terça-feira) em que se realizava o hasteamento da bandeira. O LP que continha o hino era tocado numa vitrolinha com amplificação caseira. Eu adorava!

Não pela bandeira ou pelo hino –reconheço- mas porque “atrapalhava” a aula. E porque dava pra fazer “bagunça”. E porque era uma oportunidade deliciosa para eu me esbarrar na menina pela qual eu estivesse apaixonado. Eu sempre estava apaixonado.

Três alunos –geralmente os melhores- eram escolhidos para a honrosa função. Eu nunca fui agraciado com tal honraria, mas o Édson, filho da professora e protótipo de menino perfeito (ainda que excessivamente sardento, feio e do cabelo vermelho), era sempre um dos escolhidos. Tão logo a agulha tocasse a bolacha, contudo, eu já nem me lembrava da existência do Ferrugem. Preferia ficar tentando fazer meus coleguinhas rirem por meio de caretas engraçadas. As caretas que eles faziam de volta eram igualmente engraçadas, mas hilário mesmo era olhar para uma careta ao mesmo tempo em que se olhava para a tia, logo ao lado, com cara de flagra!

Como resultado, a associação entre o hino e uma sensação de bem-estar estabeleceu-se naturalmente em meus subterfúgios emocionais. Eu aguardava a “hora do hino” com a mesma ansiedade que aguardava a aula de educação física ou de artes, quando tudo o que eu fazia era divertido.

Na seqüência, por um período relativamente breve, fui “Lobinho” – uma espécie de microescroteirinho. Apesar de lidar muito mal com o autoritarismo inato àquela instituição (era rebelde e indisciplinado), conquistei alguma simpatia entre os líderes da alcatéia por, ainda novo, haver já decorado um bocado daquela rebuscada letra.

Após o fim da ditadura, o hino virou coqueluche nacional ao ser liricamente cantado por Fafá de Belém, em prol das “Diretas, Já!”, e também, logo em seguida, por conta do “passamento” do Tio Tancra.

E mesmo quando ia mal a política e também o futebol, o canto da nação era entoado em ginásios, autódromos e tatames, mundo afora. Isso dava sustentação ao orgulho nacional.

O momento crucial para a consolidação da minha admiração se deu enquanto estive, involuntariamente, servindo à pátria (amada, idolatrada, salve, salve).

Toda terça-feira, o Regimento se reunia no pátio central do quartel, numa série de intensas evoluções por parte de todos os esquadrões, para escutar as ladainhas do Comandante.


Isso envolvia centenas de militares. Eu curtia muito o movimento das massas, principalmente quando éramos recebidos pelo Pelotão da Fanfarra, ao som de Besame Mucho, versão ragga-techno-marcial-mix; eu simplesmente pirava!

Após todos estarem perfilados, em ordem, vinha o hino... Também por meio de uma vitrola e um bolachão, como nos tempos remotos. A primeira parte é belíssima, e a segunda, maravilhosa!

“Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada...”


Ao cantar essa estrofe (sempre, sempre, sempre...), eu sentia uma emoção profunda, de arrepiar os pêlos e derramar lágrimas; um orgulho visceral! Sequer me envergonhava pelos olhos marejados, afinal, aquele momento era, indubitavelmente, o único pelo qual valia à pena estar ali.
A passagem pelos Dragões só aumentou minha paixão pelo hino. Escutá-lo, cantá-lo ou assobiá-lo tornara-se, para mim, um prazer real.

Back to present, vinha eu, na bela manhã da última terça-feira (!), a conduzir meu bólido, rumo ao trabalho, deslizando-o por uma via inóspita quando, por aparente tédio, liguei o estéreo.

Passei pelas minhas estações favoritas e não encontrava nem música nem notícia, até que, subitamente, reconheci os acordes... Era ele, o hino!!!

Aumentei o volume e soltei a voz...!
E tal qual na infância, exatamente como na adolescência, eu cantei, eu sorri, eu chorei; eu me senti feliz!

"Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,Brasil!"


17 comentários:

layli disse...

Joaooooooooooo... queria tanto ter essas lembranças lindas que vc tem e escrever tao bem quanto vc :)
Mt legal!
Beijo grande

A Colher da Inaê disse...

Lindo... para variar...Sinto a mesma emoção quando escuto nosso Hino, seja qual situação for... a diferença é que eu escuto qualquer dia da semana, e vc parece que é perseguido pelas terças feiras...hahahahha...
Acho vc tão lindo quanto...pena que não te vejo nem nas terças...hahahhahaha
Vc sabe que adoro seus textos!!!!
Bjos

Márcio disse...

Só não como, nessa história, seu serviço "involuntário". Está patente em seus relatos que seu subconsciente, seu lado recruta Pyle (aquele de "Nascido para Matar", de Stanley Kubrick), pedia, implorava, por aquele ano de disciplina, convivência com figuras esquisitas e hino nas terças. Certamente te fez bem.

Marcya disse...

Ovo cozido com gema mole, né? Sei, sei, sei... "Se o penhor, dessa igualdade, conseguimos conquistar com braço forte!"
;o)))

Fernando Lyrio disse...

Com tantas emoções assim despertadas pelo Hino Nacional, fiquei me perguntando o que você sentiu ao ver (ouvir) o Hino Nacional cantado pela Vanusa. Jurto que tentei me emocionar, mas o máximo que consegui foi deitar no chão de tanto rir e até agora, só de lembrar, caio gargalhada... espero que você não tenha chorado (de emoção ou desespero) ao ouvir a Vanusa.

Moema disse...

Gde João,
vc foi sintonizar exatamente na rádio verde oliva fm (98,7), estação de rádio do exercito.
Todo dia, as 8h da manha, eles tocam o Hino Nacional, cada manha cantado/tocado por uma banda de um quartel desse nosso Brasil varonil. Depois do Hino tem o momento patriótico, mas aí já são outros quinhentos...
Se soubesse da sua paixão pelo Hino, já teria te dado esse toque há mais tempo. rs Eu, sempre que posso, sintonizo essa radio as 8h pra ouvir o Hino e cantá-lo em alto e bom som. Pena que ela não pegue mto bem em todo o DF...
Enfim, foi mto bom te rever lá pelos tuneis "acarentos" do senado! Bom ver seus cabelos brancos e bem cortados, sua barba feita, sua alegria e espontaneidade. Não sabia que eu estava sentindo sua falta até te encontrar...
Bj no coração

O Maltrapa disse...

Cara Layliane, se quiseres posso dividir minhas lembranças com você!

Tava sumida!

Beijão,

O Maltrapa

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Inaê, até te vejo, chorando, toda emocionada...

Tô devendo mil visitas, né, neguinha? Em breve...

Salvemos o lindo pendão da esperança!!!

Beijo grande,

O Maltrapa

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Hahahaha, Contreiras, seu mauricinho pelintra, que nunca teve de pegar no pesado, como é que você descobriu meu lado verde-oliva? Hahaha!

Tenho de admitir que a farda de Dragão me caía muitíssimo bem; não havia baile à fantasia em que uma princesa não saísse em minha companhia, numa doce cavalgada...

Grande abraço,

O Maltrapa

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Linda, do amarelo-ovo nasce a força de Sansão... São os raios fúlgidos dess nosso grande sol da Liberdade!

Beijos....

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Fernando, homem de Deus, pense que eu já havia encomendado uma missa em sua homenagem, capiau! Onde foi que te meteste (sem duplo-sentido), meu amigo? Este maltrapilho agradece sua visita.

Quanto ao hino cantado pela Vanusa, achei lisérgico! Hahaha!!!

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Barba feita... Alegria... Espontaneidade... Cabelos bran... Cabelos brancos!?!? Que papo é esse de cabelos brancos, Brasil? Eu passo Gressin 2000, tá ligada? Rum!

Quando ao hino, a sintonia estava na Rádio Câmara, e foi deprimente escutar a voz de quem quer que seja, logo em seguida, falando abobrinhas e caraminholas aos meus ouvidos. Mas tudo bem; eu já havia chorado mesmo!

Apareça sempre!

Beijão,

O Maltrapa

Deusa disse...

Maltrapa meu querido
Me Emocionou viuu...
Eitha Povo Bonito o Nosso !!
Vai la que escrevi sobre VOCE
Um Abraço VERDE / AMARELO.
iSSO FAZ UM BEM DANADO

Letícia disse...

Me encanta tu pureza.

Letícia disse...

E a foto! Demais!

Roseane z disse...

Entonces uma deusa te beijou...Ouça esta: "BRASÍLIA - A partir desta terça-feira (22), as escolas públicas e particulares de ensino fundamental terão que executar o Hino Nacional pelo menos uma vez por semana. A lei com a obrigação foi sancionada nesta segunda (21) pelo presidente em exercício, José Alencar, que recebeu alta médica no último sábado (19). A autoria da proposta é do deputado federal Lincoln Portela (PR-MG). Em 2009, a letra do hino, escrita por Joaquim Osório Duque Estrada, completou 100 anos. ".Será que não tem seu dedão nesta façanha?

O Maltrapa disse...

Deusa, li o que você escreveu!... Uau, será que sou mesmo tudo aquilo? A conferir!... Serás sempre bem vinda.

Muito tocado pelo carinho!

Um beijão,

O Maltrapa

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Oi, Letícia!!! Tô sacando que você está influenciada pelo buenosairismo de tu mamá, pues que sí?

Será que somos todos lindos em estado puro?

Beijo grande,

O Maltrapa

Ps: a foto é apenas uma de muitas, pertencentes a lote "pessoal e autobiográfico", hehehe...

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Mrs Z, olha que, apesar de ser uma boa proposição, não costumo colocar meu dedão em qualquer buraco (ui)... Ainda assim, posso participar desse solene ato como conferencista, ensinando aos pimpolhos as vantagens de se ter a palavra certa na ponta da língua em caso de alguma mocinha querer saber o que vem a ser um belo lábaro estrelado...

Tava sentindo sua falta!

Beijo,

O Maltrapa

Marina disse...

Oi João,
nunca fui muito de hino, mas confesso que já me emocionei algumas vezes com ele, não na escola, onde a hora do hino era um terror porque tínhamos que ouvir uns três hinos e depois, pasme, músicas de Xuxa, sempre em fila e em forma.
É impressionante o poder que estes símbolos nacionalistas tem, até mesmo para quem não tem lá muito apego pela coisa. A bandeira do Brasil na Esplanada sempre me dava um nó na garganta, mas, depois de passar pelas Ciências Sociais com seu poder perverso de desconstruir e desencantar tudo, ela já não me emociona mais. A formação dos Estados-nação e a violência, a formação da identidade nacional e a violência, coisas inseparáveis... infelizmente.
Beijos
Marina

O Maltrapa disse...

Concordo com sua análise, Marina, mas não de todo. As Ciências Sociais apenas descortinam a realidade - não as emoções. Apegar-se a isso como uma verdade absoluta é perigoso, pois assim tornamo-nos passíveis de um fanatismo às avessas.

A realidade é dura, violenta, mas a vida é feita de emoções pelas quais vale à pena o desafio de viver.

Boa semana!

Beijão,

O Maltrapa

Amarilis disse...

Oi João! Sou do time que segurava risada enquanto hasteavam a bandeira na escola... Ainda agora, que meu guri canta "os raios sújidos" (que só pode ser com jota) e pergunta quem é o herói cobrado? Será que me falta patriotismo? hahaha.
Beijo.

O Maltrapa disse...

Se te falta patriotismo, Amarilis!? Com uma flor dessas como cartão de visitas, o que você acha? Viva as matas virgens! E as floras voluptuosas!

Um beijão,

O Maltrapa