sábado, 5 de novembro de 2011

O Porteiro Romântico


requinte madrileño

Em meio às atribulações do ofício, e aflita por receber a encomenda prometida para aquela tarde, ela liga diretamente para a guarita do seu bloco, e deixa um aviso com o porteiro - um homem cuja feição de estivador russo esconde a afabilidade que molda seu caráter: - "Tobias, vai chegar algo para mim nesta tarde; é muito importante. Fique atento, tá?"

Sua aflição decorre da apresentação de dança flamenca que faria dali a poucos dias, no Teatro Nacional. As antigas castanholas já não estavam à altura de sua desenvoltura - seria preciso fazê-las dignas de sua destreza requintada. Para tal, encomendara um par de castañuelas madrileñas, e pensava em treinar o quanto fosse possível, a fim de se adaptar às suas novas conchitas negras, até o grande dia.

Antes de sair para o trabalho, avisara ao marido que também ficasse atento, caso estivesse em casa. Este, muito mais interessado no noticiário esportivo sobre o Flamengo, apenas consentiu com a cabeça.

"Já é Sexta, e se não chegarem hoje, só na Segunda!...", lamentava para si, dentro do elevador. E havia os ensaios de Sábado e Domingo, quando sua trupe flamenca desfrutaria da presença de uma famosa dançarina espanhola, especialista na arte das... Castanholas.

A tarde corre solta, tudo continua como antes, e a cada pequeno avanço do ponteiro no relógio, um pingo de tristeza pontua negativamente sua expressão facial.

É interessante o status que o novo emprega ao velho. As antigas castanholas lhe eram muito bem-vindas, até então. Sob a perspectiva da inovação, no entanto, deixaram de sê-las. Subir ao palco com elas se tornara, subtamente, impensável, e certamente motivo de muita tristeza. Freud e Marx teriam muito a conversar sobre o assunto...

O marido está em casa, esticado no sofá, assistindo à cópia pirata da recém lançada filme-biografia do Rondinelli - o Deus da Raça. De repente, toca o interfone. Ele meio que ignora, atento à tela. Toca novamente, duas vezes. Ele congela a cena, se levanta e vai atender:

- "Alô?.... Quem?... Não, não está... É só com ela?... Ah... Quem é?... Alô? Alô!?...".

Voltou para o quarto e seguiu vendo o filme.

Sua mulher liga, obrigando-o a dar novo stop no DVD. Ela pergunta se chegaram as castanholas: - "Que castanholas?", responde ele, que, lembrado por ela (ah, sim! Aquelas castanholas...) promete "apurar", desligando o telefone.

Ela segue no trabalho, triste e desesperançosa. Ele segue mergulhado nas emoções da conquista de 78, imerso em sensações indescritíveis aos pagãos do ludopédio, porém vívidas e explícitas aos seus olhos, em forma de pura e contagiante alegria rubro-negra.

Termina o filme, e finalmente ele vai apurar o caso, não resolvendo, pois, coisa alguma. Liga para a mulher e avisa que nada chegara: - "O Tobias falou que o homem dos Correios veio e não tinha encomenda nenhuma pra você...".

Ela escutou as palavras do marido em silêncio, passando pela sua cabeça todas as cenas do porvir, e ela sem as castanholas prometidas... - "Pois é", completou ele, "e o Tobias disse também que se não chegou até agora, só na Segunda, mesmo...". Deprimida, ela desliga.

Encerrado o expediente, retorna à casa.

Estaciona o carro no exato momento em que se encerra a Voz do Brasil. O Guarani se mistura ao Flamenco que sapateia em seu pensamento. E ela pragueja, batendo com força a porta do automóvel, bem como os pés no chão, num legítimo "O-lé!", espanhol. Em sua direção, caminha o Tobias, que traz uma pequena caixa consigo.

- "Tá aqui, Madame!... - diz ele, entregando a ela a aguardada encomenda. - "Seu marido até teve aqui, perguntando sobre o pacote, mas eu desconversei. Não disse nada e fiquei esperando a senhora, para não ter erro!".

Surpresa e emocionada, ela pergunta, sem entender: - "Erro? Como assim?..."

- "Ué, sobre o presente pro seu marido...", respondeu ele, franzindo as sobrancelhas de taturana. - "Assim que o rapaz veio deixar a encomenda, li, lá, escrito no pacote: "FLAMENGO", e pensei que era uma surpresa que a senhora ia fazer pra ele... Não é, não?", disse Tobias, colocando um doce sorriso entre as bochechas suadas.
 
foto de joão sassi

9 comentários:

Anasha Gelli disse...

Retribuo sua visita. Confesso que senti um tom meio autobiográfico no texto e fiquei aqui matutando qual seria o seu personagem: o porteiro, o marido ou quem sabe a dançarina? Brincadeira. Texto leve e divertido! bj

O Maltrapa disse...

Isso está parecendo aquela famosa crônica de Nelson Rodrigues, na qual a personagem principal, uma "grã-fina das narinas de cadáver", quando se vê atordoada, em pleno estádio, pergunta ao cara ao lado: "Quem é a bola?".

Beijo do Maltrapa

Mateus Castello Branco disse...

Como o flamengo atrapalha né cara! Brincadeira de lado, muito humorizou meu domingo seu texto inteligente. Aquele abraço!

O Maltrapa disse...

E posso humorizar ainda mais se fores me encontrar na feijoada do Chicote; vais pintar?

Pinte por lá e festejaremos mais um triunfo rubro-negro!

Grato pelo lúcido comentário, caro chanceler...

Abração do Maltrapa

Márcio disse...

Beleza, Escriba! O texto está com uma mistura equilibrada de ficção e realidade, e esse caminho é bom. Meu lado cricri me fez estranhar a passagem "deixaram de sê-las". "Deixaram de ser" não fica mais leve, mais natural?

O Maltrapa disse...

Quando imprimo ao texto uma visão lúdica da vida, "sê-las" se torna mais leve que "ser", sendo, portanto, natural. Não leve a mal, ó, leitor cricri!

Valeu pela presença (sem duplo-sentido)!

Abraço do Maltrapa

Márcio disse...

Questão idiossincrática, Escriba. Mas para mim, com frequência cada vez maior, e particularmente na literatura, menos é mais.

Digitais Digitais disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
HISTÓRIA DIGNA DE CRÔNICA!!!!

Sentilavras disse...

"Freud e Marx teriam muito a conversar sobre o assunto..." hahahhaa! Até ri alto. Texto bom. De novo!