domingo, 20 de novembro de 2011

Gente é pra ser Feliz

Gente que também quer ser feliz


Mais um dia na vida. E nem sete horas eram quando já estava novamente metida em frente ao espelho, tentando focar a própria cara amassada.

Ela havia dormido tarde por conta da maldita reunião com aqueles empresários da soja travestidos de políticos; estava exausta e tinha uma cerimônia agendada para aquela manhã.  "É..., como dizia papai: "não tem meu pé tá doendo", pensou ela, "trabalho é trabalho!". 

Enquanto lavava o rosto, pensava no neto, nascido há poucos meses, e motivo de suas maiores alegrias. Ao mesmo tempo, erguia as sobrancelhas, inflava as bochechas e fazia caretas repetidas vezes. Não se tratava de um tique nervoso, mas de recomendações de sua esteticista para que exercitasse a musculatura facial, tornando menos flácida a pele dali - e retardando o aparecimento daquelas "bochechinhas de buldogue". 

Ainda de robe, entregou-se ao ritual de sentar-se numa confortável poltrona, próxima à varanda ensolarada que separava seu quarto do jardim, atrás da casa, para passar os olhos nas principais notícias do dia. Não se preocupou em ler, mas se utilizou dessa muleta para refestelar-se na almofada e curtir um pouco mais o restinho de sono, fazendo cara de sonsa para o sol que começava a brilhar.

Cá fora, e em toda a dimensão do gramado impecável, reinava uma atmosfera de harmonia perene, com as flores sempre bem cuidadas, e a visitação constante de muitos passarinhos e zumbidinhos que transportavam nossa mulher de negócios para sua terra natal, marcada pelo bucolismo regional de sua gente.  E ela dava um sorriso demorado... Que, geralmente, era o único do dia.

À mesa do café, já era outra pessoa. Muito séria, preocupou-se em repassar o assunto a ser tratado no compromisso de dali a minutos. Tomou café e comeu muito queijo branco, além do mamão papaia nosso de cada dia. Pão de queijo,  só dois, e dos pequenininhos, ainda que a dieta lhe vetasse o segundo.

Apesar de vez ou outra lidar com assuntos de seu interesse, em seu ofício as coisas nunca saiam conforme seu desejo. O que quer dizer que agendas potencialmente interessantes eram, em geral, motivo de frustração e encheção de saco. É por isso que sempre se levantava da mesa do café já mal-humorada.

Já dentro do carro, mandou o motorista tocar para o trabalho. Durante o trajeto, apressou-se em dar um rápido telefonema à filha; queria novidades de seu netinho: "Põe ele na linha! Põe ele na linha para cochichar com a vovó!". Imediatamente, a sisudez de seu rosto deu lugar a um enorme sorriso - outro! - o segundo do dia! Pelo retrovisor, o motorista estranhou a cena.

Da garagem, sentindo-se leve, entrou no elevador privativo com visível tranquilidade. O ascensorista até se atreveu, sabe-se lá porquê e a que risco, a olhar diretamente em seus olhos, transmitindo mensagens tele(sim)páticas para ela - que retribuiu.

Deu bom-dia às secretárias antes de entrar em sua sala. Deixando a bolsa de lado, assim como o maço de documentos que teria de ler, colocou as mãos nas cadeiras e espiou o horizonte logo à frente  pela fresta da cortina: "É... Até que esta cidade não é feia!... Mas poderia ter mais gente!" - exclamou, em voz alta.
Alguém bateu à porta, avisando-a da cerimônia. Estava tudo pronto.

Dona do pedaço, iniciou o evento propalando as palavras protocolares de sempre. Seria apenas mais uma, dentre tantas cerimônias em sua vida, mas em meio ao discurso, embargou-lhe a voz, e ela quase chorou. 

Os presentes, tocados pela delicadeza e espontaneidade do ato, aplaudiram-na de pé! A mulher sem emoções, numa única manhã, sorrira duas vezes e, num gesto supremo, emocionou-se em público, capturando as atenções e a simpatia de todo aquele que, como eu, acha que "gente é pra ser feliz". 

foto de joão sassi

7 comentários:

Sentilavras disse...

Seus textos são mto bons. Que dom!

Henrique disse...

Adorei ! deu fome .



Beijos, fui

Digitais Digitais disse...

Tem a sutileza dos dias simples em que tudo dá certo... Ótima construção, velhinho!!!
Abçs
Otávio

O Maltrapa disse...

Por incrível que pareça, Otávio, estava tudo dando certo, até um coro de puxa-sacos começar a gritar "Olê, olê, olê, oláaa, Dilmaaaa, Dilmaaaa...", como se fosse um ato político, e não um gesto espontâneo dela. Preferi poupar o leitor desse detalhe nefasto para deixar o texto mais bonito.

Abração,

O Maltrapa

Luara Q. disse...

Adorei tudo que li aqui, quanto encanto!

O Maltrapa disse...

Valeu mesmo, Luara! É gratificante dividir essas idiossincrasias com vocês, sabendo que lhes trazem sensações tão positivas.

Um abraço de boas-vindas e agradecimento,

O Maltrapa

Ludilma disse...

Ele é o : Sensitivo Oficial do Palácio. Essa seria a profissão do Maltrapa se tivesse a oportunidade de mostrar esse texto. rs...