sábado, 20 de fevereiro de 2010

Chupa, Arruda - Chupa na Papuda!

Ao ver a porta do carro se abrir, tive a certeza de que o pior estava por vir. O ‘idiota do pulo’ desapareceu na multidão, deixando a todos com ar de culpa e cumplicidade. Uma figura intimidadora saiu, olhando para nós de modo ameaçador, como se oferecêssemos um real perigo ao que quer que fosse. Por fim, voltou ao carro e o comboio seguiu.

Ficamos para trás – alguns, atônitos; outros, indignados. Em comum, a perplexidade ante a aberração a qual acabáramos de ser submetidos.

O que, de caráter tão emergencial, teria levado o Estado a investir contra a própria população? Aliás, não contra as pessoas, mas contra uma tradição secular que representa nossa mais conhecida manifestação cultural em escala planetária – um símbolo nacional! Pobres escrituras... A Terra Santa prevista por Dom Bosco, o sonho visionário de JK, a Capital de todos os brasileiros, encontro de todas as culturas!... Pobre Brasília.

Sei que nunca se deve fazer esta pergunta, mas o choque fora tamanho que não tive opção; então, mandei ver na dramaticidade do ato, e, como quem suplica ao Salvador em peçonha, indaguei: “Ó, Deus, o que mais, de tão indecente, poderia ocorrer a esta infeliz cidade?...”.

Já dizia um sádico militar da Cavalaria, o Cel Marcondes, que “nada poderia estar tão ruim a ponto de não poder piorar ainda mais” – afirmativa imperativa que fazia cessar, de imediato, qualquer lamento ou choraminga dos soldados que comandava. Ainda que estivéssemos sobre areia movediça, ninguém dava mais um pio após escutar aquela máxima.

E assim, surgiu a resposta. Do fim da rua, viu-se uma movimentação brusca, logo justificada pelo avanço descortês de duas fileiras de ‘seres-brucutu’; gente ignara que vende sua força de trabalho não somente por conta do salário, mas pela desobrigação de ter de pensar, e simplesmente obedecer, executar e atacar. Por mais tacanha que pareça ser, imagino que deva haver algum tipo de reconforto existencialista nessa escolha.

Cada um trazendo um cassetete estrategicamente elevado à altura de nosso abdômen, fazendo que cada folião “sentisse”, fisicamente, a presença da tropa protetora. Pendurados em seus cintos de mil utilidades, bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta, que logo foram acionados – provavelmente por “força das circunstâncias” e violentamente investidos contra a multidão.

Como a ponta de uma lança descomunal, rasgavam, feriam e machucavam os foliões; talvez menos na carne do que na alma.

Almas idosas e até infantis, de nostalgia, mas também de fantasia, brutalmente atacadas, asfixiadas pelo gás, cegadas pelos sprays de pimenta; espancadas pela natureza bruta, desumana, violenta.

O que pouco antes fora alegria, logo desabou em correria. Por entre os vãos dos prédios comerciais escapuliam, aos trancos, pessoas imersas em fumaça e grito. Pediam água, caiam e choravam.

E logo a rua se tornou deserta, e o Carnaval cessou. Ao centro, como uma ilha, homens de preto; tristes figuras em forma grotesca.

É sabido que nossa cidade é ainda incipiente na arte da cidadania, dos esportes ou das festas. É cidade que ainda carece de identidade; crescida precocemente sob a égide do modernismo de um tempo que ainda não chegou. É também uma cidade ainda desconcertada, que tão logo nasceu, teve de ser enquadrada por atos institucionais e generais – cidade traumatizada.

Enquanto, nós, protagonistas não tomamos nossos lugares, enquanto se discutem papéis ou ações, há quem, de há muito, esteja se mexendo por entre frestas e sombras. Gente como essa, que empobreceu a história brasiliense com um episódio tão vergonhoso e facínora como o do Massacre da Pacheco Fernandes. Gente que mente, mente, mente... E também mata.

Bom Carnaval, Senhor Governador. Que as lembranças daquele dia estejam sendo, agora, reavivadas em cada canto dessa sua cela. Aproveite o tempo e componha uma marchinha, ou mesmo um frevo. O Galinho foi ferido, mas continua aceso.

7 comentários:

carol sakurá disse...

Ahahaha,boa Maltrapa!
Que bom ver o Arruda soltar confetes no xadrez.
Bjão!

Marcelo Mayer disse...

e hj ele vai ficar uma hora a mais, por causa do horário de verão. há!

O Antropólico disse...

Hahahaha! Marcelo, perdoe a franqueza, mas é seu primeiro comentário pertinente! Sempre é tempo de ser feliz, meu irmão!!!!

O Maltrapa
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Carol, ouvi dizer que um gaiato da PF todo dia manda um panetone de sobremesa... Hehehe...

Beijo,

O Maltrapa

Amarilis disse...

Oi João,

É PO no xilindró e Arruda na papuda!

Fui ver a ópera de rua "Auto do pesadelo de Dom Bosco", do Jorge Antunes, na praça vermelha do Conic esta tarde.

Deve ter outra apresentação no dia 12 de março, na UnB. Vá e leve seus amigos. É diversão garantida e execração pública dos bandidões do df.

Um abraço pós-carnavalesco, sem puliça nem gás de pimenta.

O Maltrapa disse...

Beleza pura sem mistura, Amarilis! Parece-me uma ótima pedida, a do Antunes; vou lá, com toda certeza.

O Maltrapa

Leila Saraiva disse...

achei suas belas fotos sobre o galinho, veja só!
e, de quebra, seus textos! Como terminou aquela noite no cenário?
um beijo

O Maltrapa disse...

Obrigado, Leila, e seja bem-vinda! Tenho mais fotos que disponibilizarei em breve. Se quiser dar uma olhada, pinta lá no meu flickr... Que eu não lembro o endereço, mas é alguma coisa tipo "João Sassi"!

Quanto ao Cenário, desmanchou-se com a chuva torrencial que desabou sobre nós. :P

Beijo,

O Maltrapa