sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um Xará chamado Ubaldo

Uma das piores sensações é aquela causada pelo arrependimento daquilo que não se fez. Muito pelo fato de, normalmente, não se ter o que fazer após, entenda-se, aquilo que já não fora feito anteriormente.

Apelando para a memória, sou capaz de me lembrar de muitas cantadas que deixei de dar, ou, pior; das cantadas que levei e refutei. Coisa de gente tímida, com auto-estima algo abalada. Quando eu sabia o que dizer, já era tarde.

Pode ser também o caso de se recusar a dar uma esmola e, pouco depois, sentir um remorso terrível, a ponto de sair à caça do pedinte, rodoviária afora.

Comigo, porém, calhou de me passar um arrependimento por não falar com um xará, quem avistei pela rua, há coisa de três ou quatro anos. Fortuitamente, houve reparo.

Li, na coluna dominical que escreve ao O Globo, que João Ubaldo Ribeiro estava triste, amuado mesmo, quanto ao futebol e suas implicâncias. No texto, faz um paralelo entre o que ele vivenciou na sua Itaparica, em 1958, após a conquista do primeiro campeonato mundial, pela seleção, e o sentimento algo prepotente que domina a juventude contemporânea, fazendo da celebração uma distorção raivosa e individualista, e até certo ponto, violenta.

Dotado de arroubos de nostalgia, capturei a máquina de escrever e fiz o que não havia feito pelas ruas do Rio de Janeiro: dirigi-me ao xará Ubaldo.

Carta a João Ubaldo Ribeiro

Sabe, João, as coisas vão realmente mal... E não somente o futebol; vai tudo indo mal demais nesse mundo.

Dia desses, vinha eu caminhando pela Ataulfo de Paiva, quando te vi passando. Senti vontade de falar com você, mas não sabia exatamente o que. E, para ser sincero, nem mesmo a certeza de que era você eu tinha.

Segui caminhando pela mesma Ataulfo, até que cheguei ao apê de minha prima, onde a encontrei assistindo TV.

- Xu, passei por ali e vi um sujeito que era a cara do João Ubaldo!...
- Então era ele mesmo, Juba. Mora aqui no Leblon. Também sempre cruzo com ele...

Dois dias depois, novo encontro. Após um jump na praia, estiquei até a Só Pra Mim, a fim de descolar um lanche natureba.

Eu, só de calção de banho, esperava na calçada por Joana (a Xu), que comprava um açaí, quando te avistei, caminhando em minha direção. “É ele mesmo!”, pensei. E deu novamente aquela vontade de falar com você.

Seria o caso de, de repente, falar sobre nossas origens baianas, sobre Itaparica, sobre seus livros (que não li) ou sobre meu pai, que leu “Viva o Povo Brasileiro” um sem-número de vezes; qualquer coisa! Pensei até em fazer uma mis-en-scene, elogiando “O Povo Brasileiro” (do Darcy), fingindo uma confusão, para desfrutar um pouco do seu bom humor. Pensei tanto que você passou e eu não falei nada... Cheguei mesmo a abrir a boca –bem pouquinho-, mas não saiu palavra. Acho até que você percebeu, mas passou por mim mesmo assim.

Corri para a lanchonete! “Olha lá o João! Olha lá o João!”, dizia para Joana. “Olha lá... Lá foi o João... Perdi o João, de novo!”. Eram minhas últimas horas no Rio. No more João.

No final de semana seguinte, já em Brasília, surpresa...

Eu havia acordado bem cedinho, antes das seis(!), pois havia que deixar minha companheira em seu local de trabalho. Parece até que é chato ter que acordar tão cedo - ainda mais numa manhã de domingo -, mas quando se busca o leito bem cedinho e se recebe a dose certa de carinho, aí é bom! Ver o dia em avant première, e receber todos os fluxos ainda puros de uma jornada recém-criada.

Antes de deixá-la à mercê da labuta, porém, houve ainda tempo para um desjejum na padaria do Abel – um dos poucos locais a que podemos classificar como “tradicional” nesta capital. O proprietário, vindouro d’além-mar, abriu seu negócio há exatos 30 anos, justos dois meses antes d’eu mesmo desbravar as primeiras marolas de minha existência. E prosperou.

Sempre inicio com um suco de laranja, que bebo direto, num só pulo. Depois, pingado quente e claro, com um pão com ovo. E mais outro para fechar o buraco do dente. Essa padoca, de nome “A Favorita”, fez parte das minhas primeiras incursões conscientes ao mundo real e que ainda hoje permeiam minhas lembranças.

Além do portuga Abel, sempre atrás da máquina registradora, havia ainda o grande globo de sonhos-de-valsa, pendente sobre a cabeça dos clientes, o pão em forma de jacaré (que era muito mais gostoso de olhar que de comer), e, por fim, o quadro com a foto do time do Vasco da Gama, campeão brasileiro de 1974, que ocupava lugar de destaque: logo acima do grande cesto onde caíam, de tempos em tempos, fornadas quentinhas de pão francês.

Cruel o Abel. Sempre fui Flamengo (uma vez Flamengo, Flamengo até morrer), mas adorava olhar aquela foto. Agachado, bem ao centro, onde fica o craque do time, estava Roberto Dinamite, que, para mim, era “amigo do Zico”. Eu passava um tempão olhando para o Bob; mais até do que para os sonhos-de-valsa...

Apesar de ainda muito jovem, o futebol já era, para mim, um fato social. Algo que não se limitava às quatro linhas. Quando eu ainda nem me entendia por gente, já ouvia meu pai deitar falação sobre as conseqüências de uma derrota ou vitória do Mengo. Dizia ele que tinha trabalhador que, após um fracasso do time, ia do Maraca para o bar encher a cara, para, depois, chegar em casa bêbado e espancar a mulher. E que uma eventual jornada de sucesso, em contrapartida, poderia servir como válvula de escape ao tão sofrido cotidiano de considerável parcela da população brasileira – que meu pai chamava de “o povo”. E me falava também sobre a índole dos jogadores, suas origens e fatos antigos, ocorridos quando ainda eram “juvenis”, enfim, apresentando um quadro rico em detalhes que me faziam querer estar sempre como aquele torcedor do povo; apaixonado...

Estamos em maio de 1983. Eu somava quase oito anos de idade, e assistíamos, pela TV, à grande final da “Taça de Ouro”, que era como chamavam o Campeonato Brasileiro. Flamengo e Santos disputavam o título no palco do Maracanã, testemunhados por mais de 130 mil torcedores, conquanto o estádio estivesse todo em vermelho e preto.

Início de jogo. Meu pai, Jorge, baiano como você, faz seu primeiro comentário. É sobre uma cena ocorrida segundos antes, que mostrou Zico e Adílio, lado a lado, cada um com a mão sobre o ombro do outro, caminhando em direção ao centro do gramado, como dois amigos que vão bater uma bola na hora do recreio. Disse-me ele que aquilo era amizade antiga. Que o Adílio só estava ali porque havia entrado na Gávea por um buraco da cerca, quando conseguiu enganar a segurança e fez um teste no infantil, tornando-se amigo do Galinho. Sintonia fina. Cumplicidade. “São como dois irmãos”, afirmou, pouco antes do pontapé inicial.

O Galo estava infernal naqueles tempos; no auge. Mesmo com a derrota ante a Itália de Paolo Rossi, a “seleção canarinho” havia encantado a todos, e Zico era, reconhecidamente, o ícone daquela geração; o único jogador que atuava fora do eixo europeu que, ainda assim, fazia frente a Maradona ou Platini. E foi meu único ídolo...

Não demorou muito até que o placar fosse inaugurado (por ele, claro!): exatos 50 segundos! Parecia que o gol só tinha saído porque meu pai não parava de falar do Zico! Após o 1x0, momentos de alívio e silêncio. Mas logo os comentários foram reiniciados. O alvo, agora, era Leandro, “um monstro”. Leandro foi exemplo de caráter e companheirismo, além de possuir um futebol de primeira grandeza; “um dos melhores – senão, o melhor – lateral-direito brasileiro de todos os tempos!”. Foi quando, pouco antes do encerramento do primeiro tempo, Zico cobrou uma falta de canto, centrando a bola no primeiro pau, na risca da pequena área, para um cabeceio perfeito do lateral: gol de Leandro! 2X0!

Era como mágica assistir a todo o estádio vir abaixo de tanta felicidade! Era intenso, mais até do que a própria realidade por mim assimilada, pois eu imaginava, ao mesmo tempo, todos aqueles homens chegando em casa e beijando seus filhos e acariciando suas esposas. Em meus devaneios infantis, era como se o Brasil inteiro ficasse mais feliz com aquele título. Afinal, o Flamengo é o time do povo, e povo é o que não falta neste País, raciocinava.

Por toda a segunda etapa eu simplesmente me limitava a pressentir o que estava por vir, como quem já tem a certeza como aliada. Era tudo tão tocante e lindo, que o velho Jorge (que contava então seus 33 anos) voltou a falar do Adílio, enchendo-o de elogios. Merecido, pois tava jogando muito na orquestração da meia-cancha rubro-negra.

Mas, longe de compartilharem das minhas certezas, os jogadores do Mengo se matavam em campo. O fato é que bastaria ao Santos fazer um gol e teríamos uma disputa por pênaltis, visto que o primeiro jogo, em São Paulo, terminara em 2x1 para eles. Assim sendo, a torcida ora lamentava por um gol perdido, ora desfalecia por um gol quase tomado.

O cronômetro marcava 43’45’’ do segundo tempo, e o Peixe tinha a posse de bola, no meio campo. É quando Vítor dá um carrinho e a bola sobra para o desconhecido Robertinho, na ponta-direita. Robertinho ignora o anonimato e parte para cima da marcação. Como se Garrincha fosse, dá uma vexatória entortada no zagueiro Gilberto e cruza para o meio da área...

O Maracanã já estava em festa, e os gritos de “é campeão” ecoavam, uníssonos, por toda a mítica marquise do Maior de Todos. Não precisava aquele cruzamento sair tão bonito em sua curva, e tão preciso em seu alvo: dali, da marca penal, Adílio mergulha no vazio, num lindo peixinho, acertando em cheio a pelota, cabeceando-a para o fundo das redes do desolado Marola... Gol de Adílio!!! Do neguinho Adílio! Do moleque que escapou da fome pulando a cerca do clube mais querido do Brasil! Foi, enfim, um gol de todo o Brasil! Adílio fez o gol do povo, de toda uma raça, de todo um país. Fez um gol que fez todo brasileiro sorrir (quem sabe até os santistas). Mas foi mesmo de lavar a alma ver aquele “negrinho atrevido” correr em direção à massa, com os braços alvissareiros, soltos ao ar. Dezenas de penetras e repórteres invadiram a lateral do campo, quase sufocando Adílio, em profunda alegria.

Nunca, em nenhum outro momento da minha vida, um gol voltou a me marcar tanto. Nunca um gol voltou a ser tão representativo e carregado de simbolismos. Nunca mais, deste então, encontrei tantos elementos, numa única partida, onde pudesse identificar tanta sintonia entre uma população e um time de futebol. Nunca fui tão feliz...

É como se a porrada que o Zico tomou, dois anos mais tarde (e que estouraram seus meniscos), tenha sacramentado o fim de um ciclo dito romântico. Ciclo este ao qual você, João, se refere em sua coluna publicada nesta nublada manhã de Outono.

Para você, João, 1983 foi ontem. Para mim, de certa forma, também, pois ali ficaram as melhores referências que o futebol me deu; o conceito de cidadania que me dá a certeza de que faço parte da luta de um povo – seja exitosa ou inglória. Hoje, passados 22 anos desde então (e apesar de bem mais jovem) sei bem o porquê de vê-lo dizer que o melhor do futuro e que você não fará parte dele. É doloroso, mas o invejo.

Um grande e fraterno abraço,

João Sassi


Nov/05

9 comentários:

A Colher da Inaê disse...

Sabe, Jonjon,
Vc me emocionou, me lembrei tal e qual a padoca do "Abel", me lembrei tal e qual 1983, eu já era mãe, e não tão torcedora como hj, mas já bem atenta aos jogos...vc realmente faz as boas emoções ressurgirem do fundo da alma.E, hj depois da goleada do Flamengo em cima do Inter, mais do que nunca. Obrigada,e uma ótima semana pra vc!

Márcio disse...

Lima Santos, para você ver como para mim até flamenguista é gente, repasso aqui, num arroubo altruísta, link para a crônica de seu xará que te inspirou:

http://www.almacarioca.net/admiravel-futebol-novo-joao-ubaldo-ribeiro/

O Maltrapa disse...

Querida Inaê Salsa, não esperava que o relato fosse ter esse efeito colateral! Que boa surpresa! Fico muitíssimo satisfeito que ele tenha lhe propiciado momentos agradáveis; essa é a intenção.

Beijão,

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Pô, Só Frango, essa dica foi o ouro da Babilônia, meu rei! Eu tinha até pensado em tentar resgatar o texto do Ubaldo para melhor contextualizar minha carta. Valeu mesmo! By the way, tá em sintonia com o conteúdo do texto?

O Maltrapa

Márcio disse...

Sim, rola a sintonia, Monsanto. Mas sinceramente não consigo enxergar João Ubaldo como entusiasta do futebol, nem mesmo como torcedor. Se ele algum dia jogou mesmo, deve ter sido grosso como a porra (risos)! Quanto à violência nos estádios, me provoca arrepios a constatação de que hoje há briga até entre grupos de torcedores de um mesmo time! É o Armagedon se aproximando!

O Maltrapa disse...

Acho que ele nunca jogou... Mas achei importantísssimo o paralelo que ele traçou entre o antes e o agora. Conclusão: tâmo fu!

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Estive no Maraca, há alguns meses, e tive a infeliz oportunidade de presenciar um clima hostil entre os próprios torcedores do Mengo. Coisa de uns poucos idiotas, mas que dão uma azedada federal no ambiente...

Abração

O Maltrapa

João disse...

Acabei de ler sua crônica, João. Muito obrigado. Da próxima vez, fale comigo. E eu joguei futebol, sim, era fominha de bola. Não fui craque, mas nunca fiquei de fora de pelada nenhuma em que quis entrar. Um abraço amigo, tudo de bom.
João Ubaldo

O Maltrapa disse...

João, quem agradece pela deferência sou eu. Beleza pura, sem mistura! Prometo ler um livro seu só para ter o que falar numa próxima oportunidade! Hahaha!

Abraço fraterno,

O Maltrapa