quinta-feira, 18 de junho de 2009

Elevador


Na garagem, numa bela manhã de domingo, espero pelo elevador. Estou acompanhado. Aperto o sexto andar.

Paramos no térreo, no que entra uma gorda senhora, feia. Entra e, já se pondo de costas, nos oferece um requentado bom dia.

- Boa noite... -, provoco.
- Só se for para você! -, resmunga ela.
- É que estou de óculos escuros... -, insisto.
- Humpf! Você tem uma melancia na sua cozinha?
- Melancia?... Não. Para quê?
- Para pendurar no seu pescoço, já que quer tanto aparecer. -, emendou.
- Posso colocar meu chapéu na senhora para você também aparecer bonita na foto..., disse, colocando-o em sua cabeça.

Ela se curvou para que o chapéu caísse no chão.

O elevador parou e ela desceu, ainda resmungando:

- Tem gente que só quer ser o engraçadinho!...

Enquanto ela saía, dei-lhe a língua, fazendo careta. Mas não me senti vingado.

Pelo contrário, fiquei com raiva.

Raiva porque dei sorriso e, em troca, recebi chispas de infelicidade. Porque quis demonstrar minha simpatia e fui mal interpretado. Raiva porque são em horas assim que toda a inteligência emocional necessária simplesmente desaparece. Bastaria dizer algo como “talvez uma melancia docinha lhe fizesse bem ao amargor da alma, senhora”, e tudo estaria resolvido.

Por vários minutos, deixei essa sensação me contaminar. Senti vontade de voltar ao andar onde ela havia saltado e deixar lá uma faixa ou cartaz com ofensas. Pouco depois, porém, resignei-me: “Paciência: nem todo mundo pode ter um chapéu tão bonito...”.

8 comentários:

Ilíada disse...

kkkkkkk...
Olhe João Sassi, sou obrigada a me remeter ao ditado popular que diz: "Deus não dá assa a cobra".
É importante frisar que, nem no seu pior dia pela manhã, vossa senhoria tem qualquer reação ou comportamento que lembre o bendito ofídio.
No entanto, ainda me impressiona sua capacidade de rir e irritar-se concomitantemente!
Acho ótimo, mesmo sabando que a tranquilidade, a paciência e o equilíbrio sempre são os melhores caminhos.
bjos.

* Pollyana disse...

Joãoooo, fico feliz que tenha um chapéu assim tão bonito ... Mas mesmo sem conhecer a suposta mal-humorada, imagino que tem dias em que mesmo o ser mais feliz e contente da vida está sem saco pra piadas e se torna um ser irritável e chato, mesmo que por alguns instantes. Então, independente de qualquer coisa, parece que o melhor mesmo é aproveitar ao máximo o que alguém pode nos oferecer no momento, coisa que a senhora não fez, e respeitar o tempo de cada um para estar receptivo a nós, coisa que o senhor não fez ;) !!!
Um beijo grande !!!

Marcya disse...

O retrato falado-escrito-desenhado da criatura do elevador está uma perfeição!

Moema disse...

Este chapéu anda bem atuante em suas histórias, hem, João!! rs. Tenho que conhecer esse coadjuvante, pois já já ele ganha vida e vira protagonista de alguma postagem sua.
Bjs

O Maltrapa disse...

Muito agradecido pelos "elogios" Dona Flávia! Rir é uma delícia, mas parece que ficar irritado é um vício! Hahahaha!!!

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Claro que fiz, Popó!!! Fui tão receptivo que a gordota virou tema e ganhou até ilustração do Maltrapa (que foi magistralmente colorida pela Marcya, co-partícipe da ação). Mas você tá certa: a paciência é a virtude dos sábios...

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Vou acatar sua sugestão, Brasil... Até porque, em minha mente, o Maltrapa não existe sem chapéu! Vou apresentá-lo em nosso próximo encontro, và bene?

O Maltrapa

Márcio disse...

PQP, Sertãozinho rides again!