segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um Velho Ranzinza


"Humpf! Não se fazem mais moleques como os de outrora!", range o saudoso velhote.
 
   

Da minha janela, vejo o mundo!
Algum poeta há de ter dito algo assim, pois desde os tempos de antanho - e muito antes dos irmãos Lumière! -, a janela tem sido o cinema da vida. E por ela se percebe que vai muito mal a humanidade.
Que me desculpem os grandes líderes, heróis e eventuais mártires de nossa decadente espécie. Sei que agiram como visionários, dando o máximo de si - por vezes, a própria vida - em prol de todos, objetivando um mundo melhor e coisa e tal, mas dá a impressão que o trabalho dos otimistas, ao longo da história, tem sido ao estilo enxugador de gelo.
Por mais que se enxugue, a situação apenas piora. E assim como a água, vê-se a essência da condição humana escorrendo diante dos nossos olhos, e sendo desperdiçada pela falta absoluta de consciência e preparo do indivíduo contemporâneo.
Pela poça formada de massa encefálica liquefeita, vejo o futuro da sociedade refletido no fértil palco da puberdade. Em direção à escola, logo a frente, um fluxo constante de adolescentes me dá conta do cotidiano corrente. Não são educados, mas prepotentes. Agem com tais rudes modos que fariam a vovozinha corar, e logo enfartar.
Vejo pequenas gangues, com meninos de palavreado xucro, agindo como malas da favela. Não se envergonham em xingar alto, na frente das meninas e dos moradores. Já aos 12 anos, alguns exibem cigarro à mão, pego de mau-jeito, feito apenas para impressionar as mesmas meninas com as quais presenteiam com tanto palavrão.
Quando querem conversar, se escoram ou se sentam nos carros estacionados de modo indolente. Na interação, as mocinhas são chamadas de "véi", "hômi", "moço" e "doido". Elas não deixam por menos e os tratam da mesma forma. Todas as expressões de surpresa são pontuadas por "carái, véi", sejam ditas por eles ou por elas.
Alguns estudantes namoram desinibidamente, aos olhos de qualquer morador, desavergonhadamente. Não se constrangem com a chegada de alguém. Sequer disfarçam a bulinagem. Mal sabem que escondido é mais gostoso... E também respeitoso.
Há aquelas que matam aula para se encontrarem com sujeitos que poderiam ser pais delas, e não namorados. O cidadão chega de terno, no maior carrão, e desce de mãos dadas com aquela que se supõe sua filha, e tasca o maior chupão, sem a menor cerimônia, na frente de todo mundo. E sai com cara de paisagem.
Certa vez, no estacionamento, escutei a conversa de três meninas que estavam sentadas no meio-fio, logo à minha frente. Ainda que tenham percebido minha presença, não sei se por desavergonhamento ou arrogância, prosseguiram tranquilamente com o tricot. Não falavam da Hanna Montana ou do Justin Bieber, mas da experiência sexual de uma delas.
Sem ter exatamente a noção da profundidade do que relatava, a menina descrevia, passo-a-passo, o momento em que se viu na obrigação de praticar sexo oral em seu "namorado", ilustrando as passagens com rico gestual. Segundo suas palavras, "no momento em que ele parou o carro, ele abriu a braguilha, botou o negócio dele para fora e me perguntou: E agora? Aí, eu nem pensei mais, véi; fechei os olhos e meti a boca...".
Como plateia, duas amigas, ainda mais novasque ela, escutavam, alucinadas e abobadas, ao apimentado relato da colega. Queriam saber o tamanho, a "grossura", o gosto e tantos quantos detalhes pudessem ser dados. E a outra mostrava, tocando o dedo médio à ponta do dedão: "Era mais ou menos assim, ó...".
   - Mas você foi até o fim?! – queriam saber as mocinhas.
   - Não, véi; dói demais! Ele disse que vai tentar de novo, na próxima vez...
   - E você vai?
   - Vou, né, véi... Fazer o quê? Tem que ir, senão ele vaza!
Sei que essa é uma situação comum a muitas mulheres, principalmente quando se apaixonam por homens mais velhos (e sem caráter). O problema é ainda mais grave quando uma situação assim é relatada por uma criança de não mais que 13 anos; aí, o chão se move.
E eu, que tanto prezo por aquilo que chamamos tradição, vejo o romantismo ser pisoteado, e a falta de respeito sobrepujar a todos nós. Vejo crianças sendo atropeladas pela ansiedade do mundo digital e perdendo o mais gostoso momento da vida, que é a descoberta do mundo em si, e de tudo o que o engloba, com suas diversas experiências e inescapáveis consequências. Por vezes, frustrantes, mas espontâneas!
Vejo meninas novas, já envelhecidas e maquiadas. Vejo meninos novos, já embrutecidos, embriagados de prepotência e virtual experiência. "O novo é o certo! O novo somos nós! O resto é bosta velha!", pulsa o inconsciente juvenil.
Ao me lançar imaterialmente pela janela, busco um horizonte lúdico e nostálgico, azul!, mas vejo uma realidade de mau-gosto e acinzentada; pouco saborosa. Vejo, sinto e percebo. Me angustio.
E dessa mesma janela, vejo também o exemplo daquelas crianças: uma escola particular, construída de modo vil e irregular, que saúda a chegada da Primavera ou de São João atordoando a vizinhança com o alto volume de um funk proibidão. É ali que aquelas almas passam seus dias...
Um lugar assim não pode ser mesmo uma fonte de inspiração para o futuro que desejamos. E ainda há quem pague para seus filhos estarem ali.
Bem-vindo ao século XXI.


foto de joão sassi
direitos reservados

4 comentários:

Sandra Botelho disse...

O que esperar de um futuro, que tem no seu presente, conceitos são antagonicos?
O que era errado tornou-se certo
e o que era certo hoje é ultrapassado.
Bjos achocolatados

O Maltrapa disse...

É, Sandra, e o que era aberração impôs-se à Razão.

Eu fico aqui, desta janela maltrapilha, me perguntando como é a relação destas crianças com seus pais; é certo que falta comunicação. E amor.

Valeu pela presença achocolatada! E olhe que nem é Páscoa!

Beijão do Maltrapa

Sentilavras disse...

Nossa, muito triste... E mega bem escrito. Eu confesso q sempre fui mais a favor do novo do q da tradição, mas não sei o q pensar do q a sociedade está se tornando. Os princípios são outros, é preciso ser egoísta e prepotente num mundo tão competitivo. Isso, às vezes, é questão de sobrevivência.

O Maltrapa disse...

Situa-se mais abaixo o buraco. O egoísmo e a prepotência são armas para lutarmos contra uma guerra fictícia. Se os princípios são outros (e piores), que mudem os princípios daninhos, e não nossa natureza cordial.

Beijão,

O Maltrapa