sábado, 5 de setembro de 2009

Và Dove ti Porta il Cuore


Em meio aos nossos, sentimos segurança. Longe deles, crescemos.

Já estive por aí afora, visitando países. Não muitos, mas significativos.

Politicamente, identifico-me apaixonadamente com a Argentina.

Sociologicamente, com Cuba.
Antropologicamente, com a Bolívia.
Crèpavecnutellamente, com a França.
Indiferentemente, com a Inglaterra.
Irresponsavelmente, com o Canadá.
E, afetivamente, com a Itália, onde sou mais que Rei, senão um César.

Lá cheguei aos 20 anos, quando sempre se tem um grande amor no coração.

Era minha primeira vez.

Mezzo nervoso, mezzo excitado, resolvi acatar a sugestão de bebericar alguma coisa antes do vôo, de modo a me “encaixar” melhor na poltrona. Esta era também uma experiência inédita, o álcool.

Tomei exatos dois copos do Almadén servido a bordo. E viajei...

Dos braços do Cristo Redentor, às pontiagudas catedrais de Milão, onde fizemos escala, não lembro coisa alguma. Somente quando soou o sinal de alerta, advertindo aos passageiros que reatassem o cinto, é que pude limpar a baba seca do canto da boca. Atravessáramos o Oceano e eu nem me dera conta. Nem tive tempo de sentir medo.

Despertado, percebi que meu sorriso de bom-dia não era compartilhado pelos demais. Pudera! Tendo permanecido imóvel por todo o trajeto, acabei servindo de obstáculo aos colegas de poltrona que, porventura, quisessem ter ido ao toilet. Eu era o último (ou primeiro), numa fileira de cinco... A única que me deu graça foi uma freira. (Será que freira não faz xixi?)

Pousamos. Não resisti quando a temperatura externa (3º) foi anunciada. Pedi licença para “ver” aquele espetáculo, e botei a cara pra fora do avião, junto à escada.

Vestindo apenas uma camiseta Hering, notei que minhas costelas tremiam ao simples contato com o ar. Não poderia haver nada mais divertido que aquilo! Notei também que duas aeromoças me olhavam com cara de troça. A elas, eu era o perfeito mineiro vendo o mar pela primeira vez.

A chegada a Roma foi grandiosa. Recebido por quem eu queria, como eu queria e onde eu queria. Aos vinte anos, não se precisa de tanto para ser feliz. Mas, fazer o quê?...

Ela era linda e tinha muitas amizades, o que me deixou ainda mais à vontade. A reciprocidade da paixão nos leva, todos, à plenitude, a ponto de nos afeiçoarmos até mesmo aos amigos dela. Quando não nos apaixonamos pelas coisas do outro, simplesmente não nos apaixonamos pelo outro. Assim é.

Dos lugares por que passei, a primeira coisa que me lembro é do cheiro. Há carros diferentes, há pessoas diferentes, mas nada me chama mais à atenção que um cheiro diferente; tanto melhor se for bom.

De cheiro em cheiro, uma semana se passou, e naquela noite, recebi especial incumbência: preparar um prato, à brasiliana, como oferenda ao aniversariante do dia, Daniele. (Sim, Daniele. É que lá, os homens roubaram todos os nomes de mulher –Andrea, Simone, Daniele-, enquanto a elas, restou inventar nomes diferentes – Cicciolina, Chiara, Nicoletta, etc.)

Daniele, como eu, tem alma de mulher, e por isso merece todas as cortesias.

Ainda assim, a missão não era fácil. Entrar numa cozinha era coisa que eu não fazia. As panelas ficam muito “lá embaixo”. A pia também. Parece tudo pequeno.

Preparar um rango, então, era coisa que eu não sabia – ovo, miojo e mexido não entram no cômputo.

Pensei numa coisa prática, como uma feijoada, mas fui informado de que não caía bem com o vinho italiano. Também curti a idéia dum vatapá, mas me disseram que o dendê estava em falta na Piazza Navona, no que logo desisti.

Então optei pelo sempre estiloso estrogonofe, um garantido sucesso de formaturas e recepções chinfrins!

- Strogonoffi?!... –espantou-se Dani -, pero, “Xoao”, sembra una cosa rusa, si?..., - observou.

De fato, eu não tinha nenhuma comprovação das origens do prato, mas que poderia ser considerado típico, quanto a isso, não restavam dúvidas.

O resultado, até onde posso recordar, foi muito bom (não mais que isso). Melhor estava o mascarpone, que comemos de sobremesa, e ainda melhor, o vinho com que celebramos a data. Devo pontuar que estava bem melhor que o Almadén: Ave!

Conforme relatei anteriormente, barriga cheia, coração contente. E por entre risadas, goles e afagos, sentimos todos o desejo de realizar algo diferente. O ameno daquela madrugada invernal nos chamou à rua. Era tempo de conhecer a História. Tempo del Colosseo!

A sensação que tive, ao avistá-lo, foi a mesma que tive quando, ainda criança, avistei o Maracanã: senza parole...

O grupo se aproximou ainda mais, postando-se rente à cerca de metal que circundava e protegia o monumento. Olhei pelo vão, abobalhado, os contornos que minha vista alcançava. Quase não podia acreditar naquilo...

E fiquei completamente descrente quando olhei à volta, percebendo-me quase só, visto que mi amici, todos, já se encontravam do outro lado da cerca! Quanta ousadia! À Roma, chè da fare come i romani! Quindi... Lá estávamos, dentro do Coliseu!

Os italianos, que tanto falam e tanto gesticulam (mannagia!!!), calaram-se. Dispersaram-se. Buscaram a conexão. Entendi o recado.

Poderia eu, ter me sentado ao lado de minha amada, acolhendo-a em meus braços para, à luz dos mais lindos sentimentos juvenis, prometer-lhe um império de emoções. Mas não pude fazê-lo; seria apoteótico demais para que conseguíssemos levar adiante a vida. Há muito, entendi que o clímax é como a utopia que, conforme Eduardo Galeano, deve-se buscar, mas não atingir. Só assim caminhamos.

Então, caminhei.

Caminhei até o extremo. Até chegar bem próximo àquela exuberante cratera, situada num nível mais abaixo. Ungido não sei bem por que forças, prossegui.

Escalei muro abaixo, temendo, mais que tudo, o toque dum alarme. Ai, de mim!.. Se acordo César, sou dos leões!

Quando me vi ali, em meio às ruínas daquele colosso, perdi o contato com a realidade. E, contidamente, pus-me a caminhar por corredores e alamedas.

No céu, simetricamente postada bem acima de mim, urrava a lua, cheia, linda, prateada. Sua luz, incidindo no mármore milenar do qual é feito o gigante, tornara-se azul. Eu tocava aquelas paredes, aquelas curvas, com o mesmo temor que, quando criança, toquei as pernas de minha professora*. A mão, ainda no ar, tremia, mas deslizava suavemente por aquela macia superfície esculpida pela vida. Encostei o rosto. Senti o cheiro. Amei.

A cada passo, um “bum!”; era o coração. Era o medo. De tão forte, as batidas dele produziam fortes reverberações em meu corpo, que todo tremia.

Percorri cada recanto, tateei cada quina, cada esquina, vislumbrando gladiadores e leões em cada cela. Eles estavam lá. Pude sentir cada olhar, que me transmitia confiança e densidade.
Nunca senti tanto medo em minha vida, embora nunca me encontrasse tão seguro de mim mesmo.

Ave, Pai! Ave, Mãe!



*ler "Minha Primeira Paixão "

** photografie del colosseo: http://operachic.typepad.com/opera_chic/

11 comentários:

Moema disse...

Queridão, estava sentindo falta dos seus textos! Sua dedicação a Marina está deixando seus fãs a ver navios... Mas não se duvida que seja por uma boa causa!!
Ao ler o título deste texto, de imediato lembrei que até hj guardo comigo uma blusa vinda de lá, exatamente com estes dizeres (uma bege cor de branco encardido, com um coração estilizado vermelho e uns riscos indicando o "cammino"). Está certo que ela está com uma meia dúzia de furinhos, várias partes desfazendo costura, mas continua firme em minha gaveta (ás vezes tb em meu tronco!!!!). Bj mais que gde

Letícia disse...

João, lindo seu "racconto" e sua lembrança, perfeita. Estou sorrindo até agora, ganhei o dia e a noite. Salve jorge, ave césar, axé e arrivederci!

O Maltrapa disse...

Brasil, fez muito bem em guardá-la por todos esses anos; as coisas boas - as melhores - são as que ficam.

Saudades de vocês.

Beijo,

O Maltrapa

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Letícia, talvez o que escrevi logo acima, para a Moema, seja o que também me cabe dizer a você, e esse texto expressa exatamente isso: quem eu queria, onde eu queria e como eu queria; quem há de querer mais?

Ho tanto per raccontare...

Mille Baci,

O Maltrapa

diasdesetembro.blogspot.com disse...

...doente em casa, busco um alento e encontro aqui.
Rememoro meus vinte anos e concluo, ainda hoje, que "não se precisa de tanto para ser feliz".
Beijo, tita

O Maltrapa disse...

Ademais, cara Tita - e daí veio a inspiração - "sempre se tem 20 anos em algum lugar do coração"...

Estimo melhoras.

um beijo,

O Maltrapa

* Pollyana disse...

João, esse seu texto bateu legal mesmo, tá lindo :) ! Faz sorrir na frente da tela do computador e viajar sentada ...
Um beijão !!!!

O Maltrapa disse...

Puxa, puxa, puxa!!!

Isso que é Sexta-feira!

Grazie per le parole, Popó!

Uno bacio del Maltrapone

Marina Duarte disse...

Muito emocionante!!!

Letícia disse...

Obrigada por ter me levado a Itália!
Senti todas as curvas do Coliseu, agora só me resta o cheiro.
Um abraço e um beijo,
Letícia da LudLu.

O Maltrapa disse...

Linda Letícia da Lud Lu,

Que poéticas as suas palavras... Enverede-se também pelas curvas da literatura, moça!

Ao que parece, Lud Lu tá acertando a mão, hahaha!!!

Beijos e queijos (e cheiros),

O Maltrapa

Leticia disse...

Xoao!
Siamo qui io e Daniele a leggere le nostre avventure di tanto tempo fà!
Dani diz que se vc quiser reencontar as emocoes de um passeio noturno em Roma, te espera volentieri.
Anche se adesso è impossibile entrare al Colosseo, come abbiamo fatto da giovani...
Baci e abbracci
Leti e Dani