sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Fim do Arco-Íris e o Mel da Vida


Fazia muito calor. Eu, suado, acabara de chegar em casa.

Ao colocar as chaves sobre a mesa, escutei um leve assobio cortando o tórrido calor do meio-dia.


Axé apareceu logo a seguir. O que tem feito pouco, desde que se mudou para o outro lado do rio. Trazia uma cara amassada:

- Cachu?
- Cachu...

Coloquei a sunga e meti um chapéu de palha na cabeça.

- Bebeu, P’xé?
- ...Naaaada! É que durmi mal, mesmo... Uns musquito do carái!

Garoto novo, nascido em Pirenópolis, é o perfeito goiano do pé rachado. Quando quer alguma coisa, conta a estória até um certo ponto e pára. Quando o interlocutor dá continuidade ao raciocínio interrompido, já está oferecendo a ajuda requerida, mesmo sem se dar conta. Astúcia goiana.

Vai caminhando à minha frente. Enquanto caminha, passa a mão pela vegetação, como o pastor que dá atenção diária a cada uma de suas ovelhas. Quando identifica o capim certo, arranca-o e, já mastigando-o, fala de qualquer coisa sem importância, só para ratificar, subjetivamente, a importância de se mastigar aquele capim. Sente-se mesmo integrado ao Cerrado. E, apesar de muito jovem, olha o horizonte com certa nostalgia.

Até hoje fala de um amor que deixou no Recife. Amor não vivido ou verificado. Amor de Platão, idealizado. Ele contava 16, e ela, 12... Nunca se beijaram, mas ela, até hoje, é a lembrança do melhor que já viveu.

Pela trilha segue desleixado. Joga os pés pra frente, fazendo a chinela quase se desgarrar. Mas não machuca o chão. Desliza.

Fala de planos; mais da falta deles. Do nada a se fazer. É a representação de um vagar pseudo-hedonista, vazio, niilista. Mas fala também das plantas, e para o que cada uma serve.

Se precisa comer, fareja. Sabe onde tem. Sabe como chegar, comer e sair, sem reclamar. Aliás, raramente reclama. Quando o faz, é sempre do mesmo modo, “Isso é um vagabundo!” – é o que diz, seja qual for o motivo ou objeto da reclamação.

Em dia de Sexta, tem comida no João de Deus, vizinho da casa do alto da rua

- Lá, o rango é fera! A cozinheira gosta de mim. Entro pela cozinha e ninguém dá conta!
- E quando não tem?
- Aí, procuro outra coisa. Na Sandra, sempre tem alguma coisa. A mãe dela tá lá.
- Comida boa?
- Arroz, feijão e salada...
- Nada de carne?...
- Não, o povo é tudo vegetariano. Mas tá bom demais!...
- Mas é no capricho?
- O arroz é que nem arroz, tudo igual. O feijão é bom, mas a salada é aquele bando de folha... Mas dá pra encher a barriga.

Mesmo sem casa fixa, ele sempre encontra o que comer ou onde dormir. Cheguei a sentir um pouco de inveja, lembrando-me das muitas vezes em que me senti sitiado em meu próprio castelo, sem perspectiva de, a curto prazo, saciar minha fome. Fome no mato é fogo.

Quando o sol se fazia mais quente, a água se fez presente. A cachoeira estava translucidamente refrescante.

Axé, como bom goiano, inventa de dar saltos esvoaçantes, tortos e acachapantes. Sempre dum lugar perigoso, sob risco de bater em pedras e machucar-se. Ah, a alma goiana...

Aparece o Dentinho, da favela do Varjão.

Corpo duro, seco, duma musculatura rija, ainda que pouco desenvolvida, de quem cresceu numa vila rural e fez de tudo o que um moleque que nasce solto deve fazer, de bom e de mau. De suas estripulias, resultaram algumas cicatrizes pelo corpo. A da barriga parece coisa de faca, mas é melhor pensar que não.

Dentinho e Axé se entendem à perfeição. É comum que eu me demore um pouco para saber do que estão falando. E costumam falar de coisas simples como se fossem sérias. E é bom que seja assim, pois a vida não é simples para quem não é levado à sério.

Todo dia é dia de luta, de correr atrás, de fazer “um corre”, quando não se está correndo.

As mulheres gostam do sol da manhã, pois são inteligentes e delicadas. Homem, como é tudo xucro, queima a pele e os neurônios ao sol do meio-dia. Aquela caçapa tava lotada de vagabundo que não faz nada.*

- Pô, isso aqui só tem cueca!... -, reclamou o Dentinho.
- Nunca vi desse jeito... , - disse Axé.
- É capaz até que já tenham descoberto nossa parada, Axé...
- Naaaada! Ali é só eu você; tá guardado!
- Mas, minino!...
- Tô falâno...
- Ôxi, que já é Primavera, hômi, e as bicha tão trabalhando há mais de ano! Deve tá cheio até a tampa; já dá di recolhê.

A cachoeira ficara para trás, e Dentinho agora nos acompanhava pelo caminho de volta. Trazia sua bicicleta.

- Ela passa pelas pedra?
- Total.
- Essa aqui é minha nave espacial pr’eu andar na cidade. Dá até para seguir estrada!
- Até Piri?
- Ôxi! Bota um tijolo de rapadura na mochila e quero ver!
- E um pouco daquele mel do Piauí, né Dentinho -, completei.
- Mas, rapaiz, aquele mel é tora!

Axé, continuou:

- O problema é ter de derrubar a árvore...
- Qui nada, rapaiz! É só capturar a rainha! Bota fogo que ela é a primeira a sair por causa do fumacê, hômi; as ôtra vão tudo atrás.
- Mas onde tá fica difícil metê fogo; pode matá a árvore.
- Nada a ver! Bota uma caixinha na saída, com um pouco de mel dentro, que a bicha vai direto... E as ôtra vão atrás! Já fiz isso dimais, hômi, ôxi!...

Àquela altura, já inteirado do assunto, ia imaginando cada cena descrita pelos dois, e minha cabeça ia longe... Lá pro alto da copa de uma sibipiruna, junto a uma colméia farta de néctar e milhares de abelhas zumbizando por ali.

Então Axé parou pra mijar. E Dentinho ficou olhando.

Taí uma coisa que eu nunca tinha visto: um homem olhando outro homem mijando. Para uma mulher não se olha porque o ato se assemelha a uma covardia; para os homens, porque parece baitolagem rasteira.

Mas Dentinho tá longe de ser perobo. Axé estava, na verdade, aferindo o grau de sua certeza quanto ao mel salvaguardado.

Não havia colméia ou sibipiruna, mas um charmoso furo no tronco de uma velha árvore retorcida, por onde entravam e saíam dezenas de abelhas por minuto, bem rente à trilha pela qual caminhávamos. Coisa que gente complexa e pós moderna não vê; coisa para gente simples, que nem sempre tem o que comer.

- Cada uma que tá entrâno, tá trazêno um pouco de mel, véi! -, disse Dentinho, com olhar fixo no vai-vem das bichinhas. –, Ói, quanta!
- Deve tá cheio até aqui, disse Axé, colocando a mão no tronco, cerca de um metro acima do solo; coisa de um ou dois litros...
- Tem mais, hômi! Si elas tão trabaiâno desdo ano passado!... Têmo que pegá logo, antes que os vagabundo pegue de nóis!

Ficamos os três, lado a lado, escorados nos galhos, a pouco mais de um metro do buraco delas, interagindo o tanto quanto nos fosse possível, a fim de imaginarmos a delícia de um tronco bêbado de mel.

Para eles, não se tratava de nada novo, mesmo que precioso. Já a mim, a sensação de estar ali era semelhante à de um menino que descobre na vida as verdades escondidas. Que se conecta com seu íntimo, estabelecendo ligações há muito esquecidas, e que, não obstante, sejam essenciais à nossa plenitude.

Encontrar um tronco cheio de mel é o mesmo que achar um pote de ouro no fim do arco-íris, com uma única diferença: o mel existe.









*singela homenagem ao Casseta e Planeta (das antigas)




**photografie: joão sassi

11 comentários:

* Pollyana disse...

Síndrome de Ursinho Puff?! kkkkkkkkk
Já se mudou? Quêde a festança da despedida?
Essa sensação das "primeiras descobertas" é mesmo deliciosa ... bom ver que pra quem está aberto, há sempre verdades escondidas se revelando ...
Beijo , João !!!!

O Maltrapa disse...

É verdade, Popó, o lance é estar sempre aberto, hehehe...

Só quem tem a alma velha não consegue enxergar as novidades: eternas delícias da vida!

Puff's Syndrome!!!

O Maltrapa

Manuca disse...

Amei a sua última postagem. Me emocionei....vi a cena, vi a cara de todo mundo, a sua.... e quase que pude sentir o sol esquentando minha cabeça!
Grande beijo!
Manuca.

O Maltrapa disse...

Obrigado, Manuquinha...

Tô naquele processo de metamorfose em relação ao Urubu, mas o texto me faz viver e me aprofundar no que há de melhor ali, até o último instante.

Você é puro Sol!!!

Grande beijo,

O Maltrapa

Marina Duarte disse...

Que lindo! muito bom o texto.

Marinota

Haribô disse...

"Mel, eu quero mel, quero mel de toda cor, colorido sabor, do meu de toda flor..."

O Maltrapa disse...

...do mel do Haribô!!!...

Hahaha! Ótimo!

Abraço,

O Maltrapa

Dias de Setembro disse...

João, como é que a gente dá um riso de satisfação por meio de palavras? Não sei, mas a imagem dos rapazes rindo, com um quê de felicidade gratuita, é algo difícil de definir, lindo!
Tita

O Maltrapa disse...

Obrigado, Tita!

Você captou bem o momento; a energia tava boa e o astral, ótimo!

Quando colhermos o mel, farei uma partilha entre os leitores deste blog maltrapilho, hehehe...

Beijão,

O Maltrapa

Ludiíris disse...

Tá vendo???
Nunca podemos desistir de pensar que existe: girafa que fala com formiga, elefante que voa, leão que é uma leoa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!...

O Maltrapa disse...

Hum... troppo enigmática, esta mensagem Lud Lu...

Leão que é leoa, é? Tô sabendo...

Tome tenência, não, viu, seu capitão... Rum!

O Maltrapa