terça-feira, 7 de julho de 2009

Pós-modernismo


Somos todos pós-modernos.

Não, não quero méritos por esta brilhante descoberta. Não quero royalties e abro mão dos copyrights.

Não importa se reacionários, alcoólatras ou subalternos; somos todos pós-modernos. Somos parte daquela gente que já viu a história acontecer, e que após seu “final”, não sabemos o que está por vir. Não se enxerga horizontes para além do fim do mundo. É o neo-medioevo pós-moderno.

Conhecemos a psicanálise, o que fez da gente, gente mais transparente. Ao fingirmos que não, corremos o risco de nos tornarmos hipócritas, demagogos ou mesmo mentirosos. Somos, todos, gente indecente.

Deixamos que a ideologia sobrepujasse a utopia. Pelos estragos do passado, perdemos a alegria de viver o futuro. É assim que me sinto. Um pouco; às vezes, muito.

E assim, “descrente desse mundo”, busquei aquele retorno às origens aludido por Rousseau, escapando para a floresta, na tentativa de trocar idéias com o lobo do lobo do lobo do homem. Já não agüentava mais o constrangimento de elevadores e moradores de uma Brasília que já não gosta de gente.

Pós-moderno que sou, encontrei ambiente no Morro do Urubu, onde me aninhei. É um lugar perfeito: quando chove, faz lama, quando seca, faz chama. No Inverno, tem frio e muita poeira, mas também tem fogueira e estrelas a noite inteira. Hoje, dia sete, aparecerá nos céus uma enorme lua cheia -é só conferir no seu calendário de cabeceira, onde ela se penteia...

Claro que o pós-modernismo implica em contradição, muita contradição! E por vezes me encontro lá, no meio do mato, hipnotizado pelo bumbum de uma Samambaia virtual, deixando enciumadas heras, brincos-de-princesa e outras plantinhas do meu quintal.

No domingo último, quase deprimi por conta da Turma do Didi. Só de ver aquelas ombreiras, sinto arrepio. Desligar a televisão não foi suficiente. Molhar as plantinhas tampouco. Olhei para Simba e não enxerguei nada, além de uma densa camada de terra e um carrapato monstro, próximo à jugular. Era o caso de resgatar a identidade da alma junto às águas do córguin.

Convoquei Simba (sim, sei que o nome é meio gay, mas já veio assim da fábrica), meu fiel vira-latas medroso e preguiçoso, e me piquei para a cachu.

São 10, no máximo 15 minutos de trilha. Simba vai na frente, pára de vez em quando, olha para trás, e segue em frente. E eu venho de cá, cambaleante, por entre pedregulhos, matinhos e pocinhas d’água, esperando pelas notícias que a vida quer me dar.

Gosto muito de alisar a casca das árvores do Cerrado. Árvores de cascas grossas e troncos retorcidos. Quem me conhece bem, sabe que o nome disso é escleromorfismo oligotrófico. Nunca vou me esquecer disso, pois foi por conta desse fenômeno químico-biológico que tirei 10 numa prova de biologia, no terceiro ano, a long time ago...

No córguin existe um poção; contraditório, não?

E no poção, encontrei um grupo de gente feliz. Um harém, por assim dizer. O sultão, zêbado, jazia junto a uma garrafa de Dreher, já pela metade. Ao seu lado, sua companheira, em trajes íntimos, fazia o mesmo. Outras quatro moças completavam a trupe, sentadinhas, em molha-pés, num gostoso disse-me-disse que só a mulheres sabem fazer. Não eram muito bonitas ou mesmo levemente feias, mas pareciam alegres, goianamente alegres.

Não acho que um sutiã creme, daqueles da vovó, seja a coisa mais sensual do mundo, mas dou o maior valor quando a mulher se sente a vontade para fazer isso. Também acho massa mulher que faz xixi no mato, que toma banho frio, que bebe cerveja e que não tem medo de escorpião. Eu tenho. Identifico-me de imediato com aquelas que tem nojo de barata.

Contornei pelo lado oposto, pois meu intento era zen; estava em missão de Paz.

À outra margem, comecei a fazer tchuqui-tchuqui para que o Simba se aproximasse. Ele odeia água gelada, mas se sente o máximo quando sai dela; é a cara do dono! O truque já está ficando manjado. Não sei como ele ainda cai... Mas caiu! Tchibum! Hahaha! Não tenho a menor dó; mergulho de vez o danado. E ele respeita, ficando caladinho, sentindo o refregar de minhas mãos contra aquela pelugem agastada. Depois, liberei-o para o sol.

E chegou minha vez. Fechei os olhos e, lentamente, ajoelhei-me, deixando o corpo solto, pendente, sendo sustentado pela leve correnteza. A água estava congelante, ideal para esquimós veraneantes. Minha cabeça permanecia de fora, permitindo aos ouvidos captarem sons múltiplos - até mesmo o do calor dos raios de sol que esquentavam minhas orelhas. Ouvia risinhos de lá e chuás de cá... Que foram diminuindo, diminuindo, até que não escutei mais nada... E imergi, descendo lentamente até o fundo, indo recostar a bochecha nas pedrinhas que lá repousam.

Foram alguns segundos de Paz. Uma paz uterina, atemporal, que nós, pós-modernos e esclarecidos, parecemos haver esquecido. Glub, glub, glub...

16 comentários:

Moema disse...

Ai,ai, João... Quisera eu poder fazer glub glub com vc... Não queria ser pós-moderna...

O Maltrapa disse...

Hahahaha!... Adorei, Brasil! Vem, mulher, vem fazer glub-glub comigo! O pós-modernismo é tal e qual aquela música do Tim Maia: "vale, vale tudo!". Na pós-modernidade, só não vale ficar parado! Dia desses convido você e sua pirralhada para um mergulho at the Lion's Cascade, và benne?

Beijo Grande

O Maltrapa

tita.c@blogguer.com.br disse...

Olá João,
Andei "folheando" seu blog e adorei! Parece um pouco zangado às vezes, mas escreve com tanto sentimento sobre as coisas...
Agora, esse texto sobre o pós-modernismo me deixou inebriada, não pelo título (achei meio acadêmico-tá vendo minha ousadia?), mas por descrever seu contato com a natureza de uma forma tão pura (vc é puro? rsrs). Aliás, sempre que vejo alguém assim, que gosta de cachoeira, de água fria (argH!) fico querendo ser igual...é que depois que fiquei adulta (ou velha, como queira) perdi tudo isso e fico tão saudosa de tbém morar num lugar em que eu possa ver a lua, dormir no silêncio do mato, acariciar as árvores e senti-las...ihh, vou parando que é inveja demais. A propósito, onde fica o Morro do Urubu? Ah, gosto de cerveja e tenho nojo de barata, tô bem na fita? rs Até, Tita
PS: Passei hoje perto de um "posto verde" e não me contive, ri sozinha lembrando da sua história.

Amarilis disse...

Hoje aconteceu um eclipse lunar. Acho que foi de manhã. Dizem os astrólogos que a lua cheia desestabiliza tudo. Mas talvez não a pós-modernidade, que é cética das estrelas.

Enquanto isso, cães, seus donos, sultões e haréns vão em busca do oásis, que ainda existe. Nem tudo está perdido... :-)

O Maltrapa disse...

Já ouvi falar, Amarilis... Mas um eclipse é como uma traição: se os olhos não vêem, o coração não sente... Ou não? Não sei... O importante é buscar a si no equilíbrio da vida, ou no leito de um córguin... Nem tudo está perdido!

Valeu! Um abraço,

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Caríssima Tita, muito grato por dar um rolê no meu blog! Bem como pelos elogios ao meu estilo quase literário. Os primeiros textos estão me servindo de base para algo que, aposto, será ainda mais interessante!

Tento me transparecer por meio do que escrevo, daí minhas facetas por você reconhecidas: um ser zangado e lúdico.

Quanto à minha "pureza", claro que sou: gosto de água pura, de cachaça pura e,como diria Caê, da beleza pura (dinheiro, não!). Hahahaha!!!

Um abração,

O Maltrapa

Ps: Morro (ou Ninho) do Urubu é para os íntimos. O nome oficial é "ÁREAS RURAIS REMANESCENTES DO CÓRREGO DO URUBU", e fica 1km após o Varjão, no meio do barro e da vida...

Anônimo disse...

"Não eram muito bonitas ou mesmo levemente feias, mas pareciam alegres, goianamente alegres".
Adorei a frase!
Seus textos são ótimos!

O Maltrapa disse...

Merci, Anônimo! Passe sempre por aqui; o Maltrapa recebe bem aos conhecidos, e melhor ainda, aos desconhecidos! Confira!

Um abraço,

O Maltrapa

diasdesetembro.blogspot.com.br disse...

Tô passando e deixando essa bela poesia pra você:

SONETOS QUE NÃO SÃO (Hilda Hist)

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Até,
Tita

Livia Vitenti disse...

Esse texto requer conversas longas ao pe de um ipe (de que cor estao os ipes agora?), sob o sol e sentindo o fresquinho das sombras de Brasilia. Eu penso muito na pos-modernidade, eu penso demais no individualismo, eu penso demais demais no holismo, e eu penso muito muito mesmo em como entender tudo isso. Parece que indo para debaixo d'agua a gente entende um pouquin...
Joao queridao, me leva nessa cachoeira que essa vida de montrealesa pos-moderna ta acabando comigo.
Ui, ai, ui, eu queria falar um monton de cosas mas... esse negocio de rimar teorias desconstrutivistas com natureza me altera!
Beijocas

O Maltrapa disse...

Muito bonitas as palavras da Hilda, Tita. Obrigado pela delicadeza do ato. Gostei mesmo!

Um abraço,

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Hahaham, muito bom, Livita! Essa vida monrealesa tá te fazendo bem, creia!

Se está mesmo a caminho de Brasoroba, o Urubu te espera, cherrie! O sol vai estar zunindo, e a Natureza, sorrindo, tão lindo, tão lindo...

Discussões descontrutivistas e niilistas me interessam (me interéééssam!)

Bisou, bisou!

"Le Maltrapile"

Marina disse...

Eu também quero mergulhar neste prometido corguin do Urubu, ainda mais com todo este efeito de fonte anti-pós-modernidade, mas no verão, por favor. Aproveite e coloque uma foto de lá no blog. Beijinho

O Maltrapa disse...

Êita que tô vendo que vou ser obrigado a cobrar ingresso para autorizar um mergulho na minha nova fonte da juventude... No verão a água é fria, mas tem sol, mulher!

beijo grande,

O Maltrapa

* Pollyana disse...

Joãooo, seu blog ta bombando e essa vida pós moderna não me permite acompanhar seus passos ... Mas não posso deixar de fazer uma exclamação depois de imaginar a sensação dos seus segundos de paz: Hmmmmmmm, que delícia!!!

O Maltrapa disse...

Meu blog tá bombando? Uau! Sucesso total! Hahahaha! Cara Popó, o banho de cachu no Urubu é o ôro da babilônia; recomendo a todas as pessoas de bem, inclusive a você! Amém!

Beijão!

O Maltrapa