sexta-feira, 29 de março de 2013

Luta de Classes


E um isquerinho pra nóis, o senhor teria, Doutor?

Ao meio-dia, o consultor caminhava satisfeito e pernóstico pela calçada do luxuoso bairro onde morava desde há um ano, quando tomara posse numa agência do governo. Respirava profundamente um ar que lhe parecia mais puro e levemente aromatizado por aquelas bandas. Segundo ele, não se mudara por ostentação, senão porque talvez soasse “mais condizente” com seu atual cargo uma residência “mais digna”. Dizia que se tornaria alvo de inveja da vizinhança a qual pertencera até então, caso permanecesse vivendo no subúrbio.

Lá, ainda um jovem trabalhador, fizera parte da associação de moradores do bairro onde morava, quando se sindicalizara , metalúrgico que era, participando das históricas greves do ABC, tendo até mesmo se filiado ao Partido dos Trabalhadores. Pôde, inclusive, conhecer o futuro presidente: - O Lula ficou puto comigo porque espalharam no sindicato o boato de que eu comi a namorada dele enquanto ele esteve preso, mas isso não é verdade! – relembra, achando graça pelo fato nunca haver sido comprovado.

Na verdade, ele havia se deitado com a mulher de outro colega, e é provável que este, por ocupar funções menos relevantes na hierarquia do sindicato, tenha se saído com essa como meio de desforra, alardeando por aí que o carismático barbudo teria sido feito corno por um tal Chico Piróla. É de se imaginar que, por esta razão, o suposto corneado haja disseminado um novo apelido para o garanhão, e o pessoal do sindicato passasse a chamá-lo, maldosamente, de “Chico Pirrôla” pelos corredores. Sem ambiente, sem moral e se sentindo acuado pela antiga companheirada, não viu solução que não a de aceitar um plano de demissão voluntária, abandonando a luta de classes.

Com o pecúlio obtido, empenhou-se nos estudos com a idéia fixa de arranjar emprego no Governo - mais seguro e cheio de regalias. A obstinação lhe supriu a inteligência mediana, de modo que, feita uma faculdade, agora, enfim, Francisco Pirólla (assim, com dois “éles”, como ele passou a assinar) era funcionário público; havia triunfado em sua luta, ainda que em causa própria!

Contudo, todos esses pensamentos agora lhe pareciam longínquos, perdidos na poeira do tempo, ao passo que em seu novo caminho, Pirólla desfila e vê seu próprio reflexo projetado da vitrina espelhada de um grande banco. Ele enverga um terno caro de tecido escuro e riscado, ainda que o sol esteja a pino. Os sapatos produzem um ruído sóbrio e um brilho pretensamente aristocrático. Os cabelos ondulados amassados de lado e óculos escuros à La Waldick Soriano terminam de compor o personagem. “A putada no Piauí nem sonha...”, regozija-se, planejando uma volta triunfal a Barro Duro, com carro vermelho do ano e correntes de ouro no pescoço, ao mesmo tempo em que sente falta de um chapéu.

Em seu atual emprego, sente vergonha de dizer aos colegas de onde vem, preferindo contar que é descendente de italianos (?), e que seu avô, à época da II Guerra, mudara o nome de Francesco Berolla para Francisco Piróla, a fim de evitar a perseguição política. Seu nome, portanto, “é uma continuação daquela linhagem”, como adorava dizer. Não acreditavam, mas fazer o quê?

Da fábrica não trouxera amigos. Dos que havia tido na infância, abandonara-os à lembrança. Aos colegas de repartição, era apenas o clown. E quanto aos condôminos com os quais dividia a garagem, não estabelecera qualquer comunicação. Os familiares semi-esquecidos em Barro Duro mereciam sua atenção por meio de um telefonema ou outro, mas nem desconfiavam do seu sucesso e não recebiam quaisquer dos dividendos por ele obtidos. Mesmo assim, solitário, fazia questão de exalar satisfação com a nova vida boa e sentia que o país todo ia muito bem.

Sentia-se vitorioso e chegava mesmo a cumprimentar os transeuntes que por ele passavam em sentido contrário. Com esse sorriso redentor no rosto, deu de frente com um mendigo prostrado à entrada do mercado a que se dirigia. Deteve-se, surpreso pelo contraste, mas não mudou a expressão de contentamento. Ao contrário, puxou conversa:

   - Mas que dia bonito, hein, irmão? – exclamou.

   - O senhor tem alguma moeda para me ajudar? – rouquejou aquele que lhe parecia um descendente direto de escravos, tal a secura de seus traços na pele.

   - Mas é claro! Ora, se não... – brincou Pirólla, buscando na carteira de couro de cobra os centavos inúteis. Havia muitos deles, o que o deixou mais satisfeito ainda. – Tome, fique com todas! – ofertou, estendendo a mão e fazendo cair muitas moedas quase sem valor na palma da mão do mendicante, que estava imunda. “É preciso fazer alguma coisa por esta gente”, pensou, enquanto se afastava, entrando no estabelecimento.

Tendo poucas necessidades, visto que continuava solteiro e fazia todas as refeições em restaurantes da moda, fixou-se em futilidades. Comprou um chocolate importado para uma namorada, além de prosciutto crudo (para essa mesma namorada) e mortadela com pimenta, que ele adorava. Por fim, comprou uma garrafa de espumante para ela e uma caixa de cervejas americanas em lata para si. Já no caixa, por pura curiosidade, esticou o braço e alcançou uma garrafa de suco de tomate: “Nunca tomei uma merda dessas... Dá pra comprar umas cinco latinhas de cerveja, no mínimo!”, refletiu, enquanto a moça lhe perguntava: - Vai o suco também, senhor?

Saiu assoviando de prazer, mas novamente confrontou-se, involuntariamente, com o maltrapilho que continuava jogado no chão quente, com cara de fome, cozinhando sob o sol inclemente. Dessa feita tentou disfarçar, mas o mendigo já o havia fitado nos olhos. Lembrou imediatamente que tinha pensado em comprar alguma coisa de comer para dar ao miserável, mas esqueceu-se por completo. É o tipo de indignação que ele finge ter, mas pela qual não luta e tampouco se ocupa; um pensamento furtivo que se perde dois passos adiante. Em seu íntimo, porém, sente-se bem por ao menos haver pensado naquilo.

Naquele instante, contudo, com seus chocolatinhos e mortadelas, ele fica sem-graça e se sente na obrigação de expor a nobreza de sua alma. Abre então a caixa de cervejas e puxa uma latinha para oferecê-la ao pobre coitado: - Pois muito bem!... – emendou – aí tens uma biritinha!... Está “um pouco” quente, talvez... Mas é americana; é das melhores! – e seguiu, o Pirólla, assoviando a música da parte em que havia parado.


foto: joão sassi







8 comentários:

Mauro Soares disse...

Boa! Conto que nos remete a realidade "aqui e agora" que ocorre por muitos recantos desse mundão e principalmente Brasília. Abração Sassi.

Márcio disse...

Lima Santos, entendo que, embora não haja nenhuma indicação de sua parte, essa historinha se passa no máximo na década de 90? Se não for assim, se for em tempos atuais, fica difícil imaginar um contemporâneo do Sapo Barbudo pagando de garotão com quase 70 anos nos couros! Procede minha conjectura?

O Maltrapa disse...

Salve, Salve, grande Mauro!

O texto tanto poderia se passar em Brasília como em Sampa ou Rio, pois a hipocrisia é canto alto nos tempos de agora, seja onde for. A contemporaneidade talvez esteja enfrentado sua maior decadência moral...

Abraço forte!

O Maltrapa

O Maltrapa disse...

Márcio, sua percepção é correta, ainda que não afete a verossimilhança textual. Pela referência que fiz a produtos importados, é bem possível que os fatos ilustrados tenham se passado no início da Era Collor, pois sim? Lembre-se que o Maltrapa não tem compromisso com a escrita auto-biográfica, meu dileto leitor!

Abração!

Márcio disse...

Justamente por você não se pautar por referências biográficas é que estranhei a referência explícita a Lula. Para mim, o Sapo Barbudo entrou nessa história "como Pilatos no Credo". Ficaria mais interessante, a meu ver, uma citação mais indireta.

O Maltrapa disse...

O Lula teve de entrar em pauta para que o Pirrôla caísse em desgraça junto aos companheiros fabris, Márcio, sendo acusado de desrespeitar justamente uma das mais fortes lideranças do movimento sindical. Se não fosse com o Lula, dificilmente o pessoal cairia na pele dele, e dificilmente ele teria saído da militância tão magoado.

Márcio disse...

Tudo bem, mas acho que naquela época Lula não tinha no PT o domínio completo que adquiriu depois de presidente.

Rafael Perfeito disse...

Acode, minha Menina Jesus!