segunda-feira, 25 de abril de 2011

El Gran Colón

A platéia delira: "Mentira!!!!"
Há coisas que passam toda uma vida fazendo parte do nosso imaginário. Algumas são apenas inusitadas, como saltar de pára-quedas ou assistir a uma ópera num grande teatro, enquanto que outras são improváveis, como confiar na Polícia Militar de Brasília, botar fé na Justiça dos homens ou pisar no gramado do Maracanã.

Tendo desistido das mais inviáveis, depositei minhas expectativas em algo mais verossímil, e assim aceitei a sugestão de minha namorada para irmos à ópera.

A ocasião propícia surgiu quando estivemos em Buenos Aires, justamente quando El Gran Teatro Colón seria reinaugurado. Em letras rápidas, basta dizer que se trata de uma das melhores acústicas do mundo, comparável à produzida por outros templos da cultura mundial, tais como a do La Scala, de Milão, e a do L’Opéra, de Paris.

É o tipo de lugar que faz com que nos sintamos num conto de fadas, haja vista a grande quantidade de detalhes doirados ou de carpetes macios que se encontra pelo local. Compramos os últimos ingressos para a noite de gala; ficaríamos lá no alto do Colón, num local espirituosamente batizado como “paraíso”. – “Não há assentos por lá”, informou a simpática atendente do caixa.

Para não me passar por um tupiniquim desprovido de cultura européia, corri ao comércio e providenciei belíssimos sapatos de couro argentino, e também um sóbrio terno quadriculado chinês – coisa da maior tradição oriental em termos de preço e tecido sintético. Mas ficou tudo muito lindo!

E assim, planejando uma grande entrada, pedimos ao taxista que nos deixasse próximo à porta principal. Havia muita gente cordial e bem vestida. Eu poderia dizer que a roupa do mulherio era de uma cafonice clodoviniana, mas, como era uma ocasião de festa, devo dizer que estavam todas des-lum-bran-tes!

Os sorrisos logo cessaram quando mostramos nosso ingresso, no que fomos aristocraticamente advertidos que o local por onde teríamos acesso se daria pela “entrada lateral”. Obviamente que a entrada lateral nada mais era do que a saída de emergência. Era mesmo de se supor que a Plebe não poderia desfrutar da mesma entrance que os Patrícios.

A porta estava fechada, e em frente a ela, uma fila se formava na calçada, rente à pista. À nossa frente, o sol de fim de tarde ainda tornava tudo um pouco menos confortável. O tempo foi passando e a fila e as dores na coluna, aumentando. Até que, pouco mais de uma hora e meia mais tarde, a porteira se abriu e a boiada precipitou-se escadaria acima. Sim, muitos lances de escada; uma belíssima escada, diga-se – daquelas em espiral.

Foi muito chique ver toda aquela gente bem vestida e esbaforida tentando alcançar o Paraíso antes que os demais, na tentativa de conseguir o melhor lugar – tudo com muita classe, claro.

Em lá se chegando, percebemos o quão maroto são os nossos Hermanitos Del Sur, ao verificar que o Paraíso era um verdadeiro Inferno. Ou será que não seria infernal imaginar-se em pé, por mais de duas horas, entre uma barra de ferro e uma turba que se acotovelava de modo super elegante e docemente perfumado?

O que dizer, então, de um atraso inicial de uma meia horinha? E depois, mais meia-hora. Eu procurava, sempre mantendo o estilo e o garbo, apoiar os braços na barra de ferro doirada, à minha frente, ao mesmo tempo em que alongava a musculatura das costas, buscando aliviar as dores que sentia desde a longa espera na fila.

Lá de cima, tudo parecia lindo cá embaixo. A nobreza portenha, em noite de gala, prestes a resgatar o glamour de seus melhores dias, ostentava longos vestidos de luxo, escorados em smokings de primeira linha fabricados bem longe da China.

Não há como negar a beleza que ali há. É tudo muito suntuoso e tradicional. O Colón é sensacional! Ademais, o trabalho de restauração ficou um mimo!

No entanto, argentino que se preze não é de se deixar levar por qualquer coisa, e logo as primeiras reclamações surgiram no majestoso teatro – primeiro em forma de salvas de palmas intermitentes, e depois, com falas menos pomposas.

Àquela altura, eu e minha consorte entendemos que a nossa aventura estava por terminar. O público se tornava cada vez mais impaciente e tudo já não nos parecia ser assim, tããão elegante. Pelo incômodo de se permanecer em pé por tanto tempo (já eram quase 3 horas, e a ópera ainda nem começara), decidimos nos retirar dando nossa missão por encerrada.

Foi quando, em meio ao crescente burburinho, a franzina figura de um senhor surgiu no palco... Imediatamente, todos pediram silêncio. E quando nos preparávamos para escutá-lo, alguém soltou um grito incompreensível de revolta, e a balburdia voltou a imperar. E novamente todos pediam silêncio, uns aos outros, sem que ninguém se calasse de imediato. Quando, por fim, o silêncio reinou, o senhorzinho no palco balbuciava suas primeiras escusas até que novamente alguém soltasse uma pérola, enfurecendo a platéia. Do alto de minha "paradisíaca" nuvem, eu gargalhava da situação.

Finalmente, após muitos minutos de tensão e insultos trocados entre os diferentes setores e galerias, fez-se um silêncio sepulcral, quando então foi-nos dito que os integrantes da orquestra haviam anunciado entrar em greve no exato momento em que o espetáculo deveria se iniciar.

O Colón veio abaixo, e mais uma guerra foi travada até que a Paz fosse, finalmente estabelecida. O senhor que estava no palco pode, então, relatar que não compreendia a atitude dos músicos, pois, segundo consta, eram “bem remunerados e...” - Um potente grito feminino varou o espaço:


- “És mentira!!!”, bradou uma indignada senhora, causando o impacto mais cômico da noite, posto que, a partir dali, não mais se encontrou meios de fazer a multidão se conformar.

Descemos as escadarias com o coração pleno em satisfação, e caminhamos sorridentes por uma agradável noite buenosairense. Tínhamos, enfim, realizado o desejo de assistir a uma ópera – e não a uma ópera qualquer, daquelas chatas que nos fazem cochilar, mas a uma bufa!!! Foi maravilhoso!









Ps:No dia seguinte, retornamos ao Colón, em roupas normais, a fim de resgatar o valor do ingresso.















fotografia de marcya reis

7 comentários:

Anônimo disse...

Maravilhoso, Bravo!

Ludinoriso disse...

kkkkkkkkkkkkk ..o canto da revolta!! As energias que lhe guiam sempre arrumam um jeitinho de lhe enfeitar o dia, seu sortudo!!!

por walter bueno disse...

Tudo isso foi muito bonito, mas no fim dos acontecimentos sempre falta alguma coisa. Será o que está faltando?

O Maltrapa disse...

Parece mesquinho da minha parte, Ludmila, mas se a ópera fosse apresentada, não teria sido tão espetacular! :D

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Diz aí, 3195, o que será que está faltando?

Moema disse...

Excelente! Mto bom! Mto bom mesmo!! Ri horrores! De um humor inteligentíssimo, típico do bom e velho Joáo. Deu até para sentir saudade de vc, acredita? rs
Bjs carinhosos

O Maltrapa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O Maltrapa disse...

Hahaha! E eu de você, Brasil! Comentei dia desses mesmo; pode perguntar para a consorte! :D

Tá chegando o aniversário, né? Vai ter put... Farra?

beijo do Maltrapa