terça-feira, 9 de março de 2010

Mãe, Esqueci a Infância na Casa da Joana!


Yago passava todo o tempo do mundo se aventurando pelo mundo exterior. Cumpria com disciplina suas obrigações em casa e as tarefas escolares, mas dedicava a vida às brincadeiras de rua; era lá que ela – a vida - fazia sentido.

Desde pequenino, acostumara-se a usufruir de tudo o que estivesse ao alcance; das brincadeiras de bola às de correr; das modas às conversas fantasiosas; de saladas-de-fruta às subidas na árvore. Muito costumeiramente voltava para casa já bem tarde. E no banho, enquanto passava a bucha sobre os pés imundos de terra, pensava, ansioso, em tudo o que faria novamente no dia seguinte.

Relembrava, sorrindo, cada jogo disputado, cada batalha travada, cada conversa ou gargalhada. Com seus 11, quase 12 anos, ele era a própria excitação concentrada. Em pouco tempo, seus impulsos alcançariam fronteiras ainda inexploradas e bem mais abrangentes da natureza humana, e o interesse cada vez mais aguçado pelas moças era o maior reflexo dessa mudança.

No entanto, e ao contrário do que pensava o guri, a aproximação junto às moças era cada vez mais difícil à medida que seu interesse aumentava. Elas já não se mostravam mais tão acessíveis como em tempos idos, quando brincavam juntos, descobrindo-se mutuamente por entre as roupas de um armário escuro, sob a cama ou metidos num canto qualquer que lhes oferecesse proteção e anonimato. Era um tempo em que as vontades eram saciadas sob o manto da inocência.

Mas quando os pêlos começam a nascer e a voz a esganiçar, o olhar lúdico da criança se perde quase que totalmente, dando lugar a uma crescente e despudorada malícia. Então, o menino passa a viver uma espécie de entressafra existencial, onde seus desejos de homem - cada vez mais aflorados - passam a não mais caber em seu corpo infantil, indo desembocar nas tortas linhas de um rosto desproporcional e cheio de espinhas. Eis aí a síntese da puberdade masculina.

Completando o quadro, as meninas da sua idade, por motivos óbvios, só se interessavam por garotos mais velhos; ‘adolescentes de verdade’, de 14 anos ou mais. E as meninas mais novas não eram meninas, senão crianças cujo único contato para com o mundo masculino se dava por meio de tapas, arranhões e muita histeria. Carinho, só para as bonecas e ursinhos de pelúcia.

Nenhum desses dois grupos, no entanto, era de seu interesse. O giovanotto gostava mesmo era das meninas mais velhas que ele; as que já tinham peitinho, bunda e cara de mulher. O foco se fazia, portanto, nas amigas das suas irmãs mais velhas, bem como nas irmãs mais velhas de suas amigas.

Sempre que ocorria uma situação onde ele pudesse se mostrar, ele se mostrava. Qualquer sinal de que era notado o fazia tocar as nuvens, sendo imediatamente guardado por ele num compartimento especial de suas memórias afetivas. A reciprocidade feminina passou a ter uma importância fundamental em sua vida.

Quando isso ocorria, passava a merecer lugar de destaque nas cotidianas e solitárias homenagens que ele prestava às mulheres, no banheiro de sua casa (ou em qualquer outro lugar). O corpo ainda em formação não produzia sêmen, mas o menino se desmanchava em prazer, várias vezes ao dia.

Esmerava-se em selecionar uma de cada vez, dedicando cada momento de intimidade a uma de suas homenageadas. No banheiro do colégio, pensava em Renata, a menina mais bonita da classe. Quando estava em casa, fazendo os deveres escolares, era Graziela, a irmã do amigo Marquinhos, quem ocupava lugar de destaque em sua imaginação. No curso de Inglês, Juliane era a bola da vez; e para cada atividade realizada, Yago elegia uma musa inspiradora. Todas elas, contudo, estavam com seus dias de diva contados...

Numa tarde, quando jogava queimada numa pracinha próximo à sua casa, Yago conheceu Joana, uma loirinha, de olhos azuis e rostinho de princesa que morava no edifício em frente ao seu. Ela tinha nove anos, adorava bater nos meninos e carregava a fama de ser chatíssima; ainda mais quando fazia uso de seus agudos sibemóis para comandar as brincadeiras.

O que fazia Yago suportá-la era sua irmã mais velha, Patrícia, quem sempre a chamava quando a noite caia. Patrícia tinha 16 anos e todos os atributos que um homem deseja, literalmente, possuir.

Bastava findar a luz, que lá vinha Patrícia a chamar a estridente Joana. Moravam com a avó que, sempre adoentada, fazia questão que as duas estivessem em casa até as 8 horas da noite. Para desalento de Yago, Patrícia nunca vinha só. Estava sempre acompanhada do namorado João Paulo. Não era difícil encontrar o casal se bolinando às escondidas, por detrás de alguma pilastra ou muro. À hora limite, João Paulo vinha se despedir de Patrícia à porta do elevador. Era uma figura irritante, com seu cabelo vermelho, um sorriso antipático e as indefectíveis sardas que se espalhavam à perfeição pela sua cara de pastel.

João Paulo e Yago se detestavam. Este odiava aquele porque invejava seus 18 anos, sua perna cabeluda e, obviamente, a namorada. Por outro lado, JP se incomodava cada vez mais por Patrícia dar exacerbada atenção ao pirralho, além de sempre lhe reservar algum elogio: - “Que lindo, este menino! Aposto que já tá namorando, né?” -, dizia ela, enquanto o namorado se impacientava cada vez mais ante a presença do ‘rival’.

Yago sonhava com o dia em que encontraria Patrícia a sós... Mas como, se ela estava sempre atrelada à avó, à irmã ou ao namorado? Um dia, porém...

Naquela tarde, ao chegar à pracinha, Yago não encontrou Joana. Não a tendo visto pelas cercanias, apelou para o interfone e descobriu que sua amiga estava em casa, jogando vídeo game. Foi convidado a subir.

Dentro do elevador, sentiu um cheiro gostoso de perfume de mulher e pensou que era de Patrícia, e pôs-se a imaginar se ela estaria em casa também...

Mas não estava.

Estava apenas Joana e a avó, Dona Fátima. Esta, afundada numa velhíssima poltrona de couro, assistia à TV (de olhos fechados), a um volume estratosférico, posto que fosse quase surda.

Joana abriu a porta e os dois foram para o quarto. Ficaram lá por cerca de duas horas, até que, num súbito repentino, Yago largou o controle do jogo e olhou para Joana.

- O que foi? -, perguntou a loirinha.
- ...
- Yago?...
- Tenho de ir embora... Agora!
- Quê?...

E já se levantando, saiu, deitando explicação pelo corredor: - “Já são 8 da noite! Sua avó vai se chatear. Tchau!” -, disse, se apressando em alcançar a porta.

De volta ao elevador, Yago não apertou qualquer botão. Apenas sentou-se e esperou.

Poucos minutos depois, um leve solavanco, e o elevador se pôs a descer. – “É ela... Só pode ser ela!...” -, exclamou, se levantado num pulo, com o coração quase a lhe escapulir boca afora.

No térreo, quando a porta se abriu, ele nem conseguiu fazer cara de surpresa ao se deparar com uma sorridente Patrícia:

-“Menino bonito!? O que você está fazendo aqui?”
-“Eu tava na sua casa, jogando videogame com sua irmã...”
-“Sei... Então vem comigo; quero que você me leve até o meu andar” -, disse ela, sorrindo maliciosamente para o garoto.

Quando a moça apertou o botão do 6º andar, Yago sentiu o corpo congelar. Ele desejou aquele momento mais do que qualquer outra coisa, mas agora, não tinha a menor idéia do que deveria fazer (se é que deveria fazer alguma coisa)!

Alheia à aflição do garoto, Patrícia se olhava no espelho e ajeitava, tranqüilamente, o cabelo algo despenteado, e também o vestido visivelmente amarrotado. Mesmo paralisado, Yago acompanhava, visualmente, cada movimento das mãos dela; o toque nos cabelos, a forma macia como tocava o próprio vestido... Viu quando, da roupa, a mãos passaram à pele, indo alisar um par de coxas bonitas, cheias de pelinhos dourados... – “Você gosta das minhas pernas, Yago?” -, perguntou. No que ele apenas assentiu, balançando a cabeça.

Quando o elevador chegou ao destino, Patrícia rapidamente se virou e pediu a ele que olhasse em seus olhos. Dentro deles, num brilho sedutor, Yago enxergou a imensidão de sua paixão ainda nascente, que logo se transformou em ardor quando Patrícia levou seus lábios de encontro aos dele, num indescritível beijo de mulher. – “Esse é o nosso segredo!...” -, disse ela, fechando a porta.

Yago não se movia, como se sua imobilidade lhe fosse garantir a perpetuação daquele instante. Tudo o que ele vivera de mais emocionante até então ficou, de repente, perdido num tempo distante.

Chegando ao térreo, suspirou profundamente antes de abrir a porta com firmeza e elegância. Ao sair, já não era mais o menino que há pouco apertara o interfone. Decidido, começou a caminhar, altivo e tranqüilo, mal percebendo que acabara de deixar para trás, sentada no chão do elevador, a própria infância.

10 comentários:

carol sakurá disse...

Lindo conto|!
Me perdi na delicadeza dos detalhes.
Beijos!

Márcio disse...

Porra, escriba, duas crases na mesma frase? Surtou geral ou é só mais um ataque de neo-parnasianismo? E que conversa de "sêmen" é essa? Onde estão os bons e velhos "porra" e "gala"? O que há de mal com o "amor de pica"? Abaixo a (auto-)censura! O texto é bom, mas pode melhorar!

Roseane z disse...

Me lembrou " Mogli , o menino- lobo ". Sempre me perguntei por que os homens trocam sua liberdade por um "bater de cílios ". Instinto , hormônios , perpetuacao da espécie ....todas explicações carecem de um fundamento maior.Poderia ser um acréscimo e não uma substituição . Um animal livre , por exemplo. Isso tiraria um grande peso do universo feminino , penso eu. Por que crescer não e acrescer? Por que a natureza faz este tipo de barganha conosco ? Well , não tenho a mínima ideia da resposta , mas o Yago não me pareceu nem um pouco interessado ....lindo texto , "a insustentável leveza do ser"....bbjjiinnss. Z.

O Maltrapa disse...

Contreiras, trate de sossegar a periquita. Quando a expressão sai naturalmente, não há atrito; cê tá dando muita atenção àquela luzinha acesa no fundo da sala do cinema.

Quanto ao outro tópico, no esboço escrevi 'esporra', mas escolhi uma forma mais amena e sutil, que apenas desse a sensação de que Yago se derramava em prazer, mesmo não se 'afogando na gala'. É que devo qualquer respeito às crianças e moças de família que leem a este Maltrapa, manja? Hehehe...

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Pois é, Z, a zorra é que as mulheres - todos sabem - são bruxas terríveis que enfeitiçam e abobalham os pobres Moglis desta Gaya, tornando-nos reféns dessa maldição eterna que é a depedência ao carinho feminino... (Mas que é bom, é; buuuuuudaguebarîu!!!)

A vida tem seus temperos e seus encantos. Do atrito, caminha-se. E como diz Marina Silva, "é na diferença que as trocas se realizam".

Beijão,

O Maltrapa

Márcio disse...

Discrepo, Lima Santos! O meio é a mensagem! Nada contra crianças e moças de família, mas o autor deve respeito a ele mesmo e a ninguém mais. Leu o emelho sobre o uso de "posto que"? Abraço!

Celamar Maione disse...

Yago deixou a infância....
Crise existencial é uma constante em todas as idade, né ?
Quem pensa, tem crise.
Belo conto de " passagem".

Beijão !

O Maltrapa disse...

De acordo, Celamar: "quem pensa, tem crise". Achar que a vida segue o fluxo constante e imutável da água que passa sob a ponte é ilusão; mesmo a água tem seus altos e baixos, calmarias e corredeiras.

Ou seja, somos sempre "passagem".

Beijo grande,

O Maltrapa

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Márcio, minha escrita tem a cumplicidade daqueles que me leem; de quando em quando, presto-lhes uma reverência, só para reavivar a paixão! Quando for o caso de escrever sobre putaria, aí mudarei o tom.

Abraço forte,

O Maltrapa

Ps: Comi bacalhau no almoço e papei vascalhau no jantar!

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Z, o recheio da vida é o inusitado, o "de repente", leve e insustentavelmente..

Beijo,

O Maltrapa

Roseane z disse...

...irresistível ...Entendi.bjjins. Z.

Lívia Vitenti disse...

Li só hoje, estava impossibilitada até o fim-de-semana passado.
Gostei muito, apesar de suas taradices virem desde a mais tenra idade (ora, nós disso já sabiamos desde o conto da tia).
Quero ser mais assidua, juro.
Bisous d'amour

O Maltrapa disse...

Minhas taradices?... Como assim?Sou apenas um relator de eventos salientes, ora, pois!

Bom tê-la de volta; achei que tinhas congelado por aí!

Muitos beijos,

O Maltrapa