terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Maturidade Invernal

Fazia muito frio. Marcus Paulo, 11 anos, acordava bem cedo para ir à escola. No entanto, mais do que o abandono da cama morna numa gelada manhã de Inverno, o que realmente lhe tirava o humor era Laurinha, sua única irmã, mais nova que ele alguns anos.

Laurinha não tinha nenhuma obrigação em casa, de onde só saía para ir ao Jardim de Infância, à tarde. Ele, ao contrário, teve de assumir inesperadamente o papel de “homenzinho do lar” logo após a morte precoce do pai. Atordoado, via a infância cada vez mais distante.

Ela, por outro lado, divertia-se com as caretas de chateação do irmão que, querendo fugir às suas provocações, apressava-se o máximo que podia, mas nunca o suficiente. Ainda deitada, Laurinha se aninhava junto aos travesseiros e dizia “Isso aqui tá tão quentinho, Paulinho... Vai pra aula, não, bobão!”

Ele não respondia, mas a fuzilava com o olhar ainda sonolento. Sentia saudades de quando era pequenino como ela. De quando a escola era pura brincadeira e ele não tinha qualquer ingerência sobre o próprio destino; sentia saudades de não ter responsabilidades. E pensava, invejoso: “Um dia ela cresce, e aí, vai ver!...”

A rotina dele fora radicalmente alterada. Agora, além de acordar muito cedo, Marcus Paulo tinha uma série de obrigações e tarefas; como lavar a louça, comprar pão e leite, e até mesmo pagar conta de água na lotérica.

Ainda que lhe sobrasse algum tempo para a vagabundagem de outrora, lhe chateava ter que intercalar seus momentos de menino com os de homenzinho. Nada era como antes, e por mais que desejasse, jamais voltaria a ser. Quando menos esperava, lá estava Dona Célia, sua mãe, a dar-lhe uma tarefa inesperada. "Faça por você, por nós e por seu pai, Paulinho", dizia ela, constrangendo o menino.

Naquela manhã, como em todas as outras, saiu apressado e não pode tomar o café que D. Célia deixara sobre a mesa, antes de sair, ainda de madrugada, para o trabalho.
O estômago vazio lhe aumentava não somente o mau-humor, mas também a sensação de frio. Assim que abriu a porta de casa, sentiu a ponta do nariz quase congelar. O vento uivava frio em suas orelhas de abano, o que lhe causou uma insatisfação ainda maior. Quando abriu a boca para dizer um palavrão, produziu fumacinhas que o lembraram da cama, esquecida, ainda quentinha...

Invejou uma vez mais a infância da irmã, trincou os dentes e pôs-se a caminhar. A escola ficava a trinta minutos de sua casa.

Apesar do martírio matinal, Marcus Paulo sempre gostou da paisagem produzida pelo frio. Gostava de ver o céu cinza-escuro, ainda que fosse dia. Gostava das árvores despeladas e enegrecidas, com seus galhos fantasmagóricos, perfiladas pela alameda, como soldados em reverência ao “Grande Líder Paulinho”. E gostava, sobretudo, do clima de placidez que tomava conta da vizinhança; as coisas, assim, “paradas”, eram-lhe mais fáceis de ser reparadas. Não fossem as orelhas de abano, seria o Inverno sua estação preferida!

Enquanto caminhava, deixou para trás o mau-humor, os travesseiros e o cobertos; seus sonhos agora eram outros.

Chegando ao colégio, porém, seguiu rabugento, sem trocar palavras com ninguém. Assim assistiu às aulas do primeiro período; calado e faminto.

Quando olhou para o grande relógio, sobre o quadro-negro, excitou-se; faltavam poucos minutos para a hora do recreio. Não tirou mais os olhos dele. O recreio era criminoso – somente 15 minutos! – e uma eventual perda de tempo poderia lhe custar caro.

A cada volta do ponteiro maior, um sorriso se insinuava em seu rosto. Quando soou a sineta, estava porta afora, zunindo pelos corredores.

Em trinta segundos, era mais um entre dezenas de moleques que se acotovelavam e se esgoelavam em frente à lanchonete, implorando para que uma das duas senhoras que ali atendiam lhe desse alguma atenção. Àquele instante, Marcus Paulo desejou ser maior e mais crescido do que era.

Não havia fila ou ordem; ganhava quem tinha o sovaco mais alto. A única esperança de ser notado requeria um tanto de força e outro tanto de sorte. Em meio aos cotovelos e sovacos mal-cheirosos, viu menino rindo e até chorando. Por fim, alcançou o balcão, sobre o qual se debruçou para então levantar a ficha e gritar, repetidamente: “Um cachorro-quente! Um cachorro–quente! Um cachor...”-, e ser atendido. Então, tudo mais silenciou...

Viu a ficha sendo tomada de sua mão por uma das senhoras, e ela conferindo o carimbo “cachorro-quente”. Viu quando a senhora pegou, de dentro dum cesto, o seu pão já envolto num saquinho plástico. Viu quando ela pegou a faca de serra e fez um corte em sua superfície macia. E quando abriu a tampa da panela de alumínio, deixando escapar uma inebriante quantidade de vapor quente. E também quando deitou a salsicha sobre o pão, finalizando tudo com uma caprichada concha de molho de tomate e cebola. “Tô!” -, disse ela, entregando-o a Paulinho.

Com seu bem mais precioso em mãos, a meta agora era conseguir sair – algo quase tão difícil quanto entrar. De cabeça baixa e o lanche junto ao peito, Marcus Paulo ergueu os cotovelos e saiu chifrando quem encontrasse à sua frente; só assim para lidar com o mundo-cão.

Da lanchonete, escapuliu pela lateral do pátio e desceu um lance de escadas, de onde avistou os pinheiros perfilados que lhe dariam a devida proteção. Caminhando pelo descampado, sentiu novamente o vento abanar suas orelhas, mas logo alcançou a árvore pretendida. Nela, as raízes cresceram a ponto de formarem uma reentrância que a ele servia como barreiras e, ao mesmo tempo, recosto. Ali, Paulinho costumava se aninhar às escondidas, envolto em sonhos e devaneios próprios de quem precisa de um tempo só seu para pensar nas coisas da vida.

Confortavelmente instalado em seu trono, olhou para os lados e não viu ninguém. Resolveu, então, abrir o saquinho plástico de seu lanche. Dali, viu a fumacinha que saía, fazendo com que sentisse a melhor das sensações, além de deixá-lo com a boca cheia d’água...

A primeira mordida era ritualizada, e também a segunda e todas as demais, até a última. Marcus Paulo não sabia, mas a cada mastigada, a cada engolida, sentia o tamanho do prazer que só a maturidade dos seus 11 anos podia lhe conferir. O resto do dia, passou-o felicíssimo.

16 comentários:

carol sakurá disse...

Olá Maltrapa!

Que conto lindo!

A sensibilidade do homenzinho que tem encantos de criança.

Eu é que devaneio na sua linguagem imagética,praticamente senti cada cena.

De maneira especial venho agradecer ao comentário que 'umedece' deixado no Poete.
rsrs

Bjs!

O Maltrapa disse...

Carol,

Bom saber que palavras nos levam tão longe... principalmente, quando bem encaixadas.

Grato pelo estímulo.

Beijo,

O Maltrapa

Aníbal disse...

Estimado Maltrapa,

O seu jeito de escrever é realmente brilhante, até os temas mais triviais e aparentemente insignificantes se tornam interessantes, ganham vida. É o domínio da língua, a imaginação literária, a materialização das imagens em letras e palavras, mas também uma fertilidade e riqueza interiores muito grandes. Acho que você vai ganhar a vida mesmo é com a literatura. Tenho a impressão que se começar a abordar temas mais universais, saindo um pouco do umbigo e do intimismo de um blog - que é um espaço individual - vai decolar, vai chegar a muita gente. Tenho certeza.

O Maltrapa disse...

Caro Aníbal, que dupla surpresa! Nem o esperava por aqui e menos ainda que minhas palavras lhe cativassem tanto... Estou muito feliz por usufruir desse prestígio junto a você!

O melhor ainda está por vir.

De coração,

O Maltrapa

Marcya disse...

Parece o trecho escolhido de uma história maior, que deixa a gente com gostinho bom de ler mais um monte e comer cachorro-quente de quando era criança.

(Ah, e merece menção o pulo congelado da Laurinha na cama)

Beijos...

José Ricardo disse...

Velhinho,

sou seu fã.

Se contar pra alguém, eu nego...

O Maltrapa disse...

Marcya, é certo que a história maior existe: está na minha cabeça e nos desdobramentos que a poesia da existência determinam. Por ora vou de conto em conto, ponto a ponto...

Muitos beijos,

O Maltrapa

_________________________________

Zé isso é uma cantada? :P

Bom te ver por estas bandas antropólicas!

Abraço forte,

O Maltrapa

Amarilis disse...

Que bonito! Lembrou minha infância em Sampa. O frio na hora da escola, a neblina, o céu cinza. A gente usava pijama embaixo da calça da escola e o lanche era ovo cozido ou sopa de feijão com macarrão. A vida era mais difícil do que hoje, mas ainda assim ser criança era o máximo.
Beijos e bom natal!

O Maltrapa disse...

"Por Tutatis, protejam suas nariguetas", diria Obelix! Com um lanchinho desses, Amarilis, a flatulência entre a pirralhada devia correr (ou plainar) solta, né? Hahahaha!!!

Na Escola que eu estudava quando criança, a merenda era biscoito de água e sal com suquinho de limão ou café - vê-se que, à esta época, as merendas não eram superfaturadas!

Feliz Natal pra você também, Amarilis, mas volte logo, pois antes do Ano Bom, tem mais!

Beijão,

O Maltrapa

Ana disse...

Ainda bem que eu virei Marcus Paulo só agora, com meus vinte e poucos anos...hehehehe...mas por sorte meu pai não morreu, apenas saiu de casa, e cá estou, pagando contas, resolvendo problemas, e invejando a vida boa do meu irmão, que só tem tempo para farras e estudo.
Belo texto João!

Celamar Maione disse...

Nada como um cachorro quente para esquecer a infância perdida.
Tocante a história do menino Marcus Paulo.

Boas festas !

Beijão

O Maltrapa disse...

Ana, não inveje o seu irmão. Enquanto ele ainda saboreia um delicioso cachorro-quente na hora do recreio, para você, o mundo já é bem mais amplo; e também suas conquistas. Aproveite!

Beijão,

O Maltrapa

**********************************

Celamar, é pertinente pensar que tanto melhor saboreada será a degustação do cachorro-quente, quanto mais Marcus Paulo se distanciar de sua infância. Para ele, aquele momento se revelou um ritual de passagem, tornando-se um verdadeiro símbolo de uma nova Era.

Um beijo,

O Maltrapa

Marina disse...

ainda nem li o texto, mas estou encantanda com a fotografia!

José Ricardo disse...

Eu imagino o teu amor pela física ginasial (ainda existe ginásio?), para escolher o caminho mais surpreendentemente helicoidal possível para chegar de um ponto a outro:D. Ô nigrinha... devia ter ficado para ajudar e continuar o papo. Cê também, acha que ainda tem 18... De qualquer sorte, que as dores que se foram dêem lugar a outras, em outros sítios, para continuar a lembrar que estás vivo, e acompanhar uma trajetória de vida, de um ponto a outro, e não em círculos(vale para mim também)!

O Maltrapa disse...

Marinota, você é, de longe, quem mais tem se ligado nas fotografias do Maltrapa. Essa daí, com a Marcya, ficou muito boa e faz parte de uma sessão com várias outras, nesse mesmo estilo.

Talvez seja o caso de se fazer um flicker (blog de fotos); quem sabe? A se pensar.

Aquela que postei no dia 2 de Novembro é a minha preferida deste blog.

Beijão,

O Maltrapa

*******************************

Zé, cê tá comendo ácido no café da manhã?

Abraço forte,

O Maltrapa

José Ricardo disse...

Cheirando ácido, fumando cola e injetando folhinhas...