
Meu pai me ensinou que futebol era coisa ‘do povo’. Desde então, para estar do lado ‘do povo’, passei boa parte da minha vida devotando à bola como a um elo entre minh’alma e a do próprio ‘povo’. Onde quer que eu fosse, em que época fosse, e sob quaisquer condições, seja ela qual fosse, era a bola que decidia meu futuro como se feita fosse, não simplesmente de couro, mas de cristal.
Antes de completar 10 anos de idade, percebi que meu destino já estava traçado. No dia do meu aniversário, meu pai me levou à Sears para que eu escolhesse o presente que eu quisesse. Enquanto meus irmãos se excitavam com toda sorte de inovações espalhadas pelos departamentos de moda, música e, obviamente, brinquedos, eu não saía do de esportes.
Era um deleite ver tantas bolas à minha disposição. Eu já sabia qual era a melhor, mas fazia questão de pegar cada uma, cheirar o couro, ver se era costurada à mão, como as do tempo do Rei, ou se era de costura automática, contar os gomos e, por fim, fazê-la rodopiar em seu próprio eixo, na ponta dos dedos, para verificar se estava oval. Então, olhava para meu pai e dizia: - “Quero esta!”.
Naquele dia não foi diferente. A não ser pelo fato dele haver, surpreendentemente, me oferecido um caiaque – prontamente recusado; para desespero dos demais. Aquela decisão me serviu como um atestado, tendo vicejado por longa data a alcunha de fanático; do cara que trocou um caiaque por uma bola. Em meu íntimo, porém, adorava ser reconhecido por esse radicalismo... Que, a meu ver, nada mais era que uma paixão vivida em sua intensidade máxima.
Foi nesse período, aliás, que estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Todos ficaram alucinados com o looping do Tívoli Parque, com os táxis amarelos ou vermelhos, quadriculados e, claro, com o biscoito Globo e o mate-limão gelado da Praia do Pepino. Eu, em explícita discordância, apelava: - “Pai, já estamos aqui há dois dias e eu não vi o Maracanã...”, questionava, cobrando-o pela não peregrinação ao nosso templo. O que acabou só acontecendo muitos dias depois, lá do alto da Floresta da Tijuca, quando então pude enxergá-lo à distância, em seu formato harmonioso e mítico, fazendo minha alma se sublevar... Era minha Meca.
Num outro momento, quando o bonde da puberdade já movimentava toda a geração coca-cola - uma gente que só falava de carros, matinês na Zoom, jeans desfiado e tênis sem cadarço -, eu não precisava me esforçar muito para manter o rótulo: recusava peremptoriamente qualquer convite para ir a shows ou boates. Enquanto a nata do rock brasiliense dos anos 80 desfilava alucinada e ovacionada pelos palcos da cidade, eu me contentava em demonstrar minha fé pelos campos da vida, em eterna devoção ‘ao povo’. E fazia graça daquela juventude perdida cheiradora de loló.
Quando um viciado acorda, antes mesmo de abrir os olhos ele já está mentalmente escravizado, pensando em uma única coisa. Era assim que eu passava o tempo; pensando em que momento eu estaria em campo. Portanto não era exagero, no meu entendimento, aproveitar a hora do café, a hora do recreio, a hora do almoço, a hora do lanche da tarde e qualquer outra hora do dia (ou da noite) para fazer o que eu tanto amava. Isso levou Johanne, minha namorada de então, a fazer a pergunta fatídica: “João, ou eu ou a bola”. Foi meu primeiro par de chifres...
E com eles, vieram outros, e também outras namoradas, outras paixões, mas nenhuma como ela, a bola; a única a me fazer transcender, dando-me uma compreensão plena do que era o viver.
E muitas outras situações foram, ao longo desses anos, pondo, paulatinamente, minha crença no ‘povo’, à prova. Mais crescidos, os irmãos já não admiravam tanto que eu não estivesse presente em um passeio de fim de semana, um casamento ou mesmo a uma viagem de família.
Quando enfim virei adulto, nada mudou muito, e minha fé no ‘povo’ apenas aumentava, não obstante o contato real com essa divindade se houvesse dado apenas por furtivas idas aos combalidos estádios da capital – montes de concreto de um puro vazio espiritual. Era chegado, portanto, o tempo do batismo. Pagão que sempre fui; de nunca me haverem comungado, sem crisma ou carisma, fui conhecer a Santa Sé.
Foi num 24 de abril, há exatos 10 anos, em companhia de Juliane, minha (única) namorada vascaína. Flamengo e Vasco se enfrentariam pela decisão da Taça Guanabara de 2000. Havia uma expectativa enorme por parte de todos, visto que Romário, o principal apóstolo presente, havia acabado de migrar do Ninho do Urubu para a Frigideira do Bacalhau, blasfemando contra a massa sem dar-se conta do pecado capital.
Adentramos ao estádio...
Um retângulo tão verde quanto mágico se pôs ante meus olhos, envolto por linhas circundantes perfeitas, até encontrar os céus do ocaso, num fim de tarde colorido e ensolarado que me conduziu, instantaneamente, ao útero da minha existência. Abobalhado e maravilhado, procurei por um local neutro, onde as torcidas se encontrassem para que eu e ela pudéssemos sentir apenas a rivalidade contundente de nossas distintas correntes religiosas.
Assim, me sentei naquela arquibancada como quem, cristianamente, ajeita-se no genuflexório momentos antes de uma aparição divina.Todos os ensinamentos de meu pai então me saltaram à cabeça. Os preceitos, a forma, o modo, o estado da alma apto a receber o espírito santo.
E pude antever o que estava por acontecer: - “João, a diferença entre o craque e o jogador comum é que, enquanto este apenas vê a jogada acontecer, o craque antevê.”, dizia ele.
E com o altar ainda vazio, vislumbrei em meu imaginário um sem-número de gols feitos por Deus Zico em tempos remotos – bíblicos, por assim dizer -, e pude vê-lo correndo em direção aos fiéis, magnéticos, inteiramente crentes, desprovidos de ouro, mas ricos em esperança e júbilo espiritual.
Eu estava apto à ascese, afeito como um anjo a entrar para o Reino dos Céus. Enquanto fazia minhas preces, porém, senti no ar uma presença incômoda, satânica.
Não, não se tratava de uma vigarice vascaína; ao me virar, percebi a presença de três impostores rubro-negros; gente rica (burgueses sem religião!), trajando o manto sagrado, num flagrante impropério aos desígnios de nossas raízes sociais.
Não eram ‘do povo’! Usavam tênis de marca, camisas último modelo e jeans limpos, azuladinhos. “Não pode ser, deve ter algum erro. Não é possível que vim ao Maracanã me sentar ao lado desses almofadinhas cheirando a Hugo Boss!!!”, pensava eu, em desespero, esquecendo-me por completo de que o Cristo não ama o pecado, embora aceite a todos os pecadores. Mas eu insistia, em franca agonia: - “Vade retro, Satanás!”.
Pois nem bem a bola rolou, e o Pet (é, este mesmíssimo Pet), em jogada genial, colocou-a na testa de nosso centro-avante, estufando a rede e fazendo a massa humana presente ao Maracanã ser arrancada do chão, tal como as águas vermelhas que Moisés separou, numa explosão de intensidade e força que jamais havia presenciado.
Fui subitamente tragado por um mar aberto de mãos, braços e abraços, sendo abraçado, agarrado, beijado, suado, berrado, amassado erguido e soerguido por aqueles mesmos três mauricinhos que, por fim, produziram em mim a sensação de maior elevação espiritual que jamais havia sentido em todo meu sacerdócio.
Foi quando percebi a síntese da nossa condição, onde nos encontramos e por que vivemos. Por uma bola perfeitamente feita, numa parábola perfeita, atingi o entendimento que engendra nossa percepção em relação ao mundo. E foram eles, aqueles benditos playboys zona-sul, os responsáveis diretos por me haverem extirpado do coração o preconceito, dando-me a exata noção e aceitação de algo que, até então, inexistia: eu era, enfim, parte do ‘povo’.