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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Festa Estranha com Gente Esquisita

Pergunte ao parente se tudo valeu a pena só pra ter um celular da ora.


      A classe estava repleta de estudantes de Ciências Sociais. Debatíamos catástrofes advindas da colonização no continente africano. Eis que um colega diverge do senso comum ao garantir que, preto no branco, a troca de dialetos primitivos pelo idioma europeu favoreceria os povos subjugados por conta do acesso de seus descendentes ao “mundo civilizado”. Em sua percepção, a escravização e o possível genocídio de algumas das populações afligidas deveriam ser interpretados como um mero dano colateral.

      Ficamos boquiabertos, ou mesmo indignados. E o mal-estar aumentava à medida que ele sacava argumentos como “é a verdade que ninguém quer ouvir”, ou “vocês gostariam de estar falando Tupi até hoje?”, e um punhado de disparates para defender seu modelo de inclusão sócio-cultural colonial. Este bem-intencionado rapaz estudava Sociologia e era o único dentre seus sequazes das Sociais a admirar ex-presidente FHC (nosso sociólogo mulatinho) e a defender ardorosamente o liberalista Adam Smith. Não demorou e o debate transfigurou-se em acalorada discussão, a professora pôs fim à aula, e Ferdinando – este era seu nome – permaneceu surdo em sua cadeira, ignorando a razão alheia com expressões de tédio e sono.

      Angustiado com a exposição das ideias desse ser de outro mundo, refleti sobre o porquê desse sujeito propagar seus equívocos em tom desafiador sem ao menos se dar ao trabalho de perguntar a quem sofre na pele as conseqüências da escravidão, sua opinião. Muito aluno poderia dizer-lhe com autoridade moral, empírica e histórica, o que acha do tataravô ter sido obrigado a cruzar o Atlântico em meio a bosta, doença e morte para (malgrado uma chibatada no lombo, uma marca de ferro quente na cara e um murro no estômago para não perder o costume) aprender a língua de Camões em Pindorama (posteriormente Brazil – Terra do Pato Amarelo), e, de quebra, ganhar um deus punitivo para adorar, um Cristo photoshopado de olhos azuis para reverenciar e uma religião cheia de culpa para se espiritualizar adequadamente. Se fosse mulher, a sorte não era tão grande, já que a benesse do aprendizado lexical seria inexoravelmente acompanhada de estupros e todo tipo de perversão sexual.

      Bem diferente daquilo que um dia sonhamos quando lutamos pelas Diretas, ou quando acabou a ditadura, ou, ainda ontem, quando pensávamos haver elegido um governo democrático, progressista e popular, o pensamento raso, reacionário, e individualista, típico de extremismos de direita, não estava em vias de desaparecer nesse nascedouro da Era de Aquarius, senão o contrário: as almas sebosas e os espíritos do Medioevo estavam apenas adormecidos no breu dos esgotos, enrustidos pelos bons auspícios que a atmosfera progressista da Novíssima República produzia. Mas hoje mostram sua cara, amparados pelo mau-caratismo em voga, através de faces muitas vezes familiares, como aquela tia querida de toda uma vida, o professor gente boa, o primo de Minas ou um amigo de infância; estão todos aí nas redes sociais defendendo pena de morte ‘pra bandido’ e longa vida a fetos sem qualquer garantia de uma sobrevivência orgânica ou social - sempre em nome do Senhor. Então você percebe que os Ferdinandos são muitos, e em número cada vez maior no prédio, na rua, na sala de aula... Festa estranha com gente esquisita.

      Paira no ar o cheiro da podridão. Uma nova e vergonhosa ditadura se avizinha, daquelas que nos farão olhar pra baixo, envergonhados pela capacidade que nossos irmãos latino-americanos demonstram em reagir, lutar e resistir, enquanto nós não. Há também cheiro de delinqüência, de ignorância e de superficialismo nos arredores. De preconceito, de difamação e de fanatismo na vizinhança. É forte o cheiro de polícia, de escuta ilegal, de porões, tortura. Instalado, o Mal ora viceja.

      Essa celeuma acadêmica ocorreu antes da conexão total que se experimenta atualmente. Foi num tempo em que para entrar no Orkut (!?) você tinha de ser convidado por um amigo bacana, aristocraticamente falando. Passados mais de dez anos, o advento de engenhocas futuristas desenvolvidas nesse período (smartphones) e de plataformas com poder catalisador suficiente para aglutinar bilhões de adeptos (Facebook e Twitter) revelou que nosso amigo imperialista da universidade não fora o único ET a perder o rumo de seu planeta. Ler comentários ou “opiniões” nas páginas da internet, nos dias atuais, é comprovar inequivocamente o fracasso do modelo evolutivo que experienciamos como seres humanos... (e o sucesso das teorias ferdinandianas).

      Basta uma simples análise desses comentários, bem como da constante reinterpretação da realidade perpetrada pelos haters, no mundo digital, para chegarmos à infame conclusão que Ferdinando deve estar rindo muito da cara de todos os que o consideravam um retardado quando, claramente, estava à frente de seu tempo. 



Créditos de imagem: joão sassi

domingo, 15 de março de 2015

SOS Militares

Saudades da ditadura? Nós somos da Pátria a guarda, fieis soldados, por ela amados!... 

                                                       
Em toda a sua história, o Brasil jamais ansiou tanto por uma data como por aquele quinze de março; nem quando “conquistou” a Independência, nem quando se tornou uma República, e muito menos quando venceu sua primeira Copa do Mundo. Apesar de pontos de inflexão históricos, nenhum teve a capacidade de mobilização criada pela expectativa da iminente redemocratização do País, em 1985.

Detentor de uma barba desgrenhada com pêlos brancos à larga, bem me lembro daquela longínqua manhã. O dia amanhecera fresco, e ainda muito cedo, de roupão e calção de banho, além de muitos tremores de frio, seguia com meu pai rumo ao Parque da Água Mineral, para uma natação matinal. Apesar do meu temor pela temperatura relativamente baixa, havia algo no ar que fazia daquela experiência algo mais solene que um mero mergulhar no frio profundo daquelas águas cristalinas: dali a pouco, tomaria posse Tancredo Neves, o primeiro presidente civil em 21 anos, sepultando um dos mais vergonhosos e autoritários períodos de nossa história – o tempo das fardas lúgubres e de suas taciturnas figuras se encerrava com aquela aguardada alvorada.

Embora eu fosse um pisquila que sequer alcançara os dez anos, tinha razoável noção sobre a vida política do país, e escutava tudo o que meu pai tinha a dizer, com grande expectativa. A luta pelas Diretas, poucos meses antes, despertara a população brasileira para uma consciência cidadã coletiva, precipitando a experiência política também entre os mais jovens. Havia mais de duas décadas, a pedagogia escolar brasileira impunha às crianças a aceitação ao sistema, e nunca o questionamento, por meio de disciplinas como Organização Social e Política do Brasil ou Educação Moral e Cívica. Ao mesmo tempo, estudantes secundaristas e universitários eram presos, espancados ou mortos.

Apesar da derrota da emenda Dante de Oliveira, ganhamos no Colégio Eleitoral, poucos meses depois. E digo ganhamos porque o Brasil inteiro se fazia presente naquele plenário quando Tancredo Neves alcançou a maioria de votos, derrotando Paulo Maluf e a direita brasileira. O hino nacional, entoado na sequência, era escutado ecoando dentro e fora do Congresso Nacional, a plenos pulmões, árduas lágrimas e intensa comoção. Após ser instrumentalizado pela ditadura como objeto de um ufanismo arbitrário, o hino vinha readquirindo seu real significado desde os comícios do ano anterior. A sensação de pertencimento e orgulho nacional atingia todas as classes e (quase) todos os partidos políticos, pois, acima de tudo, havia a certeza de que o Brasil se humanizava com a redemocratização.  

Enquanto caminhávamos à beira daquela piscina natural cravada no cerrado brasiliense, era possível sentir uma atmosfera renovadora permeando todo o ambiente, em sintonia, vislumbrando os novos e bem-vindos tempos aos quais se referia Cazuza; o dia, de fato, nascia feliz! As pessoas sorriam quando se cumprimentavam; um sorriso diferente, mais leve e mais solto, que vinha lá de dentro. Ninguém falava de lado, ninguém olhava pro chão.

Foi quando um colega de meu pai veio em nossa direção e deu a impensável notícia: - Já ouviu o rádio? Parece que Tancredo foi internado às pressas; periga não haver posse...

   - Quê?!... - Meu pai ficou incrédulo e, com expressão grave, típica de quem está maquinando uma ideia, retrucou: - Isso só pode ser coisa dos milicos... Não querem largar o osso de jeito nenhum! – Motivos para preocupação havia, e de sobra...

O martírio e as incertezas perduraram pelo resto do mês, indo findar no dia dos mártires, a 21 de abril, quando a morte do ex-futuro Presidente foi anunciada. O calvário serviu para unir ainda mais a nação, que chorou como se, com Tancredo, morresse também nossa esperança de ver erigir a verdadeira democracia brasileira. O luto era amplo, geral e irrestrito.

Passados trinta anos, também em um 15 de março, parcela da população brasileira acordou imbuída de um sentimento que, dizem – e eu não consigo entender o porquê – assemelha-se ao de então. Milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra o que consideram o pior panorama político já enfrentado pelo Brasil, visando apear a “quadrilha comunista” que ocupa o “Poder”.

Para mostrar que a bagaça é real, vestiram a camisa da seleção brasileira (Nike? CBF? Ricardo Teixeira?) e foram para a rua vociferar contra o governo e o PT, mas também contra ateus, feministas, maconheiros, umbandistas, nordestinos, abortistas, haribôs, cabeludos, Karl Marx (?) e até contra o facínora corruptor de mentes juvenis, o professor e educador Paulo Freire (???). Pediam o impeachment da Dilma, além da volta da ditadura militar em cartazes escritos, vejam vocês, em inglês. Trocaram o “Yankees, go home!” pelo “Miami, here we go!” Até a suástica estava entre os emblemas ostentados pelo coro dos descontentes. E mandavam todo aquele que discordasse para a “Cuba que o pariu!”.  Tudo “em família, pacificamente”, como frisavam os jornalistas da Globo News.

Havia gente jurando que o Lula é o anti-cristo; havia gente pensando que o Aécio assumiria a Presidência, em caso de golpe; havia gente contra o aborto e a favor da pena de morte (????); havia bonecos de petistas sendo enforcados num viaduto; e também quem imaginasse que estava ali para fazer história, mostrando que é brasileiro, com muito orgulho e muito amor. Mas não havia hinos históricos que refletissem qualquer realidade social, qualquer luta ou momento relevante da história brasileira.

O que havia, em contrapartida, era um grande vazio cidadão: nenhuma periferia, nenhuma organização indígena, nenhum movimento social de base, nada de representantes das classes artística, cultural ou intelectual minimamente relevantes. As fotos, ao contrário, revelam pessoas majoritariamente brancas, felizes, bem vestidas, tomando Heineken e Budweiser, enquanto cantam o hino nacional como prova inequívoca de seu patriotismo e compromisso para com o país; uma "gente direita”, “do bem” e, sobretudo, cristã. Vislumbrando a enxurrada de imagens produzidas pela mídia, nota-se que não há a menor diferença entre os manifestantes de hoje e aqueles brasileiros que tiveram acesso aos estádios (desculpem, arenas) durante a última Copa da FIFA, pois eram todos, majoritariamente, representantes de uma única (e ultrajada) classe econômica.

Sair às ruas é, mais que um direito, um dever de todo e qualquer cidadão que almeje mudanças. Mas ignorar a história e clamar por um estado policial é o maior desrespeito que poderia haver contra a democracia e a população brasileiras. Que me desculpem os castos e bem intencionados que cerraram fileiras nos protestos, mas a essência da mensagem produzida pelos eventos deste dia 15 é das mais elitistas e mesquinhas que se poderia obter. Se o objetivo dos que protestam é aperfeiçoar o modelo democrático e exigir respeito à Constituição, então mandaram muito mal, pois sectarismo não se combate com sectarismo. A realidade, minha gente diferenciada, está bem além daquilo que se pode ver pela tela de uma TV.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O Craque Cinema-Novo - Torcer ou não pela Seleção?

David Luiz - um craque com uma câmera na mão e boas ideias na cabeça!
A dez dias da Copa do Mundo do Brasil, manifestar entusiasmo pela Seleção Brasileira pode colocar o elemento sob maus lençóis, estando, o incauto, sujeito a ataques ideológicos de todas as frentes. É como se a torcida pelo time canarinho revelasse, em última instância, uma indiferença aristocrática em relação aos problemas sociais da nação, e quando não, pura alienação. Tenho a sensação de déjà vu, mas admito que talvez haja razões para se torcer contra...

Na Copa de 70, no auge da carnificina ditatorial tupiniquim, Médici colou a imagem do Governo à da Seleção; abraçar a equipe nacional significaria dar lastro às torturas e ao estado de exceção. Passei boa parte da minha vida num conflito interno, indagando à minha consciência o que faria se fosse nascido à época de tal patifaria. Engajar-me na luta armada, sim, mas deixar de torcer pela Seleção... Haveria sentido em tamanha traição?

É possível (e até compreensível) que muito guerrilheiro “subversivo” tenha comemorado o gol da Tchecoslováquia que abriu o placar contra nosotros, na estréia. Era um gol nos córnos do general, afinal!... Entretanto, após espetacular virada (4x1), as emoções produzidas revelaram um sentimento de leveza e êxtase que nada tinha a ver com o regime de terror imposto pelos torturadores - e quem antes torcia o nariz, passou a torcer a favor. Os militares não tomariam o que é nosso.

Enquanto o Estado era beligerante e genocida, gerador de tensão mórbida constante entre os cidadãos, Pelé e companhia eram êxtase e fantasia, motivo de orgulho puro e alegria! A conexão havia se dado pelo sentimento daqueles que se viam representados num terreno fértil de arte e inventividade, simbolizado pela técnica exuberante e envolvente do time brasileiro. A cada vitória, a lembrança de que ainda havia vida e esperança, apesar das mortes nos porões.

Nas três copas subseqüentes, esse incômodo enlace entre a então CBD (Confederação Brasileira de Desportos, que logo se tornaria CBF) e a ditadura militar sempre incomodou o torcedor; algo tirava a plenitude do prazer e do apoio incondicional. Com o fim dos anos de chumbo, a Copa de 86 traria consigo o restabelecimento de um sentimento genuíno entre a Seleção e o povo brasileiro; um amor sem amarras, livre e desimpedido. O país tirava do forno uma Constituição Cidadã e todo mundo naquele pensamento positivo de que o amanhã seria melhor, todos batalhando ‘pro dia nascer feliz’! Mas aí, o Tancredo morreu, o Sarney apareceu e o time do Telê sifudeu! Doravante, o affair entre o scratch brasileiro e o torcedor voltou a degringolar; desta feita, não só por razões ideológicas, mas, sobretudo, econômicas.

Não bastasse a ziquizira que se abateu sobre a Nova República, ainda tivemos de aturar o Collor batendo pênalti, o Lazaroni comandando a seleça e o Ricardo Teixeira vendendo a alma do futebol brasileiro ao Diabo. A principal medida adotada pelo tão arguto como moderno cartola foi conceituar e valorizar a marca “Seleção Brasileira”. Como resultado, a grana saiu pelo ladrão durante sua extensa e lucrativa gestão. O amor, no entanto, foi miando no coração da população.

Não que nos faltassem motivos; ao longo das duas últimas décadas, Romário, Robolão, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká, com inúmeras conquistas, mundiais e demais, mantiveram as ações da CBF em alta e a Seleção Brasileira nos píncaros do estrelato. Mas enquanto a marca se sobrelevava, a alma padecia. Na Era das comunicações instantâneas, o link entre a realeza do futebol mundial e seus mais abnegados súditos se deteriorava a cada amistoso disputado em campos londrinos, texanos ou médio-orientais. Vendida a sheiks, nikes, claros, sadias, itaús e gilletes da vida, a equipe atual parece uma vitrine de garotos-propaganda.

Para piorar, as televisões, insuportavelmente onipresentes, transmitem todo o cotidiano da Granja Comary em clima de oba-oba e celebritismo, transformando tudo numa Disneylândia verde-amarela e o telespectador num retardado mental ufanista. Forjam a toda hora o papel de porta-voz oficial da Seleção, paparicam o Felipão e impõem aos despreparados atletas uma amizade forçada e constrangedora. Domingo à noite, por exemplo, o FANTÁSTICO prometia “Neymar, na intimidade, como você nunca viu!”. O rapaz não podia nem olhar paras as coxas da Bruna, e lá estava uma câmera bigbrodiana a noticiar a malícia do craque evangélico.  

Uma coisa é ver a rapaziada do CQC fazendo perguntas indiscretas ou arrotando intimidade junto aos famosos; outra é ver um jornalismo pretensamente sério tutelar jogador, como faz Luiz Roberto, ao chamar seguidamente de “Waltinho” o atacante Walter, do Fluminense, evocando, coloquialmente, uma pretensa empatia entre ele e o matuto centro-avante - ou àquilo que ele representa (pureza, ingenuidade, etc). Galvão, então, é o mestre dos cumprimentos juvenis e descolados, bem como daquela mãozinha paternal sobre o ombro de seus entrevistados. Ele espera que todos o tratem como uma sumidade e, dado seu ego monumental, é incapaz de reconhecer no seu interlocutor alguém de maior envergadura que ele mesmo.

O Esporte Espetacular exibiu uma entrevista de Thiago Asmar com os brasileiros que atuam no Chelsea, cheia de provocações infantis, sobre “quem é o mais falador” ou “quem tem o cabelo mais bonito”, em que se via o repórter instigando os jogadores a se comportarem como se estivessem falando à “Caras”. Houve até espaço para arrogância quando ele indagou: -“Willian, então você é o caladinho da turma?”. Deveria haver mais sensibilidade num jornalista que se vira para um ser humano tímido e manda um “caladinho”, em frente aos companheiros de profissão e às câmeras de TV, num misto de compreensão e chacota. Ele se coloca nitidamente num patamar superior ao dos jogadores que, porventura, representam a nação.

Tantos motivos, artificialismos e distorções nos levam, emocionalmente, cada vez mais para longe da Seleção, pois não nos identificamos, em geral, com a apropriação tão mercenária e padronizada de algo que nos é tão caro e seminal, como a cultura do futebol brasileiro. Tampouco queremos ver nossa paixão atrelada a imagem de uma emissora de TV "oficial". Eu não quero ser amigão do Galvão! Toleramos até mesmo que nossos clubes sejam usurpados por aves de rapina do mercado mundial, com promessas de craques, título e coisa e tal, mas quando o mesmo se dá com o selecionado nacional, aquilo que há de mais genuíno no nosso sentimento acaba morrendo, mesmo que aos poucos. Dá vontade de recolher as bandeiras...

Nisso, em nada contribui o Governo Brasileiro, em meio a tantas promessas não cumpridas, apregoar, fanaticamente, o tal #CopaDasCopas rede afora. Moro numa cidade-sede e estou envergonhado com o Governo local (do mesmo partido da Presidenta) por conta do despreparo e das “suspeitas” de superfaturamentos, desvios e corrupção, mas vejo peças publicitárias informando-me que moro no Paraíso. Em documentário exibido à semana passada pela TV Câmara (Mané de Brasília), Agnulo (apelido carinhoso do nosso mandatário) se jacta de estar construindo o “estádio mais barato da Copa de 2014”... Na boa, não tem como não se revoltar com os 1.6 BI gastos até agora, a despeito do entorno do Estádio Mané Garrincha continuar uma joça.

E então, que se dane a merda da Seleção?... Ou não?

Em meio ao desânimo e à desesperança, eis que o zagueiro David Luiz dá mostras de que nem só de bobos vive o esporte quando é indagado como seria sua “copa das copas”. A resposta, cheia de personalidade (dada a frivolidade com que a Globo costura sociologia e futebol) ecoou pela televisão de cada residência como ar fresco entrando pela janela da madrugada: - “Quero que o Brasil também seja campeão fora de campo: que nosso país consiga enxergar que também é importante que nosso povo tenha mais ajuda em inúmeros aspectos. De que adianta ser campeão dentro de campo se nossa gente não está bem?”.

À época do Tri, Tostão, por exemplo, não disse nada, apesar de se sentir envergonhado em ter de apertar a mão de Médici, no Palácio do Planalto. No contexto atual, porém, está claro que alguém que aproveita os holofotes para chamar atenção às necessidades do seu país não pode ser tratado como um alienado ou mau exemplo de cidadão. É um ídolo que fala às novas gerações sobre a necessidade de mudança da realidade social brasileira – é o “Craque-Cinema Novo”!

Não se pode, portanto, confundir a CBF e suas patrocinadoras, tampouco a mancomunação do Governo Brasileiro e da FIFA, com cada um dos indivíduos convocados para representar a população brasileira numa Copa do Mundo – a maior demonstração de congregação mundial entre os povos.

Por isso eu digo foda-se à CBF, à FIFA, aos patrocinadores, à situação e à oposição política nacional, e a todo aquele que se aproveitou para roubar a nação, e também à Joana e ao Teixeirão, mas à Copa e à Seleção, não! Não é por culpa dos jogadores e muito menos do cidadão (ainda mal instruído, mal-educado e maltratado) que o Brasil ainda seja tão desigual, atrasado e corrupto. Que sejamos hexacampeões, e que, a exemplo de David, a vitória da Seleção, em nossos domínios, expresse o desejo popular e simbolize um país menos vira-lata; um país que joga não somente para inglês aplaudir, senão para o povo brasileiro evoluir.


foto&arte: joão sassi



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

I feel a little more blue than then

Oh, quão dessemelhante!...
Assim que as portas do turboélice se abriram, Caetano Veloso sentiu um barrufo forte de calor bater contra seu rosto; “Brasil, enfim”! Corriam quase dois anos desde o exílio. Gil ficara em Londres, enquanto ele recebera autorização especial do governo para visita de um mês ao país. Em 1971, a vertente mais violenta e inescrupulosa da Ditadura Brasileira pulsava forte, asfixiando e calando quaisquer que a ousasse contestar.

Mesmo deprimido e temeroso, Caetano fez a viagem; precisava de afeto, carinho e dendê. Tão logo seus pés tocaram o solo pátrio, ali mesmo, no sopé da escada do avião, policiais à paisana o meteram num camburão.  “Puta-que-pariu: saí da Inglaterra para vir ser preso no Brasil!” -, pensou, enquanto se espremia entre alguns soldados, no banco de trás. A linguagem corporal dos milicos destroçava sua estrutura argumentativa, posto que não houvesse palavras, senão silêncio e intimidação física. Deixaram a pista do Aeroporto do Galeão e seguiram rumo ao centro.

Ao passarem pela Avenida Presidente Vargas, o condutor se viu obrigado a diminuir a marcha por conta do tráfego pesado. Era fim de tarde de uma sexta-feira, e o Rio de Janeiro se via iluminado por uma torrente luminosa amarelada, com muita gente correndo pros botecos atrás de um chope e alguma saliência.

Caetano mantinha a fronte baixa, evitando o contato visual com seus sequestradores que tanto o violentava. Um sinal fechado, porém, fez o baiano levantar levemente o olhar, alcançando um grupo que vinha atravessando a avenida, em sua direção – reconheceu neles os rapazes do MPB-4. Caminhavam tranquilamente, confabulando e gargalhando entre si, metidos em roupas leves e violões, tendo seus cabelos e barbas soltos ao vento, trespassados pelo brilho solar da vida. Havia pouco, um par de anos atrás, estavam todos num ritmo frenético de evolução e criatividade artística, participando de festivais musicais e dando cara definitiva à música popular brasileira.

Mas isso foi ontem... Agora, Caetano estava ali, num misto de pânico e alegria, observando, pelo vidro da janela, seus amigos passarem a centímetros dele, sem desconfiar que dentro daquela veraneio jazia um baiano cuja alma suplicava por um simples olhar; um gesto de afeto que lhe desse força para se sustentar... Mas os meninos, enfim, passaram e não o viram. Foram-se.

Caetano chorou por dentro. Sentia um amor imenso por eles em meio a uma tristeza profunda. Sem espaço para indignação, o sinal abriu, o veículo arrancou e a lágrima que se precipitara represou.

Mais de 30 anos depois desse ocorrido, eu cumpria meu tempo de serviço militar obrigatório e, como soldado do exército, estava, a oito de dezembro de 1994, de serviço de guarda no Palácio do Planalto.

Após a ceia, exaustos pela jornada puxada, muitos soldados se atiravam à cama ou se jogavam pelo chão do alojamento, buscando um mínimo de descanso, enquanto outros aguardavam pela hora da troca da guarda jogando Damas ou papeando. O Palácio disponibilizava uma pequena televisão para entretenimento daqueles valorosos homens – uma exceção à regra –, e todos puderam acompanhar as notícias do Brasil e do mundo quando um tenente ligou o aparelho para assistir o Jornal Nacional: - Já vou avisando; se tiver bagunça, vou desligar e vai todo mundo fazer faxina! - ameaçou. A tropa se sentou calada e pôs-se a usufruir do melodioso timbre da voz de Cid Moreira, amortizada.

De repente, uma notícia espantosa é dada: - “Morre Tom Jobim, inventor da Bossa Nova, após se submeter a uma cirurgia, em Nova Iorque”... – disse o Cid. A tragédia anunciada, contudo, não surtiu qualquer efeito no alojamento, enquanto meu corpo se convulsionava e eu buscava amparo no olhar de alguém, sem encontrar eco.

Na tela é exibido um momento em que Caetano interrompe um show em São Paulo e começa a chorar a perda irreparável do ilustre maestro brasileiro. Todos assistiam àquilo tudo e não esboçavam reação, mantendo-se indiferentes, havendo até mesmo quem fosse insolente: “Esse Caetano Veloso puxa um fumo forte”, presepou alguém, ocultamente. Não havia drama no ar. Era um espaço vazio sem conexão com a realidade do Brasil. Decerto porque em sua profunda ignorância e alienação coletiva, desconheciam por completo o Tom, a Bossa e a palhoça.

Quanto a mim, tinha a exata dimensão do momento trágico que acabara de se abater sobre todos – incluso sobre os que o ignoravam, mas que jamais seriam ignorados pelo alcance de sua arte genialmente brasileira; eu sabia o que ele representava, o que me doía profundamente. E do mesmo modo que, mais de 30 anos antes, Caetano asfixiara suas emoções em meio à hostilidade dos militares e à própria dor, eu também chorei por dentro, calado. Até que a lágrima me escapou. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Revolução é uma Merda!

*


Nós somos da pátria a guarda, fiéis soldados, por ela amados...
O aplicado Sargento Lourival, na maturidade dos seus vinte e poucos anos, mais uma vez deixava sua residência com ares de transtornado; desta feita, visivelmente irritado. Lucélia, sua mulher e companheira desde sempre, por alguma razão, o estava agora confrontando. Sentira-se ultrajado pelas palavras da esposa.

Não que o casamento estivesse em crise, pois o que se via era uma união estável entre aqueles dois que, sem dúvida, haviam conseguido fazer o amor entre eles perpassar incólume à rotina dos anos vividos. Eram, de fato, felizes.

Ela, sonhando com a maternidade. Ele, ardorosamente dedicado à farda verde-oliva, havia já sete anos. Recentemente fora promovido a 3º Sargento de Infantaria; motivo de empenho e alegria, mas também de infortúnios...

Lucélia se orgulhava do marido militar que, desde a juventude, prometera a ela defender, com a própria vida, a pátria e a família. O ingresso no Exército coincidira com o Golpe militar de 64, e ela sempre os apoiou – ao golpe e ao marido.

Mas, à medida que o regime se tornava mais violento e ditatorial, mais Lourival era requisitado em seu ofício, mais sua escala de serviço aumentava e mais missões obscuras lhe eram dadas, apartando-o do convívio junto a Lucélia, e esta da realização materna. “A Pátria está segura, mas e minha família, que ainda nem tenho?”, perguntava-se, cada vez que, deitada, olhava o travesseiro ao lado, intacto.

Por vezes, arrumou-se, encheirou-se e empetecou-se para ele, tal qual uma fêmea cujas necessidades não vão além do desejo do coito, do desejo de ser envolvida pelas mãos rudes e olhares desinibidos do parceiro, que, por fim, não aparecia, deixando-a, em princípio, frustrada, mas logo, magoada.

Por amor, as mulheres fazem qualquer coisa; quando magoadas, vão além.

A cada noite solitária, escutava as mesmas justificativas, sempre embasadas pelas “necessidades da revolução”. Lourival dizia que os comunistas estavam invadindo o Brasil, e que por isso era necessário estar em constante estado de alerta.

Ele não notara, mas Lucélia já não demonstrava o mesmo orgulho por sua atividade. Menos ainda quando, por conta da visita de um primo, ela escutara dele sobre certos abusos que os militares estariam cometendo em escuros porões. Ela nunca ficara sabendo daquele tipo de atividade. Pensar que Lourival pudesse ser um torturador a deixou sem ação. Sentiu-se enganada.

Seu desgosto era crescente, de modo que não saiu em defesa do marido, como faria em outros tempos. Surgiu daí um sentimento de raiva da vida que levava. Não achava justo se sacrificar para que seu marido sacrificasse a outros.

A partir de então, e cada vez mais, ao invés de beijos, despediam-se, friamente. A petulância da antes dócil Lucélia o atarantava. Sentia-se desafiado em sua autoridade. E, como se não bastasse, passou a ter que conviver com as desconcertantes palavras alardeadas pelo primo da esposa que, pouco antes de partir, olhou maliciosamente para ele e disse “Essa revolução é uma merda!” – palavras que não lhe saíam mais da cabeça e, pior, também da boca da companheira, cujo sentimento era o mesmo de uma mulher traída – por uma revolução que destruía seus sonhos, enquanto o marido a ela se entregava de corpo e alma.

“Então é assim...”, concluiu Lucélia.

Foi, pois, possuída por um sentimento de abandono que, àquela manhã, logo após servir a Lourival o café, perguntou-lhe, asperamente: “Volta hoje?”. Diante da negativa, correu à janela e, para desespero do sargento, gritou a plenos pulmões: “A revolução é uma meeeeeeeeeerda!!!”.

Lourival quase cai da cadeira com o inusitado da ação, e, ato-contínuo, se lança ao encontro do corpo dela, derrubando-a no chão.

Bufando, olha para ela com ódio e diz: “Nunca mais repita isso, está me entendendo? Nunca mais!!!... Ou se acaba esse casamento!” -, e sai, furiosamente.


Lucélia, ainda estirada, olha para porta de casa, aberta, mas nem pensa mais no que acontece lá fora, pois está perdida em pensamentos seus, de desejo e de vingança, e até sente prazer...

Quanto ao sargento, seguiu caminhando em direção ao ponto de ônibus, transtornado pela falta de disciplina em sua casa, nas ruas e no mundo. Pensava menos na esposa que no maldito primo que lhe enfiara tais asneiras na cabeça... “Maldito duma figa!”... Malditos comunistas!... Filhos duma puta sem patriotismo! Temos que dar cabo a essa gente!...”-, pensava o militar, enquanto caminhava apressado, destemperado pelas ruas do bairro.

Apesar de esbaforido, não estava atrasado. Entendeu por entrar numa padaria onde pudesse concluir o café e também enxugar o suor que lhe caía da testa às têmporas, ameaçando borrar seu fardamento.

De rosto lavado, sentou-se ao balcão e pediu uma média, “bem forte”, pontuou.

Enquanto esperava, porém, o grito da mulher não parava de ecoar em seus ouvidos, não deixando com que aquietasse a ebulição em seu peito. Sentia, na verdade, vontade de dar-lhe umas bolachas, mas a respeitava muito. Então voltava sua ira ao primo, e continuava a praguejar, sem remorso.

De repente, escutou da boca de um senhor sentado numa mesa próxima: “... é culpa dessa revolução, que é uma merda!”. Foi o estopim!

Como se já houvesse ensaiado aquele mesmo ato uma centena de vezes, não hesitou: girando violentamente o corpo e sacando um par de algemas, agarrou o homem, acusando-o, “comunista!!!”

- Espere, senhor...
- Comunista safado! Vai aprender a respeitar a revolução!
- Mas, sargento, eu...
- Cale a boca, seu imundo! -, berrou Lourival, algemando-o.
- Eu posso ao menos me identific...
-Já disse para calar a boca! -, disse o sargento, aplicando uma gravata no indefeso homem, ao passo que o arrastava para fora do estabelecimento.

A delegacia era do outro lado da rua, e para lá seguiu Lourival, arrastando o infeliz pelo pescoço, que mal conseguia respirar.

- É uma merda? É uma merda, é? Pois sim! Vai ver o que é se meter na merda, seu comuna de bosta! -, repetia o sargento, já entrando na delegacia. O delegado, do fundo de sua sala, esticou a vista para melhor ver, e logo se apresentou

- Pois não, sargento?... O que aconteceu?-, perguntou.

Dando um cotovelaço nos rins do prisioneiro- que caiu de joelhos -, Lourival respondeu:

- Enfia este merda aqui nas grades, e dê a ele um xarope de tosse, ou algo melhor!... Estava no comércio, Seu Delegado, alardeando que a revolução é uma merda!... Mete ferro nesse velho comunista filho da puta!

No chão, e ainda algemado, o senhor buscava um pouco de ar. Antes que o levassem, conseguiu pedir para que conferissem sua identidade. O silêncio tomou conta do ambiente. Como ninguém se mexia, o delegado então conferiu a identidade... E constatou que o elemento em questão era o senhor Avilásio Martins Santa Cruz - General da Reserva...

Lívido, Lourival permanece imóvel. O delegado, entre a surpresa e o temor, ordena a imediata prisão do sargento, chamando-o incompetente, bisonho e palermão. Humilhado com nunca se sentira em toda a carreira, Lourival escuta impropérios de todos os policiais presentes ao recinto, que são ditos aos berros, com o explícito e lacaio intento de agradar ao insultado general.

As algemas de Santa Cruz são retiradas. Este, por sua vez, levanta-se serenamente e, ajeitando a gola da camisa amarrotada, pede ao delegado a autorização para ter uma "última palavrinha" com o novo detido.

Sentado no fundo de uma cela, sozinho, o sargento não conseguia estabelecer uma linha de raciocínio lógico que o permitisse compreender o que havia acontecido, ou que explicasse como ele fora parar ali. Logo ele, merecedor de tantos elogios e da aprovação de todo seus superiores hierárquicos... Como fora parar ali, sendo acusado justamente por defender sua amada revolução?!... Quanta injustiça!

Os acontecimentos se passavam de modo desordenado em sua cabeça (agora, completamente mergulhada em confusos pensamentos); a esposa, o primo, a revolução, a prisão do general... Tudo estava interligado e nada parecia fazer o menor sentido... Então, entra o Santa Cruz.

Lourival se põe de pé e atende ao dedo indicador deste, que se dobra, ordenando-o que se aproxime. O sargento, num gesto marcial e enxuto, se posta à frente do general, esperando pelo pior. Este se abaixa um pouco e, ao pé de seu ouvido, lhe diz, num cochicho: “Eu não disse que essa revolução é uma merda?!...”.




foto: joão sassi







*livre adaptação de anedota dos anos 70