| Nós somos da pátria a guarda, fiéis soldados, por ela amados... |
Não que o casamento estivesse em crise, pois o que se via era uma união estável entre aqueles dois que, sem dúvida, haviam conseguido fazer o amor entre eles perpassar incólume à rotina dos anos vividos. Eram, de fato, felizes.
Ela, sonhando com a maternidade. Ele, ardorosamente dedicado à farda verde-oliva, havia já sete anos. Recentemente fora promovido a 3º Sargento de Infantaria; motivo de empenho e alegria, mas também de infortúnios...
Lucélia se orgulhava do marido militar que, desde a juventude, prometera a ela defender, com a própria vida, a pátria e a família. O ingresso no Exército coincidira com o Golpe militar de 64, e ela sempre os apoiou – ao golpe e ao marido.
Mas, à medida que o regime se tornava mais violento e ditatorial, mais Lourival era requisitado em seu ofício, mais sua escala de serviço aumentava e mais missões obscuras lhe eram dadas, apartando-o do convívio junto a Lucélia, e esta da realização materna. “A Pátria está segura, mas e minha família, que ainda nem tenho?”, perguntava-se, cada vez que, deitada, olhava o travesseiro ao lado, intacto.
Por vezes, arrumou-se, encheirou-se e empetecou-se para ele, tal qual uma fêmea cujas necessidades não vão além do desejo do coito, do desejo de ser envolvida pelas mãos rudes e olhares desinibidos do parceiro, que, por fim, não aparecia, deixando-a, em princípio, frustrada, mas logo, magoada.
Por amor, as mulheres fazem qualquer coisa; quando magoadas, vão além.
A cada noite solitária, escutava as mesmas justificativas, sempre embasadas pelas “necessidades da revolução”. Lourival dizia que os comunistas estavam invadindo o Brasil, e que por isso era necessário estar em constante estado de alerta.
Ele não notara, mas Lucélia já não demonstrava o mesmo orgulho por sua atividade. Menos ainda quando, por conta da visita de um primo, ela escutara dele sobre certos abusos que os militares estariam cometendo em escuros porões. Ela nunca ficara sabendo daquele tipo de atividade. Pensar que Lourival pudesse ser um torturador a deixou sem ação. Sentiu-se enganada.
Seu desgosto era crescente, de modo que não saiu em defesa do marido, como faria em outros tempos. Surgiu daí um sentimento de raiva da vida que levava. Não achava justo se sacrificar para que seu marido sacrificasse a outros.
A partir de então, e cada vez mais, ao invés de beijos, despediam-se, friamente. A petulância da antes dócil Lucélia o atarantava. Sentia-se desafiado em sua autoridade. E, como se não bastasse, passou a ter que conviver com as desconcertantes palavras alardeadas pelo primo da esposa que, pouco antes de partir, olhou maliciosamente para ele e disse “Essa revolução é uma merda!” – palavras que não lhe saíam mais da cabeça e, pior, também da boca da companheira, cujo sentimento era o mesmo de uma mulher traída – por uma revolução que destruía seus sonhos, enquanto o marido a ela se entregava de corpo e alma.
“Então é assim...”, concluiu Lucélia.
Foi, pois, possuída por um sentimento de abandono que, àquela manhã, logo após servir a Lourival o café, perguntou-lhe, asperamente: “Volta hoje?”. Diante da negativa, correu à janela e, para desespero do sargento, gritou a plenos pulmões: “A revolução é uma meeeeeeeeeerda!!!”.
Lourival quase cai da cadeira com o inusitado da ação, e, ato-contínuo, se lança ao encontro do corpo dela, derrubando-a no chão.
Bufando, olha para ela com ódio e diz: “Nunca mais repita isso, está me entendendo? Nunca mais!!!... Ou se acaba esse casamento!” -, e sai, furiosamente.
Lucélia, ainda estirada, olha para porta de casa, aberta, mas nem pensa mais no que acontece lá fora, pois está perdida em pensamentos seus, de desejo e de vingança, e até sente prazer...
Quanto ao sargento, seguiu caminhando em direção ao ponto de ônibus, transtornado pela falta de disciplina em sua casa, nas ruas e no mundo. Pensava menos na esposa que no maldito primo que lhe enfiara tais asneiras na cabeça... “Maldito duma figa!”... Malditos comunistas!... Filhos duma puta sem patriotismo! Temos que dar cabo a essa gente!...”-, pensava o militar, enquanto caminhava apressado, destemperado pelas ruas do bairro.
Apesar de esbaforido, não estava atrasado. Entendeu por entrar numa padaria onde pudesse concluir o café e também enxugar o suor que lhe caía da testa às têmporas, ameaçando borrar seu fardamento.
De rosto lavado, sentou-se ao balcão e pediu uma média, “bem forte”, pontuou.
Enquanto esperava, porém, o grito da mulher não parava de ecoar em seus ouvidos, não deixando com que aquietasse a ebulição em seu peito. Sentia, na verdade, vontade de dar-lhe umas bolachas, mas a respeitava muito. Então voltava sua ira ao primo, e continuava a praguejar, sem remorso.
De repente, escutou da boca de um senhor sentado numa mesa próxima: “... é culpa dessa revolução, que é uma merda!”. Foi o estopim!
Como se já houvesse ensaiado aquele mesmo ato uma centena de vezes, não hesitou: girando violentamente o corpo e sacando um par de algemas, agarrou o homem, acusando-o, “comunista!!!”
- Espere, senhor...
- Comunista safado! Vai aprender a respeitar a revolução!
- Mas, sargento, eu...
- Cale a boca, seu imundo! -, berrou Lourival, algemando-o.
- Eu posso ao menos me identific...
-Já disse para calar a boca! -, disse o sargento, aplicando uma gravata no indefeso homem, ao passo que o arrastava para fora do estabelecimento.
A delegacia era do outro lado da rua, e para lá seguiu Lourival, arrastando o infeliz pelo pescoço, que mal conseguia respirar.
- É uma merda? É uma merda, é? Pois sim! Vai ver o que é se meter na merda, seu comuna de bosta! -, repetia o sargento, já entrando na delegacia. O delegado, do fundo de sua sala, esticou a vista para melhor ver, e logo se apresentou
- Pois não, sargento?... O que aconteceu?-, perguntou.
Dando um cotovelaço nos rins do prisioneiro- que caiu de joelhos -, Lourival respondeu:
- Enfia este merda aqui nas grades, e dê a ele um xarope de tosse, ou algo melhor!... Estava no comércio, Seu Delegado, alardeando que a revolução é uma merda!... Mete ferro nesse velho comunista filho da puta!
No chão, e ainda algemado, o senhor buscava um pouco de ar. Antes que o levassem, conseguiu pedir para que conferissem sua identidade. O silêncio tomou conta do ambiente. Como ninguém se mexia, o delegado então conferiu a identidade... E constatou que o elemento em questão era o senhor Avilásio Martins Santa Cruz - General da Reserva...
Lívido, Lourival permanece imóvel. O delegado, entre a surpresa e o temor, ordena a imediata prisão do sargento, chamando-o incompetente, bisonho e palermão. Humilhado com nunca se sentira em toda a carreira, Lourival escuta impropérios de todos os policiais presentes ao recinto, que são ditos aos berros, com o explícito e lacaio intento de agradar ao insultado general.
As algemas de Santa Cruz são retiradas. Este, por sua vez, levanta-se serenamente e, ajeitando a gola da camisa amarrotada, pede ao delegado a autorização para ter uma "última palavrinha" com o novo detido.
Sentado no fundo de uma cela, sozinho, o sargento não conseguia estabelecer uma linha de raciocínio lógico que o permitisse compreender o que havia acontecido, ou que explicasse como ele fora parar ali. Logo ele, merecedor de tantos elogios e da aprovação de todo seus superiores hierárquicos... Como fora parar ali, sendo acusado justamente por defender sua amada revolução?!... Quanta injustiça!
Os acontecimentos se passavam de modo desordenado em sua cabeça (agora, completamente mergulhada em confusos pensamentos); a esposa, o primo, a revolução, a prisão do general... Tudo estava interligado e nada parecia fazer o menor sentido... Então, entra o Santa Cruz.
Lourival se põe de pé e atende ao dedo indicador deste, que se dobra, ordenando-o que se aproxime. O sargento, num gesto marcial e enxuto, se posta à frente do general, esperando pelo pior. Este se abaixa um pouco e, ao pé de seu ouvido, lhe diz, num cochicho: “Eu não disse que essa revolução é uma merda?!...”.
foto: joão sassi
