quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Brasil-Acima-de-Tudo!

Dentre as coisas mais emocionantes e bonitas que tenho como um presente da vida está o Hino Nacional Brasileiro.

Tudo bem que futebol, mulher e ovo cozido com gema mole –este em primeiro lugar- sejam coisas de outro mundo, insubstituíveis, mas o hino nacional... Pô, o hino é muito fodão mesmo! E digo isso, literalmente, da boca para fora.

Não é que ele seja menos ou mais bonito que qualquer outro hino, pois se trata de uma questão de preferência pessoal e patriotismo declarado. Gosto da letra, da métrica e da melodia.

Dos símbolos pátrios, e ainda que reconheça a beleza e originalidade de nossa bandeira, o hino é o que mais me representa, disparado. Quanto ao brasão ou ao selo real, dispenso comentários.

Nasci numa terça-feira, durante uma ditadura militar, quando se tinha menos liberdade para viver. Mesmo assim, minha infância foi plena, feliz e intensa. Soube, desde pequeno, da existência do Mal, embora tenha sempre sido tratado como um valioso Bem. Assim sendo, e ainda que por imposição cívica, entendi que o hino era, sobretudo, brasileiro.

Quando dos meus oito anos, ainda no primário, tínhamos um dia na semana (a terça-feira) em que se realizava o hasteamento da bandeira. O LP que continha o hino era tocado numa vitrolinha com amplificação caseira. Eu adorava!

Não pela bandeira ou pelo hino –reconheço- mas porque “atrapalhava” a aula. E porque dava pra fazer “bagunça”. E porque era uma oportunidade deliciosa para eu me esbarrar na menina pela qual eu estivesse apaixonado. Eu sempre estava apaixonado.

Três alunos –geralmente os melhores- eram escolhidos para a honrosa função. Eu nunca fui agraciado com tal honraria, mas o Édson, filho da professora e protótipo de menino perfeito (ainda que excessivamente sardento, feio e do cabelo vermelho), era sempre um dos escolhidos. Tão logo a agulha tocasse a bolacha, contudo, eu já nem me lembrava da existência do Ferrugem. Preferia ficar tentando fazer meus coleguinhas rirem por meio de caretas engraçadas. As caretas que eles faziam de volta eram igualmente engraçadas, mas hilário mesmo era olhar para uma careta ao mesmo tempo em que se olhava para a tia, logo ao lado, com cara de flagra!

Como resultado, a associação entre o hino e uma sensação de bem-estar estabeleceu-se naturalmente em meus subterfúgios emocionais. Eu aguardava a “hora do hino” com a mesma ansiedade que aguardava a aula de educação física ou de artes, quando tudo o que eu fazia era divertido.

Na seqüência, por um período relativamente breve, fui “Lobinho” – uma espécie de microescroteirinho. Apesar de lidar muito mal com o autoritarismo inato àquela instituição (era rebelde e indisciplinado), conquistei alguma simpatia entre os líderes da alcatéia por, ainda novo, haver já decorado um bocado daquela rebuscada letra.

Após o fim da ditadura, o hino virou coqueluche nacional ao ser liricamente cantado por Fafá de Belém, em prol das “Diretas, Já!”, e também, logo em seguida, por conta do “passamento” do Tio Tancra.

E mesmo quando ia mal a política e também o futebol, o canto da nação era entoado em ginásios, autódromos e tatames, mundo afora. Isso dava sustentação ao orgulho nacional.

O momento crucial para a consolidação da minha admiração se deu enquanto estive, involuntariamente, servindo à pátria (amada, idolatrada, salve, salve).

Toda terça-feira, o Regimento se reunia no pátio central do quartel, numa série de intensas evoluções por parte de todos os esquadrões, para escutar as ladainhas do Comandante.


Isso envolvia centenas de militares. Eu curtia muito o movimento das massas, principalmente quando éramos recebidos pelo Pelotão da Fanfarra, ao som de Besame Mucho, versão ragga-techno-marcial-mix; eu simplesmente pirava!

Após todos estarem perfilados, em ordem, vinha o hino... Também por meio de uma vitrola e um bolachão, como nos tempos remotos. A primeira parte é belíssima, e a segunda, maravilhosa!

“Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada...”


Ao cantar essa estrofe (sempre, sempre, sempre...), eu sentia uma emoção profunda, de arrepiar os pêlos e derramar lágrimas; um orgulho visceral! Sequer me envergonhava pelos olhos marejados, afinal, aquele momento era, indubitavelmente, o único pelo qual valia à pena estar ali.
A passagem pelos Dragões só aumentou minha paixão pelo hino. Escutá-lo, cantá-lo ou assobiá-lo tornara-se, para mim, um prazer real.

Back to present, vinha eu, na bela manhã da última terça-feira (!), a conduzir meu bólido, rumo ao trabalho, deslizando-o por uma via inóspita quando, por aparente tédio, liguei o estéreo.

Passei pelas minhas estações favoritas e não encontrava nem música nem notícia, até que, subitamente, reconheci os acordes... Era ele, o hino!!!

Aumentei o volume e soltei a voz...!
E tal qual na infância, exatamente como na adolescência, eu cantei, eu sorri, eu chorei; eu me senti feliz!

"Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,Brasil!"


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Quotidiano


O ambiente em que trabalho é um tanto carregado.

Centro do poder político e (parcialmente) econômico, o Congresso Nacional atrai espécies dos mais diversos nichos ecológicos.

Via-de-regra é muito bicho pernicioso, pestilento e perigoso. E também muito bicho emplumado, ao estilo “sou amigo de Rei e primo do pavão doirado”.

Por isso, ando por ali com muito cuidado, sem muito olhar, resguardando minha intimidade e também o sorriso – que, aliás, não tem a menor importância quando não está em companhia do crachá funcional da casa. Sem ele, sou sempre digno de desconfianças rasteiras.

Mas se me meto num terno bem cortado, sou recebido como autoridade, com demonstrações de subserviência e humildade excessiva. Muitos por aqui dependem disso - desse carinho no ego dado por quem só o faz por obrigação – para poderem dormir direito, sem o menor peso moral pela culpa que suas ações causam à teia social. “Viu, querida? Aqui me chamam Doutor!” -, regozija-se uma destas espécies tacanhas, vistas aos pinhais pelas searas capitais.

É fácil reconhecer um animal desses, dada sua proliferação meteórica em ambientes fechados, escuros e acarpetados. É um tipo que traz a marca indelével, não na obviedade de sua aparência - sempre irretocável -, mas em seus trejeitos pessoais: na forma como opera o celular, no modo de tratar seus semelhantes, de torcerem o nariz e, principalmente, na sub-liminaridade de seus grunhidos. Por isso, já disse, ando sempre de butuca aberta.

Hoje, agorinha há pouco, deixei-me levar pelo tardar da hora enquanto passeava pelo túnel do tempo, no que passei quase desapercebido à presença de uma outra espécie, raramente vista: a do homem cordial.

Vinha eu, caminhando solitariamente pelos vazios corredores do Senado, dado que era já noite plena, quando, ao cumprimentar, de lampejo, esse ser, escutei: -“E a moça, vai bem?”

Era um antigo segurança do Senado. Confesso que não havia sequer olhado em seus olhos, no que dei meia-volta e fui ao seu encontro.

Surgiu então a figura sólida e ao mesmo tempo tenra de um senhor mulato, com seus 70 anos já há muito completados, enfiado num terno de gente importante, com o botom do Senado reluzindo em sua lapela. Provavelmente se mudou do subúrbio carioca para a nova capital assim que JK cortou a faixa inaugural. Ou antes.

- Como disse?
- E a moça, vai bem?
- Qual delas?-, rebati, fazendo graça.
- A moça com quem você está sempre por aí... Sua esposa, presumo.

Olhei à volta e não vi viv’alma. Só o espaço enooorme, vazio... E aquele senhor, calado, mimetizado a uma poltrona bege, quase escondido por detrás de uma bancada. E senti como se estivéssemos num outro lugar, a ponto de me debruçar amistosamente e explicar-lhe:


- Ah, não, não somos casados... Somos namorados. Acabei de estar com ela. Vai muito bem, obrigado.
- Você me desculpe a intromissão...
- Você tem a liberdade...
- Mas é que vocês têm uma sintonia bem amadurecida; uma coisa que faz gosto da gente ver.
- Mesmo?
- Sim. Já vi vocês várias vezes na lanchonete do Senado: sempre felizes, bem humorados!...
- De fato, sorrimos muito quando estamos juntos... Mas é coisa de casal.
- Quem dera fosse!... Mas não é só isso; tem mais coisa aí... É coisa que se vê pouco nos casais de hoje.
- Não sei se fico feliz ou triste por isso...
- Fique feliz! A moça é jovem, e o senhor já é maduro; deveriam se casar logo.
- Bem, ela é mais velha, mas tem alma juvenil.
- É muito bonita.
- Obrigado.
- Se o senhor me permite...
- Claro!
- Se me permite, devo dizer que o mais importante é você falar para ela, num ou outro momento: “eu te amo”. – é fundamental. Acorda cedo e sai pro trabalho, mas antes, diz “eu te amo”.

Olhei para suas olheiras pesadas, de quem há muito agüenta as dificuldades e a mesmice do viver. Perguntei seu nome: “Anastácio”. Apresentei-me e o agradeci com sinceridade pelas palavras de afeto.

Voltei ao gabinete.

Passava das oito da noite e já não havia mais ninguém por lá. As mesmas portas pesadas de madeira. As mesmas salas, as mesmas mesas, computadores e a mesma sensação de que sempre há muito que se fazer.

Comecei a apagar as luzes e a conferir se estava tudo “em ordem” para por fim à jornada.

“Por aqui, as coisas nunca mudam”, pensei, já trancando a porta, "é sempre a mesma coisa!".

Fora do gabinete, porém, olhei para aquele vazio monumental e senti uma diferença no meu estado de espírito... Algo havia mudado.
.
photografie: joão sassi

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Fim do Arco-Íris e o Mel da Vida


Fazia muito calor. Eu, suado, acabara de chegar em casa.

Ao colocar as chaves sobre a mesa, escutei um leve assobio cortando o tórrido calor do meio-dia.


Axé apareceu logo a seguir. O que tem feito pouco, desde que se mudou para o outro lado do rio. Trazia uma cara amassada:

- Cachu?
- Cachu...

Coloquei a sunga e meti um chapéu de palha na cabeça.

- Bebeu, P’xé?
- ...Naaaada! É que durmi mal, mesmo... Uns musquito do carái!

Garoto novo, nascido em Pirenópolis, é o perfeito goiano do pé rachado. Quando quer alguma coisa, conta a estória até um certo ponto e pára. Quando o interlocutor dá continuidade ao raciocínio interrompido, já está oferecendo a ajuda requerida, mesmo sem se dar conta. Astúcia goiana.

Vai caminhando à minha frente. Enquanto caminha, passa a mão pela vegetação, como o pastor que dá atenção diária a cada uma de suas ovelhas. Quando identifica o capim certo, arranca-o e, já mastigando-o, fala de qualquer coisa sem importância, só para ratificar, subjetivamente, a importância de se mastigar aquele capim. Sente-se mesmo integrado ao Cerrado. E, apesar de muito jovem, olha o horizonte com certa nostalgia.

Até hoje fala de um amor que deixou no Recife. Amor não vivido ou verificado. Amor de Platão, idealizado. Ele contava 16, e ela, 12... Nunca se beijaram, mas ela, até hoje, é a lembrança do melhor que já viveu.

Pela trilha segue desleixado. Joga os pés pra frente, fazendo a chinela quase se desgarrar. Mas não machuca o chão. Desliza.

Fala de planos; mais da falta deles. Do nada a se fazer. É a representação de um vagar pseudo-hedonista, vazio, niilista. Mas fala também das plantas, e para o que cada uma serve.

Se precisa comer, fareja. Sabe onde tem. Sabe como chegar, comer e sair, sem reclamar. Aliás, raramente reclama. Quando o faz, é sempre do mesmo modo, “Isso é um vagabundo!” – é o que diz, seja qual for o motivo ou objeto da reclamação.

Em dia de Sexta, tem comida no João de Deus, vizinho da casa do alto da rua

- Lá, o rango é fera! A cozinheira gosta de mim. Entro pela cozinha e ninguém dá conta!
- E quando não tem?
- Aí, procuro outra coisa. Na Sandra, sempre tem alguma coisa. A mãe dela tá lá.
- Comida boa?
- Arroz, feijão e salada...
- Nada de carne?...
- Não, o povo é tudo vegetariano. Mas tá bom demais!...
- Mas é no capricho?
- O arroz é que nem arroz, tudo igual. O feijão é bom, mas a salada é aquele bando de folha... Mas dá pra encher a barriga.

Mesmo sem casa fixa, ele sempre encontra o que comer ou onde dormir. Cheguei a sentir um pouco de inveja, lembrando-me das muitas vezes em que me senti sitiado em meu próprio castelo, sem perspectiva de, a curto prazo, saciar minha fome. Fome no mato é fogo.

Quando o sol se fazia mais quente, a água se fez presente. A cachoeira estava translucidamente refrescante.

Axé, como bom goiano, inventa de dar saltos esvoaçantes, tortos e acachapantes. Sempre dum lugar perigoso, sob risco de bater em pedras e machucar-se. Ah, a alma goiana...

Aparece o Dentinho, da favela do Varjão.

Corpo duro, seco, duma musculatura rija, ainda que pouco desenvolvida, de quem cresceu numa vila rural e fez de tudo o que um moleque que nasce solto deve fazer, de bom e de mau. De suas estripulias, resultaram algumas cicatrizes pelo corpo. A da barriga parece coisa de faca, mas é melhor pensar que não.

Dentinho e Axé se entendem à perfeição. É comum que eu me demore um pouco para saber do que estão falando. E costumam falar de coisas simples como se fossem sérias. E é bom que seja assim, pois a vida não é simples para quem não é levado à sério.

Todo dia é dia de luta, de correr atrás, de fazer “um corre”, quando não se está correndo.

As mulheres gostam do sol da manhã, pois são inteligentes e delicadas. Homem, como é tudo xucro, queima a pele e os neurônios ao sol do meio-dia. Aquela caçapa tava lotada de vagabundo que não faz nada.*

- Pô, isso aqui só tem cueca!... -, reclamou o Dentinho.
- Nunca vi desse jeito... , - disse Axé.
- É capaz até que já tenham descoberto nossa parada, Axé...
- Naaaada! Ali é só eu você; tá guardado!
- Mas, minino!...
- Tô falâno...
- Ôxi, que já é Primavera, hômi, e as bicha tão trabalhando há mais de ano! Deve tá cheio até a tampa; já dá di recolhê.

A cachoeira ficara para trás, e Dentinho agora nos acompanhava pelo caminho de volta. Trazia sua bicicleta.

- Ela passa pelas pedra?
- Total.
- Essa aqui é minha nave espacial pr’eu andar na cidade. Dá até para seguir estrada!
- Até Piri?
- Ôxi! Bota um tijolo de rapadura na mochila e quero ver!
- E um pouco daquele mel do Piauí, né Dentinho -, completei.
- Mas, rapaiz, aquele mel é tora!

Axé, continuou:

- O problema é ter de derrubar a árvore...
- Qui nada, rapaiz! É só capturar a rainha! Bota fogo que ela é a primeira a sair por causa do fumacê, hômi; as ôtra vão tudo atrás.
- Mas onde tá fica difícil metê fogo; pode matá a árvore.
- Nada a ver! Bota uma caixinha na saída, com um pouco de mel dentro, que a bicha vai direto... E as ôtra vão atrás! Já fiz isso dimais, hômi, ôxi!...

Àquela altura, já inteirado do assunto, ia imaginando cada cena descrita pelos dois, e minha cabeça ia longe... Lá pro alto da copa de uma sibipiruna, junto a uma colméia farta de néctar e milhares de abelhas zumbizando por ali.

Então Axé parou pra mijar. E Dentinho ficou olhando.

Taí uma coisa que eu nunca tinha visto: um homem olhando outro homem mijando. Para uma mulher não se olha porque o ato se assemelha a uma covardia; para os homens, porque parece baitolagem rasteira.

Mas Dentinho tá longe de ser perobo. Axé estava, na verdade, aferindo o grau de sua certeza quanto ao mel salvaguardado.

Não havia colméia ou sibipiruna, mas um charmoso furo no tronco de uma velha árvore retorcida, por onde entravam e saíam dezenas de abelhas por minuto, bem rente à trilha pela qual caminhávamos. Coisa que gente complexa e pós moderna não vê; coisa para gente simples, que nem sempre tem o que comer.

- Cada uma que tá entrâno, tá trazêno um pouco de mel, véi! -, disse Dentinho, com olhar fixo no vai-vem das bichinhas. –, Ói, quanta!
- Deve tá cheio até aqui, disse Axé, colocando a mão no tronco, cerca de um metro acima do solo; coisa de um ou dois litros...
- Tem mais, hômi! Si elas tão trabaiâno desdo ano passado!... Têmo que pegá logo, antes que os vagabundo pegue de nóis!

Ficamos os três, lado a lado, escorados nos galhos, a pouco mais de um metro do buraco delas, interagindo o tanto quanto nos fosse possível, a fim de imaginarmos a delícia de um tronco bêbado de mel.

Para eles, não se tratava de nada novo, mesmo que precioso. Já a mim, a sensação de estar ali era semelhante à de um menino que descobre na vida as verdades escondidas. Que se conecta com seu íntimo, estabelecendo ligações há muito esquecidas, e que, não obstante, sejam essenciais à nossa plenitude.

Encontrar um tronco cheio de mel é o mesmo que achar um pote de ouro no fim do arco-íris, com uma única diferença: o mel existe.









*singela homenagem ao Casseta e Planeta (das antigas)




**photografie: joão sassi

sábado, 12 de setembro de 2009

A Separação






Ao passar pela porta, já não se sente tão bem.

O acolhimento de antes se foi. A confiança também; e com ela, a cumplicidade.

São coisas que não se explicam, mas que se sentem. Qui parla? O coração, por certo, mas também outras instâncias. Sabe-se apenas que, de súbito, já não há mais, já não é mais.

Como o abalo sísmico que, se a tudo não devasta, altera. As rachaduras, o eixo empenado, a falta de base... Emocionais ou não, de difíceis reparos, quase irreparáveis; senão, de fato.

Há algum tempo sentia aquilo. Era entrar e lamentar. Sair e lamentar. Abrir ou fechar aquela porta significava uma pontadinha a mais no peito - ainda que fosse Sexta-feira; havia sempre o espaço para aquela dorzinha.

Passou a buscar nos antigos encantos um motivo para alegrar-se. Vã nostalgia. Cantos esquecidos, cheios de teias de aranha. Buscar o passado só aumentava seu desencanto.

O trato, antes intenso, agora era pouco, quase inusitado. Da parte de ambos. Dele, mais.

Ressentia-se e culpava-se pela falta de constância, pela atenção rala. E por não tratá-la com o devido respeito e carinho. Lá fora, as plantinhas sentiam na pele as emoções de uma relação conturbada: em momentos de paz, eram aguadas, e quando não eram, esquecidas. Se não fosse pela chuva que cai do céu...

Ela vinha se tornando cada vez mais estranha a seus olhos, o que não o impedia de buscar motivos para se sentir bem. Como uma noite bem dormida. Ou uma manhã bem acordada.

Quando o dia amanhecia, ainda deitado, tudo lhe parecia bonito, diferente. Pouco depois, o conhecido incômodo, a falta de intimidade. Já não havia tempo para o café da manhã; outrora venerado, agora, tomava-o no trabalho.

Do trabalho para a rua, e da rua, para outra cama que melhor o acolhesse... E ela, lá, cada vez mais esquecida, solitária. Ainda assim, pouco reclamava.

Sentia-se bem, dormindo fora, posto que era bem tratado, mas mantinha o pensamento longe, na insegurança da companheira abandonada. Pensava no que podia lhe acontecer e no que seria do futuro a partir da decisão que, cada vez mais, se mostrava necessária... e doída.

Quando voltava, baixava a cabeça, e aproveitava para se lamentar da poeira no chão. Do banheiro sujo. Da louça na pia. Da sua cara amarfanhada... Nada era como antes. E só no sono encontravam a velha harmonia.

Mas não naquela noite.

Ainda de madrugada, ele foi à cozinha, tendo se deparado com um grilo enorme, horrendo, da cabeça gorda, escalando as abauladas paredes da moringa de barro, seu bibelô. Foi uma sensação desagradável; mais uma, dentre tantas.

Como que em consequência daquele mau-estar, logo na manhã seguinte, acordara de mau jeito. Um movimento brusco e tinha seu humor comprometido.

Na cozinha, olhou novamente para moringa d’gua; seca havia dias. Lembrou-se do grilo e imaginou que o inseto pudesse estar ali dentro. Estava certo.

Viu enormes antes saindo pelo bocal. Tapou-o e correu ao jardim.

Colocou-a no chão e esperou... Batucou no fundo da moringa e esperou... Virou a moringa. Sacudiu a moringa. Bateu na moringa. Mas o bicho não saiu.

“Com água, talvez...”, pensou. E foi atrás de uma mangueira.

Num instante, o terror! Quando menos esperava, viu um grilo imenso surgir à sua frente, a poucos centímetros de seu nariz. A repulsa como reflexo, o susto, a falta de ar, a moringa arremessada!... O rosto lívido.

Ao procurar pelo bicho asqueroso, enxergou-o por entre as plantas, trôpego. Ainda que feio, era engraçado. Como um grilo de tênis.

Ao abaixar-se para melhor ver, recebeu um surpreendente golpe pelas costas. Era o abajur de bambu que o vento derrubara, num violento sopro.

Assustado, levantou-se, trêmulo. Olhou à volta. O abajur roto, a moringa despedaçada, as plantas maltratadas, o chão sujo, a rede pouco usada... E entendeu bem o que deveria ser feito.

A relação não é mais a mesma. Nem o respeito. E a casa, sua grande companheira, enfim, resolveu se pronunciar.

Photografie: joão sassi

sábado, 5 de setembro de 2009

Và Dove ti Porta il Cuore


Em meio aos nossos, sentimos segurança. Longe deles, crescemos.

Já estive por aí afora, visitando países. Não muitos, mas significativos.

Politicamente, identifico-me apaixonadamente com a Argentina.

Sociologicamente, com Cuba.
Antropologicamente, com a Bolívia.
Crèpavecnutellamente, com a França.
Indiferentemente, com a Inglaterra.
Irresponsavelmente, com o Canadá.
E, afetivamente, com a Itália, onde sou mais que Rei, senão um César.

Lá cheguei aos 20 anos, quando sempre se tem um grande amor no coração.

Era minha primeira vez.

Mezzo nervoso, mezzo excitado, resolvi acatar a sugestão de bebericar alguma coisa antes do vôo, de modo a me “encaixar” melhor na poltrona. Esta era também uma experiência inédita, o álcool.

Tomei exatos dois copos do Almadén servido a bordo. E viajei...

Dos braços do Cristo Redentor, às pontiagudas catedrais de Milão, onde fizemos escala, não lembro coisa alguma. Somente quando soou o sinal de alerta, advertindo aos passageiros que reatassem o cinto, é que pude limpar a baba seca do canto da boca. Atravessáramos o Oceano e eu nem me dera conta. Nem tive tempo de sentir medo.

Despertado, percebi que meu sorriso de bom-dia não era compartilhado pelos demais. Pudera! Tendo permanecido imóvel por todo o trajeto, acabei servindo de obstáculo aos colegas de poltrona que, porventura, quisessem ter ido ao toilet. Eu era o último (ou primeiro), numa fileira de cinco... A única que me deu graça foi uma freira. (Será que freira não faz xixi?)

Pousamos. Não resisti quando a temperatura externa (3º) foi anunciada. Pedi licença para “ver” aquele espetáculo, e botei a cara pra fora do avião, junto à escada.

Vestindo apenas uma camiseta Hering, notei que minhas costelas tremiam ao simples contato com o ar. Não poderia haver nada mais divertido que aquilo! Notei também que duas aeromoças me olhavam com cara de troça. A elas, eu era o perfeito mineiro vendo o mar pela primeira vez.

A chegada a Roma foi grandiosa. Recebido por quem eu queria, como eu queria e onde eu queria. Aos vinte anos, não se precisa de tanto para ser feliz. Mas, fazer o quê?...

Ela era linda e tinha muitas amizades, o que me deixou ainda mais à vontade. A reciprocidade da paixão nos leva, todos, à plenitude, a ponto de nos afeiçoarmos até mesmo aos amigos dela. Quando não nos apaixonamos pelas coisas do outro, simplesmente não nos apaixonamos pelo outro. Assim é.

Dos lugares por que passei, a primeira coisa que me lembro é do cheiro. Há carros diferentes, há pessoas diferentes, mas nada me chama mais à atenção que um cheiro diferente; tanto melhor se for bom.

De cheiro em cheiro, uma semana se passou, e naquela noite, recebi especial incumbência: preparar um prato, à brasiliana, como oferenda ao aniversariante do dia, Daniele. (Sim, Daniele. É que lá, os homens roubaram todos os nomes de mulher –Andrea, Simone, Daniele-, enquanto a elas, restou inventar nomes diferentes – Cicciolina, Chiara, Nicoletta, etc.)

Daniele, como eu, tem alma de mulher, e por isso merece todas as cortesias.

Ainda assim, a missão não era fácil. Entrar numa cozinha era coisa que eu não fazia. As panelas ficam muito “lá embaixo”. A pia também. Parece tudo pequeno.

Preparar um rango, então, era coisa que eu não sabia – ovo, miojo e mexido não entram no cômputo.

Pensei numa coisa prática, como uma feijoada, mas fui informado de que não caía bem com o vinho italiano. Também curti a idéia dum vatapá, mas me disseram que o dendê estava em falta na Piazza Navona, no que logo desisti.

Então optei pelo sempre estiloso estrogonofe, um garantido sucesso de formaturas e recepções chinfrins!

- Strogonoffi?!... –espantou-se Dani -, pero, “Xoao”, sembra una cosa rusa, si?..., - observou.

De fato, eu não tinha nenhuma comprovação das origens do prato, mas que poderia ser considerado típico, quanto a isso, não restavam dúvidas.

O resultado, até onde posso recordar, foi muito bom (não mais que isso). Melhor estava o mascarpone, que comemos de sobremesa, e ainda melhor, o vinho com que celebramos a data. Devo pontuar que estava bem melhor que o Almadén: Ave!

Conforme relatei anteriormente, barriga cheia, coração contente. E por entre risadas, goles e afagos, sentimos todos o desejo de realizar algo diferente. O ameno daquela madrugada invernal nos chamou à rua. Era tempo de conhecer a História. Tempo del Colosseo!

A sensação que tive, ao avistá-lo, foi a mesma que tive quando, ainda criança, avistei o Maracanã: senza parole...

O grupo se aproximou ainda mais, postando-se rente à cerca de metal que circundava e protegia o monumento. Olhei pelo vão, abobalhado, os contornos que minha vista alcançava. Quase não podia acreditar naquilo...

E fiquei completamente descrente quando olhei à volta, percebendo-me quase só, visto que mi amici, todos, já se encontravam do outro lado da cerca! Quanta ousadia! À Roma, chè da fare come i romani! Quindi... Lá estávamos, dentro do Coliseu!

Os italianos, que tanto falam e tanto gesticulam (mannagia!!!), calaram-se. Dispersaram-se. Buscaram a conexão. Entendi o recado.

Poderia eu, ter me sentado ao lado de minha amada, acolhendo-a em meus braços para, à luz dos mais lindos sentimentos juvenis, prometer-lhe um império de emoções. Mas não pude fazê-lo; seria apoteótico demais para que conseguíssemos levar adiante a vida. Há muito, entendi que o clímax é como a utopia que, conforme Eduardo Galeano, deve-se buscar, mas não atingir. Só assim caminhamos.

Então, caminhei.

Caminhei até o extremo. Até chegar bem próximo àquela exuberante cratera, situada num nível mais abaixo. Ungido não sei bem por que forças, prossegui.

Escalei muro abaixo, temendo, mais que tudo, o toque dum alarme. Ai, de mim!.. Se acordo César, sou dos leões!

Quando me vi ali, em meio às ruínas daquele colosso, perdi o contato com a realidade. E, contidamente, pus-me a caminhar por corredores e alamedas.

No céu, simetricamente postada bem acima de mim, urrava a lua, cheia, linda, prateada. Sua luz, incidindo no mármore milenar do qual é feito o gigante, tornara-se azul. Eu tocava aquelas paredes, aquelas curvas, com o mesmo temor que, quando criança, toquei as pernas de minha professora*. A mão, ainda no ar, tremia, mas deslizava suavemente por aquela macia superfície esculpida pela vida. Encostei o rosto. Senti o cheiro. Amei.

A cada passo, um “bum!”; era o coração. Era o medo. De tão forte, as batidas dele produziam fortes reverberações em meu corpo, que todo tremia.

Percorri cada recanto, tateei cada quina, cada esquina, vislumbrando gladiadores e leões em cada cela. Eles estavam lá. Pude sentir cada olhar, que me transmitia confiança e densidade.
Nunca senti tanto medo em minha vida, embora nunca me encontrasse tão seguro de mim mesmo.

Ave, Pai! Ave, Mãe!



*ler "Minha Primeira Paixão "

** photografie del colosseo: http://operachic.typepad.com/opera_chic/

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Brevíssima Análise de um Momento Recente

Photografie: João Sassi

"Respeitar esses rios e essas bacias é algo fundamental. Isso está sendo feito. Nós, hoje, estamos cuidando dos nossos mananciais, e isso significa desenvolvimento sustentável".

São palavras proferidas pela Ministra Dilma, na tarde de ontem, durante apresentação de obras de saneamento incluídas no PAC.

Estavam presentes 7 Governadores de Estado. Lula não foi por conta da agenda (que o atrasou). A imprensa toda notou que as palavras da Dilma eram, na verdade, palavras do Lula. A Ministra leu o discurso do Presidente ausente.

Está óbvio que o Governo sabe que a bandeira ambiental não lhe pertence. Está óbvio que a mídia os denunciará a cada palavra verde proferida, acusando-os de uma espécie de "plágio de lataforma eleitoral" .

.
Mas... Mas, o Brasil é um gigante que não lê e não se informa. Donde se conclui que somente a classe média dita informada estará por dentro desses acontecimentos. Dirão, "Esse discurso é da Marina!". Serão palavras ao vento, pois o Governo entende perfeitamente que ao POVO, o discurso lhe parecerá novo; e mais, legítimo.


Marina Silva não é conhecida dessa gente, uma gente que pouco ouviu, aprendeu ou pode escutar sobre os conceitos de desenvolvimento sustentável. Uma gente que tem rádio e TV - coisa que Marina não "tem" (e que o Governo "tem" de sobra).
.
O discurso da sustentabilidade desenvolvimentista, portanto, será feito com total desfaçatez por aqueles que, até ontem tinham o verde apenas como uma cor - desimportante, mas, ainda assim, uma cor.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Frugal Manhã Dominical

Ao acordar, ele sentiu logo uma alegria tremenda. Ela, ao seu lado, ainda dormia e sequer se movia.

Logo, correu para a sala, escancarando as cortinas da varanda, donde avistava toda a razão daquele bem-estar; oh, gloriosa manhã de domingo!

Um sem-número de pensamentos lhe invadia a mente. Havia muito que se fazer. A vontade era de correr à casa de pessoas conhecidas, despertando-as com beijos, sorrisos e piadas, mas isso demandaria muito tempo. Amar sempre demanda tempo.

Mesmo que não houvesse um lago ao horizonte, cujas ondulações produzissem brilhos de um sol nascente, ainda assim; ainda que não se projetasse aos seus olhos um céu duma cor azul-anil, quase cristalina, e em sua face, uma brisa tão menina, mesmo assim, tudo lhe pareceria perfeito, posto que a beleza viesse de dentro, do fundo do peito.

O ranger do chão acusa a companheira, que, docemente, reclama. Ela, com aquela cara que todo mundo gosta, faz bico pela sua ausência na cama. Não é boba. Gosta dos seus dengos e dos seus sorrisos, e diverte-se com suas piadas matinais. Aliás, costuma abandonar os lençóis às gargalhadas e, quase sempre, inteiramente beijada.

Ele cede, com prazer, por prazer...

Após novo despertar, a fome. Tantas idéias surgem que fica a impressão de que o domingo não é um dia, senão muitos: café-da-manhã na padoca, caminhada descompromissada pelo parque, banho de cachoeira... Parece que só existem coisas boas a serem realizadas.

Talvez, aí esteja o segredo. Ele não entende o funcionamento do tempo e sempre busca, dentro de si, o tempo necessário para fazer o que gosta. Quando não se é domingo, esse tempo não existe, o que complica muito sua existência. Quando se é, sente-se senhor de todo o tempo do mundo, mesmo sabendo que a dimensão dum domingo seja mera aparência.

Ela, ao contrário, parece ter a chave do segredo temporal. Faz tudo ao seu tempo, com a leveza de quem sabe o tempo certo das coisas. Num minuto, está de pé. Noutro, está banhada. Linda. Cheirosa. De bolsinha a tira-colo, bem arranjada, de camisa arejada, shortinhos brancos e sandálias delicadas. Não carece de maquiagem. Tem brilho próprio.

Ele, sempre o primeiro a acordar e o último a se aprontar, diverte-se enquanto o tempo passa:

- “Tá pronta, neguinha?... Vâmo logo!...”
- “Tô aqui, lindo, na porta de casa...”
- “Ah, assim é melhor!...” -, e ri, no seu íntimo, “hehehe...”.

E, logo, desconversa, falando das muitas coisas que fervilham em sua imaginação. São tantos os assuntos que quase nenhum tem um desfecho. Ele é como a criança que lambuza os dedos de chocolate para comer mais quando o seu acabar. Mais do mesmo. O assunto, entre eles, sempre volta, renovado. Talvez, por isso riem tanto, e se beijem mais ainda, lambuzando-se a todo instante.

Mas não há tempo que resista ao seu tempo. Ele demora. Enrola. Mas o faz com charme, com jeito; ela adora!

O escovar dos dentes, feito pela casa, morosamente, por entre falas, perdigotos e idéias sensacionais. O dentista já lhe avisou que duas escovadas de 5 minutos rendem mais que uma de 10. Pelo que se conclui: apesar de entender de bocas, o dito profissional é malversado nas minúcias do sexo. E assim, vai ele, demorando o mais que pode, contrariando até ordens médicas...

Por fim, saem.

No elevador, sempre um reencontro com a adolescência, quando qualquer lugar não é um lugar qualquer. Para o bem da vida, não havia câmeras que os pudesse censurar.

À saída da portaria, eventuais moradores percebem a presença de um algo mais no sorriso do casal, que segue, num caminhar descompromissado. Vão a pé, pois domingo não combina com carro.

Ao chegarem, com uma fome de anteontem, escolhem a mesa e, já sorrindo à atendente, emendam, “O de sempre, por favor”. A mocinha fala que sabe o que é, mas sempre pergunta o que realmente se quer.

Enquanto esperam, saboreiam o jornal. Nunca falaram abertamente, mas adoram ler o jornal a dois. Ele quer saber do futebol, mas sempre passa os olhos pela primeira página, a fim de verificar se há algo que mereça atenção prévia. Discutem um ou dois tópicos e voltam-se para suas leituras. Adoram ler.

Num segundo, ela já está absorvida. Já ele, concentra-se menos. Gosta muito de observar quem passa ou quem fica. E projeta, nos outros, o bem-estar que sente. Apesar de sentir-se bem, contudo, não se sente bem entre os presentes. Sente-se diferente; talvez, mais livre.

Vê algumas caras fechadas e vê gente que não se fala. Gente que reclama e fuma cigarro. Parece até que não gostam do domingo.

Espichando a visão, alcança o sol, e com ele, as mulheres que passam. Não precisa desconversar. A companheira sabe que ele a tudo vê, e gosta muito do jeito que ele vê as coisas. Ele sabe que ela sabe, e também gosta muito do jeito que ela sabe das coisas.

E por entre pernas, rebolados e bumbuns, ele, maliciosamente, se diverte, imaginando os distintos despertares de cada uma delas... E olha para sua parceira, cúmplice de suas aventuras, mandando-lhe um beijo mental, por todo o carinho e cumplicidade.

Volta a atendente, sempre espantada com as piadas dele, a desculpar-se pela demora: “É que estou só eu e mais três novatas!”, já lhes servindo o desjejum: suco de laranja fresca, misto-quente e pingado – para ela, escuro; para ele, claro.

O jornal perde o encanto. A refeição parece lhes trazer muito mais vigor e lucidez que as informações de uma sociedade pouco amada.

Terminam quase à mesma hora. Ela, um pouco antes. Ele tem a gula nos olhos, mas ela é mais comilona. Apesar disso, sempre estranha quando ele, achando-se o cúmulo do requinte, mergulha o último pedaço de pão no café-com-leite; faz cara de quem não
entende.

Barriga cheia, coração contente.

Recolocam os óculos escuros e se levantam para ir ao Caixa.

Ele adora que o cálculo seja feito para, só então, advertir: “E tem também o Correio Braziliense...”, para então escutar a quantia final. Após receberem palavras de agradecimento por parte do comerciante, despedem-se.

Atravessando a rua e trazendo-a pelas mãos, ele diz:

- A conta sempre dá 17; hoje deu 16.
- É verdade... -, responde ela, atenta aos carros.

Do outro lado, pára , olhando para ela e, como se houvesse encontrado um ruído na doce melodia daquela manhã, diz:

- “Ou ele nos rouba toda semana, ou nós o roubamos nesta, hehehe!...”


Aquela mísera diferença quebrou-lhes a rotina... Mas nada que lhes roubasse o intenso prazer escondido numa frugal manhã dominical.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Um Fato Novo


Ao cair da noite, na última terça-feira, após uma bela jornada de trabalhos e devaneios, senti necessidade de escrever. Vontade latente. Mas também sentia vontade de ver a vida passar; vontade carente.

Poderia seguir para casa, mas teria de encarar o trânsito do rush até alcançar a quietude do meu Ninho. E encarar o trânsito é coisa que não me faz bem. Não sei o que acho pior; trânsito ou barata. Ando dez, quinze quilômetros a mais, mas fujo de engarrafamentos! E assim, com essa boa desculpa, liguei o carro com alma de poeta - buscaria a boemia para encontrar inspiração.

Adoro encarar a noite com duas ou três garrafas entornadas e umas tantas páginas bem escritas. Quando isso acontece, a noite é mais bem-vinda, pois a recebo com alma vencedora. Se for o caso de pedir a quarta garrafa, melhor guardar os manuscritos, pois a qualidade do texto tende a cair vertiginosamente...

Por ainda ser relativamente cedo, o local estava tranqüilo. Dos muitos bares à disposição, escolhi um com uma boa mesa de madeira e com boa iluminação. Serviria, ainda que uma luz vermelha ao fundo do balcão lhe desse um ar meio aviadado demais para os meus intentos. Pedi uma cerveja e coloquei o caderno sobre a mesa. E, enquanto acariciava a barba, comecei a pensar no que escreveria... “Pedro!!!”, falou o rapaz na mesa ao lado. Era Paulo, um cara que namorou minha irmã há uns 20 anos.

Meu irmão, Pedro, tem nariz de ponta fina e cabelo de Blanquinho*: preto, ajeitadinho, de ladinho. Dizem, lá em casa, que ele é filho do leiteiro ou do vizinho, já que os outros irmãos tem “narizinho” mais abatatado e cabelos castanhos. Por mais que Pedro seja uma pessoa completamente diferente de mim, Paulo só me chama assim. E, pior, não é de propósito!

Após dar aquele cumprimento amarelo, voltei à barba, ao texto e aos devaneios... Queria um fato novo. Mas é sempre assim: quando só penso, não escrevo; mas só escrevo enquanto penso. Sou como minha amiga Áurea, que durante nossas reuniões de trabalho, faz deliciosos rabiscos multicoloridos e bem ornamentados em seu caderno de rascunhos. Todos fazendo cara de interessados e preocupados, enquanto ela fica lá, como uma Poliana, sorrindo para si mesma enquanto contorce a cabeça acompanhando os barrocos traços que caracterizam sua personalidade. Diz ela que é para se concentrar melhor no que os outros estão dizendo. Eu também sou assim, pois só me concentro enquanto faço. Quando só me concentro, acabo me concentrando no que não devo, e nada fazendo...

Então eu pensava e pensava, mas no papel, nada aparecia; natural, posto que eu nada escrevia. E decidi fazer o fundamental: começar! Não havia, afinal, necessidade de algo novo acontecer em minha vida para que se justificasse fazer um relato. O novo surge a partir do momento em que a pena começa a correr; é quando minha alma se renova

Uma a uma, as idéias foram surgindo, enquanto eu, sem dó nem piedade, com elas brincava e também as refutava. Parágrafos inteiros riscados, reescritos, escrutinados; uma diversão total! Coisa de gente pervertida.

Numa delas, embarquei! Queria falar da conquista; não das minhas, mas nas dos outros. Refletir sobre a importância e a delícia de ser o alvo e ceder aos floreios de uma dama ou cavalheiro, gentilmente, por inteiro.

E de tão empolgado que fiquei, abri mão da loira e me piquei. Queria colocar tudo ao vivo, via Maltrapa. Dividir com a tal horda a revigorante sensação de ser conquistado!

No caminho de volta, pensava nas passagens recém-escritas como quem saboreia a comida preferida. Eu olhava para o caderno, jogado no banco, e enxergava uma deliciosa marmita! Era gostoso pensar no que sairia dali de dentro!

Passei pelo Portal do Urubu, adentrando o breu da noite. Estrada de terra batida; chão duro, esburacado. Chegar em casa, no meio do mato, eu gosto. É sempre um reencontro comigo mesmo.

Antes mesmo de estacionar o carro. Simba apareceu saltitante à minha frente, como se sentisse o aroma da minha marmita. Nunca o vi assim. Desci do carro e ele continuava muito excitado. Ousou até ficar de pé, empoeirando minha roupa! Isso não se faz, Simba...

Caminhei pelo jardim e cheguei à varanda: a porta estava aberta!...

A canga, que sempre deixo como cortina, presa à porta, agora balançava voluptuosamente junto à brisa da noite, deixando transparecer o agradável amarelo do abajur que vinha lá de dentro. Automaticamente, entendi tudo. Não havia mais lépitópi, conjunto de som ou de DVD, e nem celulóide ou qualquer outro aparelho eletrônico, pois a casa fora arrombada.

Foi delicado o gatuno. Entrou manso, saiu calado. Não desarrumou meu mocó. Parecia até mesmo mais arrumado que antes. Definitivamente, o ambiente estava mais “limpo”. Deixou somente portas e gavetas abertas, mas não fez balbúrdia, nem lançou meus trapos ao chão; foi pianinho, educado.

Admirei o garbo: “agiu na maciota, o malandro...”.

E me voltei novamente para minha grande mesa de madeira – aquela em que me sinto Tomás Antônio Gonzaga -, e a vi vazia, sem meu computador (meus textos, minhas fotos!...), e me senti como um pastor sem ovelhas.

Sentei-me... “Tudo perdido, descartado por quaisquer 30 dinheiros, à primeira esquina, ou por qualquer pedra de crack... Gente ignara...”.

Minha empolgação dera lugar à frustração. Movimentos inesperados, fatos novos; assim é o bucolismo contemporâneo.



quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Paixão é Cega - Ademir do Amendoin














Pela filosofia que a vida me deu, seria
capaz de afirmar que uma das características fundamentais do ser humano é o
preconceito. Somos, creio, moldados por ele, desde e antes de sermos o que
somos. E quem afirmar o contrário, além de preconceituoso, correrá o risco de
ser taxado de hipócrita.





Eu, coitado, que traigo em mim a verve dum
esquerdista – um humanista!-, já me iludi muito, e pensava que homens assim não
tinham preconceito de nada... Pura bazófia! O preconceito engana a própria
consciência. O preconceito é a manifestação do que há de mesquinho e até
covarde no ser humano, pois é utilizado para apequenar o próximo e tirar-lhe a
beleza, tendo por argumento... O nada.





Quando se olha torto para alguém maneta,
por exemplo, estamos sendo preconceituosos, pois alguma coisa em nossa mente
está, equivocadamente, nos dizendo que esse alguém é menos alguém que nós
mesmos. Nesse sentido, Darwin poderia dizer que nosso preconceito é de base
biológica e está fundamentado na “lei do mais forte (ou mais apto)”, e que tal
lei se aplica a todos os seres vivos. Nós, portanto, estaríamos apenas “sendo o
que podemos ser”, naturalmente...





É, pode até ser, mas não à toa estamos
no topo da cadeia alimentar. Estamos ali pela Razão, e não por outra, estamos
aptos a refletir mais contidamente sobre a insistência da aplicação dessa mesma
lei em nós mesmos, mesmo após já termos passado por Iluminismos, Renascenças,
Apartheids e burguesas revoluções, História afora.





Stephen Hawking, o físico que sofre de
uma doença degenerativa (esclerose lateral amiotrófica), por exemplo, não
estaria adaptado a muitas das situações do cotidiano, mas certamente é
reconhecido pela humanidade, não só por sua inegável capacidade de superação,
mas, principalmente por seu legado científico.





Por outro lado, uma imensa parcela dos
seres humanos considerados aptos ou normais, estes perecerão sem a contribuição
devida. Emblemático, né, Charles? Quando religiosos, nos apiedamos; quando
politizados, nos solidarizamos; quando humanos, somos preconceituosos.





Por vezes, vieses e vias tortas, flagrei-me
apaixonado por moças cegas. Paixões fugazes, que não duravam mais do que o
alcançar dos meus olhos ou uma corrida de ônibus dentro do Plano Piloto. Era como
um encantamento que me fazia acreditar que a privação da visão lhes daria
sensibilidade extra, deixando-as com o coração eternamente puro. Trata-se do
mesmo encantamento que nos faz acreditar que o preto tenha mais apetite sexual
que o branco; um encantamento chamado preconceito.





Dia desses, num desses botecos da pior
qualita (que são os que costumo freqüentar), avistei Ademir, o vendedor de
amendoins. Ele mora no Jardim Roriz, um apêndice de Planaltina, onde nasceu, há
33 anos. De tanto nos esbarrarmos, criou-se um pequeno vínculo, pelo que, a
cada novo encontro, nos saudávamos cada vez mais efusivamente. Ademir costumava
me dar dicas sobre o movimento das manadas, revelando onde poderia encontrar
moçoilas incautas e insaciáveis. Em contrapartida, tratava-o com afabilidade e
distinção, além de comprar um ou outro amendoim de quando em quando.





Certa vez, querendo ir além do óbvio,
arrisquei perguntar sobre sua vida pessoal. Digo arriscar porque não me sentia
de todo à vontade, visto que, além de gago, Ademir tinha paralisia infantil, o
que lhe atrofiou severamente um dos braços e uma das pernas, resultando num
caminhar sôfrego, como o de um Cristão na via-crucis. Perguntar-lhe diretamente
sobre sua vida pessoal foi a forma que encontrei para vencer meu preconceito.





Ademir era como eu: gostava de mulher e
de futebol. Sim, futebol! Ademir, que mesmo não sendo o Da Guia ou o Menezes,
fazia questão de ser como qualquer moleque que fugia de casa para jogar uma
pelada, e que depois voltava, tome chinelada!





Observando que ele relatava tudo aquilo
com sincera excitação, senti que perguntar sobre as dificuldades enfrentadas
seria como admitir uma profunda estupidez. Se a perna recolhida o impediu de
marcar mil gols, não sei bem, mas é certo que isso não teve qualquer influência
em como Ademir encarava sua existência: - Eu era ruim na corrida, m-m-m-mas
ninguém roubava a bola dos meus pés!... - Arrisquei mais, perguntando sobre “a
mulherada”, e escutei uma estória recém-iniciada, segundo ele, com uma
“nigrinha quente”: - Eu t-t-t-tava atrás dela há um t-t-t-tempão, mas ela
recusava; me achava es...tranho e coisa e tal. De tanto insistir, ela cedeu...
E agora, quer me n-n-n-n-namorar! – Provocando-o, questionei se ele dava conta
do recado. Resposta: - Ela é exigente, mas eu sou o Ayrton Senna!





O tempo passou e, como relatei alguns
parágrafos atrás, o reencontrei pelos mesmos recantos. Tendo-o cumprimentado,
perguntei como ia a vida, no que logo a “nigrinha” voltou à baila. Disse que
estavam como estilingue; que iam e vinham, entre tapas e beijos. Fiz uma pausa
e o encarei, indagando: - “E por que é que vocês brigam tanto?” Ademir então
ajeitou no antebraço as cornetas de papel cheias de amendoins, e já se
aprontando para se esquivar, como quem não quer dizer o porquê, soltou, virando
a cabeça: - Futilezas... Futilezas! -, saindo, naquele caminhar aparentemente
trôpego, mas solidamente decidido. Salve Ademir!!!






















































Um pouco de gente inteira nesse mundo é
preferível a um mundo inteiro de gente pouca.





quarta-feira, 29 de julho de 2009

Dia da Independência

...Trintaeumzerodois, ao fundo, cheio de fome...
.

O 28 de Julho é quase sempre uma data muito marcante para mim. Talvez muitos andarilhos experimentados não saibam, mas é nesta data que se comemora a Independência do Peru. Eu mesmo, até há pouco, não tinha conhecimento. Coisa de dois anos atrás, porém, uma amiga me contou. Era peruana e tinha um nome lindo: Yurica!

Mas, ainda que a referência seja proposital, servindo como uma homenagem àquela pátria, o seguinte relato nada tem a ver com a alegria de incas borrachos de pisco.

O que sei, é que no 28 de Julho do passado ano dos 1994, eu, Maltrapilho S. Santos, me encontrava numa missão de campanha, e era mais conhecido como Trintaeumzerodois. Servia no I Regimento de Cavalaria e Guarda, vulgo RCG – aquele, dos cavalinhos, do Sete de Setembro.

O acampamento era, de longe, o momento mais temido aos conscritos – os quase soldados. Após três meses de instruções básicas - que me possibilitaram aprender, dentre outras coisa, quem era o Patrono da Cavalaria ou como limpar a “bolsa” de um eqüino -, estávamos apto ao campo!

Seriam somente três dias de acampamento, onde, diziam, sofreríamos toda sorte de provação física e psicológica. De fato, à véspera da partida, soube que a tropa de instrutores seria formada inteiramente por voluntários, o que significa dizer que os cabos, sargentos, tenentes e demais oficiais presentes seriam também os mais sádicos do Regimento.

O local escolhido – um vale perdido, aos fundos do Setor Militar Urbano – não era longe, mas foram tantas as incursões pelo cerrado com tanto sol no capacete; tantas as simulações de bombardeio e de escapada mata adentro, com direito a mergulhos coletivos pelo capim seco, que demoramos todo o dia até alcançarmos a zona de conflito. A época do evento não era vã, visto que o Inverno era efusivamente saudado por nossos algozes como a época ideal para se ir a campo.

Durante a longa caminhada, por mais que a situação me parecesse real, não dava para imaginar um avião surgindo no horizonte com bombas de Napalm. Preferia me concentrar no melodioso chacoalhar dos cantis, que se chocavam sinfonicamente contra alguns penduricalhos da caserna, como fivelas e fuzis. Tchloc, tchloc, tchloc, tchloc, tchloc...

Mergulhar no mato, ao som de metralhadoras de festim, eu também gostava. Muitos faziam cara de Rambo; eu ria.

O primeiro objetivo fora cumprido: chegamos ao local, já extenuados e sem energia. A partir de então, as profecias se realizaram, e tudo o que era feito, tinha, intencionalmente, o sadismo como fio condutor. Xingamentos e humilhações, além de privações e maus-tratos; assim era o acampamento.

Ao final do primeiro dia, estávamos todos sendo instruídos em meio à mata. Qualquer erro era punido com um mergulho no rio. Cada vez mais encharcados, procurávamos nesgas de sol por entre as folhagens, a fim de não anoitecermos como pintos molhados. Pura perda de tempo. Ao mesmo instante em que a noite se fez presente, fomos obrigados a mergulhar, só para que dormíssemos molhados. Foram três dias com a mesma e úmida farda, dormindo ao relento, sem direito a trocar a cueca ou tirar a camuflagem da cara. Só via a cor da minha pele quando olhava meu pinto, na hora de fazer xixi.

Na missão empreendida naquela noite, certamente provei que de soldado eu não tinha nada. Eu era o líder da Patrulha Selva, composta por oito bravos homens “de confiança”, e haveríamos de colocar em prática tudo o que nos fora ensinado durante o dia: salvamentos de feridos, macas, tipóias improvisadas, etc. Tudo feito tarde da noite, sem luz, em meio à lama, à água e “à selva”. De repente, um grito horrendo de dor é escutado!...

Choros lancinantes. Pedidos desesperados de socorro em meio à escuridão. E surge, do nada, de lamparina em punho, nada menos que o capitão Sólon, o temido comandante do Primeiro Esquadrão. Sua presença empresta à cena a dramaticidade necessária, fazendo dali um Vietnã. Antes cansados e receosos, agora todos se entreolhavam assustados. É dada a ordem: “Trintaeumzerodois, o caso é sério! Há um homem ferido – aquele bizonho! - ao longo do córrego. Leve sua tropa e faça o atendimento necessário, rápido! Logo enviarei reforços! Vá, soldado!”.

De súbito, a Patrulha Selva estava embrenhada no mato, com água até a cintura (por vezes, até o pescoço) tateando uma linha que nos levaria ao homem ferido. Eu, à frente, já havia perdido o fôlego de tanto que eu ria. Sou do tipo de gente que ri quando fica nervoso ou descobre uma encenação, como parecia ser o caso. E ria, ria de perder a noção. Os demais, não sei se por ingenuidade ou medo, acreditavam em tudo, e iam, aos trancos e tropeços, passando por cima uns dos outros, ora pedindo ajuda, ora pedindo calma. Um, pendurou-se em meu pescoço para eu quase me afogar: “Não sei nadar! Não sei nadar!” -, berrava, aterrorizado. Engasguei muita água, e quando recuperei o fôlego, recomecei a gargalhar!

Para ser sincero, o que a muitos era terror, eu sentia como amor. Estar num lugar tão sinistro, no escuro, caminhando por dentro d’água e amparado por tantas energias não poderia ser algo ruim. Eu não temia nada, apenas ria e me divertia com o pânico alheio.

Logo adiante, nova lamparina, mais oficiais e o “ferido”. Era um cabo, e quebrara a perna prendendo-a numa entranha de troncos. Era preciso fabricar uma maca com nossa gandolas e levá-lo à base. E era gordo, o combatente; gente do rancho! Malditos sugadores...

Deitamos o militar em nossa maca e seguimos rio adentro. Eu, sempre adiante, e rindo muito, fui o responsável direto pela queda do ferido! Que, bobo nada, sartou de banda, evitando o mergulho completo. Só então os outros descobriram a farsa, e quiseram até bater no abestado.

Chegamos ao acampamento pouco depois, e fomos dormir.
Foi, indubitavelmente, a noite em que senti mais frio na minha vida. Acordei inúmeras vezes para fazer flexões, esquentar o corpo, e só então, conseguir dormir mais 15 ou 20 minutos, para então acordar e repetir o processo. No fim da madrugada, de tanta dor, senti vontade de chorar ao tentar desatar o nó do cadarço do coturno. Os dedos, atrofiados de frio, sequer os esticava. E olhava para minhas mãos, sem acreditar que eram minhas.

Logo, a manhã invadiu o vale, e tivemos, todos, a sensação de que o pior já havia passado. Ledo engano. Após mais uma jornada de intensas atividades, a Patrulha Selva encontrou novo desafio, noite adentro...

Tratava-se de encontrar as coordenadas por meio da localização do Cruzeiro do Sul; o tal azimute. É simples: faz assim com o dedo, tipo Paz e Amor, de lado, compara com a estrela inferior, faz um giro à esquerda e se traça uma linha imaginária perpendicular ao solo; pronto, ali é o Sul!

Foi-me dada uma série de coordenadas, e também um tempo-limite para nossa chegada ao ponto-final. E só. Dois detalhes: eu era míope e a noite estava nublada...

A empreitada foi madrugada adentro, até o momento e que, exaustos e sem qualquer sentido de orientação, entreguei os pontos. Já não agüentava caminhar a esmo, com galhos e espinhos pelo rosto, caindo em buracos e topando com pedras. Ordenei, então, “aos meus homens” que se deitassem, aguardando a Providência Divina.

Sentaram-se, formando um círculo, em silêncio. É como na guerra, que filho chora, mas mãe não ouve... -, pensei. E senti, verdadeiramente, vontade de saber da minha. Era quase de manhã.

Não muito tempo se passou, até que escutamos, vindo de longe, gritos de salvação; era o resgate!

Fomos a única patrulha a falhar na missão. E quando voltamos ao acampamento, imundos e esfarrapados, foi-nos dada a missão final: limpar fuzis. Era a punição pelo papelão.

Terminado o serviço, olhei para o campo que, coberto por uma névoa branca, escondia meus companheiros, encolhidos de frio, soltos pelo terreno...

- Trintaeumzerodois!... -, escutei, e quando me virei, recebi um novo fuzil e a seguinte determinação: - Tá de guarda! Senha: Brasil. Contra-senha: Romário.

Não podia acreditar... O sol já quase aparecia no horizonte, e eu ali, sem força para cuspir, tendo de montar guarda, com um fuzil à mão, e acordado! Parecia que todos haviam morrido, menos eu...

Foi quando escutei uma movimentação na barraca dos oficiais. De onde saiu, logo em seguida, uma fileira de homens. O capitão Sólon olhou para mim e, antes de qualquer outra coisa, disparou uma rajada de tiros pelo ar. Imediatamente, os demais, todos armados, passaram a jogar bombas de gás lacrimogêneo entre os soldados e a dar tiros de festim para o alto. Realmente, era um campo de batalha, uma cena de guerra.

Soldados acordavam atordoados pelo estampido das bombas, já sem frio, mas com medo, enquanto escutavam berros de “Independência!!!” , dados por um cabo dos mais sádicos: “É hoje que o Brasil vai ficar independente de vocês, bando de molóides!”.

Enquanto as pessoas corriam em desespero, sem nem mesmo saber pra onde, eu, “privilegiado” por não ser acordado daquela forma (o que certamente traria seqüelas aos meus sonhos), comecei a pensar que logo estaria livre daquela estupidez. Já não era dia da Independência do Peru ou mesmo do Brasil, mas 29 de julho; o dia em que, 19 anos antes, eu me tornara dependente de tudo e de todos,
do Amor e do Desejo.




A todos àqueles afeitos a celebrações e improvisações, convido-os a estarem comigo, nesta noite (29), no Ninho do Urubu, a partir da 20hs, em volta à fogueira, com papicos e bebericos. Coisa simples, mas de coração. Sejam bem-vindos.

Vou oferecer água e sorrisos. Tragam o que mais lhes aprouver, s’il vous plâit. De pandeiros a cachaças.




segunda-feira, 27 de julho de 2009

O Homem em Constante Evolução Amorosa - Assim Batizei Nelson Cavaquinho




Simba é descarado. Não é difícil reconhecer um, quando se também o é.

Foi todo um martírio - mais a mim que a ele - toda essa estória de reclusão e celibato. Nunca imaginei... Metê-lo num cárcere... Que cousa!


Um dia após o outro, pela manhã e pela noite, visitava-o no canil, encontrando-o sempre por onde estivesse mais empoeirado e mataguento; na maioria das vezes, sanguinolento. Se eu limpava aqui, ele se metia ali, cada vez mais sujo e tristonho.




Até arredio. Muito por conta do repelente mágico que eu borrifava, sem dó, em suas áreas chãs, fazendo-o espernear, quase implorando, “Au, au, au!!! (tudo, menos isso!!!)...”. Contrariando as determinações médicas, mas acatando as de Simba, suspendi o uso do spray.





Quanto aos comprimidos, tornou-se cada vez mais astuto, o malandrinho. Descobriu cada artimanha por mim utilizada para fazê-lo ingerir o medicamento. Se era misturado à ração, lá ia, com seu narigão, separar o alimento do balsâmico grão. Quando se acabaram as salsichas, utilizei gema de ovo; depois, molho à bolognesa. Quando tudo acabou, apelei para o chocolate. Que idéia!... Se arrependimento matasse, estaríamos estendidos no chão do canil até agora. Sem ter mais com quê ludibriá-lo, lembrei-me do estilo Zagallo. “Você vai ter que engolir, bro!” - e, abrindo sua bocarra, joguei sua salvação goela adentro. Que logo foi cuspida, em forma de pó branco e gosmento. É, pensei, talvez já seja hora de pôr fim a esse tratamento...

Já eram passados oito, quase nove dias, e percebia-se em seu olhar deseperançoso que já não havia mais limites. E o sangramento, por fim, pareceu ter encontrado seu fim.

Receoso que estava por conta da cicatrização de seu piu-piu, não achei boa a idéia de devolver-lhe à liberdade; uma cã seviciosa qualquer poderia causar-lhe uma dolorosa erupção de prazer. Mas, por outro lado, sua irretocável conduta me convenceu a premiá-lo com um sabor diferente e, improvisando uma corda, ofereci-lhe toda uma varanda sombreada, e também pedaços de quintal, para que ele fosse se reacostumando com os aromas da vida.

Já na manhã seguinte, a corda estava amarrada ao ar. Simba, com toda aquela carinha de bobo, desfez o nó e partiu, na calada da noite, deixando para mim uma sensação de incompetência e trabalho perdido... Mas não fiquei triste; nem um pouco. Talvez por achar que as Leis da Natureza sejam, efetivamente, as que mereçam nosso respeito e devoção.

Para mim, o que chamam “a vontade de Deus”, nada mais é do que a expressão latente de nossos instintos e desejos naturais. O Deus somos nós, e é por meio das nossas próprias determinações que interagimos com toda e qualquer forma de vida, aceitando os carinhos, mas refutando as dores da existência, como uma desilusão amorosa ou a perda de alguém.

Se os instintos de Simba o levassem à morte, não seriam minhas carências as responsáveis por qualquer sensação de tristeza ou lamúria.

E assim os dias se passaram, sem que qualquer sinal de fumaça surgisse ao horizonte.

Numa dada noite, já decidido a não mais pensar no assunto, mas ainda mirando modorrentamente para o imenso saco de ração recém-adquirido (ô, natureza mesquinha!), senti uma nhaca de carniça; poderosa! E do lúgubre de uma noite sem estrelas, me aparece aquela carinha safada e fedorenta, cheia da mais pura culpa canina. Olhinhos submissos e grunhidos melosos completavam a mise-en-scène. Fiz que não era comigo, dando-lhe a porta à fuça.

Qual quê! Quem pode com aquele futum? Abri a porta e vi um cachorro magro e famélico. Tendo acabado de jantar, recolhi os ossinhos de costela do prato a fim de mimá-lo. Atacou-os com ardor. Parecia desenho animado, onde os personagens engolem as coisas sem mastigar, o que me desagrada terrivelmente. Como aqui só tem banho frio, nem passou pela minha cabeça afagar aquela carniça, no que fechei a porta e dei boa-noite.

Tudo o que os pais querem é que seus filhos voltem para casa. Quando voltam, contudo, fazem bico. É a natureza deles.

Na manhã seguinte, para meu espanto e insatisfação, recusou a ração. Fiquei puto. Mas, tudo bem: que ficasse com fome, mas não fedido. Hora de banho no Corguin! E seguimos, como nos velhos tempos, eu e Carniç..., digo, Simba, rumo ao rio.

Nem um ou dois, mas o equivalente a três banhos, foi o que lhe dei, deixando-o muito contente. Seu sangue sobe e uma criança se apodera do seu ser. Aproveitei eu também para mergulhar muito, deixando com que meu corpo penetrasse a flor d’água, sendo levado pelas leves correntes, até tocar uma rocha, bem levemente... Depois, apoiado na cascata, meditei gostoso, por longos momentos.

Já no caminho de volta, trocando idéias com ele, fui tomado, subitamente, por aquela sensação de bem-estar que todo mundo sente de vez em quando, ainda que sem saber bem porquê.

Como que por sintonia, Simba, ao aproximar-se de casa, saiu em disparada, indo atacar a ração anteriormente rejeitada. Estava cheio de fome o danado! Ele sabe que eu adoro aquele roc-roc...

Já de barriga recheada, nos provocamos um pouco pelo quintal, até que o deixei relaxar, de banhinho tomado, bem alimentado e cansado. Fazer carinho em alguém limpinho é o que há. E foi o que fiz, ao longo de todo o dia; muito carinho... A cada instante, uma reconquista.

Hoje, Simba já não amanheceu aqui. Esgueirou-se para a zona do baixo meretrício, em alta madrugada, a fim de comemorar os resultados do futebol. Esperei-o pela manhã e pelo início da tarde. Não veio.


Há pouco, para minha tranquilidade, o carteiro passou por aqui, deixando um telegrama que assim latia:

"“Vou partir, não sei se voltarei,
Tu não me queiras mal,
Hoje é Carnaval...
Partirei para bem longe,
Não precisa se preocupar,
Só voltarei pra casa
Quando o Carnaval acabar...”

Assina: Simbólico
"




Expreguiçando-me na rede, joguei o envelope sobre a mesa ao lado e matutei... E decidi
rebatizá-lo Nelson Cavaquinho!






.




terça-feira, 21 de julho de 2009

Natureza Humana – Dois Pesos, Duas Aranhas

Aqueles que acompanham o antropólico ladrilhar deste maltrapilho, sabem que o Ninho do Urubu é onde recarrego minhas energias, intercambiando-as com as da Mãe Natureza.

Quando me mudei para lá, só queria saber de mato. Os trinta anos passados no Plano Piloto haviam atingido um ponto de saturação, e viver ali, por entre superquadras e comerciais, tornara-se, há tempos, um real dissabor. Era preciso escapar!

Brasília, observo, está precocemente envelhecida – surpreendentemente reacionária para um sonho tão jovem. E cafona. O azul-anil do céu deu lugar ao azul-las-vegas dos arranha-céus, poluindo o horizonte, estabelecendo-se como a marca indelével do neo-greco-goianismo candango, ora reinante nesta provinciana capital.

Brasília parece velha também na moda. Aqui, não se vê pernas ao leo. É muito tailleur e muito salto para pouca camiseta e pouco chinelo.A falta de um contato real dos meus pés com o chão passou a produzir, em mim, uma estranha sensação de despertencimento.

E foi esta a desculpa final que encontrei para justificar minha decisão: voltar a sentir as reverberações de Pachamama, como quando eu era criança e andava perlaí, despreocupado da vida, descalço e sem camisa. Queria restabelecer meu ritmo emocional, de preferência, em consonância com o tempo que o passarinho leva para construir seu ninho. Resgatar, enfim, a harmonia da própria existência.

A casa que eu queria era qualquer uma. Que tivesse telhado e parede; mas até sem porta eu estava aceitando. Quando surgiu uma, despenquei para o Urubu, a procura do "Seu" Alan, o proprietário.

A casinha ficava num terreno cru, sem portão , rodeado pelo Cerrado. Aproximei-me na maciota e, conforme os ensinamentos do Jeca Tatu, bati palmas. “Ô, de casa!..”. Apareceu Alan, um homem franzino, de cabelos grisalhos e aparência e olhar leves. As largas calças brancas e uma camisa de manga comprida de ermitão outorgavam-lhe um ar meditabundo.

- Boa tarde... -, disse ele.
- Boa tarde. Meu nome é João Sassi e moro em Brasília há 30 anos. Sempre vivi no Plano, mas já não pertenço mais àquela realidade. Sei que sua casa está vaga e eu preciso dela.
- Hum... é João, né?, disse o Alan, transformando meu nome num monoxítono tônico, com um inconfundível sotaque goiano.
- É...
- Olha, João, eu não estava pensando em alugá-la... Tem, inclusive, que fazer uma série de reparos, mexer com a fiação elétrica que...
- Eu não preciso de luz -disse, interrompendo-o -, só preciso da casa! (Eu realmente estava disposto a tudo!)
- Olha... Vamos meditar durante a tarde. No final do dia, eu te ligo. – E me deu um carinhoso abraço, daqueles que cheiram a incenso.

Aquilo de falar “vamos meditar”, mexeu comigo: “É aqui mesmo!”, pensei, radiante.


Dois dias depois eu já pertencia à comunidade do Urubu. Poucas horas após minha chegada, eu já tinha sido convidado para almoçar na casa de um vizinho, jantar na de outro, e até mesmo para dormir com uma atiradinha (tipo "recepção de boas-vindas"). Como jacaré no seco anda, recusei algumas ofertas, tendo aceitado a outras.

Uma semana e tudo estava em Paz. A hora de dormir era algo especial; o momento de ficar quietinho, captando os sons da escuridão, escutando a conversa dos bichos.

Meu quarto não tinha porta, e a janela, ainda descortinada, permitia a entrada da luz, ora da Lua, ora das estrelas, criando sempre uma atmosfera relaxante, propensa ao bom repouso. Parecia que eu dormia ao relento.

Naquela noite, após os rituais do banho, apaguei as luzes da casa e afundei minha cabeça nos travesseiros, dando um sorriso para o alto. Minha cama não estava montada, por isso, dormia no chão.

Já deitado, veio a dúvida: “Será que tranquei a porta?”. Resignado, e ainda no escuro, levantei para ir ver. Na sala, próximo à porta da casa, no chão, observei uma grande “mancha escura”. Não sendo do tipo de homem que deixa coisa largada pela casa, estranhei aquela nódoa em meu assoalho de ardósia queimada. Antes de cutucar com os pés, porém, busquei o interruptor... E logo saltei para trás, assustado com a enorme aranha que ali, meditava.

Puxa, vida, a maior aranhona da paróquia! De imediato, criou-se um dilema. O que fazer? Matá-la era a última coisa que passava pela minha cabeça. Afinal, eu não tinha optado pela “vida selvagem” para acabar com esta mesma vida. Eu era o intruso. A aranha só tava dizendo “oi”. Eu deveria procurar entendê-la.

Pensei em abrir a porta, oferecendo-lhe a liberdade, mas o gesto seria dos mais arriscados, pois a abertura da porta iria forçá-la para a porta do meu quarto (que não existia). Se ela entrasse no meu quarto, não creio que fosse possível relaxar tanto ao deitar-me novamente.

Olhei bem para ela e entendi que não havia nada o que ser feito. Eu não estava ali para interferir. Por enquanto, observar era o mais indicado. Convencido de que São Francisco de Assis acabara de se manifestar em meu coração, apaguei a luz, dei-lhe um “boa-noite, Dona Aranha” e fui dormir, sem qualquer receio.

No dia seguinte, a consciência de que o Bem fora realizado me satisfez um bocado!

Alguns dias depois, contudo, nova provação...

Entrando no banheiro, percebi uma nova nódoa em minha visão. Olhei para o lado e vi o que era: uma nova, grande e gorda aranha. Não tive dúvidas. Ignorei-a.

Ela não era como a outra que, a despeito do tamanho, tinha pernas finas e aspecto pouco assustador. Esta, coitada, tinha aquela bundona ameaçadora, além de pernas torneadas e muitos pêlos pelo corpo.

Da segunda vez que passei por ela, senti uma sensação das mais desagradáveis. “João, cê tá sendo cínico, pois a aranha tá te fazendo mal e você fica aí, tirando uma de haribô”. Aquilo merecia uma atitude mais enérgica e pragmática. A não ser que eu quisesse tomar banho com uma peçonhenta espectadora a um metro do meu bumbunzinho (onde só mamãe passa talquinho).

Olhei para ela e estabeleci as condições. Postando-me a poucos centímetros dela, fechei os olhos e telepatiquei: “Aranha, você não é bem-vinda aqui. Espero que você entenda o que estou lhe transmitindo. Vou contar, mentalmente, até 60, e quando eu abrir os olhos, não quero mais vê-la aí, ok?”

Foram os 60 segundos mais longos da minha vida! Eu sabia que não podia abrir os olhos, pois o entendimento da minha mensagem dependeria da minha capacidade de concentração. Se eu abrisse os olhos ou me afastasse, perderia autoridade moral sobre a danada e nada poderia fazer para resolver a questão.

Por 60 segundos, tentei, o máximo que pude, comunicar-me com ela, dizendo que seguisse seu rumo, buscando novos horizontes, pois ali, futuro não havia. Então, abri os olhos...

...E lá estava a feiosa, imóvel, fingindo-se de "surda", sem mover um “músculo” sequer... Simplesmente, aviltante!

Saquei a alpercata dos pés, e tal qual um shao-lin inspirado, apliquei-lhe um golpe-relâmpago, potente e certeiro, fazendo com que minha amiga simplesmente explodisse em meleca, espalhando patinhas cabeludas por todo o azulejo. “Eu avisei...".

Nem por um instante, senti-me arrependido, muito ao contrário. Mais uma vez, o Bem fora feito, e mais uma vez, minha consciência estava tranqüila.

As aranhas, penso eu, deveriam também preocupar-se em entender essa nossa natureza, tão humana...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

De Crenças e Traições, Descrenças e Enganações

. En el detalle de la foto, un brasileño lleno de sonrisas...

Dentre as angústias que carrego, as maiores, certamente, dizem respeito ao engano.

O homem de caráter perdoa até a mulher que um dia o traiu, mas jamais perdoará o amigo que outrora o enganou. Conheço quem já traiu por amor, mas nunca quem enganou sem má fé.

Já fui traído, e perdoei. Já fui enganado, mas nunca consegui sublimar...

Era o dia 16 de julho de 2001. Eu estava em Cuba por conta de um taller de periodismo, para o qual havia sido convidado a participar junto a coleguinhas jornalistas de toda latinoamérica. Estava lá já há mais de um mês, no que caminhava por Havana com desenvoltura e altivez.

Hospedaram-me na Escuela Del Partido Comunista Ñico Lopez e, como hóspede, estava sujeito ao mesmo regime e regras impostos aos integrantes do futuro quadro de gestores do Partido (e da própria Ilha, por supuesto): pouca comida, pouca água e pouco luxo. Muito estudo, muita prática desportiva e muito estímulo à consciência.

Diferentemente dos turistas, eu só me alimentava em restaurantes “para cubanos”. E exatamente como os turistas, enchia a cara do delicioso rum “dos cubanos”...

Havia estado próximo a Fidel Castro em três oportunidades. Havia apertado sua mão, tirado fotos e escutado sua voz. E estava encantado por ele.

Havia também escutado muita coisa sobre a Independência Cubana, capitaneada por Martí, bem como sobre a Revolução, liderada por Castro, El Che e Camilo Cienfuegos. Estava embevecido pela história cubana.

Perdidos em devaneios revolucionários, lá ia, Habana afuera, interrogando transeuntes e contando-lhes as maravilhas de se viver numa sociedade pouco gananciosa. Não demonstravam receio, como se minha presença já lhes parecesse familiar. Por isso, falavam abertamente sobre o processo político cubano. Por saber que aquilo era uma concessão feita a poucos, sentia-me ainda mais pertencente a que fosse tudo aquilo - ainda que não soubesse exatamente o que aquilo tudo fosse. E costumava referendar os resultados da Revolução enaltecendo a sensibilidade e o sentimento, tão característicos à população dali, em contraposição ao materialismo e à frivolidade das pátrias capitalistas: “Aqui, ninguém espera que o outro tenha o bolso cheio de dinheiro, mas a cabeça cheia de idéias e o coração cheio de amor”, é o que dizia aos contra-revolucionários de plantão.

Voltando ao 16 de julho, lá estava eu, contornando a tarde azulada, rente às muralhas do Malecón, quando fui abordado por um entusiasmado rapaz. Perguntou-me de onde era, e tão logo eu disse “Brasil”, seus olhos se arregalaram, no que, sentando-se sobre a mureta, disse que era uma coincidência incrível, pois era para lá que ele estaria seguindo, dali a 15 dias.

Ele e um grupo de percussionistas seguiriam para “San Pablo” e Salvador, para um pequeno circuit de shows. “Como turista, hay que tener um mapa!”, inquiriu ele. E logo mostrei-lhe o meu. Demonstrando grande interesse por tudo o que eu dizia, o rapaz marcou um “X” numa rua qualquer, dizendo que, àquela mesma noite, estaria se apresentado ali, com outros músicos. “Te gusta la salsa? Tu és mi invitado, hermano!”, e disse que bastaria dizer meu nome ao segurança para ter acesso ao local.

Toda aquela dinâmica ia me envolvendo, deixando pouco espaço para o improviso; meu maior trunfo. Ele falava da música e dos brasileiros com super entusiasmo, como se a turnê dele fosse representar a etapa final da débâcle do Império! Ora me sentia homenageado, ora bobo.

Foi nesse instante, quando bobo era, que ele simplesmente me informou que eu teria de ajudá-lo. Que tinha mulher e filhos, e que la leche doada pelo gobierno ya era! E emendou: “Quanto você tem aí, na carteira?”. Eu, que me alimentava diariamente de quimeras humanistas, tinha diante de mim um legítimo farsante, e por ele era chantageado. A situação me era de um incômodo atroz, mas eu não encontrava meios para por fim àquilo!

Negar-lhe ajuda seria o mesmo que declarar que o ser humano é ganancioso, aproveitador, oportunista!... Exatamente o que ele era; exatamente o que eu não queria admitir que ele fosse.

Por outro lado, acreditar em seu engodo seria legitimar o hombre nuevo, que é solidário e desprendido.

Abri a carteira. Por sorte, somente 4 dólares. Entreguei o dinheiro, mas fiz questão de ir com ele à la vendita, onde logo entramos numa fila. A esta altura, mi compadre já não demonstrava tanta desenvoltura, senão preocupação. E cada vez mais, minha indignação resplandecia em meu rosto, fazendo com que meu semblante se fechasse e eu me aproximasse dele, quase o intimidando.

- Oigame, chico, que todavia tengo que coger uma platita a más, antes que me compre la leche...” -, e afastando-se, ainda gritou, “Esta noche!... No te olvides”, sumindo na próxima esquina.

Eu sabia que fora enganado, e ainda assim, não consegui evitar. Por horas, dias, anos, tenho repassado a cena, remontando o diálogo, compreendendo as nuances e armadilhas que minha malícia não evitou. Cair no conto do malandro cubano é algo que me marcou muito... Eram só 4 dólares!... Mas era também meu orgulho... E que se transformou numa lembrança que me traz tormento e arrependimento.

Oito anos se passaram, completados hoje. E somente aqui, agora, redigindo este texto, na labuta diária, nesse precioso exercício literário, consegui, enfim, entender o porquê da minha complacência. E compreendi que eu não poderia realmente ter feito nada diferente.

O trunfo dele? Minha crença na humanidade.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O Homem em Constante Evolução Amorosa - Parte I


















Na foto de João Sassi, vê-se a morada provisória do cão.

Apesar de andarilho, e ainda que maltrapilho, nunca me afeiçoei a cães. Não mesmo.

São demasiado dependentes, carentes e empoeirados. E lambões, e sujões também.

Até mesmo na boquinha dos pequerruchos, encontram-se surpresas, daquelas inesquecíveis, como uma carcaça de passarinho recheada de vermezinhos. Tive a oportunidade de viver isso. Por isso só gosto de língua de gente.





E também os enclausurados e bem tratados dogs de apê, estes também tem seus momentos de real cachorrice. Passar a mão na pelugem macia é gostoso, e tem até quem curta deixá-lo sobre a própria cama, ou mesmo levar lambidas na cara. Parecem sublimar que, “lá em baixo”, na hora do recreio, o bestalhão deita e rola por entre carnicinhas e outros desejos urbanos. Caminha rasteiro, por entre mijadas outras, quando não, bostas poucas. E leva tudo pra dentro de casa, no pêlo, na pata ou na boca.

Por essas e por outras, titubeei quando recebi, de uma amiga, a proposta de cuidar de um cachorrinho que ela encontrara, esfarrapado, solto pelo mato. Teria de assumir uma responsabilidade, enfim. Deixar de ser uma folha que o vento leva quando quer, pr’onde quer. Atrelar uma vida à minha.

Ao mesmo tempo, via na empreitada a possibilidade de crescer, de evoluir. Fazer valer a metamorfose ambulante tão necessária à renovação da nossa espécie, e de tantas outras. Para quem prefere gato, não é simples aceitar um cachorro.

Ele chegou aqui com quatro meses. Vira-latex puro. Cara de bobo, mas, nem de longe, burro.

Comida duas vezes ao dia, sombra, cama e minha companhia; era o que ele tinha. Vivia solto por aí, fazendo o que queria. Engordou com o afeto. Parecia cachorro de grife. Cínico.

Desdenhava das refeições, e divertia-se vendo os passarinhos se empanturrarem com os grãos de sua ração. Solidário, convidava cães vagabundos para cearem aqui, e oferecia a eles o que os passarinhos não haviam comido. Bocejava. Só queria saber dos ossinhos de galeto. Ou da macarronada à bolonhesa, que eu só dava em ocasiões especiais.

Aprendi a acariciá-lo. A conversar com ele. E até suculentos ossos de porco processados industrialmente eu comprava, de quando em quando, obrigando-me a freqüentar a “seção dos cachorros”, no supermercado – algo até então inimaginável em minha vida. Gosto de vê-lo fazendo roc-roc, com os olhinhos fechados, bem de levinho, enquanto rói, esfacelando o ossinho... O Simba tava com a vida ganha.

Contudo, como 'poréns' são regra, e não exceção, Simba não pode fugir a ela. A falta de limites, a vida desregrada e cadelas em profusão viraram a cabeça do pequeno cão. Ele já não tinha tanta disponibilidade para mim, e também já não batia ponto aqui com tanta freqüência. Sumia, às vezes, por dias. Quando voltava, sempre muito sujo, improvisava uma ducha, até que fôssemos ao Córguin.

A única coisa da qual não abria mão era do carinho da noite. Aquele, que o dono dá logo que chega do trabalho. Simba esperava que eu abrisse a porta do carro e vinha, dengosamente, aninhar-se junto aos pedais, como um caracol de pêlos. Eu me sentia muito feliz porque ele, ao encostar a cabeça em minhas pernas, fazia questão de fazer uma respiração melosa e cativante. Era nosso momento mais íntimo. O que me fazia até ignorar as marcas deixadas em minha calça por suas patinhas sujas de barro. Preferia interpretá-las como “marcas de amor em nossos lençóis”.

Quando eu saía, o movimento era inverso. A ponto de um dia, vê-lo pelo espelho retrovisor, em sorrateiro flagrante, escapando para a esbórnia, nem bem eu ligara o carro, o farrista...

Numa manhã, alguns dias atrás, uma experiência chocante: vê-lo deitado em meio a uma poça de sangue. Sangue rubro, sangue puro. Tão verdadeiro e vermelho que parecia falso. Não identifiquei nenhum rasgo ou perfuração. Na boca também não; nem corte ou obturação. Era culpa de alguma cadela – a culpa é sempre delas.

Demorou quase dois dias, mas consegui vencer minhas ojerizas e levá-lo ao veterinário. Na fria saleta, tive o cuidado de olhá-lo sempre nos olhos, afagando-lhe a dor causada pelas injeções. Foi bom saber que não se tratava de uma doença venérea. Mas foi um corte feio no pirulito... A ponto de fazer um amigo meu deixar o local, com pressão baixa, quase chamando o Raul e o Magal. Simba quase vira eunuco.

Desde então, virei enfermeiro. Mal consigo acreditar...

Não é tão difícil oferecer-lhe comprimidos e analgésicos embutidos em uma bisnaga de salsicha (a cada 12hs, durante 10 dias), mas ter de confiná-lo, ainda que temporariamente, ao canil, um local onde nunca havia estado. Mas Simba é muito fodão; meio covarde e boiola, mas fodão. Simplesmente não abriu a boca. Não reclamou. A não ser quando borrifo jatos de repelente em sua genitália. Disso ele não gosta, nem eu.

Mas ele continua sangrando. O canil fica emporcalhado; eu passo água. Vassoura. Troco a água. Me enrosco no mato. Sujo a calça de sangue. E lhe faço carinho, muito carinho. Mesmo de noite, mesmo no escuro, à luz de velas, ignoro os insetos, as pulgas, a minha própria intolerância e lhe faço carinho. Nunca fiz tanto carinho.




.



obs:BOLETIM VETERINÁRIO (14/07) - às mulheres de coração apertado, informo: O elemento SIMBA encontra-se ainda em tratamento intensivo. Hoje, bem cedinho, por volta das sete, ele tava lindo, de orelhinhas baixas, olhando pra mim, sorrindo...


O Maltrapa