Laurinha não tinha nenhuma obrigação em casa, de onde só saía para ir ao Jardim de Infância, à tarde. Ele, ao contrário, teve de assumir inesperadamente o papel de “homenzinho do lar” logo após a morte precoce do pai. Atordoado, via a infância cada vez mais distante.
Ela, por outro lado, divertia-se com as caretas de chateação do irmão que, querendo fugir às suas provocações, apressava-se o máximo que podia, mas nunca o suficiente. Ainda deitada, Laurinha se aninhava junto aos travesseiros e dizia “Isso aqui tá tão quentinho, Paulinho... Vai pra aula, não, bobão!”
Ele não respondia, mas a fuzilava com o olhar ainda sonolento. Sentia saudades de quando era pequenino como ela. De quando a escola era pura brincadeira e ele não tinha qualquer ingerência sobre o próprio destino; sentia saudades de não ter responsabilidades. E pensava, invejoso: “Um dia ela cresce, e aí, vai ver!...”
A rotina dele fora radicalmente alterada. Agora, além de acordar muito cedo, Marcus Paulo tinha uma série de obrigações e tarefas; como lavar a louça, comprar pão e leite, e até mesmo pagar conta de água na lotérica.
Ainda que lhe sobrasse algum tempo para a vagabundagem de outrora, lhe chateava ter que intercalar seus momentos de menino com os de homenzinho. Nada era como antes, e por mais que desejasse, jamais voltaria a ser. Quando menos esperava, lá estava Dona Célia, sua mãe, a dar-lhe uma tarefa inesperada. "Faça por você, por nós e por seu pai, Paulinho", dizia ela, constrangendo o menino.
Naquela manhã, como em todas as outras, saiu apressado e não pode tomar o café que D. Célia deixara sobre a mesa, antes de sair, ainda de madrugada, para o trabalho.
O estômago vazio lhe aumentava não somente o mau-humor, mas também a sensação de frio. Assim que abriu a porta de casa, sentiu a ponta do nariz quase congelar. O vento uivava frio em suas orelhas de abano, o que lhe causou uma insatisfação ainda maior. Quando abriu a boca para dizer um palavrão, produziu fumacinhas que o lembraram da cama, esquecida, ainda quentinha...
Invejou uma vez mais a infância da irmã, trincou os dentes e pôs-se a caminhar. A escola ficava a trinta minutos de sua casa.
Apesar do martírio matinal, Marcus Paulo sempre gostou da paisagem produzida pelo frio. Gostava de ver o céu cinza-escuro, ainda que fosse dia. Gostava das árvores despeladas e enegrecidas, com seus galhos fantasmagóricos, perfiladas pela alameda, como soldados em reverência ao “Grande Líder Paulinho”. E gostava, sobretudo, do clima de placidez que tomava conta da vizinhança; as coisas, assim, “paradas”, eram-lhe mais fáceis de ser reparadas. Não fossem as orelhas de abano, seria o Inverno sua estação preferida!
Enquanto caminhava, deixou para trás o mau-humor, os travesseiros e o cobertos; seus sonhos agora eram outros.
Chegando ao colégio, porém, seguiu rabugento, sem trocar palavras com ninguém. Assim assistiu às aulas do primeiro período; calado e faminto.
Quando olhou para o grande relógio, sobre o quadro-negro, excitou-se; faltavam poucos minutos para a hora do recreio. Não tirou mais os olhos dele. O recreio era criminoso – somente 15 minutos! – e uma eventual perda de tempo poderia lhe custar caro.
A cada volta do ponteiro maior, um sorriso se insinuava em seu rosto. Quando soou a sineta, estava porta afora, zunindo pelos corredores.
Em trinta segundos, era mais um entre dezenas de moleques que se acotovelavam e se esgoelavam em frente à lanchonete, implorando para que uma das duas senhoras que ali atendiam lhe desse alguma atenção. Àquele instante, Marcus Paulo desejou ser maior e mais crescido do que era.
Não havia fila ou ordem; ganhava quem tinha o sovaco mais alto. A única esperança de ser notado requeria um tanto de força e outro tanto de sorte. Em meio aos cotovelos e sovacos mal-cheirosos, viu menino rindo e até chorando. Por fim, alcançou o balcão, sobre o qual se debruçou para então levantar a ficha e gritar, repetidamente: “Um cachorro-quente! Um cachorro–quente! Um cachor...”-, e ser atendido. Então, tudo mais silenciou...
Viu a ficha sendo tomada de sua mão por uma das senhoras, e ela conferindo o carimbo “cachorro-quente”. Viu quando a senhora pegou, de dentro dum cesto, o seu pão já envolto num saquinho plástico. Viu quando ela pegou a faca de serra e fez um corte em sua superfície macia. E quando abriu a tampa da panela de alumínio, deixando escapar uma inebriante quantidade de vapor quente. E também quando deitou a salsicha sobre o pão, finalizando tudo com uma caprichada concha de molho de tomate e cebola. “Tô!” -, disse ela, entregando-o a Paulinho.
Com seu bem mais precioso em mãos, a meta agora era conseguir sair – algo quase tão difícil quanto entrar. De cabeça baixa e o lanche junto ao peito, Marcus Paulo ergueu os cotovelos e saiu chifrando quem encontrasse à sua frente; só assim para lidar com o mundo-cão.
Da lanchonete, escapuliu pela lateral do pátio e desceu um lance de escadas, de onde avistou os pinheiros perfilados que lhe dariam a devida proteção. Caminhando pelo descampado, sentiu novamente o vento abanar suas orelhas, mas logo alcançou a árvore pretendida. Nela, as raízes cresceram a ponto de formarem uma reentrância que a ele servia como barreiras e, ao mesmo tempo, recosto. Ali, Paulinho costumava se aninhar às escondidas, envolto em sonhos e devaneios próprios de quem precisa de um tempo só seu para pensar nas coisas da vida.
Confortavelmente instalado em seu trono, olhou para os lados e não viu ninguém. Resolveu, então, abrir o saquinho plástico de seu lanche. Dali, viu a fumacinha que saía, fazendo com que sentisse a melhor das sensações, além de deixá-lo com a boca cheia d’água...
A primeira mordida era ritualizada, e também a segunda e todas as demais, até a última. Marcus Paulo não sabia, mas a cada mastigada, a cada engolida, sentia o tamanho do prazer que só a maturidade dos seus 11 anos podia lhe conferir. O resto do dia, passou-o felicíssimo.
Invejou uma vez mais a infância da irmã, trincou os dentes e pôs-se a caminhar. A escola ficava a trinta minutos de sua casa.
Apesar do martírio matinal, Marcus Paulo sempre gostou da paisagem produzida pelo frio. Gostava de ver o céu cinza-escuro, ainda que fosse dia. Gostava das árvores despeladas e enegrecidas, com seus galhos fantasmagóricos, perfiladas pela alameda, como soldados em reverência ao “Grande Líder Paulinho”. E gostava, sobretudo, do clima de placidez que tomava conta da vizinhança; as coisas, assim, “paradas”, eram-lhe mais fáceis de ser reparadas. Não fossem as orelhas de abano, seria o Inverno sua estação preferida!
Enquanto caminhava, deixou para trás o mau-humor, os travesseiros e o cobertos; seus sonhos agora eram outros.
Chegando ao colégio, porém, seguiu rabugento, sem trocar palavras com ninguém. Assim assistiu às aulas do primeiro período; calado e faminto.
Quando olhou para o grande relógio, sobre o quadro-negro, excitou-se; faltavam poucos minutos para a hora do recreio. Não tirou mais os olhos dele. O recreio era criminoso – somente 15 minutos! – e uma eventual perda de tempo poderia lhe custar caro.
A cada volta do ponteiro maior, um sorriso se insinuava em seu rosto. Quando soou a sineta, estava porta afora, zunindo pelos corredores.
Em trinta segundos, era mais um entre dezenas de moleques que se acotovelavam e se esgoelavam em frente à lanchonete, implorando para que uma das duas senhoras que ali atendiam lhe desse alguma atenção. Àquele instante, Marcus Paulo desejou ser maior e mais crescido do que era.
Não havia fila ou ordem; ganhava quem tinha o sovaco mais alto. A única esperança de ser notado requeria um tanto de força e outro tanto de sorte. Em meio aos cotovelos e sovacos mal-cheirosos, viu menino rindo e até chorando. Por fim, alcançou o balcão, sobre o qual se debruçou para então levantar a ficha e gritar, repetidamente: “Um cachorro-quente! Um cachorro–quente! Um cachor...”-, e ser atendido. Então, tudo mais silenciou...
Viu a ficha sendo tomada de sua mão por uma das senhoras, e ela conferindo o carimbo “cachorro-quente”. Viu quando a senhora pegou, de dentro dum cesto, o seu pão já envolto num saquinho plástico. Viu quando ela pegou a faca de serra e fez um corte em sua superfície macia. E quando abriu a tampa da panela de alumínio, deixando escapar uma inebriante quantidade de vapor quente. E também quando deitou a salsicha sobre o pão, finalizando tudo com uma caprichada concha de molho de tomate e cebola. “Tô!” -, disse ela, entregando-o a Paulinho.
Com seu bem mais precioso em mãos, a meta agora era conseguir sair – algo quase tão difícil quanto entrar. De cabeça baixa e o lanche junto ao peito, Marcus Paulo ergueu os cotovelos e saiu chifrando quem encontrasse à sua frente; só assim para lidar com o mundo-cão.
Da lanchonete, escapuliu pela lateral do pátio e desceu um lance de escadas, de onde avistou os pinheiros perfilados que lhe dariam a devida proteção. Caminhando pelo descampado, sentiu novamente o vento abanar suas orelhas, mas logo alcançou a árvore pretendida. Nela, as raízes cresceram a ponto de formarem uma reentrância que a ele servia como barreiras e, ao mesmo tempo, recosto. Ali, Paulinho costumava se aninhar às escondidas, envolto em sonhos e devaneios próprios de quem precisa de um tempo só seu para pensar nas coisas da vida.
Confortavelmente instalado em seu trono, olhou para os lados e não viu ninguém. Resolveu, então, abrir o saquinho plástico de seu lanche. Dali, viu a fumacinha que saía, fazendo com que sentisse a melhor das sensações, além de deixá-lo com a boca cheia d’água...
A primeira mordida era ritualizada, e também a segunda e todas as demais, até a última. Marcus Paulo não sabia, mas a cada mastigada, a cada engolida, sentia o tamanho do prazer que só a maturidade dos seus 11 anos podia lhe conferir. O resto do dia, passou-o felicíssimo.
