Um desses almofadinhas moralistas que preenchem as manhãs televisivas deste país abre seu programa anunciando que hoje é o Dia Nacional da Consciência Negra, mas avisa que não vai nem falar sobre racismo. Segundo ele, é a mesma coisa que falar de burrice; "nem vale a pena".
Para quem não sofre na pele o preconceito de pele é relativamente fácil dizer uma asneira assim.
Fiquei pensando se toda a gente preta do estúdio onde ele trabalha passasse a tratá-lo por aquele ”Branquelinho da Bunda de Geléia“; aposto que sua noção entre racismo e burrice ganharia novos contornos.
O racismo é fruto da ignorância e do preconceito disseminados, sistematica e triunfalmente, ao longo dos séculos.
Não se trata de uma patologia da pele alheia, mas da própria alma. Desenvolver a consciência sobre essa condição não é tarefa das mais fáceis. Implica em algo muito mais além do simples discernimento entre o certo e o errado, mas numa revisão crítica da nossa própria essência, reformulando profundamente a visão que temos de nós mesmo e do outro.
Não faz muito, num tempo em que eu já era nascido, um desses branquelinhos da bunda de geléia (e que se auto-intitulava Presidente da África do Sul), defendeu o apartheid pronunciando um irretocável sofisma: - "Diferenças existem e devem ser respeitadas! Por isso é que defendemos que os brancos devem continuar a serem tratados como brancos e os negros como negros - que é o que são." Nesse tempo, Nelson Mandela já se encontrava preso numa ilha, condenado à prisão perpétua, enquanto a comunidade internacional se calava - exatamente como o branquelinho mudo da TV.
Sobre Mandela, aliás, reconheço que sabia muito pouco. Não imaginava, por exemplo, que ele fora um brilhante advogado ou um ativo praticante do boxe, e também que era alto, forte e bonito, sendo admirado por todos, à exceção (claro!) dos branquelinhos, que temiam o negão, de quase se cagarem nas calças. Mandela os olhava nos olhos.
Certa vez, foi ao tribunal como advogado de defesa de um rapaz preto acusado de estuprar uma jovem branca. O juízes, promotores e advogados de bunda de geléia não toleravam o olhar altivo de Mandela, e era esperada uma condenação exemplar. Com o efeito, a missão de Nelsinho era inglória: Como travar um debate justo com uma gente eivada de preconceito e orgulhosa do racismo que exibiam como bandeira?
Contrariando as normas de então, solicitou a presença da vítima para que pudesse, ele mesmo, inquiri-la sobre o ocorrido! Não obstante tal "infâmia", o tenaz advogado aproximou-se da pobre moça e, em tom claro, para que todos os presentes pudessem escutar, perguntou-lhe em que condições havia se dado o estupro, e em que momento se dera a penetração. A jovem entrou em pânico.
Afinal, como revelar detalhes tão sórdidos em frente a todos seus familiares e membros de sua casta? Como admitir um ato tão vil e nojento, se somente a idéia de haver sido penetrada por um homem de cor lhe era de tal modo repugnante que faria, dela mesma, uma mulher para sempre condenada moral e fisicamente por sua própria gente?
Por fim, ela negou veementemente a possibilidade de haver sido violentada, pondo fim ao julgamento e dando a liberdade a um criminoso. O desejo de vingança sucumbiu ao ódio que ela mesma carregava em seu DNA. O preconceito dela fora maior que o próprio trauma emocional e da dor que certamente a acompanharia pelo resto da vida.
Mandela, tal como Gandhi, João Cândido ou Zumbi dos Palmares são exemplos lapidais de uma gente que, mesmo sob o tacão da violência, do preconceito e do racismo, ofereceram a inteligência como instrumento de resistência e liberdade.
Ter uma bunda de geléia não é uma escolha nossa; preservar sua cabeça cheia de cocô é. Um dia aprenderemos.
Para quem não sofre na pele o preconceito de pele é relativamente fácil dizer uma asneira assim.
Fiquei pensando se toda a gente preta do estúdio onde ele trabalha passasse a tratá-lo por aquele ”Branquelinho da Bunda de Geléia“; aposto que sua noção entre racismo e burrice ganharia novos contornos.
O racismo é fruto da ignorância e do preconceito disseminados, sistematica e triunfalmente, ao longo dos séculos.
Não se trata de uma patologia da pele alheia, mas da própria alma. Desenvolver a consciência sobre essa condição não é tarefa das mais fáceis. Implica em algo muito mais além do simples discernimento entre o certo e o errado, mas numa revisão crítica da nossa própria essência, reformulando profundamente a visão que temos de nós mesmo e do outro.
Não faz muito, num tempo em que eu já era nascido, um desses branquelinhos da bunda de geléia (e que se auto-intitulava Presidente da África do Sul), defendeu o apartheid pronunciando um irretocável sofisma: - "Diferenças existem e devem ser respeitadas! Por isso é que defendemos que os brancos devem continuar a serem tratados como brancos e os negros como negros - que é o que são." Nesse tempo, Nelson Mandela já se encontrava preso numa ilha, condenado à prisão perpétua, enquanto a comunidade internacional se calava - exatamente como o branquelinho mudo da TV.
Sobre Mandela, aliás, reconheço que sabia muito pouco. Não imaginava, por exemplo, que ele fora um brilhante advogado ou um ativo praticante do boxe, e também que era alto, forte e bonito, sendo admirado por todos, à exceção (claro!) dos branquelinhos, que temiam o negão, de quase se cagarem nas calças. Mandela os olhava nos olhos.
Certa vez, foi ao tribunal como advogado de defesa de um rapaz preto acusado de estuprar uma jovem branca. O juízes, promotores e advogados de bunda de geléia não toleravam o olhar altivo de Mandela, e era esperada uma condenação exemplar. Com o efeito, a missão de Nelsinho era inglória: Como travar um debate justo com uma gente eivada de preconceito e orgulhosa do racismo que exibiam como bandeira?
Contrariando as normas de então, solicitou a presença da vítima para que pudesse, ele mesmo, inquiri-la sobre o ocorrido! Não obstante tal "infâmia", o tenaz advogado aproximou-se da pobre moça e, em tom claro, para que todos os presentes pudessem escutar, perguntou-lhe em que condições havia se dado o estupro, e em que momento se dera a penetração. A jovem entrou em pânico.
Afinal, como revelar detalhes tão sórdidos em frente a todos seus familiares e membros de sua casta? Como admitir um ato tão vil e nojento, se somente a idéia de haver sido penetrada por um homem de cor lhe era de tal modo repugnante que faria, dela mesma, uma mulher para sempre condenada moral e fisicamente por sua própria gente?
Por fim, ela negou veementemente a possibilidade de haver sido violentada, pondo fim ao julgamento e dando a liberdade a um criminoso. O desejo de vingança sucumbiu ao ódio que ela mesma carregava em seu DNA. O preconceito dela fora maior que o próprio trauma emocional e da dor que certamente a acompanharia pelo resto da vida.
Mandela, tal como Gandhi, João Cândido ou Zumbi dos Palmares são exemplos lapidais de uma gente que, mesmo sob o tacão da violência, do preconceito e do racismo, ofereceram a inteligência como instrumento de resistência e liberdade.
Ter uma bunda de geléia não é uma escolha nossa; preservar sua cabeça cheia de cocô é. Um dia aprenderemos.
