A Moça dos Pastéis se arruma para o trabalho.
Ser consultor de finanças de uma multinacional era mera conseqüência de sua introspecção. Aos 25 anos, Igor, moço tímido e de gestos contidos, sempre buscou na exatidão da ciência as respostas para a própria existência e também a satisfação que não dispunha para dar ao próprio coração.
Foi assim, na solitária infância de um filho sem irmãos e, com mais ênfase, na adolescência, quando não fez amigos ou - menos ainda - namoradas.
Não que fosse feio – não era -, mas uma rígida educação religiosa atrelada à insegurança de uma mãe abandonada pelo marido terminou por impingir-lhe à personalidade um forte conservadorismo, e isso o impedia de ir além das recomendações domésticas.
Em casa, nada era feito sem a amarga anuência da mãe. Mesmo quando tomava a atitude correta, não recebia elogios ou reconhecimentos.
O medo de um novo abandono fez com que a mãe o tratasse com aparente desvelo. Mas o carinho cotidiano, Igor não recebia. Nem o toque amoroso. Nem palavras de conforto que lhe fortalecessem o espírito. Ao contrário, a cada dia Igor ia se sentindo menos do que era. E entendeu que, para não ser repreendido, bastava que acatasse as vontades de sua mãe. Tornou-se, por vias tortas, um ser demasiadamente respeitador.
Não tivera um pai em quem se espelhar. A respeito de quem, aliás, sempre escutou as piores coisas, exaustivamente pontuadas por sua magoada mãezinha: – Um mulherengo! Homem sem respeito! Que não sabe o que é a Família!... Um pervertido!... – e completava, olhando para o jovem Igor: Não olhes jamais para mulheres da rua, meu filho; não seja um desgraçado aos olhos de Deus, como foi teu pai.
Para Igor, todas as mulheres que via na rua eram mulheres da rua. E apesar de admirá-las em seu íntimo, não demonstrava qualquer apreço por medo de desgraçar-se.
Do mesmo modo que entrou na faculdade de economia, saiu: com medo da desgraça divina e um crescente pavor da presença feminina. Esperava, aliás, que um dia o Senhor lhe pusesse à frente uma mulher de caráter ilibado e modos corretos. E quando isso ocorresse – estava certo – saberia reconhecê-la.
Por ora, preferia refugiar-se em números, cálculos e fórmulas que, mesmo sem falas ou gestos, eram os únicos a lhe darem alguma satisfação. Escutar primos e amigos relatarem suas experiências amorosas foi deixando de lhe ser excitante, tornando-se cada vez mais angustiante.
Isso, porém, começou a mudar com o novo emprego. Não por conta do ofício, encarado sempre com seriedade e mesmo prazer, mas por conta da moça dos pastéis.
Dela, nunca perguntou nada. Nem ousou trocar olhares. Temia ser mal interpretado; que lhe pensassem coisas vãs, levianas, e mesmo pecaminosas! Mas fazia questão de sair de casa com espaço na barriga reservado para dois pastéis de palmito. Era um momento raro em sua vida, quando se permitia esquecer um pouco da exatidão dos números.
Encolhia-se sempre num canto do balcão, de onde sonhava com essa moça a preparar-lhe pastéis – todos-, podendo fitá-la por horas, sem a necessidade de revelar seus verdadeiros desejos. Mas não ousava sequer pensar na hipótese de um diálogo – Não! Afinal, via-se que, apesar de bela, era “da rua”.
Ainda que fosse discreta – e ela era -, uma moça distinta não usaria aquele tipo de maquiagem. E também aquele cabelo em coque, revelando a desconcertante nudez de sua nuca. Nem saias como aquelas, que lhe deixavam as grossas coxas à mostra. E também as sandálias, sempre de salto, que revelavam o firme torneado de suas panturrilhas e tornozelos. E o olhar? O que dizer daqueles olhos amendoados em verde-claro? Ou daquele rosto, cujas maçãs davam para se comer?... Enfim, não havia dúvidas: era gente da ralé!
Quando ela faltava, já tendo ele comprado as fichas no caixa, revoltava-se, metendo os pastéis num saco para, em seguida, abandoná-los na primeira lixeira. “Só me servem se forem dela”, pensava, resignado.
Na empresa, toda aquela devoção aos números e às tarefas lhe conferiu célere projeção. Era invejado, admirado – até respeitado! -, mas não sabia disso.
E assim, alheio ao mundo, Igor chegou ao trabalho para cumprir apenas meia jornada; era 31 de dezembro.
Naquela manhã, encontrou a moça dos pastéis mais bonita que nunca. Não havia nada de diferente na roupa ou no cabelo, mas seu espírito estava reveladoramente festivo. Atento a tudo, Igor observou-a preparando uma grande jarra de suco. Mas estranhou que não o tivesse servido a ninguém. Instintivamente, deixou escapar:
- É de limão?
Ela então levantou os olhos, fazendo Igor estremecer. Nunca haviam ido além dos pastéis...
- Sim, é de limão... – disse, servindo-lhe no mesmo copo em que bebia. Nervoso, e sem saber o que dizer, Igor entornou o copo inteiro para dentro, o que lhe trouxe a indescritível (e até então por ele desconhecida) sensação do calor alcoólico. –É caipirinha -, revelou ela, sorrindo maliciosamente. E estava agora mais linda do que nunca!
E Igor, mais do que calor, sentiu euforia. A surpresa lhe parecia ter retirado as amarras da alma; queria mais!
Ainda com os olhos lacrimejantes, Igor devolveu-lhe o sorriso, mas antes que pudesse revelar sua felicidade, percebeu a intensa movimentação de funcionários em direção à portaria do edifício. –Deus meu! Estou trabalhando!!!-, pensou. E apressou-se em devolver o copo e desejar-lhe um feliz ano novo, para sair, atabalhoadamente.
-Mais tarde tem mais! -, ainda gritou ela.
Passou toda a manhã em grande conturbação. Não fez cálculos matemáticos, não atualizou qualquer planilha, não produziu, enfim, nada! –Encarnou o espírito do réveillon, Igor? -, observou um colega, insinuando que o respeitável funcionário estivesse com a cabeça nas nuvens. E estava mesmo.
Igor nem respondeu. Estava fascinado como uma criança em seu último dia de aula. Nunca sentira aquilo antes; uma euforia tão genuína, uma alegria tão intensa, somente... Somente por estar vivo! E o melhor é que o sorriso da moça dos pastéis aparecia em todos os seus pensamentos, acariciando-lhe o ego virgem. O olhar que ela lançou sobre ele, então, provocava pontadas logo abaixo do estômago.
Ao meio-dia, a liberdade!
Bateu o ponto antes mesmo que os demais. No caminho, pensava em beber mais um copo de caipirinha, em comer mais uns pastéis para, então, convidar aquela moça para um passeio. Agora, ela já não se parecia mais com uma qualquer. Nada disso. Pensava nela ao seu lado, assistindo à TV, preparando o jantar, cuidando das crianças...
Quando chegou à lanchonete, porém, não a viu. E perguntou por ela:
Foi assim, na solitária infância de um filho sem irmãos e, com mais ênfase, na adolescência, quando não fez amigos ou - menos ainda - namoradas.
Não que fosse feio – não era -, mas uma rígida educação religiosa atrelada à insegurança de uma mãe abandonada pelo marido terminou por impingir-lhe à personalidade um forte conservadorismo, e isso o impedia de ir além das recomendações domésticas.
Em casa, nada era feito sem a amarga anuência da mãe. Mesmo quando tomava a atitude correta, não recebia elogios ou reconhecimentos.
O medo de um novo abandono fez com que a mãe o tratasse com aparente desvelo. Mas o carinho cotidiano, Igor não recebia. Nem o toque amoroso. Nem palavras de conforto que lhe fortalecessem o espírito. Ao contrário, a cada dia Igor ia se sentindo menos do que era. E entendeu que, para não ser repreendido, bastava que acatasse as vontades de sua mãe. Tornou-se, por vias tortas, um ser demasiadamente respeitador.
Não tivera um pai em quem se espelhar. A respeito de quem, aliás, sempre escutou as piores coisas, exaustivamente pontuadas por sua magoada mãezinha: – Um mulherengo! Homem sem respeito! Que não sabe o que é a Família!... Um pervertido!... – e completava, olhando para o jovem Igor: Não olhes jamais para mulheres da rua, meu filho; não seja um desgraçado aos olhos de Deus, como foi teu pai.
Para Igor, todas as mulheres que via na rua eram mulheres da rua. E apesar de admirá-las em seu íntimo, não demonstrava qualquer apreço por medo de desgraçar-se.
Do mesmo modo que entrou na faculdade de economia, saiu: com medo da desgraça divina e um crescente pavor da presença feminina. Esperava, aliás, que um dia o Senhor lhe pusesse à frente uma mulher de caráter ilibado e modos corretos. E quando isso ocorresse – estava certo – saberia reconhecê-la.
Por ora, preferia refugiar-se em números, cálculos e fórmulas que, mesmo sem falas ou gestos, eram os únicos a lhe darem alguma satisfação. Escutar primos e amigos relatarem suas experiências amorosas foi deixando de lhe ser excitante, tornando-se cada vez mais angustiante.
Isso, porém, começou a mudar com o novo emprego. Não por conta do ofício, encarado sempre com seriedade e mesmo prazer, mas por conta da moça dos pastéis.
Dela, nunca perguntou nada. Nem ousou trocar olhares. Temia ser mal interpretado; que lhe pensassem coisas vãs, levianas, e mesmo pecaminosas! Mas fazia questão de sair de casa com espaço na barriga reservado para dois pastéis de palmito. Era um momento raro em sua vida, quando se permitia esquecer um pouco da exatidão dos números.
Encolhia-se sempre num canto do balcão, de onde sonhava com essa moça a preparar-lhe pastéis – todos-, podendo fitá-la por horas, sem a necessidade de revelar seus verdadeiros desejos. Mas não ousava sequer pensar na hipótese de um diálogo – Não! Afinal, via-se que, apesar de bela, era “da rua”.
Ainda que fosse discreta – e ela era -, uma moça distinta não usaria aquele tipo de maquiagem. E também aquele cabelo em coque, revelando a desconcertante nudez de sua nuca. Nem saias como aquelas, que lhe deixavam as grossas coxas à mostra. E também as sandálias, sempre de salto, que revelavam o firme torneado de suas panturrilhas e tornozelos. E o olhar? O que dizer daqueles olhos amendoados em verde-claro? Ou daquele rosto, cujas maçãs davam para se comer?... Enfim, não havia dúvidas: era gente da ralé!
Quando ela faltava, já tendo ele comprado as fichas no caixa, revoltava-se, metendo os pastéis num saco para, em seguida, abandoná-los na primeira lixeira. “Só me servem se forem dela”, pensava, resignado.
Na empresa, toda aquela devoção aos números e às tarefas lhe conferiu célere projeção. Era invejado, admirado – até respeitado! -, mas não sabia disso.
E assim, alheio ao mundo, Igor chegou ao trabalho para cumprir apenas meia jornada; era 31 de dezembro.
Naquela manhã, encontrou a moça dos pastéis mais bonita que nunca. Não havia nada de diferente na roupa ou no cabelo, mas seu espírito estava reveladoramente festivo. Atento a tudo, Igor observou-a preparando uma grande jarra de suco. Mas estranhou que não o tivesse servido a ninguém. Instintivamente, deixou escapar:
- É de limão?
Ela então levantou os olhos, fazendo Igor estremecer. Nunca haviam ido além dos pastéis...
- Sim, é de limão... – disse, servindo-lhe no mesmo copo em que bebia. Nervoso, e sem saber o que dizer, Igor entornou o copo inteiro para dentro, o que lhe trouxe a indescritível (e até então por ele desconhecida) sensação do calor alcoólico. –É caipirinha -, revelou ela, sorrindo maliciosamente. E estava agora mais linda do que nunca!
E Igor, mais do que calor, sentiu euforia. A surpresa lhe parecia ter retirado as amarras da alma; queria mais!
Ainda com os olhos lacrimejantes, Igor devolveu-lhe o sorriso, mas antes que pudesse revelar sua felicidade, percebeu a intensa movimentação de funcionários em direção à portaria do edifício. –Deus meu! Estou trabalhando!!!-, pensou. E apressou-se em devolver o copo e desejar-lhe um feliz ano novo, para sair, atabalhoadamente.
-Mais tarde tem mais! -, ainda gritou ela.
Passou toda a manhã em grande conturbação. Não fez cálculos matemáticos, não atualizou qualquer planilha, não produziu, enfim, nada! –Encarnou o espírito do réveillon, Igor? -, observou um colega, insinuando que o respeitável funcionário estivesse com a cabeça nas nuvens. E estava mesmo.
Igor nem respondeu. Estava fascinado como uma criança em seu último dia de aula. Nunca sentira aquilo antes; uma euforia tão genuína, uma alegria tão intensa, somente... Somente por estar vivo! E o melhor é que o sorriso da moça dos pastéis aparecia em todos os seus pensamentos, acariciando-lhe o ego virgem. O olhar que ela lançou sobre ele, então, provocava pontadas logo abaixo do estômago.
Ao meio-dia, a liberdade!
Bateu o ponto antes mesmo que os demais. No caminho, pensava em beber mais um copo de caipirinha, em comer mais uns pastéis para, então, convidar aquela moça para um passeio. Agora, ela já não se parecia mais com uma qualquer. Nada disso. Pensava nela ao seu lado, assistindo à TV, preparando o jantar, cuidando das crianças...
Quando chegou à lanchonete, porém, não a viu. E perguntou por ela:
- Ei, você aí, do caldo de cana! Cadê a moça dos pastéis?!
- A "Peruana"? Encheu a cara e bateu boca com o dono. Foi despedida na hora! Saiu daqui diretim pra rodô!
Perguntou pelo nome e pelo endereço, mas ninguém sabia: - Dizem que veio da Bolívia, e que estava ilegal aqui. Ninguém sabe mais nada. Parece que mora com uma amiga em Águas Lindas...
Por breves segundos, entre a decepção, a raiva e o delírio, Igor pensou em ir atrás dela. Mas como, se não sabia sequer o nome? E onde, se não tinha qualquer referência?
Naquele dia, não voltou para casa. E após as festas de fim de ano, também não retornou ao trabalho. O único que informava alguma coisa era o rapaz do caldo de cana, que diz ter ouvido que Igor agora vende pastéis em Águas Lindas... E vai muito bem.
Perguntou pelo nome e pelo endereço, mas ninguém sabia: - Dizem que veio da Bolívia, e que estava ilegal aqui. Ninguém sabe mais nada. Parece que mora com uma amiga em Águas Lindas...
Por breves segundos, entre a decepção, a raiva e o delírio, Igor pensou em ir atrás dela. Mas como, se não sabia sequer o nome? E onde, se não tinha qualquer referência?
Naquele dia, não voltou para casa. E após as festas de fim de ano, também não retornou ao trabalho. O único que informava alguma coisa era o rapaz do caldo de cana, que diz ter ouvido que Igor agora vende pastéis em Águas Lindas... E vai muito bem.
