Caminhando pelos corredores que dão acesso à sala do cinema, procuro por alguma sinalização que indique o caminho do banheiro. Era a primeira sessão do dia e o lugar estava completamente vazio.
Mesmo na entrada, não havia mais ninguém além do pipoqueiro e das moças da bilheteria, que logo estranharam aquele gorrinho de cholito boliviano enfiado na minha cabeça.
As paredes e o piso bem acarpetados impediam a propagação dos sons externos ou internos, o que, aliado ao lúgubre aconchegante do local, emprestava uma certa dose de emoção ao percurso.
Uma vez no WC, a sensação é a de se estar num filme de suspense. O barulho do xixi; o da braguilha sendo fechada; a descarga; a torneira se abrindo; o papel para secar as mãos – sons que parecem se amplificar ante o silêncio reinante.
De volta ao corredor, busco pela sala 10... Então escuto um burburinho que indica a presença de um grupo de mulheres se aproximando: é o batalhão das zeladoras, com seus carrinhos de limpeza e esfregões à mão.
Conversavam animadamente sobre isso e aquilo – umas por cima das outras -, ensejando àquela centelha de tempo que antecede a labuta do dia-dia um prazer igualmente cotidiano.
Noto que, uma a uma, todas vão se calando, à medida que vou passando. Abro a porta da sala ainda “escutando” o silêncio delas. Antes de entrar, me viro subitamente e declaro: “Não podem nem ver um homem alto com um chapeuzinho maneiro, de manhã, que ficam logo com cara de boba, né?"
E o filme foi massa.
