terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Canto do Passarinho





Se não fosse apresentado por Letícia como sendo seu marido, poderia se desconfiar que Silvestre fosse apenas um dos funcionários daquela aconchegante pousadinha à beira-mar.

Simplório, andava sempre de cabeça baixa, amuado, mesmo passando a impressão de que haveria ali, dentro de seu peito, um passarinho cantador. Como aqueles que costumava capturar nos arredores de Arapiraca, sua cidade-natal, encravada no coração das Alagoas (cujo desenho no mapa, aliás, se parece mesmo com um coração). Sangues-de-bi, papa-capins, galos de campina, extravagantes, rolinhas, craúnas, caboclinhos, manés-magros, canários-da-terra, azulões e sanhaços, mesmo engaiolados, cantavam músicas que lhe propiciavam a sensação de uma liberdade que não encontrava em casa sob o pesado tacão do pai, Seu Silvestre. É bem natural que, por conta daqueles anos, Silvestre, o filho, carregasse agora um pouco de angústia no olhar, e certa tristeza, além de duas gaiolas, ora vazias.

A mulher, paulista desgarrada, há muito fizera do sonho sulista uma realidade; mudar-se do inferno citadino para uma praia do Nordeste, com direito a pousada de frente para o mar. Trabalhava noite e dia, sempre com um cigarro aceso entre os dedos e uma expressão indefinidamente preocupada. Agia de sobressalto, quase assustada.

Conheceram-se em Maceió, quando ela chefiava um bom restaurante. Puderam desfrutar da paixão ao sabor de lagostas e camarões. Silvestre sentia-se bem na capital. Tinha casa, comida, roupa lavada e tempo para cuidar de seus pintassilgos. E fazia Letícia muito feliz na cama. A química vinha funcionando bem, até que o lado empresarial da relação – o dela, óbvio – resolveu apostar no aconchego da tal pousadinha à beira-mar, numa pequena comunidade de pescadores. Foi quando Silvestre deixou de ser namorado e passou a ser pau mandado. A apresentação “meu marido” era meramente uma formalidade – e a única distinção entre ele e os demais empregados do estabelecimento.

Foi nestas condições de desalento que Silvestre teve contato com Faustino Dantas, um escritor desconhecido, já de idade, que acabara de se hospedar para descansar e, quem sabe, buscar inspiração para escrever um bom livro.

Logo que viu o velho instalar uma mesinha na varanda em frente ao quarto, e sobre ela uma antiga máquina de escrever, Silvestre se tomou de encantamento. Durante toda a infância sonhara aprender a ler e escrever para poder ao menos “triscar” num modelo semelhante àquele, que havia em sua casa, comprado de segunda mão por Seu Silvestre, quem, por ser também analfabeto, não sabia usá-la e tampouco permitia aos filhos fazê-lo. Silvam, o irmão mais novo, um dia se meteu a porreta e desrespeitou a norma; tomou uma sova tão impiedosa que a dor do pequeno bateu fundo na alma de todos, que jamais ousaram repetir a traquinagem. Para Seu Silvestre a máquina de escrever era um símbolo de importância - um objeto para se ostentar -, e não uma máquina de escrever. Também por isso, Silvestre se tornou, quando adulto, um semi-analfabeto, um quase-matuto. É do tipo já crescido que nunca tinha ouvido falar em Machado de Assis... Até conhecer Faustino.


Que, por sua vez, passava o dia a escrever, à exceção de breves momentos em que se metia no quarto para fumar maconha – o que produzia grandes barrufos de fumaça, basculante afora – para depois, mais arejado, voltar à labuta. Silvestre aproveitava esses instantes para se aproximar e ouvir do “sábio” suas idéias. Achava-as por demais interessantes.

O velho dizia sentir saudade do tempo em que era moço, quando “o ritmo da vida era mais parecido com o ritmo da gente”. Silvestre, que da infância só gostava do canto dos passarinhos, concordava com o escritor:

   - Hoje a gente tudo só sabe corrê, né, Seu Faustino? – no que prosseguia o pseudo-filósofo:
   - Corre-se muito, mas sem saber por que...

Dava-se um momento de silêncio, quando se podia perceber a aflição na alma de Silvestre. Queria dizer algo, mas não sabia o que. E o romancista voltava às teclas.

Mesmo curtos, os diálogos iam despertando alguma coisa diferente em Silvestre. Um dia, apareceu e, inadvertidamente, pediu a Faustino “um fininho”. Ao receber mais que isso das mãos do velho maconheiro, pediu-lhe também que não contasse nada à Letícia: - “Ela não pode nem sonhar!”.

Por cinco dias, Silvestre desapareceu da vista dos hóspedes. O próprio Faustino o vira apenas uma vez, certa noite, em meio à escuridão mansa das pequenas vilas praianas. Parecia assustado, tendo apenas acenado com a cabeça e sumido em meio ao sombreado dos coqueirais.

Na noite seguinte resolveu dar as caras.

Faustino escrevia quando Silvestre surgiu. Trazia um semblante tenso, embora tentasse forjar um sorriso. Normalmente Faustino dava atenção a ele quando não estava trabalhando; desta feita, porém, não é o que ocorria. Mesmo assim, Silvestre permaneceu parado, aguardando a anuência do escritor que, por fim, cessou o movimento das mãos e levantou a vista:

   - O que se passa, Silvestre? – perguntou.

Após morder um pouco o dedão da mão direita, respondeu:

   - A maconha me deixa anti-social.
   - Ah... Por isso estava sumido? Preferiu se enrustir...
   - É... Foi isso. Mas, na verdade, é porque eu não tô feliz.
   - (...) Como assim?
   - Casar e trabalhar juntos... Não dá certo! E essa mulher não para de me dar ordem! Não consigo nem ver o mar, diacho!  Parece meu pai!...

    De repente e inesperadamente, Faustino era agora confidente de um homem que, aliviado por encontrá-lo, dava conta de sua vida, de sua intimidade e de suas angústias a um total desconhecido. Constrangido, o escritor olhava para um lado e para o outro, a ver se alguém, especialmente Letícia, os poderia escutar, apesar do chuá-chuá das ondas do mar. É que as águas marítimas são traiçoeiras: assim como podem abafar o falar com o vento, podem levar longe nosso argumento. Interrompeu as lamúrias do pobre capacho com um conselho:

   - Sonhar o sonho de sua companheira pode ser nobre, mas se tornará angustiante caso este não seja também o seu sonho.

O olhar de Silvestre brilhou como a superfície de um açude após o fim da estiagem, e seu semblante, enfim, tomou feições menos melancólicas. Foi quando apareceu Tommy, um senhor americano hospedado no quarto ao lado, que arranhava o português. Com as bochechas vermelhíssimas e completamente alheio ao momento, disse que tinha uma ótima piada para contar ao escritor. Este, já destituído de sua condição, não teve como deixar de atender ao pedido do gringo.

Forçado a rir ao menos um pouquinho por conta da falta de graça da piada, Faustino já se despedia de ambos quando Silvestre pediu para entrar também no samba. E mandou outra que de tão ruim, não se podia sequer compreender. Mas a poderosa gargalhada de Tommy forçava os envolvidos a repetir o ritual de cumplicidade, dando risadas e se entreolhando, como quem diz “puxa, essa foi demais!”.

Então, num ato de pura vilania, aparece Letícia, dando ordens a Silvestre para que fosse fazer qualquer merda, menos estar ali, de desfrute com os hóspedes.

Empolgado com a consciência de sua própria condição, e firme no novo propósito de respeitar o próprio sonho, Silvestre comenta:

   - Sim, já vou. Deixa só eu contar essa piad...
   - É agora.
   - Já entendi, vou já; é só contar...
   - Tem que trabalhar, rapaz! – exclamou ela, já chutando o balde, deixando o local.

Como é comum aos machos quando uma mulher dá faniquito, ignoraram a situação e voltaram às gargalhadas. Mas Letícia não estava para levar desaforos. Em menos de um minuto já estava de volta, cigarrinho nervoso à mão:

   - Silvestre!...

São horas assim que determinam se o homem vai ser homem ou vai se conformar em ser eternamente um menino. Como quem abre uma gaiola para libertar uma passarada, Silvestre se voltou para a mulher como se fosse ele o “dono da terra”. E em tom próprio do coronelato da região, emendou, ameaçadoramente:
  - Não está vendo que estou conversando com meus amigos, Letícia? Entendeu ou quer que eu lhe faça entender?!

No dia seguinte, apenas os empregados trabalharam. Após passarem o dia inteiro trancafiados, Silvestre e Letícia foram vistos, já com o sol se pondo lá no fim do mar, numa bem servida mesa de mariscos e crustáceos, com direito a taça de espumante, camisa desabotoada até o peito e um grande sorriso no rosto...

Passarinho canta mais bonito quando canta fora da gaiola.


foto de marcya reis



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Personna Mutantis

Uma Nova Humanidade
"Não, não tenho caminho novo, o que tenho de novo é o jeito de caminhar."

      Thiago de Mello

Fala sério que já estamos em 2012? Putz, quem aguenta essa pressa? Na boa; isso está ficando chato!

Entra ano, sai ano, e é sempre a mesma coisa; neguinho tentando nos enfiar goela abaixo a eterna sensação da esperança naquilo que é “novo”. Como se o bonito invólucro transformasse o produto!

Por acaso alguém conhece um psicopata que foi tocado pelo condão da Fada Sininho, em noite de Ano Bom, tornando-se, a partir de então, um cordato cidadão? Ou um político que seja ex-ladrão, que tenha se arrependido da corrupção no ápice da comemoração, tornando-se exemplo ao correligionário de ocasião?

Ou será que, dentre os premiadíssimos leitores, há aquele que tenha decidido que a partir da virada de ano, passaria a lavar as mãos após dar aquela sacudida no bilau? Respingos e gotículas à parte, balela total, né não? (Nota: este Maltrapa lava)

Eu, pelo menos, não me lembro de nenhuma mulher haver dito: “Como é ano-novo, resolvi parar de dar em cima de homem casado!”. Na verdade, podem até dizer, mas cadê aquela que tenha cumprido a promessa?  Cadê? Mostra aí!...

Mesmo em tempo de “amor e esperança”, tem muito morador que buzina em área residencial, e não vi indício de que iriam deixar de fazê-lo por conta do ano que chega. Ou de desperdiçar um Nilo de água, lavando o calçamento e, pasmem, o asfalto em frente a suas casas; não vi menção de que tão cedo reveriam seus conceitos. Nem o show do Roberto Carlos em Jerusalém foi capaz de motivá-los a tal, ainda que suas mensagens sejam tão ao gosto da classe-média da Capital.

Não vi também qualquer anúncio oficial quanto à possibilidade da nossa Presidenta passar a discutir questões delicadas - conquanto sejam de um estrondoso e negativo impacto humano e ambiental - de um modo digno e responsável. Belo Monte?  Porto de Ilhéus? Devastação de Mata-Atlântica virgem, Floresta Amazônica, comunidades ribeirinhas, povos indígenas, corais e manguezais? “Ah, tá...” – disse ela. E pensar que, só porque o ano é novinho, o modus operandi da política vai mudar? Só o Tiririca tem a resposta, né, abestado?

Na boa, alguém aqui acha que uma bela noite de Réveillon - bebendo a melhor cachaça do mundo, esticada no palheiro do celeiro, em meio a todos os bezerros de sua fazenda - fará Kátia Abreu se tornar mais amorosa? Ou educada? Ou respeitosa? Fará? Só mesmo se o menino-Jesus saísse da garrafa para tocar aquele coração de soja...

Mas se, então, toda a energia pretensamente positiva emanada pela humanidade fosse realmente aproveitada pelo cosmos, transformando-se, pois, em combustível para mudanças reais em nossa existência? Que nos estimulasse a pensar na pequenez do modelo de vida que o mundo abraçou; feio, sujo, malvado... No qual os atuais bambambãs são pessoas que agem à imagem e semelhança desse modelo desumano, sendo ainda invejadas e copiadas por bilhões.
 Afinal, quem aguenta viver de tanto simulacro?

Quem aguenta o Natal tão material? Ou o Réveillon sem ritual? O que dizer sobre o atual Carnaval?  O São João? Os coitados do São Cosme e Damião? Cadê a essência dessa bodega?  Até os sacrossantos ovos da Páscoa, esses canalhas conseguiram piorar e diminuir; puta merda!

Será mesmo que desejar um bom ano não deveria significar refletirmos radicalmente sobre nossos conceitos, ou mesmo sobre a falta de conceito que impera em nossa contemporaneidade?

Por que não aproveitar essa desgraça que se tornou a vida moderna e fazer uma parada nos boxes, desenvolvendo alternativas para prosseguir, não necessariamente objetivando chegar em em primeiro, mas que fosse, naturalmente, juntos? 




foto de joão sassi


sábado, 17 de dezembro de 2011

Watch out, fellow Charles!

"Estela" e a Ditadura envergonhada
Quem poderia imaginar que um embaixador americano tivesse sentimentos?

Charles foi alguém que poderia ter se encaixado neste perfil. Foi embaixador americano em terras tupiniquins durante o início do período mais recrudescente da ditadura militar brasileira. 

Não sei por que não morava em Brasília (já, há quase uma década, a Capital Federal); talvez porque em Brasília não houvesse ainda embaixada.

Se já houvesse cá uma casa tão bonita como a que Charles morava com sua amada Elvira, naquele bucólico Rio dos anos 60, é certo que não teria sido sequestrado - como foi - em setembro de 1969.

Tomou uma coronhada no coco, foi encapuzado e feito refém de militantes de esquerda radicais. De um minuto para o outro, deixava para trás uma vida de mimos e paparicos para estar num quarto úmido e sem janelas, sendo ainda vigiado, in loco e diuturnamente, pelos assim chamados “terroristas”. Charles os observava, estáticos à sua frente, encapuzados e de arma em punho, a espreitá-los nos olhos pelos furos tenebrosos em seus gorros à la Ku-klux-klan.

O embaixador era, agora, moeda de troca, e sua vida seria poupada em troca de outras quinze vidas. Se a exigência terrorista não fosse atendida em dois dias, Charles morreria. É provável que ele não soubesse dessa prerrogativa, mas não é necessário se informar sobre o que ocorre no mundo externo quando se tem a vida em patente ameaça.

Apesar do temor, o embaixador demonstrou também muita perspicácia ao traçar o perfil de seus raptores apenas pelas poucas palavras que escutara e pela aparência de suas mãos – as únicas partes do corpo à mostra.

Citou o fanatismo daquele que seria o mais jovem e aguerrido do grupo, e também a amargura e o rancor de uma das lideranças , para quem, segundo Charles, “a obstinação superara a ignorância”. E pela delicadeza da pele , ficou a imaginar que desígnios haviam feito de uma jovem de voz tão bela enveredar pelo radicalismo da luta armada. E se deixou encantar pelo idealismo de um rapaz inteligente que era o único a falar Inglês e a não usar o capuz enquanto estava à sua frente.

Mas Charles, apesar de filosoficamente sensível, não era tão bem informado sobre o país que representava, pois afirmava desconhecer as práticas de tortura estimuladas ou ministradas pelos Estados Unidos em solo latino-americano: - “Eu apenas represento os interesses do Estado”, afirmou o gringo, quando interrogado pelos “terroristas”.

Os terroristas, no entanto, chamavam Charles de “senhor” e, em momento algum enquanto ele esteve aprisionado, o agrediram fisicamente - senão a citada coronhada, motivada por um ato de desespero do próprio Charles, à hora do sequestro. Além disso, permitiram que o cativo escrevesse à Elvira, tranquilizando-a, e se preocuparam, inclusive, em lavar as camisas e os lençóis do embaixador enquanto durou seu martírio.

A ação do grupo foi bem sucedida, e três dias após o rapto, Charles estava de volta à embaixada e, alguns meses depois, aos Estados Unidos, a fim de realizar uma bateria de exames médicos.

Enquanto Charles fazia seu check-up em Washington, o grupo que o sequestrara no Brasil era desintegrado. Alguns haviam sido assassinados, outros estavam presos, e mais um bocado, sendo brutalmente torturado nos porões da vergonha militar. A estes, choque e pau-de-arara como cartão de visitas; nada de lençóis limpos ou camisa lavada. Mas Charles não sabia de nada.

Apesar da sensibilidade que teve ao descrever seus algozes, Charles não se mostrou tão arguto quanto ao destino de tanta gente, explorada, torturada e assassinada mundo afora. 


Numa coisa, porém, ele estava certo: às vezes, a obstinação supera a própria ignorância.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Madalena e as Joaninhas




O casal, já entrando na meia-idade, caminha pelo parque arborizado, no centro da cidade, aproveitando o clima ameno da manhã. Ele, mal humorado; ela, sorridente, procurando joaninhas com o olhar: - “Que lugar linnndo! Veja quantas joaninhas!!! Olhe bem, Estanislau, quando é que tu vê isso na Paraíba?”, perguntava ela, provocando o marido, que não parava de reclamar das caminhadas que o médico receitava.

Enquanto se deslocam lentamente por conta do evidente sobrepeso, alguns jovens muito mais bem dispostos lhes cortam o caminho em vigorosas passadas ou atléticas corridas. Exibem corpos que os dois só estão acostumados a ver nas novelas da televisão.

Passando um sujeito grisalho, muito bonito e bem-encorpado - portanto "rival" de Estanislau - Madalena deixou-se levar por tão bela imagem, revelando inescapável brilho no olhar, além daquele indisfarçável, pois prazeroso, movimento com o canto da boca...

Quando a alma sorri, não tem jeito; o corpo acusa.

Percebendo o encantamento de sua companheira, Estanislau, gordote branco-leite do pulso grosso, porém careca e baixote das canelas finas, chegou a arregalar os olhos, mas não acusou o golpe. Optou pela ponderação, apenas acompanhando a cena. Preocupou-se em não deixar que Madalena percebesse que ele havia percebido.

Caminharam mais um bocadinho; ela, agora, ainda mais bem-humorada, e ele, complacente, digerindo a situação. "Na Paraíba, isso acabava em morte", pensou (mais por pensar que por planejar).

Antes que ele se contaminasse com o ciúme ou se enraivecesse pela honra de cabra-macho ferida, uma estonteante morena atravessou o caminho do casal, em passos pouco mais lentos, ainda que mais consistentes.

Notando que não somente seus passos fossem seguros, mas também sua saliente bunda, muito bem involucrada por um minúsculo shortinho de ginástica, Madalena não pestanejou ao resmungar: "Como é que essa menina não se envergonha de usar essas roupas? Fica mostrando tudo aí, pra todo mundo ver!...".  

Agindo deliberadamente em concordância à fala da esposa, como se houvesse previamente planejado aquela ação, Estanislau não apenas acompanhou a passagem da beldade, mas se deu ao luxo de dar uma paradinha, com direito a torcida de pescoço, para acompanhá-la com total atenção.

A mulher se eriçou:

   - Ôu, não tá me vendo aqui, não?!
   - Ôxi, claro que tô!...
   - E mesmo assim vai ficar olhando a morenona passar?
   - Ôxi, mas não foi tu mesmo que acabou de dizer que a menina tá mostrando tudo?...
   - O que num significa que tu tem que olhar também!...
   - Mas, olhe... Se não foi tu mermo, agorinha ali, que ficou babando no cabeça-de-giz? Pensa que eu não vi? Todo galegão, barbinha feita, camisa de gola, toda refinada, uns cotocão de canela, grosso assim... Rum, tu pensa que eu sô cego, Madalena? – devolveu o marido, surpreendendo a companheira. - “É melhor olhar assim, com você do meu lado, do que fazer escondido, como tu fez; é ou não é?”.

Aquilo de “fazer escondido” acabou com ela. Mulher muito séria e correta, não estava preparada para o embate. – “É ou não é?”, insistiu ele.

Com o olhar cheio de vergonha, balançava positivamente a cabeça, concordando com tudo o que ele lhe dizia ou perguntava.

Era a primeira vez que era flagrada pelo marido olhando para outro homem, o que a deixou muito desconcertada. Ainda que se tratasse de um ato isolado, de um mero acaso, fora o suficiente para que Madalena voltasse os olhos para o chão e encolhesse os ombros, evocando para si a imagem da pecadora que nunca fora.

Assim, entristecida, seguiu a caminhada, cabisbaixa, e nem mesmo as joaninhas lhe devolveram o sorriso...



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eu não vi Sócrates jogar


Pena para quem não viu...


Eu não vi Sócrates jogar... Não, eu não vi.

Eu era muito pequeno e apenas sabia que ele era um barbudo que filosofava com peripatéticos colegas. Diziam que era grego, mas eu sabia que ele jogava no Brasil.

Meu pai dizia que ele era respeitado por todos por ser um grande homem; o que era fácil de ver, até para alguém de tão pouca idade: quando Sócrates entrava em campo, era sempre o mais alto, é claro que os outros deviam ter medo dele...

Então meu pai me disse que o respeito era pelas coisas que ele fazia, como “ensinar o povo a pensar”. Logo, imaginei o Sócrates saindo do Pacaembu, depois do jogo, e indo para uma escola enoooorme - cheia de gente, cheia de povo -; e o Sócrates lá, ensinando o povo a pensar.

Eu dizia a ele que seria jogador e que também deixaria a barba crescer, assim faria muitos gols e poderia ensinar o povo. Achava muito legal ele ser um pensador grego que jogava pelo time do Brasil e ainda ser professor!

   - Sócrates é medico; é o “Doutor”-, corrigiu-me ele.

Ou seja, além de filósofo e jogador, ele era professor e também doutor – e grego! Mesmo assim, perdemos aquela Copa... Foi uma sensação tão devastadora que, tirando o Laranjito, tudo o que eu me lembro do Mundial de 82 é a foto de um menino chorando, abraçado à bandeira brasileira.

Os amigos dele ficaram tão tristes, que foram todos embora para a Itália. O Falcão já tinha ido, e na mesma leva foram Cerezo, Zico, Júnior... Mas não o Sócrates, pois ele tinha planos auspiciosos para o País: por meio da palavra, queria instaurar aqui uma Democracia! Meu pai me disse que democracia era o contrário do que aqui a gente vivia; falou que o povo é quem mandaria.

Foi uma resposta tão abstrata que somente uma criança tão bem a acataria. E eu já pensava naquele general, de quem meu pai falava tão mal, virando garçom de pizzaria. E que os soldados que prendiam e batiam nos amigos do meu pai virariam defensores do povo, cuidando e protegendo o cidadão brasileiro.

E como homem de palavra, respeitado que era, Sócrates encarnou o ser revolucionário que suas barbas desgrenhadas evocavam e fundou a Democracia Corintiana. Ele e mais um bando de malucos do Parque São Jorge.

Sócrates ficou tão entusiasmado com a revolução, que avisou ao povo que tinha planos ainda mais ambiciosos para o futuro. Naquele dia, foi tanta gente a querer escutá-lo, que a aula teve de ser transferida para uma grande praça. E lá, avisou:

   - “Se a Emenda Dante de Oliveira passar, eu não vou embora do meu país!!!" -, e a multidão delirou...

Eu não tinha ideia quem era Dante ou o que ele queria remendar, mas tinha certeza de que ele era italiano, pois o remendo dele não passou e nos levaram o Sócrates embora. Só podia ser coisa dos generais...

Mas os militares logo caíram, e todos os rebeldes voltaram; inclusive o doutor Sócrates.

Voltou, mas já não era mais o mesmo; já não tinha condições de permanecer no front. Já não era o grande jogador de quem ouvira falar em minha infância. Estava feita a sua parte nesta guerra. Doravante, se tornaria lenda.

Não, amigos, eu não vi Sócrates jogar. Não, eu não vi...


Apenas senti.


foto de joão sassi

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O que o Futebol nos dá

Urubu x Bacalhau: quem vai pagar o pato?

"Paaaaaaaassaaaaaaaaaaaaaooootêmpooooooooooo... São jogados 40  minutos do primeiro tempo , e Vasco e Fluminense vão empatando em zero a zero!..." - berrava o locutor do rádio, enquanto eu cruzava a cidade.

Era uma situação inusitada para quem deveria estar noutro lugar, que não ali. Todo o campeonato eu acompanhara do Varjão, em meio a moradores da comunidade, observando a relação deles com seus clubes de coração. E seria agora, justamente quando o campeão poderia ser decidido, que eu não estaria lá a ver o desfecho de minha pesquisa... Como justificar ao orientador? Ou à minha consciência? Afinal, que diabos eu estava fazendo dentro daquele carro, e não no Varjão?

"...Recebe Fred em posição de marcar... Prepara o arremate e chuta!... Na trá-veeeee!!! Naaaaaaaa trave!!!!!!! - prossegue o locutor. Era necessário que o Vasco ganhasse o jogo para que o Corinthians não fosse o campeão. Desta forma, a decisão ficaria para a rodada derradeira, conforme manda o manual do bom futebol e as leis de Deus.

Sim, eu estava torcendo pro Vasco da Gama. Para que minha pesquisa não se transformasse num fracasso, eu deveria rezar para que o Trem Bala da Colina colocasse óleo de ziriguidum como combustível e voasse baixo; do contrário, as consequências seriam funestas...

O que eu ia fazer? Perguntar ao Farinha Azeda (um informante) qual foi a emoção dele na hora do jogo? Pedir a Bode, um vascaíno apaixonado, que explicasse academicamente o que se passou em seu coração quando, no outro jogo, ao mesmo tempo, Liédson marcou para o Timão contra o Figueirnse, deixando seu Vasco a ver caravelas? Não dá; eu tinha de estar lá, mas não estava!...

Estava, como já disse, numa outra missão; complicada e difícil de explicar; daí ficar mesmo sem explicação. Eu havia me comprometido com um amigo que se encontrava numa situação complexa com a namorada. Um cara que já me deu apoio em muitas horas delicadas, e que já pisou na bola, como todo mundo que é humano. Talvez eu pudesse lhe dizer, "cara, agora não dá", mas como eu já disse, era uma situação difícil de explicar.

Que me chamem de irresponsável e inconsequente; é o que sou! Contem-me, pois, alguma novidade! Estava tudo a perder, mas eu tinha de dar essa força a ele.

Resgatei meu bróder e ele não estava legal. Tinha o choro entalado. Quis ser solidário e diminuí um pouco o volume do rádio, mas estava também contrariado por não estar lá, onde deveria estar. Ficamos calados durante um bom tempo, e olha que já estávamos no segundo tempo!

De repente, "goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooollll... É do Vasco da Gâmaaaaaaaa... A-le-qui-sandro!!!!... Tira o primeiro zero do placar, fazendo explodir a torcida cruz-maltina!..."

Foi um tremendo alívio. Mesmo com a vitória corintiana, o título só seria decidido na próxima rodada, e meu trabalho não teria sido em vão. Imediatamente, perguntei a ele como estavam as coisas, demonstrando total solicitude.

Ele então se pôs a balançar negativamente a cabeça, até que conseguiu fazer derramar as lágrimas que lá vinham se acumulando, e me contou sobre sua desilusão - talvez mais consigo do que para com a namorada. Aproveitei sua capacidade de auto-crítica e lhe dei meu melhores conselhos (na minha opinião, é claro), confortando-o um pouco... Mas em seguida o Fluminense empatou. Desgraça!

E o que era doce ficou acre, e logo me dessolidarizei com ele, acusando-o de pôr a perder minha pesquisa: "Não dava para me ligar antes? Ou depois? Mas tinha de ser na hora do jogo?".

Eu sei que estava sendo escroto... Mas o homem não é bicho-escroto?

Destilei toda minha mágoa, como se ele pudesse, porventura, ser o responsável por uma derrocada inteiramente por mim arquitetada. Pensava em chegar a tempo de ver os momentos finais, mas as notícias que chegavam do rádio não eram nada boas: "Termina a partida com a vitória corintiana! Basta que se confirme o empate no jogo do Vasco para que o Coringão seja novamente campeão brasileiro!!!".

Escutando aquilo, eu era capaz de visualizar todo o ambiente de euforia no boteco de Farinha Azeda, com Seu Tinho e Peludinho chorando de alegria pelo Corinthians, com Bode triste por seu Vasco. Via Cazuza feliz por ver seu Bahia ainda na primeira divisão, enquanto Bolinha rogava pragas ao seu outrora invencível São Paulo, fora da Libertadores da América.

Queria estar com eles, dividindo um prato de rabada ou carne de caça, no mesmo prato, na mesma colher, tomando uma cerveja gelada e fazendo graça da desgraça alheia. Rindo dos perdedores, mas rindo junto. É o que o futebol nos dá.

Eram 45 minutos, e eu já me sentia mal por haver dito tudo o que disse; um certo remorso. Então, já convencido a pedir desculpas, olhei para o lado e... "Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooollllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll... E é do VÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁSCOOO! Miláááááágre no Engenhão, caros ouvintes!!!"

Meu pai me contou, horas depois, que até ele, flamenguista total, se emocionou com o gol do Bacalhau. Já com o tempo esgotado, o garoto Bernardo Boa-Praça marcou e correu em direção à felicidade , como nos velhos tempos, e chorou bonito diante de sua torcida alucinada, como um menino que prometera à mãe que sabia fazer aquilo direito; e fez.

Bernardo foi o herói do Vasco, e o Vasco foi meu herói neste domingo. Meu trabalho foi salvo. Não sou ingrato e sei reconhecer que vou ter de dar créditos à Turma da Colina em minha pesquisa. Mas é só.

Semana que vem tem Flamengo e Vasco, que decide o título, e sei que vou estar no lugar certo, junto à massa, cantando o velho hit do embate: ô-ôôô-ôôô VICE, DE NOVO!!! 


(E vou levar junto o meu amigo, a ver se levanto a bola dele.)





foto by Peludinho

domingo, 20 de novembro de 2011

Gente é pra ser Feliz

Gente que também quer ser feliz


Mais um dia na vida. E nem sete horas eram quando já estava novamente metida em frente ao espelho, tentando focar a própria cara amassada.

Ela havia dormido tarde por conta da maldita reunião com aqueles empresários da soja travestidos de políticos; estava exausta e tinha uma cerimônia agendada para aquela manhã.  "É..., como dizia papai: "não tem meu pé tá doendo", pensou ela, "trabalho é trabalho!". 

Enquanto lavava o rosto, pensava no neto, nascido há poucos meses, e motivo de suas maiores alegrias. Ao mesmo tempo, erguia as sobrancelhas, inflava as bochechas e fazia caretas repetidas vezes. Não se tratava de um tique nervoso, mas de recomendações de sua esteticista para que exercitasse a musculatura facial, tornando menos flácida a pele dali - e retardando o aparecimento daquelas "bochechinhas de buldogue". 

Ainda de robe, entregou-se ao ritual de sentar-se numa confortável poltrona, próxima à varanda ensolarada que separava seu quarto do jardim, atrás da casa, para passar os olhos nas principais notícias do dia. Não se preocupou em ler, mas se utilizou dessa muleta para refestelar-se na almofada e curtir um pouco mais o restinho de sono, fazendo cara de sonsa para o sol que começava a brilhar.

Cá fora, e em toda a dimensão do gramado impecável, reinava uma atmosfera de harmonia perene, com as flores sempre bem cuidadas, e a visitação constante de muitos passarinhos e zumbidinhos que transportavam nossa mulher de negócios para sua terra natal, marcada pelo bucolismo regional de sua gente.  E ela dava um sorriso demorado... Que, geralmente, era o único do dia.

À mesa do café, já era outra pessoa. Muito séria, preocupou-se em repassar o assunto a ser tratado no compromisso de dali a minutos. Tomou café e comeu muito queijo branco, além do mamão papaia nosso de cada dia. Pão de queijo,  só dois, e dos pequenininhos, ainda que a dieta lhe vetasse o segundo.

Apesar de vez ou outra lidar com assuntos de seu interesse, em seu ofício as coisas nunca saiam conforme seu desejo. O que quer dizer que agendas potencialmente interessantes eram, em geral, motivo de frustração e encheção de saco. É por isso que sempre se levantava da mesa do café já mal-humorada.

Já dentro do carro, mandou o motorista tocar para o trabalho. Durante o trajeto, apressou-se em dar um rápido telefonema à filha; queria novidades de seu netinho: "Põe ele na linha! Põe ele na linha para cochichar com a vovó!". Imediatamente, a sisudez de seu rosto deu lugar a um enorme sorriso - outro! - o segundo do dia! Pelo retrovisor, o motorista estranhou a cena.

Da garagem, sentindo-se leve, entrou no elevador privativo com visível tranquilidade. O ascensorista até se atreveu, sabe-se lá porquê e a que risco, a olhar diretamente em seus olhos, transmitindo mensagens tele(sim)páticas para ela - que retribuiu.

Deu bom-dia às secretárias antes de entrar em sua sala. Deixando a bolsa de lado, assim como o maço de documentos que teria de ler, colocou as mãos nas cadeiras e espiou o horizonte logo à frente  pela fresta da cortina: "É... Até que esta cidade não é feia!... Mas poderia ter mais gente!" - exclamou, em voz alta.
Alguém bateu à porta, avisando-a da cerimônia. Estava tudo pronto.

Dona do pedaço, iniciou o evento propalando as palavras protocolares de sempre. Seria apenas mais uma, dentre tantas cerimônias em sua vida, mas em meio ao discurso, embargou-lhe a voz, e ela quase chorou. 

Os presentes, tocados pela delicadeza e espontaneidade do ato, aplaudiram-na de pé! A mulher sem emoções, numa única manhã, sorrira duas vezes e, num gesto supremo, emocionou-se em público, capturando as atenções e a simpatia de todo aquele que, como eu, acha que "gente é pra ser feliz". 

foto de joão sassi

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Tia Carla



Tia Carla se prepara para o banho


 Danilo não tinha o costume de dormir após o almoço. Por isso, sentia-se um pouco constrangido ao ver Tiago, seu melhor amigo, e toda a família se preparando para uma siesta coletiva.

Era dezembro, e Danilo havia sido por convidado pelo inseparável colega para veranear em uma pequena vila de pescadores, entre o mar e o mangue baiano. Passavam o dia inteiro juntos, respeitando todas as ilimitações que a vida empresta a garotos de 12 anos. O momento da siesta era a única exceção.

Todo os dias, após o almoço, "seu" Leandro, pai de Tiago, iniciava o ritual com os os colchonetes e os ventiladores, distribuindo-os pelos cômodos do rústico casebre. Danilo dormia no mesmo quarto do amigo, cuja irmã, Beatriz, dormia no quarto ao lado. "Tia" Carla, na benfeição de seus trinta e poucos anos, se juntava ao marido em uma das redes armadas na varanda, onde cochilavam escutando os ruídos marítimos que suplantavam os coqueirais da beira-mar.

Enquanto seu companheiro de aventuras dormia a sono profundo, Danilo, de olhos bem abertos, levava sua imaginação para o quarto ao lado. Não que Beatriz fosse linda ou algo assim, o importante é que ela era quase da sua idade! Há alguns anos, era apenas a "irmã chata do Tiago", mas hoje, era o alvo preferencial de suas infrutíferas tentativas de aproximação física. Não tendo suas súplicas atendidas, Danilo se acabava na punheta.

Não tinha qualquer pudor em se masturbar na frente do amigo ou dos primos da mesma idade, mas desde que vira a gala subir pela primeira vez, recolhia-se à solidão para maior satisfação.

E tinha o calor... Naquela tarde, o sol parecia ter esmorecido sobre a Bahia, de tanta quentura! A casinha, por mais abençoada que fosse pela brisa, estava um forno. Danilo sentiu o corpo suado grudando no lençol. Agoniado, olhou para o amigo, que babava no travesseiro, e decidiu se levantar.

Com vergonha de passar pelo casal que dormia na varanda, Danilo pulou pela janela e escapuliu por detrás da casa, em meio à densa vegetação litorânea, percorrendo uma trilha estreita e longa, de fina areia branca. Após relativa caminhada, já próximo ao mangue, encontra pequenas lagoinhas de água doce e morna, cor de Coca-Cola. Não havia ninguém em muitas centenas de metros para cá ou para lá. O silêncio era total.

Ao onanista, a solidão não é motivo de tristeza, senão de excitação.

Jogando o calção de banho sobre margem e sentindo sua nudez exposta, sentiu também o pau ficando duro. Virou-se para um lado e para o outro, sentindo-se o próprio Senhor da Terra! Exibiu a própria excitação às borboletas, às libélulas e a todas as mulheres que seu pensamento alcançava. Então se deitou.

De barriga para baixo, o menino mantém o rosto afundado na água o quanto pode. Quando não aguenta mais, ergue a cabeça, toma mais ar, e mergulha novamente. De vez em quando, um peixinho o belisca, ou um inseto pousa sobre suas costas, mas nada que o desconcentre.

Sob o auspicioso sol das 3 horas das tarde, Danilo encontrara o refúgio perfeito para dar vida aos pensamentos que o acompanhavam desde o início das férias: Ah, Beatriz!... Era bom imaginar ela ali, ao seu lado... Aparecendo do nada, sozinha, de biquini, peladinha; só eles dois na lagoinha... Ah, Beatriz!

Após o gozo intenso, o menino se diverte observando a porra rodopiando dentro d'agua, como se tivesse fertilizado o próprio Planeta. Mas num breve instante de racionalismo, lembra que sua fuga poderia preocupar a todos, e decide voltar pra casa.

Caminhando livre, leve e solto pela trilha sombreada, Danilo avista alguém vindo ao longe, em sua direção... É Tia Carla! Alertado por todos os sentidos e presságios, o garoto dá meia-volta e corre, indo se esconder numa das muitas lagoinhas, em meio à vegetação. Em poucos instantes, surge a "tia".

Num gesto gracioso, ela segura o cabelo com as mãos e o envolve em si, prendendo-o num coque, com uma pequena vareta. Em seguida, faz a canga cair e, já despida, entra n´água.

Imóvel, sem mover uma pluma, Danilo tem a melhor experiência de todas as férias e uma uma das melhores de sua recém-terminada infância. Como numa fábula escrita por Zéfiro, o menino tem, diante de si, a visão de uma mulher totalmente nua, com peitos lindos, bunda grande e pêlos pubianos!... Era sua primeira buceta de verdade.

As que vira inadvertidamente durante a infância não contam, pois a maldade era pouca. A de Tia Carla era a primeira - a primeiríssima - que Danilo estava vendo em sua vida; e ele a via quase que em detalhes, a poucos metros de desejo.

Sendo pouco profunda a lagoinha, Carla tinha de se agachar para trazer a água ao corpo e se refrescar, exibindo ao pirralho mais do que ele poderia imaginar.

A marquinha provocada pelo biquini contrastava com sua pele dourada, e mais ainda com seus pêlos pubianos, volumosos e negros. Danilo poderia apostar que fossem também cheirosos, tal o cuidado com que Carla os acariciava, produzindo na mente da inocente criança as mais bem-vindas e indeléveis marcas que um homem poderia receber em vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

O Porteiro Romântico


requinte madrileño

Em meio às atribulações do ofício, e aflita por receber a encomenda prometida para aquela tarde, ela liga diretamente para a guarita do seu bloco, e deixa um aviso com o porteiro - um homem cuja feição de estivador russo esconde a afabilidade que molda seu caráter: - "Tobias, vai chegar algo para mim nesta tarde; é muito importante. Fique atento, tá?"

Sua aflição decorre da apresentação de dança flamenca que faria dali a poucos dias, no Teatro Nacional. As antigas castanholas já não estavam à altura de sua desenvoltura - seria preciso fazê-las dignas de sua destreza requintada. Para tal, encomendara um par de castañuelas madrileñas, e pensava em treinar o quanto fosse possível, a fim de se adaptar às suas novas conchitas negras, até o grande dia.

Antes de sair para o trabalho, avisara ao marido que também ficasse atento, caso estivesse em casa. Este, muito mais interessado no noticiário esportivo sobre o Flamengo, apenas consentiu com a cabeça.

"Já é Sexta, e se não chegarem hoje, só na Segunda!...", lamentava para si, dentro do elevador. E havia os ensaios de Sábado e Domingo, quando sua trupe flamenca desfrutaria da presença de uma famosa dançarina espanhola, especialista na arte das... Castanholas.

A tarde corre solta, tudo continua como antes, e a cada pequeno avanço do ponteiro no relógio, um pingo de tristeza pontua negativamente sua expressão facial.

É interessante o status que o novo emprega ao velho. As antigas castanholas lhe eram muito bem-vindas, até então. Sob a perspectiva da inovação, no entanto, deixaram de sê-las. Subir ao palco com elas se tornara, subtamente, impensável, e certamente motivo de muita tristeza. Freud e Marx teriam muito a conversar sobre o assunto...

O marido está em casa, esticado no sofá, assistindo à cópia pirata da recém lançada filme-biografia do Rondinelli - o Deus da Raça. De repente, toca o interfone. Ele meio que ignora, atento à tela. Toca novamente, duas vezes. Ele congela a cena, se levanta e vai atender:

- "Alô?.... Quem?... Não, não está... É só com ela?... Ah... Quem é?... Alô? Alô!?...".

Voltou para o quarto e seguiu vendo o filme.

Sua mulher liga, obrigando-o a dar novo stop no DVD. Ela pergunta se chegaram as castanholas: - "Que castanholas?", responde ele, que, lembrado por ela (ah, sim! Aquelas castanholas...) promete "apurar", desligando o telefone.

Ela segue no trabalho, triste e desesperançosa. Ele segue mergulhado nas emoções da conquista de 78, imerso em sensações indescritíveis aos pagãos do ludopédio, porém vívidas e explícitas aos seus olhos, em forma de pura e contagiante alegria rubro-negra.

Termina o filme, e finalmente ele vai apurar o caso, não resolvendo, pois, coisa alguma. Liga para a mulher e avisa que nada chegara: - "O Tobias falou que o homem dos Correios veio e não tinha encomenda nenhuma pra você...".

Ela escutou as palavras do marido em silêncio, passando pela sua cabeça todas as cenas do porvir, e ela sem as castanholas prometidas... - "Pois é", completou ele, "e o Tobias disse também que se não chegou até agora, só na Segunda, mesmo...". Deprimida, ela desliga.

Encerrado o expediente, retorna à casa.

Estaciona o carro no exato momento em que se encerra a Voz do Brasil. O Guarani se mistura ao Flamenco que sapateia em seu pensamento. E ela pragueja, batendo com força a porta do automóvel, bem como os pés no chão, num legítimo "O-lé!", espanhol. Em sua direção, caminha o Tobias, que traz uma pequena caixa consigo.

- "Tá aqui, Madame!... - diz ele, entregando a ela a aguardada encomenda. - "Seu marido até teve aqui, perguntando sobre o pacote, mas eu desconversei. Não disse nada e fiquei esperando a senhora, para não ter erro!".

Surpresa e emocionada, ela pergunta, sem entender: - "Erro? Como assim?..."

- "Ué, sobre o presente pro seu marido...", respondeu ele, franzindo as sobrancelhas de taturana. - "Assim que o rapaz veio deixar a encomenda, li, lá, escrito no pacote: "FLAMENGO", e pensei que era uma surpresa que a senhora ia fazer pra ele... Não é, não?", disse Tobias, colocando um doce sorriso entre as bochechas suadas.
 
foto de joão sassi