quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um São João Inesquecível


Por ser hoje o meu dia, queria me lembrar de um São João perfeito, daqueles com comida, bebida, fogueira e mulé. Não consegui, mas lembrei de um outro, quando foi quase tudo perfeito. A perfeição só cabe mesmo em nossa imaginação.

Foi numa festinha junina para pirralhos. Eu tinha oito anos e freqüentava, junto com meus irmãos, uma colônia de férias haribô. A empreitada acabou dando tão certo que depois virou uma escola infantil “alternativa” - a Vivendo e Aprendendo.

Àquela época, eu adorava as festas de São João. Adorava minhas botas plásticas amarelas. Adorava os falsos remendos que mami costurava em minhas calçolas, o bigodinho fake de caipora e também as grossas sobrancelhas de Jeca Tatu que ela pintava, a lápis de olho. Graças aos céus que nossa família não cultivava o ritual do dente podre, de modo que saíamos sempre bonitinhos e lindinhos nas fotos!

Minhas preocupações eram sempre as mesmas: comer tudo o que estivesse ao meu alcance e ir me exibir junto aos meus iguais, mostrando aos garotinhos quem era o fodinha do pulo-sobre-a-fogueira. E não era só dar um pulão; tinha de saber aterrissar do outro lado, sem se esborrachar, mesmo que os olhos estivessem ardendo de fumaça. Eu não me lembro de haver perdido uma única “competição” em toda minha infância; a não ser para para os "grandões". Acho que paguei o preço justo por ignorar o ditado que associa o fogo à cama molhada, pois a minha foi generosamente regada até o nove anos.

Lá chegando, o panorama era dos mais aprazíveis. Muito pé-de-moleque, paçoca e guaraná, e também pipoca, pão-de-queijo e mariola (que eu nunca soube o que é, mas adoro a sonoridade do nome, apesar de não rimar).

Havia alguns palhaços muito coloridos. E muita criançada. Não havia fogueira, mas um monte de brincadeiras para alegrar a pirralhada. Quando eu era criança, não gostava de palhaços. Hoje, acho graça! Para me conquistar, basta dizer “Boa noite, senhores, senhoras e cenouritas!”, que eu me mato de rir! Ser humano é bicho bobo mesmo...

Mas, como dizia antes, naquele tempo o dobrado que tocava era outro; e eu sempre lhes dirigia um olhar desconfiado. E não por acaso, foi de um palhaço que recebi um bilhete, cujo conteúdo lhes revelo:

“Olá, você quer participar de uma brincadeira especial?
Então venha encontrar com a gente perto da piscina!”

Uau! Achei o máximo aquela estória de “ser comunicado” sobre uma brincadeira especial, por meio de um bilhete pessoal. Na certa haviam me distinguido como uma criança especial, entre tantas outras, e por isso estavam me chamando para uma brincadeira igualmente especial.

Notei que o palhaço não havia entregado o bilhete a mais nenhuma criança. Devia ser algo muito petit comité mesmo...

De modo a não despertar olhares curiosos e interesseiros, enchi as duas mãos de pipoca e, enfiando tudo na boca, escapei sorrateiramente pela tangente, em direção à piscina. O alarido foi ficando para trás, e também as luzes. Alguns passos mais e eu estava sozinho, no meio da escuridão, em pleno São João.

Era possível ver uma ou duas cabeças próximas à beira da piscina, mas nada que lembrasse uma brincadeira especial. “Palhaço idiota”, pensei.

Sem titubear, dei meia volta e voltei para a festança, entregando-me à lascívia e à luxúria -características-mor de meu precoce hedonismo.

Mais tarde, quando dera a hora de mami nos buscar, não encontrávamos Pedro, meu irmão mais velho. Procura daqui, procura dali, e tome preocupação! Já era tarde, e ele, apesar de “mais velho”, só tinha nove anos.

Foi quando me lembrei da brincadeira à beira da piscina, e, sem falar com ninguém, corri para lá.



A cena era a mesma: apenas a silhueta de duas ou três cabeças em contraste às águas. Aproximei-me. Pedro estava lá, confortavelmente sentado ao lado de duas meninas, que o chamavam de “nosso namorado”.

O episódio serviu para me mostrar que eu não estava certo de todo, pois nem todo palhaço é escroto; e nem errado, posto que, para aquele tipo de brincadeira, somente pessoas especiais eram convidadas.

Meu irmão é talvez o cara mais especial que eu conheço. Era dia de João, mas foi Pedro quem recebeu a graça das devotas.
Créditos de Imagem: www.ImageShack.us

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um Xará chamado Ubaldo

Uma das piores sensações é aquela causada pelo arrependimento daquilo que não se fez. Muito pelo fato de, normalmente, não se ter o que fazer após, entenda-se, aquilo que já não fora feito anteriormente.

Apelando para a memória, sou capaz de me lembrar de muitas cantadas que deixei de dar, ou, pior; das cantadas que levei e refutei. Coisa de gente tímida, com auto-estima algo abalada. Quando eu sabia o que dizer, já era tarde.

Pode ser também o caso de se recusar a dar uma esmola e, pouco depois, sentir um remorso terrível, a ponto de sair à caça do pedinte, rodoviária afora.

Comigo, porém, calhou de me passar um arrependimento por não falar com um xará, quem avistei pela rua, há coisa de três ou quatro anos. Fortuitamente, houve reparo.

Li, na coluna dominical que escreve ao O Globo, que João Ubaldo Ribeiro estava triste, amuado mesmo, quanto ao futebol e suas implicâncias. No texto, faz um paralelo entre o que ele vivenciou na sua Itaparica, em 1958, após a conquista do primeiro campeonato mundial, pela seleção, e o sentimento algo prepotente que domina a juventude contemporânea, fazendo da celebração uma distorção raivosa e individualista, e até certo ponto, violenta.

Dotado de arroubos de nostalgia, capturei a máquina de escrever e fiz o que não havia feito pelas ruas do Rio de Janeiro: dirigi-me ao xará Ubaldo.

Carta a João Ubaldo Ribeiro

Sabe, João, as coisas vão realmente mal... E não somente o futebol; vai tudo indo mal demais nesse mundo.

Dia desses, vinha eu caminhando pela Ataulfo de Paiva, quando te vi passando. Senti vontade de falar com você, mas não sabia exatamente o que. E, para ser sincero, nem mesmo a certeza de que era você eu tinha.

Segui caminhando pela mesma Ataulfo, até que cheguei ao apê de minha prima, onde a encontrei assistindo TV.

- Xu, passei por ali e vi um sujeito que era a cara do João Ubaldo!...
- Então era ele mesmo, Juba. Mora aqui no Leblon. Também sempre cruzo com ele...

Dois dias depois, novo encontro. Após um jump na praia, estiquei até a Só Pra Mim, a fim de descolar um lanche natureba.

Eu, só de calção de banho, esperava na calçada por Joana (a Xu), que comprava um açaí, quando te avistei, caminhando em minha direção. “É ele mesmo!”, pensei. E deu novamente aquela vontade de falar com você.

Seria o caso de, de repente, falar sobre nossas origens baianas, sobre Itaparica, sobre seus livros (que não li) ou sobre meu pai, que leu “Viva o Povo Brasileiro” um sem-número de vezes; qualquer coisa! Pensei até em fazer uma mis-en-scene, elogiando “O Povo Brasileiro” (do Darcy), fingindo uma confusão, para desfrutar um pouco do seu bom humor. Pensei tanto que você passou e eu não falei nada... Cheguei mesmo a abrir a boca –bem pouquinho-, mas não saiu palavra. Acho até que você percebeu, mas passou por mim mesmo assim.

Corri para a lanchonete! “Olha lá o João! Olha lá o João!”, dizia para Joana. “Olha lá... Lá foi o João... Perdi o João, de novo!”. Eram minhas últimas horas no Rio. No more João.

No final de semana seguinte, já em Brasília, surpresa...

Eu havia acordado bem cedinho, antes das seis(!), pois havia que deixar minha companheira em seu local de trabalho. Parece até que é chato ter que acordar tão cedo - ainda mais numa manhã de domingo -, mas quando se busca o leito bem cedinho e se recebe a dose certa de carinho, aí é bom! Ver o dia em avant première, e receber todos os fluxos ainda puros de uma jornada recém-criada.

Antes de deixá-la à mercê da labuta, porém, houve ainda tempo para um desjejum na padaria do Abel – um dos poucos locais a que podemos classificar como “tradicional” nesta capital. O proprietário, vindouro d’além-mar, abriu seu negócio há exatos 30 anos, justos dois meses antes d’eu mesmo desbravar as primeiras marolas de minha existência. E prosperou.

Sempre inicio com um suco de laranja, que bebo direto, num só pulo. Depois, pingado quente e claro, com um pão com ovo. E mais outro para fechar o buraco do dente. Essa padoca, de nome “A Favorita”, fez parte das minhas primeiras incursões conscientes ao mundo real e que ainda hoje permeiam minhas lembranças.

Além do portuga Abel, sempre atrás da máquina registradora, havia ainda o grande globo de sonhos-de-valsa, pendente sobre a cabeça dos clientes, o pão em forma de jacaré (que era muito mais gostoso de olhar que de comer), e, por fim, o quadro com a foto do time do Vasco da Gama, campeão brasileiro de 1974, que ocupava lugar de destaque: logo acima do grande cesto onde caíam, de tempos em tempos, fornadas quentinhas de pão francês.

Cruel o Abel. Sempre fui Flamengo (uma vez Flamengo, Flamengo até morrer), mas adorava olhar aquela foto. Agachado, bem ao centro, onde fica o craque do time, estava Roberto Dinamite, que, para mim, era “amigo do Zico”. Eu passava um tempão olhando para o Bob; mais até do que para os sonhos-de-valsa...

Apesar de ainda muito jovem, o futebol já era, para mim, um fato social. Algo que não se limitava às quatro linhas. Quando eu ainda nem me entendia por gente, já ouvia meu pai deitar falação sobre as conseqüências de uma derrota ou vitória do Mengo. Dizia ele que tinha trabalhador que, após um fracasso do time, ia do Maraca para o bar encher a cara, para, depois, chegar em casa bêbado e espancar a mulher. E que uma eventual jornada de sucesso, em contrapartida, poderia servir como válvula de escape ao tão sofrido cotidiano de considerável parcela da população brasileira – que meu pai chamava de “o povo”. E me falava também sobre a índole dos jogadores, suas origens e fatos antigos, ocorridos quando ainda eram “juvenis”, enfim, apresentando um quadro rico em detalhes que me faziam querer estar sempre como aquele torcedor do povo; apaixonado...

Estamos em maio de 1983. Eu somava quase oito anos de idade, e assistíamos, pela TV, à grande final da “Taça de Ouro”, que era como chamavam o Campeonato Brasileiro. Flamengo e Santos disputavam o título no palco do Maracanã, testemunhados por mais de 130 mil torcedores, conquanto o estádio estivesse todo em vermelho e preto.

Início de jogo. Meu pai, Jorge, baiano como você, faz seu primeiro comentário. É sobre uma cena ocorrida segundos antes, que mostrou Zico e Adílio, lado a lado, cada um com a mão sobre o ombro do outro, caminhando em direção ao centro do gramado, como dois amigos que vão bater uma bola na hora do recreio. Disse-me ele que aquilo era amizade antiga. Que o Adílio só estava ali porque havia entrado na Gávea por um buraco da cerca, quando conseguiu enganar a segurança e fez um teste no infantil, tornando-se amigo do Galinho. Sintonia fina. Cumplicidade. “São como dois irmãos”, afirmou, pouco antes do pontapé inicial.

O Galo estava infernal naqueles tempos; no auge. Mesmo com a derrota ante a Itália de Paolo Rossi, a “seleção canarinho” havia encantado a todos, e Zico era, reconhecidamente, o ícone daquela geração; o único jogador que atuava fora do eixo europeu que, ainda assim, fazia frente a Maradona ou Platini. E foi meu único ídolo...

Não demorou muito até que o placar fosse inaugurado (por ele, claro!): exatos 50 segundos! Parecia que o gol só tinha saído porque meu pai não parava de falar do Zico! Após o 1x0, momentos de alívio e silêncio. Mas logo os comentários foram reiniciados. O alvo, agora, era Leandro, “um monstro”. Leandro foi exemplo de caráter e companheirismo, além de possuir um futebol de primeira grandeza; “um dos melhores – senão, o melhor – lateral-direito brasileiro de todos os tempos!”. Foi quando, pouco antes do encerramento do primeiro tempo, Zico cobrou uma falta de canto, centrando a bola no primeiro pau, na risca da pequena área, para um cabeceio perfeito do lateral: gol de Leandro! 2X0!

Era como mágica assistir a todo o estádio vir abaixo de tanta felicidade! Era intenso, mais até do que a própria realidade por mim assimilada, pois eu imaginava, ao mesmo tempo, todos aqueles homens chegando em casa e beijando seus filhos e acariciando suas esposas. Em meus devaneios infantis, era como se o Brasil inteiro ficasse mais feliz com aquele título. Afinal, o Flamengo é o time do povo, e povo é o que não falta neste País, raciocinava.

Por toda a segunda etapa eu simplesmente me limitava a pressentir o que estava por vir, como quem já tem a certeza como aliada. Era tudo tão tocante e lindo, que o velho Jorge (que contava então seus 33 anos) voltou a falar do Adílio, enchendo-o de elogios. Merecido, pois tava jogando muito na orquestração da meia-cancha rubro-negra.

Mas, longe de compartilharem das minhas certezas, os jogadores do Mengo se matavam em campo. O fato é que bastaria ao Santos fazer um gol e teríamos uma disputa por pênaltis, visto que o primeiro jogo, em São Paulo, terminara em 2x1 para eles. Assim sendo, a torcida ora lamentava por um gol perdido, ora desfalecia por um gol quase tomado.

O cronômetro marcava 43’45’’ do segundo tempo, e o Peixe tinha a posse de bola, no meio campo. É quando Vítor dá um carrinho e a bola sobra para o desconhecido Robertinho, na ponta-direita. Robertinho ignora o anonimato e parte para cima da marcação. Como se Garrincha fosse, dá uma vexatória entortada no zagueiro Gilberto e cruza para o meio da área...

O Maracanã já estava em festa, e os gritos de “é campeão” ecoavam, uníssonos, por toda a mítica marquise do Maior de Todos. Não precisava aquele cruzamento sair tão bonito em sua curva, e tão preciso em seu alvo: dali, da marca penal, Adílio mergulha no vazio, num lindo peixinho, acertando em cheio a pelota, cabeceando-a para o fundo das redes do desolado Marola... Gol de Adílio!!! Do neguinho Adílio! Do moleque que escapou da fome pulando a cerca do clube mais querido do Brasil! Foi, enfim, um gol de todo o Brasil! Adílio fez o gol do povo, de toda uma raça, de todo um país. Fez um gol que fez todo brasileiro sorrir (quem sabe até os santistas). Mas foi mesmo de lavar a alma ver aquele “negrinho atrevido” correr em direção à massa, com os braços alvissareiros, soltos ao ar. Dezenas de penetras e repórteres invadiram a lateral do campo, quase sufocando Adílio, em profunda alegria.

Nunca, em nenhum outro momento da minha vida, um gol voltou a me marcar tanto. Nunca um gol voltou a ser tão representativo e carregado de simbolismos. Nunca mais, deste então, encontrei tantos elementos, numa única partida, onde pudesse identificar tanta sintonia entre uma população e um time de futebol. Nunca fui tão feliz...

É como se a porrada que o Zico tomou, dois anos mais tarde (e que estouraram seus meniscos), tenha sacramentado o fim de um ciclo dito romântico. Ciclo este ao qual você, João, se refere em sua coluna publicada nesta nublada manhã de Outono.

Para você, João, 1983 foi ontem. Para mim, de certa forma, também, pois ali ficaram as melhores referências que o futebol me deu; o conceito de cidadania que me dá a certeza de que faço parte da luta de um povo – seja exitosa ou inglória. Hoje, passados 22 anos desde então (e apesar de bem mais jovem) sei bem o porquê de vê-lo dizer que o melhor do futuro e que você não fará parte dele. É doloroso, mas o invejo.

Um grande e fraterno abraço,

João Sassi


Nov/05

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Elevador


Na garagem, numa bela manhã de domingo, espero pelo elevador. Estou acompanhado. Aperto o sexto andar.

Paramos no térreo, no que entra uma gorda senhora, feia. Entra e, já se pondo de costas, nos oferece um requentado bom dia.

- Boa noite... -, provoco.
- Só se for para você! -, resmunga ela.
- É que estou de óculos escuros... -, insisto.
- Humpf! Você tem uma melancia na sua cozinha?
- Melancia?... Não. Para quê?
- Para pendurar no seu pescoço, já que quer tanto aparecer. -, emendou.
- Posso colocar meu chapéu na senhora para você também aparecer bonita na foto..., disse, colocando-o em sua cabeça.

Ela se curvou para que o chapéu caísse no chão.

O elevador parou e ela desceu, ainda resmungando:

- Tem gente que só quer ser o engraçadinho!...

Enquanto ela saía, dei-lhe a língua, fazendo careta. Mas não me senti vingado.

Pelo contrário, fiquei com raiva.

Raiva porque dei sorriso e, em troca, recebi chispas de infelicidade. Porque quis demonstrar minha simpatia e fui mal interpretado. Raiva porque são em horas assim que toda a inteligência emocional necessária simplesmente desaparece. Bastaria dizer algo como “talvez uma melancia docinha lhe fizesse bem ao amargor da alma, senhora”, e tudo estaria resolvido.

Por vários minutos, deixei essa sensação me contaminar. Senti vontade de voltar ao andar onde ela havia saltado e deixar lá uma faixa ou cartaz com ofensas. Pouco depois, porém, resignei-me: “Paciência: nem todo mundo pode ter um chapéu tão bonito...”.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Injusto e Desigual




Nos era servido um belíssimo almoço! Havia um ano eu não aceitava esse convite. Achei rude o anfitrião de então, no que esperei pela recuperação de seu bom senso para lá poder retornar.
Fui de chapéu como que para homenageá-lo. E para tal foi o brinde ofertado, quando também agradeci sua cordialidade e ocasião.

Havia caranguejo desfiado e risoto de camarão, acompanhados de farofinha crocante e jambu - uma erva do Norte que deixa a boca meio adormecente. Delícias que desciam melhor com um suave vinho tinto d’Italia. A tarde corria leve, serena, mas ainda assim, sentia-se no ar o refluxo de algo um pouco mais pesado que o simples fim do domingo.

O anfitrião não demonstrava ter aprendido nada. Nem melhorado de todo. Sua aparência é visivelmente contrária aos seus anseios. Imagina-se no topo. Porém, da rasura da cova em que se encontra, todos o vêm, boquirroto; só ele não enxerga a ninguém, absorto.

E dá esporros ao léo, em profusão.

Mesmo quando só quer falar, grita. Sinto pena dele, mas pouca - como a admiração, que um dia já foi maior.

Certamente há uma preocupação em receber bem a todos. O caldo de feijão – esquentado e servido por ele – não deixa dúvidas quanto a isso. Mas parece haver também o desejo em deixar patente a insatisfação para com a peça que o destino lhe pregou.

- Caldinho de primeira, hein, parceiro? – diz, em tom opressor, ainda que amoroso.

Não há como relaxar em sua presença... Mas ignorá-lo é pior do que xingar sua mãe. Ao ignorá-lo, ignora-se sua luta, ascensão e queda. Sua dor. Seu momento “injusto e desigual - como a vida do sertanejo” (conforme me revelou no único instante em que trocamos alguma impressão pessoal). Ele não gosta da plebe, ainda mais quando insubordinada. Rir e divertir-se sem prestar a devida reverência é traço de rebeldia intolerável.

Quando repeti o delicioso prato pela segunda vez, desacatando o ritmo ditado pelo anfitrião, incorri em erro. Solitariamente, do sofá, ele já convidava a todos para o cafezinho. Não importa que alguns ainda comessem, visto que ele já havia terminado.

Foi quando meu sobrinho, de apenas três anos, finalmente aceitou uma "culelada de calanguejo" que seu pai lhe oferecia, e eu, num viés pedagogicamente ambiental, passei a “relatar” como o bichinho havia ido parar ali. Fiz menção ao feliz crustáceo que fora desafortunadamente caçado pelo homem mau, tendo ido parar em nosso prato dominical...

- Até que vem um BABACA e come o caranguejo! -, vociferou o anfitrião, aproximando-se com seu habitual determinismo, olhando em minha direção.

Ao meu lado, eu tinha uma convidada que nunca havia estado ali, no que, a fim de poupá-la, a última coisa que me passou pela cabeça foi revidar a grosseria. “É o que alguns dizem...” -, repliquei.

A comida perdeu o gosto, e a tarde, seu sentido. Nem o 5x0 que meu time tomou foi tão azedo e desnecessário como aquela demonstração de infelicidade explícita.

Fui embora sem que nos despedíssemos.



photografie: marcya reys

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Findinachapêido’s




Fim de semana na Chapada é o ó do borogodó. Antes que pensem coisa ruim, esclareço que "no meu tempo", essa expressão se referia a coisas boas, muito boas. O carioca sobe a serra; o paulista desce; e nós vamos à Chapada.

Pensando nas projeções metereológicas, levamos gorros, luvas, cachecóis trançados pelo Duque de Buckingham e toda malícia possível que nos fosse necessária ao aquecimento de nosso desejo. Foi peso carregado à toa, dado que, ao cair da noite, a massa calórica corpórea foi mais que suficiente para vermos estrelas cadentes em profusão... Que cafofo gostoso em que nos metemos!

Não bastassem as kilocalóricas noitadas, findadas as madrugadas, éramos despertados, sempre à mesma hora, por um passarote dos mais feiosos, que insistia em tucu-tucar a vidraça por onde perpassava a luz de nossa graça. Enquanto não arredássemos de nosso ninho, ele não parava; mas era só esboçar o espreguiçar, e já não se escutava mais nada, tão somente seu cantar.

Respondia abrindo a porta, ao som de Odeon: parararam-rararam-rararam-rararam-rararam-rararam-rararam, Parararam-rararam-rararam-rararam-rarararam...

O bréqui-festi era no carrapicho! “Personalizado”, dizia a propaganda do pacote. E era mesmo. Servido à nossa varandola, com tudo aquilo a que tem direito os casais que acordam sorrindo. Marcya sorri. Sorri o tempo todo. É linda...

Moçoilas à française nos atendiam de pronto, no que eu as convidava a sorrirem com a gente. Acho tão bom sorrir coletivamente!
-O que desejam em especial -, perguntou uma delas.
-Pode pedir qualquer coisa?
-Sim.
-Então me vê uma leitoa à pururuca!... E para ela, suco de laranja.
-Leitoa não tem...
-Poxa, pensei que era personalizado... Então me traz um ovo frito e escreve “João” com catchup, por favor? Hahahaha!!!

A ocasião não era especial somente por isso ou aquilo, mas também porque marcou um reencontro; eu e meu pai há tempos fazíamos bico um para o outro. Razões tínhamos algumas, mas eram bem mais numerosos os motivos para sublimá-las. E nada mais apropriado que uma conversa ao pé de uma cachu, sob um céu azul-anil e um visuba deslumbrante.

Meu pai coloca muita coisa boa na minha cabeça; tão boas que me angustiam, pois abrem fissuras emocionais que evidenciam as crateras lunares existentes entre o que sou e o que quero (ou pretendo) ser.

E, apesar de voltar de lá feliz, foi com alguma angústia que acordei nesta manhã de segunda-feira. Era cedo, bem cedo, e o sol mal bicava o horizonte quando a vontade de fazer xixi fez aumentar mais ainda a sensação de que algo não estava bem. Ô, xixizinho mequetrefe! São tantos os problemas dessa vida!...

Chegando ao gabinete, algumas cartinhas eletrônicas! Uma delas eu preferi às outras, pois relativizou-me de todo, fazendo com que meu filtro sensorial fosse substituído por outro - como fazem as cobras com suas cascas velhas.


Foi-me enviado por Flávia Ilíada, um nome tão incomum quanto bonito. E a ela dedico o texto de hoje.




Viver não dói!




Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive. Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.


Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais.

Autoria non Conosciutta


ps: é dever registrar as 15 Primaveras de Planet, meu sobrinho. O moleque me disse que já tá aprontando, fazendo de tudo! Disse até que já beijou na boca... Tanti auguri, Planet!!!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Rapidinha (I)




Tô aqui, em minha saleta, no Sanatório, fazendo hora-extra e acompanhando, via rádio, a discussão, em plenário, da Medida Provisória que (irresponsavelmente) legaliza a posse de grandes parcelas de terras públicas ilegalmente ocupadas em território amazônico.

Neguinho é mesmo muito cara de pau – para não dizer coisa pior.

Quando os políticos querem alguma coisa (salvo exceções honrosas) simplesmente tratam de reinventar a realidade. A ponto de utilizar extensas argumentações que lhes são contrárias, como se fossem favoráveis, trocando tão somente, alhos por bugalhos, quando dão por encerrada a fala; simples assim. Fico com cara de bobo (igual à foto acima).

Na visão daqueles que são contrários à medida, a ação irá legalizar a grilagem e propiciar mais destruição. Já na dos que estão a favor, a presença dos posseiros irá garantir a sustentabilidade da Região.


Ps: eu já estava por desligar o computa para ir-me de vez, quando ouço a raivosa voz da relatora dizer "que não se trata de uma questão ambiental, mas de garantir o sagrado direito à propriedade, cláusula pétrea da Constituição"...




Só lendo Marx. Boa noite!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Minha Primeira Paixão - Capítulo Final


À hora da janta, enquanto sorvia a papinha de legumes que mamãe amassava com o garfo, eu pensava no assunto. Era necessário dar à minha namorada a certeza do meu querer. “Espero você compreenda”, pensei, olhando para minha mãe, que fazia aviãozinho com a colher de sopa, rumo ao “aeroporto do João”.

No dia seguinte, ao cair da tarde, lá estávamos, “como indiozinhos”, sentados em frente à nossa tia. Nenhuma dúvida que eu estava no mesmo lugar que o da véspera.

Não esperei muito tempo para dar sequência ao plano. Nem mesmo ela começou a falar e me adiantei, tocando seus pés. Antes, com a pontinha dos dedos, ainda hesitante e com o coração batendo forte; depois, mais confiante, com as mãos espalmadas, sentindo a pele e o relevo das veias e tendões ressaltados pelas tiras da sandália de saltinho baixo. Puro deleite!

Tocava seu tornozelo, delineando suas curvas, e achei por bem insinuar-me mais, ir além. O ano era o de 1981, e, infelizmente (para minhas pretenções), as calças boca-de-sino já eram démodé.

Resolvi me infiltrar. Minha mãozinha, lépida e alva como uma aranha albina baiana, começou a escalar aquela canela. Obviamente eu nem imaginava o sentido ou mesmo a existência do verbo depilar, mas hoje tenho condições de afirmar que ela não fazia isso com freqüência. No entanto, por ainda não dispor desse discernimento, achava tudo íntimo e propício.

Tinha certeza de que mesmo com metade do braço enfiado na calça Lee da tia, ninguém sequer desconfiava da operação em curso. Aliás, a balela toda começava a fazer sentido, pois já era possível inferir que o mais importante não era se ligar nas personagens, mas na vogal inicial dos respectivos nomes: Alicate, Escova, Índio, Óculos e Urso de Pelúcia. A tia queria ensinar-nos o “aéióu”! Momento histórico!

Mesmo acompanhando o “raciocínio” da estorinha, minha cabeça estava fora daquela órbita, em total perdição. Eu não era mais nada e não sentia mais nada. Melhor: eu sentia tudo e não queria saber mais de nada. Nem se neguinho havia se tocado do que estava rolando; minha vida era aquela canela (e seus pelinhos nascentes, claro). Àquela altura, eu já subia e descia o bracinho com certa naturalidade, acariciando-a até onde dava.

Apesar de já me sentir um pouco como o dono do pedaço, a tensão ainda era grande, muito embora o prazer alcançado compensasse qualquer loucura! Um prazer que eu não tinha sequer como dimensionar; sensação igual eu nunca havia sentido em todos meus seis anos de existência. Ao menos não de forma tão consciente. Eu buscava o que muito queria, e conseguia! Minha excitação era enorme, e tudo se tornara explícito, para qualquer um ver. Na verdade, quem haveria de querer prestar atenção num taradinho galego aliciador de tias? Todo mundo lá, com olhinhos vivazes e boquinhas entreabertas, ávidos por saber como terminaria a saga vocálica, e eu cá, em êxtase, metido em minha primeira experiência sexual – ainda que unilateralmente.

Eu tocava sua perna e tremia. Não poderia existir nada melhor que a perna da minha tia... Aliás, do que a batata da perna da minha tia (sim, eu já acariciava a batata!). E aí notei que ela já tinha “me sacado”. E mais; não oferecera nenhuma resistência! Fabuloso! Sim, pois ela me instigou a “querer mais”, ativando tenros instintos. Fechei os olhos e imaginei minha mãozinha percorrendo perna acima. Chegando à virilha, imaginei muitos pêlos, algo comum naqueles tempos. Tudo aquilo era, para mim, o anúncio de um noivado; nada mais nos separaria, estava claro.

Já me indagava como seria me tornar marido da minha professora. Isso certamente me daria mais autoridade no Jardim, e poderia ser ótimo para a hora dos deveres e das provas.

Sentindo que em breve escutaríamos o dingue-lingue da sineta, resolvi acabar com as formalidades. Literalmente deitado a seus pés, enfiei todo meu braço - até o ombro!-, mas não alcancei nem o joelho... E veio o dingue-lingue. E também o fim da saga. E a dispersão total.

Após a deliciosa euforia, o relaxamento... O melhor relaxamento que existe. Nem saí junto com a galera, e acho até que saí depois das menininhas. Definitivamente eu estava me tornando um cavalheiro; o ritual de passagem fora cumprido e eu estava pronto para assumir as responsabilidades do meu ato.

Ou não, pois – e aqui peço licença para o uso do chavão- o destino me pregou uma peça!...

Saí à frente da minha tia, que logo passou à minha frente, para logo à frente encontrar seu amigo motoqueiro; seu namorado. Eu sei, porque eu vi a motoca! E vi que ele usava casaco de couro preto. E que eles se beijaram. E sorriram.

Foi frustrante, mas coisa pequena, pois ela logo haveria de dar-lhe as boas novas sobre a nossa situação. Qual nada! No dia seguinte, já não foi minha “noiva” quem entrou pela porta da minha classe, mas a diretora, dizendo que seria ela a nossa tia, enquanto a nova professora não chegasse. A antiga professora teve de viajar por problemas de saúde na família(!)... Aquilo, sim, foi impactante!

Aos seis anos tudo é efêmero, tudo é de momento. Foi uma paixão súbita e passageira. Pensei naquela decepção por alguns dias. Poucos. Ou nem isso. A nova tia chegou, mas não chegava aos pés... Aos pés, da minha primeira paixão.

Como outra grande recordação do prezinho, lembro perfeitamente da experiência do feijão no algodão, o que também me maravilhou, mas menos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Minha Primeira Paixão






Mesmo
não assumindo qualquer culpa, e ainda que

lamentando, o fato é que não tenho como revelar o nome da minha primeira
paixão. Se o soubesse, é provável que viesse a se tornar também o nome de minha
primogênita. Mas não sei. E se nada sei, ao menos sinto; e das sensações, não
me esqueço.








Ela era professora do Jardim de Infância da 302
Norte, em Brasília.

Teria vinte e poucos anos e parecia, aos meus olhos, a mais bela e doce mulher

da Terra.






Só não gostava quando falava num certo amigo que seguidamente a buscava em sua
motoca possante. Sempre que isso ocorria, meu coração

se contraía em ciúmes... Que ela parecia não notar, pois costumava relatar tais

caronas com flores na fala. Eu não me sentia de todo magoado, mas cada vez mais
apaixonado. E me continha numa espécie de resignação calculada, própria dos que
tem por certa a vitória final.






Não havia dúvidas de que nossas penetrantes trocas de olhar

sugeriam um futuro de plenitude em gozo e satisfação! Para tal, bastaria

a declaração apaixonada, no momento adequado, para receber em troca sua

recíproca, ato contínuo. Por ora, procurava ludibriar meus colegas e

possíveis concorrentes quanto às minhas reais intenções; eles não perdiam por
esperar...






Lembro-me perfeitamente desta tarde, quando os primeiros

passos foram dados nesse sentido. Faltavam ainda alguns raios de sol até que o
céu escurecesse por completo, quando a professorinha reuniu seus aprendizes bem
à sua frente, a fim de contar-lhes uma historinha. Sentada numa cadeira, nos
chamou a atenção, dando início à aventura: “Agora todos olhando aqui para a
tia!”...  E eu, camaradas, era um dentre tantos pimpolhos e não tinha nem
seis

anos completos, mas aquela mulher era tudo pra mim! Eu sabia, veladamente, que ela
estava ali, naquela sala de aula, por minha causa; simples assim.






Ajoelhei-me comportadamente aos seus pés – que é o mínimo que se espera de um
homem apaixonado- e pus-me a escutá-la. Tratava-se de uma

fábula, porquanto lisérgica e nonsense. Começava com um

alicate que, perambulando pelas estradas de um belo bosque, acabou conhecendo uma
escova de cabelo, de quem se tornaria grande amigo. Unidos, seguiram arregimentando
companheiros exóticos, tais como “o” óculos e o urso de pelúcia.






Eu, completamente entregue (com a boquinha aberta), ia imaginando o

ursinho todo escovado, de óculos, tomando sol, mas não conseguia achar uma

função para o alicate. Meus coleguinhas, do mesmo modo, permaneciam encantados,
apesar da total falta de sentido de tudo o que a tia nos contava. Pouco afeito que
sou a fazer parte de um rebanho, fiz uso da minha arguta sensibilidade e percebi
que era chegado o momento de agir...






Era necessário fazê-la compreender, de uma vez por todas, que o

caminho estava livre! Não que fosse algo simples; antes, o contrário:

revelar-se ao objeto de desejo é uma experiência vulcânica. É sentir o sangue

virar lava e o sistema nervoso derreter, fazendo acalentar até o lobo orelhal.

Trata-se de uma inflexão irreversível no porvir das coisas, ao estilo “nada

será como antes”. Muito embora nesse aspecto o sucesso ou o insucesso da
empreitada não nos impeça de sair incólumes, pois nos tornamos, a partir dele,
inexoravelmente mais maduros.






Então, iniciei uma aproximação geográfica, galgando árduos

centímetros que, conquistados, provocavam batucadas retumbantes em meu

coraçãozinho pueril... Indescritíveis pensamentos tomaram minha mente
inocente quando encostei minha Conga vermelha (o azul era para gente grande) na
sandália dela. Imaginei que, a partir dali, tudo me seria permitido. E me
assustei quando soou pelo vão central da escola, o toque estridente da sineta
que alardeava o final do período vespertino.






Meus coleguinhas despertaram da hipnose coletiva antes que eu

pudesse acreditar que meu plano fora sabotado, sem aviso

prévio ou indicação aparente – exatamente como os surpreendentes desenlaces do amor...
Mas, como assim?! - Que fim levou o urso de pelúcia? Cadê a lógica da estória?
-, eu me perguntava, ainda sentado no mesmo lugar, ciente de que

chance igual os cupidos não haveriam de me dar.






Boicotado pelo sino, mas salvo pelo congo, ora, pois! No

derradeiro momento, antes que a balbúrdia tomasse conta da classe, ela nos

informou que a sequência da historinha teria vez na aula seguinte, exatamente à

mesma hora. Ganhei o dia!






Fim de tarde é um momento especial em qualquer jardim de

infância. É quando se pode escutar o alarido vindo do pátio que revela a

contundência da percepção infantil da realidade em relação à própria

existência: gritaria, correria, risada e felicidade; eu não precisava de mais

nada!






E assim, vibrando de todo e com meu contumaz ímpeto, logo me

juntei ao bando de garotos alucinados, escapulindo porta afora em total

dispersão pelo pátio da escola. As meninas preferiam esperar, saindo depois,

mais calmamente, junto com a tia.







Num átimo, antes de imergir numa outra realidade, ainda tive

tempo de pensar em como reagiriam todos quando assumíssemos a relação. Seria necessário
demonstrar segurança a fim de evitar que minha tia/namorada

declinasse ante as críticas que certamente surgiriam advindas dos setores mais

conservadores da provinciana sociedade candanga...







































segunda-feira, 25 de maio de 2009

Para nós emocionais, arrochos materiais


Andei passando por uns perrengues nos últimos tempos. As certezas, quando deixam de ser elas mesmas, produzem sensações de fragilidade e desamparo, deixando o sujeito meio mal da cachola.

Sentindo-me assim já há algum tempo (o suficiente para julgar-me impotente ante a necessidade de gerenciar minhas próprias angustias), lembrei da Dra. Bárbara, com quem me terapiei por quase um ano. Segundo os que me amam, eu “melhorei” naquele tempo... - ha-ha-ha! (Eu rio pra essa gente!)

Pois, ainda que rindo, estava disposto a melhorar ainda mais, e acabei procurando restabelecer um contato com ela.

Foram duas as empreitadas em que me meti a fazer terapia. As terapeutas, em ambas as situações, eram bárbaras, senhoras, loiras e vaidosas. E leoninas, que me elogiavam o tempo todo, fazendo o maior bem pro meu ego...

A primeira Bárbara, voltou para sua terra natal, e com a segunda Bárbara, me magoei.

Como mágoa sempre passa, e por, conforme relatei, não estar muito bem da cabeça, marquei um encontro com a Dra Bárbara – The Second.

A partir de então, e durante a semana seguinte inteirinha, passei a conjecturar sobres os porquês de se voltar lá, numa verdadeira peleja entre meu orgulho ferido e meu ego carente. Era pensar na consulta e pronto, estabelecia-se o conflito!

Isso porque, há dois anos, abandonei-a de forma intempestiva. Sei que ela se magoou e ficou triste, pois a terapia vinha apresentando os tais bons resultados. Agi de modo impulsivo e, durante algum tempo, nem sequer quis refletir muito sobre a possibilidade de um retorno. Encontrá-la agora demandaria um relato do que se passou desde então. Um relato minucioso, implicando numa imersão, até certo ponto, indesejada. E mergulhar nessa piscina não fazia parte dos meus planos, ainda mais com o frio que tem feito... Deu 9 graus no Ninho do Urubu!

Por outro lado, era justamente esta a razão pela qual eu queria revê-la; um auxílio no processo de sublimar experiências traumáticas... Oh, vida, que dúvida!

Por cinco dias me angustiava sempre que pensava no assunto, no que fui deixando para resolvê-lo à última hora.

Dito e feito! Até uma hora antes da consulta eu não havia me decidido. Estabelecido o conflito, abri a guarda e parti para o abraço: entre interrogações e angústias, fui.

Cheguei a ensaiar, pelo caminho, algumas formas de apresentar a situação, ou como abordaria determinada questão. Mas tudo me parecia demasiado artificial. Ainda mais a mim, que sempre apelei para a espontaneidade como instrumento imprescindível à minha socialização. E sempre funcionou bem.

Estacionei o carro tentando não pensar em coisa alguma, esperando pelo momento que se aproximava.

Quando entrei no consultório, a sala de espera estava cheia de gente, mas de uma gente muito pouco à vontade. Pareciam, em verdade, mais agoniados que eu! Havia uma série de nós sobrevoando nossa cabeça; nós emocionais... O que produzia olhares tensos, olhares tesos.

A única cadeira vazia piscou para mim. E sentei-me, ainda que um pouco constrangido, pois havia pessoas de pé. Mesmo sentado, percebi que a atmosfera estava realmente pesada.

Olhei à volta, abrangendo o olhar. Percebi que tudo estava diferente; o consultório passara por uma reforma. A cor das paredes, antes clara, agora era verde-escuro. A porta que era aqui, agora era acolá. Só a recepcionista não mudou - a Daniela – que me olhava de baixo pra cima, enquanto fingia escrever algo. O homem ao meu lado não parecia nada bem. E todos permaneciam em silêncio.

Eram três e quinze, e não tardariam a me chamar, pois eu era “o paciente das 3”.

Então a porta se abriu, e saiu de lá uma perua acompanhada de seu filho adolescente. É caso de dependência química, pensei.

A recepcionista entrou pela mesma porta, e quando saiu, pensei que seria chamado. Mas não fui. Mandou que entrassem dois rapazes.

Em outras oportunidades, quando isso ocorria, achava sempre normal, e posso dizer até mesmo que me sentia bem, pois isso significava que a “loucura” alheia era mais perigosa que a minha. Desta vez, porém, me senti desprestigiado...

Quase reclamei, mas seria ainda mais constrangedor levantar no meio daquele bando de pirados e falar: “Pô, Dani, tá doida? Não tá vendo que eu sou mais louco que aqueles malucos?” Esse pensamento me fez permanecer sentado e calado.

Enquanto eu pensava no tempo que passava, notei que o homem ao meu lado agora esfregava nervosamente as mãos. Era um sujeito calvo, de meia-idade. Tinha o rosto quadrado e o semblante de um membro do Partido Republicano dos EUA; reacionário.

A senhora perua que acabara de sair se sentou em frente à recepcionista e perguntou:

- Quanto é, minha filha?
- São 250 reais... -disse Daniela, candidamente.

Foi quando notei que meu problema não era assim, tããão urgente. Aproveitei um vacilo do psico ao meu lado para atender a um telefonema virtual e, dizendo um demorado “alô”, evadir-me do local.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Declaração de Amor a Brasília - 49 anos


Bras-ilha da Fantasia


Dia desses, coisa de um mês atrás, dei um pulo no Conjunto Nacional a fim de pegar uns óculos de sol maneiros que estavam sendo “retificados”.

De lupa e pintoso, resolvi dar uma passada no Conic a ver se encontrava antigas amizades... Quero dizer, a ver se revia uma antiga conhecida, dona de uma loja de artigos militares e afins, para a qual vou até fazer propaganda, pois ela merece!

Dia D é o nome da birosca, e tem um atendimento ótimo, além de um material de primeira! -Em off: Parece que rola uma conexão sinistra com os israelenses ou algo assim no contrabando de produtos exclusivos... - Fica lá no Conic, perto das barraquinhas de sebo, ao lado da cracolândia (por isso é melhor ir de dia).

Decidida a missão, pus-me a caminhar, no que fui, de pronto, interrompido por uma equipe da TV Câmara. Buscavam por cidadãos interessados em fazer “uma declaração” a Brasília, visto que a cidade estava por completar seus 49 anos.

Disposto eu estava. Na verdade, tava mesmo louco para que alguém perguntasse minha opinião a respeito dos rumos tomados pela nossa cidade.

Disse um monte de coisas sobre o descalabro social ora reinante nesta Capital, e a repórter perguntou: “Sim, mas você não tem nada de bom para declarar?...”

- Você me perguntou se eu queria fazer uma declaração sobre Brasília...
- Sim, mas era uma declaração de amor!...
- Se a “entrevista” for chapa-branca, então não participo -, disse, resoluto, fazendo biquinho.
- Você não gosta do céu de Brasília? Então, fala do céu!
- Você me parou para falar do céu?!...

O resultado vocês podem conferir no vídeo logo abaixo... (uau, sempre quis dizer essa frase!)


foto de joão sassi 

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Futebol e Paixão








O futebol é a maior paixão da minha vida.

Surgiu não sei bem como ou quando, mas é certo dizer que foi principalmente pela identificação que tenho com meu pai. Foi ele quem fez despertar em mim a noção de que o futebol era mais que uma modalidade esportiva, mas sim uma das maiores expressões culturais do povo brasileiro.

Ainda criança, com sete anos, tinha o hábito de convidar Chico, dois anos mais novo, a dormir na sala de TV, sempre que meu time jogava tarde da noite. No “meu tempo” não era comum que crianças dessa idade ficassem acordadas até mais tarde; daí a necessidade de se colocar um colchão no chão e fazer uma montanha aconchegante de almofadas (só assim o Chico topava), tendo em vista que sempre dormíamos durante a partida; quando não, antes!

Com o tempo, o futebol foi se tornando a base de quase todas as minhas vontades. Não perdia um único jogo, mesmo que fosse obrigado a escutar a transmissão em radinho de pilha. Se ia à escola, feliz, era porque pensava na hora do recreio, quando poderia jogar. Quando ia ao clube, lá estava eu, mesmo que solitariamente, a bater bola num campo vazio. Vivia “embaixo do bloco”, jogando pelo time da minha quadra ou sendo técnico de times mirim (onde eu também desempenhava a função de goleiro). Em casa, só queria saber de programas esportivos. Tenho muitos “Globos Esportes” e “Esportes Espetaculares” gravados em VHS. Tenho o jogo que Pelé disputou pela Seleça, na Itália, em 90, quando fez 50 anos. E o de despedida do Galinho, no Maracanã, em 89. E mais um punhado de outros jogos – a maioria sem qualquer importância.

Meus irmãos não eram da mesma estirpe. Estranhavam meu vício. Eu, em vão, tentava os convencer de algo que, em verdade, não poderia ser explicado. Desse modo seguimos, por muito tempo, apartados.

E assim, de repente, as coisas deixaram de ser com eram para ser como são, e eu passei a ter companhia durante os jogos. Acompanhar as partidas do Flamengo se tornou um ritual de família desde o fim de nossa adolescência. É o momento sagrado, da união, onde todos os não interessados (leia-se, namoradas, cônjuges e afins) deveriam abrir mão de qualquer anseio durante aqueles 90 minutos.

Ontem o Flamengo foi a Porto Alegre, disputar, contra o Internacional, uma vaga nas semifinais da Copa do Brasil. Era o jogo mais importante do ano, contra um adversário muito forte, num Beira-rio lotado por 50 mil colorados insanos. Ambas as equipes foram campeãs regionais, e a imprensa já alardeava a partida como sendo “uma final antecipada”, fazendo crescer nossas expectativas.

Chegou a hora! Estávamos todos em frente à TV, ansiosos, como qualquer torcedor que se preze. Excitação.

O Inter saiu na frente, após falha grotesca de nosso jogador mais marrento. A excitação dá lugar à apreensão. Fim do primeiro-tempo.


Aprendi a acompanhar aos jogos ao mesmo tempo em que acompanho meus irmãos torcendo. É gostoso vê-los se emocionar com algo que, em outras épocas, quase não lhes fazia sentido.


Iniciada a segunda etapa, o embate ficou mais nervoso e disputado. Em bela jogada coletiva, empatamos o jogo! O resultado nos favorecia; estaríamos classificados! Da tensão ao alívio. Quanto maior a tensão, maior o alívio; mais gostosa fica a vida! E todos agora sorríamos e brincávamos entre si. Mas era impossível relaxar, pois faltavam ainda 15 minutos e a pressão seria fortíssima.

Aos 44 do segundo tempo, falta (!) próximo à meia-lua rubro-negra...

Como sou o “antigão” da parada, aquele que sabe “tudo” de futebol, sou dado a arroubos premonitórios, como quem, pela experiência, tem o poder de saber o que está por vir. Desta feita, porém, calei-me. Sabia que a falta era perigosa (quase um pênalti), e falar qualquer coisa poderia ser interpretado como mau agouro.

Andrezinho, ex-jogador do Mengo, se aproxima para fazer a cobrança. Todos ficam em silêncio. A bola chutada. O goleiro assistindo. A rede estufada... O estádio explode! E nós, permanecemos em silêncio.

Ninguém se mexeu. Ninguém praguejou. Ninguém lamentou. Apenas suspiramos profundamente, coletivizando nossa frustração.

O momento em que se deflagra uma derrota é sempre doído. Mas quando se trata de uma derrota importante, a dor é bem maior.

Cessam-se as brincadeiras e os motivos para se sentir bem desaparecem. Tudo deixa de ser interessante. Nada é gostoso. A cerveja se torna amarga e o álcool ingerido só faz a cabeça ficar mais quente, em ebulição.

Encerrada a partida, fomos todos embora. No carro, um comentário meu sobre o jogo foi interrompido: “Esquece essa história!” - disse o Chico. Silenciei.

Após deixá-lo em casa, segui meu caminho.

A dor de uma derrota é, guardada às devidas proporções, como a dor do amor, posto que perdura até a próxima conquista. Mas enquanto ela não vem, haja tristeza!

Chegando ao Urubu, dei-me conta de que não estava sofrendo tanto, e estava pouco me lixando para a próxima partida (contra o Santo André, no domingo à noite, pelo Brasileirão, no pêiperviu do SPORTV), pois meu pensamento ainda estava lá, no instante do maldito gol do Andrezinho, quando a dor se fez presente em meio às pessoas que amo, e que agora são, como eu, reféns da mesma paixão. Estamos todos juntos agora. Estamos todos bem.





“Vamos Flamengo, vamos ser campeão (sic), vamos Flamengo, minha maior paixão, vamos Flamengo!!!”


quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Nó da Gravata


Aos trinta e três anos não sou pai de nenhuma criatura viva. É sonho antigo.

Se é bom ou ruim, isso não sei, mas desconfio que a missão seja mais ou menos como aquela estória de se enfiar o dedo na tomada: há de se passar pela experiência para saber do que se trata.

Na manhã de hoje, ainda que por breves instantes, senti a deliciosa sensação de ser pai!

De banho tomado e camisa social recém passada, postei-me diante do espelho para iniciar o ritual da colocação da gravata - a indumentária de maior status social no ocidente.

Apesar de gostar muito de nós mais fofinhos e avolumados, devo admitir que nunca fui bom nisso. Desconfio que por culpa da maioria de minhas antigas gravatas, que de tão raquíticas –tísicas por assim dizer-, não davam nem pra saída... Bem diferentes das minhas novas gravatas, mais caras, gordinhas e bem nutridas.

A estrela da companhia (uma italiana, lilás), aliás, conserva até hoje a mesma forma do seu debut. É que o vendedor barrigudinho que ma vendeu caprichou tanto no nó (estilo “Windsor”) que não tive coragem de desfazê-lo. Só não o considero perfeito porque, ao fim e ao cabo, a ponta da gravata não alcança a fivela do meu cinto, dificultando minha caracterização de homem moderno e antenado. Registre-se que com o paletó devidamente abotoado, ele (o nó) merece todos os louros.

Para combinar com a camisa “azul-pêéssedêbê”, escolhi uma gravata listrada, em azul-escuro e prata, que achei, meio empoeirada, na gaveta da minha mesa, no gabinete onde trabalho. Aparenta ter uns 4 ou 5 anos de uso contínuo, e apesar de um pouco puída, é da nova geração, portanto, mais bem nutrida e sorridente. E é de seda!

Levantei a gola da camisa e coloquei a gravata ao redor do pescoço. Essa é uma parte complicada, a da medição. Não sei se por desatenção ou dislexia, o fato é que nunca lembro exatamente onde deve estar a ponta da danada no início da operação; sei apenas que é “perto do saco”.

Por mais almofadinha que possa parecer, esse ritual deve ser executado de maneira altiva e altaneira, procurando entrelaçar a gravata carinhosamente, sem amarrotá-la por entre o nó feito. Esticar o pescoço, elevar o queixo e olhar-se de soslaio é um movimento clássico, capaz de produzir em seu praticante uma verdadeira sensação de superioridade (configurando um momento que deve ser dedicado à auto-reverência).

Note que é preciso estar concatenado á idéia do legado eurocêntrico, que nos moldou à imagem de lordes, cuja essência expressa a vitória da forma em detrimento do conteúdo. Do contrário, se porventura impregnado por uma ideologia humanista ou teorias esquerdistas libertárias, evapora-se o glamour, restando apenas a sensação de um auto enforcamento.

Em meio ao meu narcisismo, com o canto de olho, percebi, rente à porta, a presença de mais alguém que, de tão atenta, tornara-se partícipe do processo. Era Luíse (ou Lulu*) que, com seus 4 aninhos e olhinhos pretos de bola-de-gude, quase não percebia o mundo à sua volta, absorvida que estava pela delicadeza do ritual.

Quando ficamos assim, profundamente compenetrados, fazemos expressões únicas, as quais não se pode repetir, voluntariamente, num outro momento qualquer. É como no sexo: somente nosso(a) parceiro(a) vê nossas feições mais íntimas e reveladoras; nós, nunca.

Lulu estava imóvel, numa flagrante curiosidade infantil. Olhava para as minhas mãos, buscando entender o que elas faziam, e o porquê de tantas voltas, idas e vindas. E notei que eu mesmo, quase que por empatia, estava também hipnotizado.

Ela estava definitivamente olhando para algo que não fazia parte do seu dia a dia, algo agradável. E eu, aprendendo com ela a aprender o mundo, a ver o novo. E, lentamente, o nó ia tomando sua forma definitiva, enquanto eu, num regozijo paternal, ia me esforçando por fazê-lo, também assim, lentamente...


*Lulu é filha de Ana Paula, moça da região do Córrego do Urubu, de 25 anos, que vive numa casinha sem energia elétrica com sua mãe e quatro filhos, e faz, eventualmente, uma faxina na minha casa.