sábado, 18 de maio de 2013

O PT dos placebos, das poções mágicas e das revelações bombásticas

Para Marina e Heloísa, amizade e respeito são conceitos suprapartidários.

Cada um tem o direito de interpretar o mundo à sua feição e desejo. É como uma fotografia sobre o mesmo tema tirada por várias pessoas; serão todas diferentes, impregnadas pela subjetividade de cada qual, o que envolverá ângulo, distância e cálculo da luz, além de outras nuances mais que transformarão cada imagem em algo ímpar.

Assim costumam ser as interpretações políticas no Brasil quando, inspirados por ideologias distintas, cada qual vê o contexto nacional à sua moda. O que para uns é realização, para outros é retrocesso. O que para uns é necessário, para outros é supérfluo. E o que nasce como debate, logo se torna embate, dada a lógica democrática em voga.

O que vi na fala de Marina Silva, em Pernambuco, não foi nada capcioso ou de fino cálculo político, como li por aí, mas uma defesa pura e simples da fé que ela professa, e em nenhuma instância ao desequilibrado do Feliciano. Tem proliferado a produção de artigos críticos a Marina (essencialmente escritos por petistas), e percebo, com desalento, a onipresença da calúnia e da difamação - exatamente como faziam os latifundiários mais reacionários do Brasil, em sua terra natal (o Acre), tachando-a de "comunista" e macaca para baixo, em letras graúdas e hachuradas, em jornalecos locais, financiados por assassinos.

Hoje, em contrapartida, leio eminências intelectuais como, por exemplo, nosso colega cientista social Emir Sader escrever estultices sobre Marina, com a maior desenvoltura, em seus aclamados artigos políticos - ele se dá ao trabalho até mesmo de retuitar textos críticos a ela. E vejo também uma beligerância ultrapassada no "debate" proposto pelo PT, bem ao estilo George Bush: - Ou estão comigo ou são burgueses neoliberais a serviço do capitalismo e do mercado financeiro internacional... Um discursinho já meio anacrônico; defasado, por assim dizer. O dualismo causa guerras com mais facilidade. Já era hora disso estar entendido.

Escrever que a Marina "mudou de lado", sendo que ela foi fidelíssima ao Lula até ser atacada pelas costas, tendo que engolir o cego em tiroteio do Mangabeira Unger para coordenar uma área (Plano Amazônia Sustentável) da qual o cara não entendia picas, desabonando toda a luta e todo o conhecimento que ela tem foi demais! Não custa lembrar que ela era o "selo verde" do Governo Lula, e que, em toda a Esplanada, só contava com o apoio do Rosseto (Desenvolvimento Agrário) e do Gil(!) nas reuniões ministeriais, enquanto o resto da patota (futura presidenta Dilma inclusive) caía de pau nos projetos do MMA com o surrado argumento desenvolvimentista. Marina tomou muita porrada ali e só conseguia alguma conquista ao custo de sua habilidade política. E quando saiu - não foi demitida; saiu pela porta da frente, dando entrevista coletiva para a imprensa nacional e estrangeira -, o fez para forçar o Governo a cumprir com as promessas da agenda ambiental - algo que não me parece característico de nenhuma "ambiciosa" ou "vendida" ou “ególatra” ou “traíra".

Aliás, ela só virou traíra na boca da militância petista, de uma hora para outra, por se recusar a rezar o Pai-Nosso que era ensinado (pensamento único). Dali em diante, virou a Judas da Esquerda, exatamente como a companheira e amiga Heloísa Helena, expulsa do partido por não abandonar uma bandeira histórica (remembering: votou contra as reformas da Previdência e Tributária propostas pela base governista e endossadas pelo FMI e que, ao fim e ao cabo, não reformavam nada).

Em outras palavras, se o projeto de governo (ou de poder, que seja) do PT significa um discurso freqüentemente ultrapassado, totalitarista e mentiroso, eu não posso endossá-lo. Ser de esquerda, para mim, definitivamente não é isso. Esse policiamento ideológico do PT em cima da Marina, aliás, está enchendo o saco. Acusações de que ela está a serviço do Serra, do PSDB ou das ONGs internacionais, então... Que discursinho! Não vê o vexame de ficar procurando migalhas, quando há muito mais com o que se preocupar? Intriga-me essa coisa do PT manter tão próximo assim, pessoas da estirpe de um Temer, de um Renan, Sarney, de um Jáder Barbalho, um Collor, um Jucá, um Blairo Maggi, Henrique Alves e que tais. E mesmo com tanta “gente boa na varanda”, a turma do Planalto insiste em se preocupar em policiar a Marina – a Marina!?!? – produzindo “manchetes bombásticas” que aniquilem a reputação da ambientalista, culminando no vexatório episódio ocorrido em Pernambuco, quando “encontraram” razões para celebrar, com esquisita e notória euforia, a “confissão de Marina”.

Lembra-me até certa passagem engraçada de uma história do Asterix - o gaulês. Um legionário romano, após tomar uma falsa poção mágica, tenta inutilmente erguer enormes rochas para testar sua força, até que, apelando a pedras cada vez menores, ergue um pedregulho mequetrefe e exalta, algo impressionado com o próprio feito: "Sou o Superman!!!". A reação da vigilância do PT atrás de "revelações" que indiquem a "grande farsa" que Marina seria me parece idêntica, só que bem menos engraçada.


foto: joão sassi

sexta-feira, 29 de março de 2013

Luta de Classes


E um isquerinho pra nóis, o senhor teria, Doutor?

Ao meio-dia, o consultor caminhava satisfeito e pernóstico pela calçada do luxuoso bairro onde morava desde há um ano, quando tomara posse numa agência do governo. Respirava profundamente um ar que lhe parecia mais puro e levemente aromatizado por aquelas bandas. Segundo ele, não se mudara por ostentação, senão porque talvez soasse “mais condizente” com seu atual cargo uma residência “mais digna”. Dizia que se tornaria alvo de inveja da vizinhança a qual pertencera até então, caso permanecesse vivendo no subúrbio.

Lá, ainda um jovem trabalhador, fizera parte da associação de moradores do bairro onde morava, quando se sindicalizara , metalúrgico que era, participando das históricas greves do ABC, tendo até mesmo se filiado ao Partido dos Trabalhadores. Pôde, inclusive, conhecer o futuro presidente: - O Lula ficou puto comigo porque espalharam no sindicato o boato de que eu comi a namorada dele enquanto ele esteve preso, mas isso não é verdade! – relembra, achando graça pelo fato nunca haver sido comprovado.

Na verdade, ele havia se deitado com a mulher de outro colega, e é provável que este, por ocupar funções menos relevantes na hierarquia do sindicato, tenha se saído com essa como meio de desforra, alardeando por aí que o carismático barbudo teria sido feito corno por um tal Chico Piróla. É de se imaginar que, por esta razão, o suposto corneado haja disseminado um novo apelido para o garanhão, e o pessoal do sindicato passasse a chamá-lo, maldosamente, de “Chico Pirrôla” pelos corredores. Sem ambiente, sem moral e se sentindo acuado pela antiga companheirada, não viu solução que não a de aceitar um plano de demissão voluntária, abandonando a luta de classes.

Com o pecúlio obtido, empenhou-se nos estudos com a idéia fixa de arranjar emprego no Governo - mais seguro e cheio de regalias. A obstinação lhe supriu a inteligência mediana, de modo que, feita uma faculdade, agora, enfim, Francisco Pirólla (assim, com dois “éles”, como ele passou a assinar) era funcionário público; havia triunfado em sua luta, ainda que em causa própria!

Contudo, todos esses pensamentos agora lhe pareciam longínquos, perdidos na poeira do tempo, ao passo que em seu novo caminho, Pirólla desfila e vê seu próprio reflexo projetado da vitrina espelhada de um grande banco. Ele enverga um terno caro de tecido escuro e riscado, ainda que o sol esteja a pino. Os sapatos produzem um ruído sóbrio e um brilho pretensamente aristocrático. Os cabelos ondulados amassados de lado e óculos escuros à La Waldick Soriano terminam de compor o personagem. “A putada no Piauí nem sonha...”, regozija-se, planejando uma volta triunfal a Barro Duro, com carro vermelho do ano e correntes de ouro no pescoço, ao mesmo tempo em que sente falta de um chapéu.

Em seu atual emprego, sente vergonha de dizer aos colegas de onde vem, preferindo contar que é descendente de italianos (?), e que seu avô, à época da II Guerra, mudara o nome de Francesco Berolla para Francisco Piróla, a fim de evitar a perseguição política. Seu nome, portanto, “é uma continuação daquela linhagem”, como adorava dizer. Não acreditavam, mas fazer o quê?

Da fábrica não trouxera amigos. Dos que havia tido na infância, abandonara-os à lembrança. Aos colegas de repartição, era apenas o clown. E quanto aos condôminos com os quais dividia a garagem, não estabelecera qualquer comunicação. Os familiares semi-esquecidos em Barro Duro mereciam sua atenção por meio de um telefonema ou outro, mas nem desconfiavam do seu sucesso e não recebiam quaisquer dos dividendos por ele obtidos. Mesmo assim, solitário, fazia questão de exalar satisfação com a nova vida boa e sentia que o país todo ia muito bem.

Sentia-se vitorioso e chegava mesmo a cumprimentar os transeuntes que por ele passavam em sentido contrário. Com esse sorriso redentor no rosto, deu de frente com um mendigo prostrado à entrada do mercado a que se dirigia. Deteve-se, surpreso pelo contraste, mas não mudou a expressão de contentamento. Ao contrário, puxou conversa:

   - Mas que dia bonito, hein, irmão? – exclamou.

   - O senhor tem alguma moeda para me ajudar? – rouquejou aquele que lhe parecia um descendente direto de escravos, tal a secura de seus traços na pele.

   - Mas é claro! Ora, se não... – brincou Pirólla, buscando na carteira de couro de cobra os centavos inúteis. Havia muitos deles, o que o deixou mais satisfeito ainda. – Tome, fique com todas! – ofertou, estendendo a mão e fazendo cair muitas moedas quase sem valor na palma da mão do mendicante, que estava imunda. “É preciso fazer alguma coisa por esta gente”, pensou, enquanto se afastava, entrando no estabelecimento.

Tendo poucas necessidades, visto que continuava solteiro e fazia todas as refeições em restaurantes da moda, fixou-se em futilidades. Comprou um chocolate importado para uma namorada, além de prosciutto crudo (para essa mesma namorada) e mortadela com pimenta, que ele adorava. Por fim, comprou uma garrafa de espumante para ela e uma caixa de cervejas americanas em lata para si. Já no caixa, por pura curiosidade, esticou o braço e alcançou uma garrafa de suco de tomate: “Nunca tomei uma merda dessas... Dá pra comprar umas cinco latinhas de cerveja, no mínimo!”, refletiu, enquanto a moça lhe perguntava: - Vai o suco também, senhor?

Saiu assoviando de prazer, mas novamente confrontou-se, involuntariamente, com o maltrapilho que continuava jogado no chão quente, com cara de fome, cozinhando sob o sol inclemente. Dessa feita tentou disfarçar, mas o mendigo já o havia fitado nos olhos. Lembrou imediatamente que tinha pensado em comprar alguma coisa de comer para dar ao miserável, mas esqueceu-se por completo. É o tipo de indignação que ele finge ter, mas pela qual não luta e tampouco se ocupa; um pensamento furtivo que se perde dois passos adiante. Em seu íntimo, porém, sente-se bem por ao menos haver pensado naquilo.

Naquele instante, contudo, com seus chocolatinhos e mortadelas, ele fica sem-graça e se sente na obrigação de expor a nobreza de sua alma. Abre então a caixa de cervejas e puxa uma latinha para oferecê-la ao pobre coitado: - Pois muito bem!... – emendou – aí tens uma biritinha!... Está “um pouco” quente, talvez... Mas é americana; é das melhores! – e seguiu, o Pirólla, assoviando a música da parte em que havia parado.


foto: joão sassi







quinta-feira, 7 de março de 2013

A Angústia de Oscar

Eis que surge, Brasília!!! Agora só faltam as pessoas...




 É noite. Sentado onde estou, daqui vejo a Pétala do Niemeyer pelo quadrado vago da janela. Isolada em seu horizonte e rodeada de breu, aparenta-se mais a um foguete prestes a ser lançado que propriamente à bela Flor do Cerrado. É mais uma invencionice do velho Oscar que Brasília – esta cidade estranha – recebeu como legado.

Com que finalidade a cidade tenha sido construída, isso já sei. Que as profecias tenham se concretizado quanto ao seu pertencimento ao povo brasileiro, nem tanto. Afinal, onde é que este ser - o brasiliense - se sente amado, aconchegado e bem-recebido em sua própria cidade? E o que Niemeyer tem a ver com isso?

Após um início virtuoso, com meia-dúzia de belos palácios construídos, começamos a estranhar a obra do genial arquiteto por conta daquele espaço todo vazio da Praça dos Três Poderes; tudo muito duro e seco; agreste, por assim dizer. Quer dizer, não havia - fora o pipoqueiro foragido sob a sombra do cabeção do JK - qualquer ambiente de carinho ou acolhimento ao visitante, que se sentia meio pateta ali, naquele mundão de pedras portuguesas carregadas de ofuscante brancura e calor. É pouco dizer que, nesse caso, Lúcio Costa muito colaborou.

Aí veio a pomba da paz do Panteão da Pátria. Foi aplaudidíssima – afinal, “é do Niemeyer!” –, mesmo que, aparentemente, gastar combustível tenha sido sua única serventia durante anos, até que um’alm’arguta tivesse a brilhante ideia de substituir o fogo por luz. Ficou menos glamoureuse, mas também menos custeuse ao erário. Antes dos tempos bicudos chegarem, quando se podia andar por aí, a pomba, além de queimar gás, era tida por expertises como local apropriado à queima de fumo e de álcool, sendo sólida base a piteiros e bebedeiros em noites de luar. Hoje, no entanto, não se pode dar bandeira por aquelas bandas da praça, pois há bandidos em todo ao redor – por mais belas que sejam as vidraças dos palácios, seus subterrâneos estão sempre imundos; é de dar dó.

Após um hiato de vacas magras, sublevou-se meio$$$ para a construção de um complexo cultural formado por uma biblioteca-fantasma e um fornão de pizza (de nome museu) em constante descascamento e bronzeamento cerradino, cujos arrabaldes, a exemplo da Praça dos Três Poderes, nada tem de convidativo ao público que por ali se aventura. São ambos um deserto feito de nada e concreto, sem que isso signifique, pelo menos, um estacionamento decente.

Não parece ser este, aliás, o problema da recém-inaugurada Pétala. Ali, antes mesmo de desfolhá-la, o visitante poderá desfrutar de amplíssimo estacionamento em massa asfáltica de discutível qualidade – e nada mais! A reboque da lógica presente nos monumentos anteriormente citados, a Flor do Niemeyer fica num vazio profundamente brasiliense. Daí o desavisado se perguntar, “será que o homem que criou essas coisas era depressivo, coitado?” – mero reflexo do isolamento encarnado nas obras do arquiteto come-quieto.

Mas sendo assim, um hedonista dileto, óbvio não ser o caso de viver em depressão; claro que não! Todos sabem o quanto gostava de viver ou o quanto admirava as mulheres, essas provedoras de curvas e bem-estar que tanto inspiraram o jovem Oscar. Sua angústia certamente era bem outra... Mas qual? Qual a angústia de Oscar? O que o incomodava tanto que tanto me incomoda?

Incomoda saber que nossos grandes monumentos sejam tão a nossa cara, tão Brasília. São distantes, frios (apesar de quentes) e silenciosos, como se Oscar, pelas tortas vias de um comunismo distorcido, não aceitasse abrir mão do tom solene que os duros anos de chumbo perpetraram na alma da capital, criando espaços públicos não frequentados pelo público.

Não era meu intento espinafrar o velho mestre, mas minha cidade está precisando de calor humano. As caras e ainda pouco desfrutadas homenagens parecem, cada vez mais, sedimentar esse isolamento que faz o coração do brasiliense cada vez mais carente de sentimento.

PS: Essa é uma obra de ficção e todos os relatos aqui contidos são invencionices maltrapilhas. Na verdade, eu nem sei se o Niemeyer era esse mulherengo todo.


foto: joão sassi
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Memel é Foda

direitos reservado
Memel, em sua primeira aparição, demonstra todo seu espanto; não foi um mar-de-rosas.

Foi por vias tortas que ela veio parar por aqui. Dessas que nascem não se sabe exatamente como, quando, onde e por que, mas nascem, e que logo foi encontrada por dois irmãos que saracoteavam por aí, miando debaixo de algum carro. Era pequenininha. Nascera, sei lá, há duas semanas, se tanto, e as crianças se encantaram.

Levaram-na imediatamente para casa. Claro que a mãe enxotou a gatonfinha. Duas crianças e uma gatinha linda; que situação. Sem nem dizer mais nada, largou a infeliz com o porteiro, que agora, além de cuidar de uma caixa de sapatos com um gato dentro e eventualmente abrir portas, teria ainda de vigiar o estacionamento, carregar compras, levar o guarda-chuva para a senhora, cortar a grama defronte ao edifício, passar o rodo pelo prédio, resolver pepinos, e bajular o babaca do bloco por ignorância, complexo de inferioridade ou pobreza de espírito. Claro que ele não tardaria a passar a bichana adiante. Esse insensível não deve nem ter aberto a caixa.

O primeiro interfone que o cara tocou, sabedor que era do histórico dos moradores, e ela acabava de ganhar um novo lar. Quando chegou, era - como ainda é - a menor dentre cinco, a coisinha. Imagine se não sofreu na mão das outras. Fazer o quê? É a lei dos bichos, tal como é a nossa. Os baixinhos sempre se fodem, o que só muda quando ficam ricos, famosos ou inteligentes; do contrário, pancada neles. Ela teria de esbanjar muita simpatia para se criar “no meio da vagabundagem”. Passados alguns meses, parece que está conseguindo. E como é esperta, meu deus!

Antes de sua chegada, as demais já estavam entrando numas, acatando certas leis naturais artificialmente impostas pelos donos do lar, que se julgam soberanos. A disputa é árdua; neguinho(a) é folgado que dói, então há que se fazer manter o respeito – vide D2. Mas aí aparece esta criatura, ignorando toda e qualquer norma anteriormente existente, e numa doçura que não dá para crer, faz o que bem e mal entende.  Ela é inacreditável. E nem sabe que é linda assim.

Desrespeita todos os limites com naturalidade. Quer porque quer se alçar ao ponto mais alto da casa, e geralmente o alcança. As outras, macacas-velhas, observam passiva e tranquilamente. Assistem tudo sem um mio, torcendo para que ela escorregue quando estiver por suplantar a ultima escadinha de CDs empilhados; e o pior é que ela normalmente escorrega, o que faz com que eu, vez ou outra, acorde em plena madrugada - “espero que não tenha sido um dos bons”, penso então, já pegando no sono novamente.

O que marcou a vida das quatro “irmãs” mais velhas, ainda antes da chegada de Memel, foi quando uma delas fez uma manobra infeliz, na vã tentativa de subir no topo de uma antiga geladeira restaurada – um mimo que ornamenta a sala. Ora, ora, os gatos não devem, jamais: 1) entrar no quarto de dormir; 2)subir na pia da cozinha (a não ser quando a casa dorme, naturalmente) e 3)subir na geladeira altona que está cheia de artefatos inadequados para felinos.

Pois deu-se que um desses artefatos, numa dessas noites, fora preenchidos por flores esbeltas, o que chamou tanta atenção que a curiosidade quase mata o gato, literalmente. Era um belíssimo e pesado vaso de cristal – que de tão bonito, nem sei nem se poderia ser chamado de vaso -, mas que mesmo assim, foi ao que ela tentou se agarrar, no desespero de não se estabacar. Pois vieram ao chão, a desastrada, o vaso com flores, água e tudo mais, destruindo, no caminho, um antigo aparelho televisor P&B que, até aquele momento, tinha chances reais de voltar à ativa. Tive de ter uma conversa séria com essa coitada. Ela disse que sentiu muito por isso. E não é que falava sério? Nunca mais se tentou a fazê-lo.

Pois qual não foi minha surpresa esta noite, quando nossa adorável caçulinha astutamente aparece por lá, já quase botando abaixo alguns porta-retratos caríssimos que mamãe mandou buscar em Paris! Descobriu uma brecha do parapeito da janela que ia de encontro, vejam vocês, à parte superior das grades detrás da geladeira, por onde calmamente passou, subindo com facilidade ao campo minado.

Foi repreendida como não deveria, afinal, é apenas uma gatônfia linda, feliz e maravilhosa que, como costuma dizer minha mulher, “somente conheceu o amor, desde o dia que nasceu". Dá uma espécie de remorso, daqueles que mães conscientes sentem quando porventura dão uma palmada no filho pequeno. Pelo menos assim que era lá em casa. Lembro do dia em que minha mãe me deu uma chinelada; depois, ficou meia hora chorando.

Pois Memel, em muito menos tempo que isso, mesmo após uma tremenda broca – da qual pareceu não entender uma única palavras - já estava no meu colo, fazendo dengo. Tão à vontade que, já sonolenta, quando ia se escorregando por entre minhas pernas, fez trabalhar suas presas contra minha carne. É dor pra mais de metro...

Entretanto, com toda a paciência e auto-controle que não tive alguns minutos havia, e também por vê-la aproximar-se sem nenhuma mágoa, como me ensinando como se deve agir, sempre amorosamente, não praguejei para além do pensamento. Ao contrário, fiz com ela se reacomodasse, aninhando-se graciosamente, e fingi que tudo seguia na mais absoluta normalidade.

Memel é foda.


foto: joão sassi

domingo, 20 de janeiro de 2013

Seis da Manhã

Manuel Francisco dos Santos - o Garrincha


Lá fora estava ainda escuro, mas a luz não tardaria a aparecer. Deitado em meu colchonete, escutei a empregada trabalhando na cozinha.

Eram barulhinhos de talheres, xícaras de porcelana e de gordura chiando na frigideira. O dia estava quase nascido e um cheiro de manhã logo se instalaria pela casa. Cuscuz e inhame na manteiga, mingau de tapioca, café com leite e pão na chapa com ovos mexidos.

Eu adorava acordar cedo, principalmente porque estava de férias da escola, veraneando em Salvador com minha família. Tinha passado de ano com certa facilidade. Fazer contas de multiplicação era mais fácil que de divisão, mas o que eu adorava mesmo era fazer “composição”. Agora, porém, na 3ª Série, imaginava que as coisas ficassem mais complicadas.

Em silêncio, alcancei a porta do quarto e, já na sala, olhei para um relojão-cuco barulhento no exato momento em que o passarinho saiu para dar a notícia; seis da manhã. Pelos cantos, em leitos improvisados, espalhados por ali e pelo resto da casa, havia uma pessoa deitada. A morada estava cheia de gente, mas ninguém despertou. Foram seis cucos no vazio.

Entrei na cozinha e vi Hilda, a responsável pelo trabalho pesado da casa. Nascida no interior, ela costumava acordar antes das galinhas. Por mais dura que fosse a labuta, tinha sempre uma expressão de genuína cumplicidade para ofertar. Poucas palavras; sorriso simples. Criada ao pé do fogão, comida era o que ela sabia fazer de melhor na vida: cozinhava como já não se cozinha mais. Seu contato com a realidade era furtivo e dava-se, mormente, à hora em que se recolhia, ao pé do rádio, por onde recebia as notícias da vida. Era uma Macabéia sem par, donzela no mundo até seu último dia.

   _ “Já acordado, minino? Molhou o colchão?”, disse, mostrando os dentes separados, enquanto espremia a laranja fresca, à mão. Não tinha espremedor melhor que aquela mão. Dela, além de suco, saía carinho.

Abri a porta de casa a tempo de ver o sol surgir, dourando as dunas da Lagoa do Abaeté. E logo estava atravessando a rua que ficava a poucos passos da areia. Mingote de criança branca, me aproximei daquela água escura e me sentei. A areia estava fresquinha e era fina como açúcar de confeiteiro. Morria de vontade de pular n’água, mas meu pai dizia que dava doença. Então, eu só molhava os pés.

Procurei com os olhos pelas lavadeiras, sempre conversadeiras ao longo do dia e das margens da lagoa, mas não as encontrei. Nem elas, nem aquele bando de crianças que sempre as acompanhavam. Também não vi nenhum negão de cócoras admirando a imensidão. Meu pai dizia que eles faziam isso – ficar ali, de prontidão – porque tinham sempre um bagulhinho à mão. Eu não sabia o que era, mas devia ser bom, já que dia e noite, tinha sempre um deles vislumbrando a superfície plácida como se estivesse em profunda reflexão.

Não se escutava nada, nenhum ruído, além do cantar de alguns passarinhos escondidos pela vegetação. O sol já começava a subir, mas as águas do Abaeté permaneciam intocadas, como se o dia não houvesse ainda começado. Nem sinal de gente ou coisa alguma. Tudo estava parado, em suspenso, e o único movimento perceptível era do meu indicador, desafiando a areia molhada que fica no ínterim entre o branco das dunas e o coca-cola das águas.

Desenhei no chão um gol, e em seguida uma bola entrando no ângulo. Não tive tempo de desenhar quem a chutou. Nesse instante, alguém tocou meu ombro: -“Hilda disse que você saiu sem tomar café... Vamos lá?”- disse ele, meu pai, erguendo-me pelos sovacos e me colocando sobre seu cangote.

Seguimos em silêncio pela areia, à beira da lagoa, até alcançarmos o cume de uma ladeira que dava na rua de nossa casa. Passando por uma barraquinha de palha que vendia coco aos turistas, ouvia-se pelo radinho de pilha um locutor que alardeava, emocionado, a notícia do dia: - “Acaba de falecer, no Rio de Janeiro, Manuel Francisco dos Santos - mais conhecido como Mané Garrincha –, craque do Botafogo e da Seleção Brasileira! Chora o Brasil inteiro a morte de seu maior ponteiro!”.

Senti que meu pai tomou um baque. Com os olhos marejados, abriu a boca, mas não tinha o que me dizer. Eu sabia que alguma coisa grave havia acontecido. Ele então me olhou e disse: -“Garrincha partiu...”.

Atravessamos a rua em silêncio. De fato, Salvador ainda não acordara. Nem os coqueiros de Itapoã se mexiam. Entrei em casa e percebi que todos ainda dormiam. Na cozinha, Hilda ainda espremia laranjas. E o cuco ainda estava lá, inerte, parado no ar, sem vontade de voltar; marcava as mesmas seis horas da manhã.

Só os passarinhos puderam ser escutados naquele dia. Era 20 de janeiro de 1983 e, desde então, nunca mais se ouviu tantas gargalhadas e risadas pelos estádios. O Brasil perdeu seu ídolo mais brasileiro, e o futebol, sua maior alegria.

Em homenagem à memória de Garrincha e de Hilda Carolina.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Inadimplentes

O Governo cuida do Povo que cuida do Carro que...

Um bebê excitado dá um berro cuja reverberação substitui, ainda que momentaneamente, o torpor coletivo então reinante no amplo galpão. Muitos despertam da cochilada. Poucos se incomodam. A mãe ri, incentiva e provoca o filho a novos gritos.

Passam das oito da manhã. Há dezenas de pessoas diante dezenas de guichês vazios, mas nem sinal daqueles que deveriam ocupá-los a fim de poupar o enfado do cidadão. Três funcionários atendem ao público, enquanto um quarto nos olha com descaso, movimentando-se lentamente pela baia.

Boa parte dos presentes está sonolenta e impaciente. Os mais jovens flertam ininterruptamente com tabletes e celulares. Só os mais velhos parecem saber aguardar; há sinais de que a atual geração não aprendeu a ver o tempo passar, o que os faz encarar a vida como um eterno passatempo.

O bebê, agora cansado, começa a chorar, enquanto sofisticados ruídos eletrônicos cruzam o ar. Além das chamadas e das mensagens enviadas, alguém resolve ainda testar as musiquetas que tocam em seu novo celular.

O sujeito ao lado me olha torto. Parece que não entende que há quem ainda use lápis e papel para escrever. Ele estica o olho e tenta decifrar os estranhos códigos com os quais ornamento a folha virgem. Mas não consegue; minha letra é muito feia. Em todos os meus manuscritos, apenas as duas ou três primeiras linhas tem aparência aceitável, o resto é garrancho.

O quarto funcionário, enfim, assume seu guichê. É uma mulher que, a exemplo de seus pares, parece estar na profissão errada. Antes de dar início aos trabalhos, ela lança um pesado olhar de tédio à sua volta, ampliando-o mais ao longe à medida que gira o pescoço, alcançando até mesmo o último infeliz da fila da senha, quase do lado de fora do galpão. Espero não cair em suas mãos.

Cansado de viver na marginalidade, resolvi regularizar a documentação do meu carro. Além das multas, já são passados quatro anos desde que o adquiri, de segunda mão, e o nome que consta no documento não é o meu. Todas as minhas tentativas de fazê-lo, anteriormente, foram vãs. Sempre há contratempos com o DETRAN. É o tipo de angústia que alimenta o sistema, e quando os homens-da-lei chegam, o prejú é certo.

Uma gostosona espevitada atravessa o salão e todos acompanham sua evolução com solícita atenção – menos eu, que sou casado. Com uma aliança no dedo da mão, tento passar por bom cidadão. Lá onde eu moro, o porteiro me chamava de maloqueiro. Depois que meti esse anel de ouro no dedo, o tratamento passou a ser Senhor Maloqueiro.

Os bancos disponíveis estão já apinhados de gente. O povo, recebido sem qualquer fidalguia, vai se aglomerando à porta da autarquia. Para cada um que é atendido, outros dez se somam ao contingente.

O mesmo cidadão que antes bisbilhotava meus escritos, agora cochicha junto ao sujeito a seu lado: - “Isso aqui é uma bagunça! Só tem funcionário preguiçoso... Já começa mal na recepção; repare no crioulinho que botaram lá para distribuir as senhas; isso é gente?” – diz o homem, apontando para um rapaz bem jovem, um pouco magricela e desengonçado, que atendia solicitamente à turba de contribuintes. Pela ótica desse senhor, seu pecado era o de trazer na pele, no rosto, nas roupas e no corpo a marca da pobreza.

Sobre um decrépito balcão de compensado postado logo atrás dos guichês, três ventiladores embelezam o ambiente enquanto evocam o espírito reinante: estão desligados. O ar-condicionado também não avisa se está vivo ou morto. Olho para cima e percebo um grande rombo no teto. Através dele, vê-se o teto antigo, todo estragado e abandonado. Está apenas escondido pelo feio forro de plástico instalado pelo poder público que, para cuidar do público, usa dinheiro público, para lucros terceirizados, naturalmente. O local é a metáfora da política local: realidade maquiada, mas cheia de furos que permitem que a verdade seja revelada.

Já no fim da manhã perdida, cansado de esperar, ouço uma voz mecânica reproduzir meus números favoritos. Quando você vê sua senha piscar no placar, sente-se como se fora contemplado pela sorte grande! Passei em meio ao povo como um eleito (sabe-se lá para quê).

Após alguns sorrisos e boa vontade da moça que me atendeu, ouço dela uma confissão: -“Tenho pesadelos com este trabalho. Acordo no meio da noite e vejo a cara de todo essas pessoas me olhando raivosamente...”. Ela deixa claro que trabalha em condições desumanas, sofrendo fortes pressões psicológicas. Obviamente a responsabilidade não é dela ou de seus colegas. Salvo a pena que senti, recebo de bom grado as orientações sobre o que fazer para ter minha situação regularizada. Há todo um périplo burocrático ainda por realizar, com idas e vindas a este mesmo lugar.

Saindo de lá, tratei de pagar todas as taxas o mais rápido possível e esperei 24 horas “para o dinheiro cair na conta deles”, e então poder acessar o computador para agendar a vistoria obrigatória. Dei placa, dados, chassis, mas a máquina acusou erro, recusando-se a seguir com o preenchimento do formulário. Tentei inúmeras vezes; nada. Sem esse preenchimento, não recebo o boleto, não pago a transferência, não agendo a vistoria, não viro um cidadão idôneo e respeitável.

Se eu quiser deixar de viver à margem da sociedade, vou ter de voltar ao Departamento de Trânsito para fazer algo que, teoricamente, poderia (e deveria) ser feito de casa. E depois voltar novamente para fazer a tal inspeção.

Enquanto programo o meu dia de amanhã, priorizando esta inesperada incursão, escuto o repórter do noticiário local que, pela TV, anuncia: - “a cidade está cheia de blitz para surpreender os inadimplentes. Cuidado, motorista!”.

Implacável, o sistema apenas ri da desgraça da vida moderna.

E pensar que nos sobraria tanto tempo para a felicidade... 



foto: joão sassi

sábado, 22 de dezembro de 2012

A Bênção do Anjo Guerreiro




Foi nesse momento que meu corpo foi abruptamente lançado pelo ar e, ao tempo em que eu voava sobre o asfalto, pensava comigo no ocorrido: “Um carro me atingiu enquanto eu conversava com uma garota no estacionamento da FUNARTE”.

Eu me lembro muito bem, o dia estava lindo, ensolarado e seco. Um árido, porém belo dia de Domingo.

Tinha em minha adega uma garrafa de uma cachaça de qualidade relativamente boa. Foi um tempo em que experimentei diversas qualidades de cachaça; todas relativamente boas. Não seria capaz de me lembrar do nome de nenhuma delas em especial, senão de seus prazerosos efeitos. Mais ou menos como as mulheres em meus ébrios dias de juventude. Fica na memória a sensação de que foi bom, mesmo que não me lembre muito bem como foi.

Vivendo numa pequena comunidade rural, mas sendo oriundo da urbe, tentava me integrar à ruralidade local estabelecendo qualquer sorte de contato com o meio que me cercava. Beber era uma ótima forma de fazê-lo. Sair caminhando pela vegetação, tendo “visões” ancestrais e me conectando ao chão e ao cheiro das coisas do Cerrado, para então mergulhar num riacho de águas ainda vivas, plenas em bem-estar e energia.

À metade do dia a garrafa já estava metade cheia, metade vazia. Lá fora, sob forte sol, Pablito, um andarilho que por lá perambulava e realizava pequenas empreitadas pelos casarios da comunidade, trabalhava tenazmente com sua enxada. Muito sério, não queria saber da cachaça que eu insistia em oferecer. “Já tive muito problema por causa disso!”.

Na vitrola, um disco raro com antigas cantigas evocadas pelos integrantes do bando de Virgulino Ferreira, o Lampião, para esquecerem-se da solidão que a vida no cangaço lhes propiciava. “Se eu soubesse que chorando/ empacava a sua viagem/ meus olhos eram dois rios/ que não lhe davam passagem...” – e enquanto eu escutava isso, tomava outra talagada, e todo o espírito ficava ainda mais bonito!

Eu bebia apenas para expandir a euforia. Para andar pela casa filosofando, cantando e rindo sozinho. Bebia para me emocionar e por acreditar que a verdade da vida fosse sempre mais bela que realidade fingida.

Tarde adentro, sol a pino, segui bebendo. E da voz seca de um Othon Bastos travestido de guerreiro na forma de cangaceiro que saía do estereofônico, ouvia-se a Oração ao Glorioso São Jorge: Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem, tendo mãos, não me peguem, tendo olhos, não me vejam, e nem mesmo pensamentos eles possam ter para me fazerem mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar. Era Corisco, sequestrado por Glauber, agora em missão especial à Terra do Sol.

Sempre imaginei por onde andaria o Capitão Virgulino àquelas horas. Corisco lá, fazendo o maior sermão que o Cinema Novo jamais escutara, e eu me perguntando: “Será que o Lamparina liberou ele dos assaltos?”.

Escutei a oração por inúmeras e repetidas vezes. Não sendo um cristão-novo ou tampouco convertido, punha fé nas palavras. Pablito então surgiu de supetão à janela e me advertiu, bronqueado: - Você não devia ouvir essas coisas assim [bêbado]. Isso é coisa do Sagrado. Tem que estar em contato com a força...

Referia-se por certo à ayahuasca, da qual era contumaz tomador. – São diferentes formas de senti-la, redargüi.

E, de fato, o que eu sentia era sublime, lindo! Não havia como ser desrespeitoso se o que eu sentia era espiritualmente tão poderoso. Deixei isso claro. Eu estava feliz. E protegido.

O sol ia se pondo quando resolvi dar uma volta pela cidade. De lá de cima do morro, Brasília brilhava!...

Poucas horas mais tarde, meu corpo estaria estendido no asfalto, a alguns metros de uma mulher que jazia inerte, com o rosto voltado para o chão. Uma cena terrificante. Acabáramos de nos conhecer. Não houve sequer como saber seu nome, mas apenas tempo de lhe roubar um beijo e adverti-la: - É perigoso ficar aqui...

Terminado o lançamento, caí num rolamento sensacional, evitando qualquer ferimento; “... e nem mesmo pensamentos eles possam ter para me fazerem mal...”. Levantei os olhos e vi o motorista vindo em nossa direção, desesperado, rua acima. Mais próximo a mim, ela. Estava lá, jogada, sem a proteção necessária; decerto ferida.

Num átimo de segundo eu a segurava em meu colo, como um Romeu que vê Julieta semimortificada. Mas eu não pensava em suicídio, e sim em reanimá-la. Após um mórbido instante, vi seus olhos se abrirem; tão docemente como minutos atrás, quando nossos olhares se cruzaram e eu a cortejava. Ela não sabia de nada, a inocente. Encontrava-se num mundo lindo, totalmente lindo, perfeitamente lindo. Ela, que tinha uma clavícula fraturada e a face parcialmente arrebentada, estava muito feliz e não sabia de nada...

Clamei por socorro! Muita gente acudiu e começou a nos rodear; paramédicos, bombeiros, populares e policiais, além do motorista em pânico. “Qual o nome dela”, quis saber alguém:

   - O nome dela? Não sei. Acabamos de nos conhecer, amigo. Só estávamos nos beijando...

   - Da maca para a ambulância, rápido! – emendou o bombeiro, enquanto os demais retiravam a menina do local.

   - Esperaí! Também fui atropelado; vou com ela na ambulância!

A sirene gritava e o paramédico que a atendia agia: - Você se lembra do seu nome? Endereço? Nome da mãe? – e ela me olhava, com o rosto parcialmente ensangüentado, como se não estivesse acontecendo nada.

Fomos literalmente desovados no setor de emergência do Hospital de Base de Brasília. Em meio ao caos, muitos gemidos coletivos, madrugada adentro. Senti a dor alheia, o descaso, a sujeira e o suplício; mimos oferecidos pelo estado ao pobre cidadão convalescente. Raio-X quebrado. Necessidade de ir ao banheiro e o corpo quebrantado. Priscila sofreu – era este o seu nome, afinal -, mas sentiu cada gesto do carinho por mim dispensado.

Na manhã seguinte, sua família enfim apareceu para resgatá-la. Queriam levá-la a um hospital de gente. Sua mãe, nada agradecida, olhou-me de cima a baixo, enojada, talvez por conta da minha barba desgrenhada ou por conta do bafo da cachaçada; quem sabe?

Quanto à Priscila, sentada no banco de trás e calada, jurava que havia visto um anjo da guarda.

foto: joão sassi

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Canto do Passarinho





Se não fosse apresentado por Letícia como sendo seu marido, poderia se desconfiar que Silvestre fosse apenas um dos funcionários daquela aconchegante pousadinha à beira-mar.

Simplório, andava sempre de cabeça baixa, amuado, mesmo passando a impressão de que haveria ali, dentro de seu peito, um passarinho cantador. Como aqueles que costumava capturar nos arredores de Arapiraca, sua cidade-natal, encravada no coração das Alagoas (cujo desenho no mapa, aliás, se parece mesmo com um coração). Sangues-de-bi, papa-capins, galos de campina, extravagantes, rolinhas, craúnas, caboclinhos, manés-magros, canários-da-terra, azulões e sanhaços, mesmo engaiolados, cantavam músicas que lhe propiciavam a sensação de uma liberdade que não encontrava em casa sob o pesado tacão do pai, Seu Silvestre. É bem natural que, por conta daqueles anos, Silvestre, o filho, carregasse agora um pouco de angústia no olhar, e certa tristeza, além de duas gaiolas, ora vazias.

A mulher, paulista desgarrada, há muito fizera do sonho sulista uma realidade; mudar-se do inferno citadino para uma praia do Nordeste, com direito a pousada de frente para o mar. Trabalhava noite e dia, sempre com um cigarro aceso entre os dedos e uma expressão indefinidamente preocupada. Agia de sobressalto, quase assustada.

Conheceram-se em Maceió, quando ela chefiava um bom restaurante. Puderam desfrutar da paixão ao sabor de lagostas e camarões. Silvestre sentia-se bem na capital. Tinha casa, comida, roupa lavada e tempo para cuidar de seus pintassilgos. E fazia Letícia muito feliz na cama. A química vinha funcionando bem, até que o lado empresarial da relação – o dela, óbvio – resolveu apostar no aconchego da tal pousadinha à beira-mar, numa pequena comunidade de pescadores. Foi quando Silvestre deixou de ser namorado e passou a ser pau mandado. A apresentação “meu marido” era meramente uma formalidade – e a única distinção entre ele e os demais empregados do estabelecimento.

Foi nestas condições de desalento que Silvestre teve contato com Faustino Dantas, um escritor desconhecido, já de idade, que acabara de se hospedar para descansar e, quem sabe, buscar inspiração para escrever um bom livro.

Logo que viu o velho instalar uma mesinha na varanda em frente ao quarto, e sobre ela uma antiga máquina de escrever, Silvestre se tomou de encantamento. Durante toda a infância sonhara aprender a ler e escrever para poder ao menos “triscar” num modelo semelhante àquele, que havia em sua casa, comprado de segunda mão por Seu Silvestre, quem, por ser também analfabeto, não sabia usá-la e tampouco permitia aos filhos fazê-lo. Silvam, o irmão mais novo, um dia se meteu a porreta e desrespeitou a norma; tomou uma sova tão impiedosa que a dor do pequeno bateu fundo na alma de todos, que jamais ousaram repetir a traquinagem. Para Seu Silvestre a máquina de escrever era um símbolo de importância - um objeto para se ostentar -, e não uma máquina de escrever. Também por isso, Silvestre se tornou, quando adulto, um semi-analfabeto, um quase-matuto. É do tipo já crescido que nunca tinha ouvido falar em Machado de Assis... Até conhecer Faustino.


Que, por sua vez, passava o dia a escrever, à exceção de breves momentos em que se metia no quarto para fumar maconha – o que produzia grandes barrufos de fumaça, basculante afora – para depois, mais arejado, voltar à labuta. Silvestre aproveitava esses instantes para se aproximar e ouvir do “sábio” suas idéias. Achava-as por demais interessantes.

O velho dizia sentir saudade do tempo em que era moço, quando “o ritmo da vida era mais parecido com o ritmo da gente”. Silvestre, que da infância só gostava do canto dos passarinhos, concordava com o escritor:

   - Hoje a gente tudo só sabe corrê, né, Seu Faustino? – no que prosseguia o pseudo-filósofo:
   - Corre-se muito, mas sem saber por que...

Dava-se um momento de silêncio, quando se podia perceber a aflição na alma de Silvestre. Queria dizer algo, mas não sabia o que. E o romancista voltava às teclas.

Mesmo curtos, os diálogos iam despertando alguma coisa diferente em Silvestre. Um dia, apareceu e, inadvertidamente, pediu a Faustino “um fininho”. Ao receber mais que isso das mãos do velho maconheiro, pediu-lhe também que não contasse nada à Letícia: - “Ela não pode nem sonhar!”.

Por cinco dias, Silvestre desapareceu da vista dos hóspedes. O próprio Faustino o vira apenas uma vez, certa noite, em meio à escuridão mansa das pequenas vilas praianas. Parecia assustado, tendo apenas acenado com a cabeça e sumido em meio ao sombreado dos coqueirais.

Na noite seguinte resolveu dar as caras.

Faustino escrevia quando Silvestre surgiu. Trazia um semblante tenso, embora tentasse forjar um sorriso. Normalmente Faustino dava atenção a ele quando não estava trabalhando; desta feita, porém, não é o que ocorria. Mesmo assim, Silvestre permaneceu parado, aguardando a anuência do escritor que, por fim, cessou o movimento das mãos e levantou a vista:

   - O que se passa, Silvestre? – perguntou.

Após morder um pouco o dedão da mão direita, respondeu:

   - A maconha me deixa anti-social.
   - Ah... Por isso estava sumido? Preferiu se enrustir...
   - É... Foi isso. Mas, na verdade, é porque eu não tô feliz.
   - (...) Como assim?
   - Casar e trabalhar juntos... Não dá certo! E essa mulher não para de me dar ordem! Não consigo nem ver o mar, diacho!  Parece meu pai!...

    De repente e inesperadamente, Faustino era agora confidente de um homem que, aliviado por encontrá-lo, dava conta de sua vida, de sua intimidade e de suas angústias a um total desconhecido. Constrangido, o escritor olhava para um lado e para o outro, a ver se alguém, especialmente Letícia, os poderia escutar, apesar do chuá-chuá das ondas do mar. É que as águas marítimas são traiçoeiras: assim como podem abafar o falar com o vento, podem levar longe nosso argumento. Interrompeu as lamúrias do pobre capacho com um conselho:

   - Sonhar o sonho de sua companheira pode ser nobre, mas se tornará angustiante caso este não seja também o seu sonho.

O olhar de Silvestre brilhou como a superfície de um açude após o fim da estiagem, e seu semblante, enfim, tomou feições menos melancólicas. Foi quando apareceu Tommy, um senhor americano hospedado no quarto ao lado, que arranhava o português. Com as bochechas vermelhíssimas e completamente alheio ao momento, disse que tinha uma ótima piada para contar ao escritor. Este, já destituído de sua condição, não teve como deixar de atender ao pedido do gringo.

Forçado a rir ao menos um pouquinho por conta da falta de graça da piada, Faustino já se despedia de ambos quando Silvestre pediu para entrar também no samba. E mandou outra que de tão ruim, não se podia sequer compreender. Mas a poderosa gargalhada de Tommy forçava os envolvidos a repetir o ritual de cumplicidade, dando risadas e se entreolhando, como quem diz “puxa, essa foi demais!”.

Então, num ato de pura vilania, aparece Letícia, dando ordens a Silvestre para que fosse fazer qualquer merda, menos estar ali, de desfrute com os hóspedes.

Empolgado com a consciência de sua própria condição, e firme no novo propósito de respeitar o próprio sonho, Silvestre comenta:

   - Sim, já vou. Deixa só eu contar essa piad...
   - É agora.
   - Já entendi, vou já; é só contar...
   - Tem que trabalhar, rapaz! – exclamou ela, já chutando o balde, deixando o local.

Como é comum aos machos quando uma mulher dá faniquito, ignoraram a situação e voltaram às gargalhadas. Mas Letícia não estava para levar desaforos. Em menos de um minuto já estava de volta, cigarrinho nervoso à mão:

   - Silvestre!...

São horas assim que determinam se o homem vai ser homem ou vai se conformar em ser eternamente um menino. Como quem abre uma gaiola para libertar uma passarada, Silvestre se voltou para a mulher como se fosse ele o “dono da terra”. E em tom próprio do coronelato da região, emendou, ameaçadoramente:
  - Não está vendo que estou conversando com meus amigos, Letícia? Entendeu ou quer que eu lhe faça entender?!

No dia seguinte, apenas os empregados trabalharam. Após passarem o dia inteiro trancafiados, Silvestre e Letícia foram vistos, já com o sol se pondo lá no fim do mar, numa bem servida mesa de mariscos e crustáceos, com direito a taça de espumante, camisa desabotoada até o peito e um grande sorriso no rosto...

Passarinho canta mais bonito quando canta fora da gaiola.


foto de marcya reis