domingo, 20 de novembro de 2011

Gente é pra ser Feliz

Gente que também quer ser feliz


Mais um dia na vida. E nem sete horas eram quando já estava novamente metida em frente ao espelho, tentando focar a própria cara amassada.

Ela havia dormido tarde por conta da maldita reunião com aqueles empresários da soja travestidos de políticos; estava exausta e tinha uma cerimônia agendada para aquela manhã.  "É..., como dizia papai: "não tem meu pé tá doendo", pensou ela, "trabalho é trabalho!". 

Enquanto lavava o rosto, pensava no neto, nascido há poucos meses, e motivo de suas maiores alegrias. Ao mesmo tempo, erguia as sobrancelhas, inflava as bochechas e fazia caretas repetidas vezes. Não se tratava de um tique nervoso, mas de recomendações de sua esteticista para que exercitasse a musculatura facial, tornando menos flácida a pele dali - e retardando o aparecimento daquelas "bochechinhas de buldogue". 

Ainda de robe, entregou-se ao ritual de sentar-se numa confortável poltrona, próxima à varanda ensolarada que separava seu quarto do jardim, atrás da casa, para passar os olhos nas principais notícias do dia. Não se preocupou em ler, mas se utilizou dessa muleta para refestelar-se na almofada e curtir um pouco mais o restinho de sono, fazendo cara de sonsa para o sol que começava a brilhar.

Cá fora, e em toda a dimensão do gramado impecável, reinava uma atmosfera de harmonia perene, com as flores sempre bem cuidadas, e a visitação constante de muitos passarinhos e zumbidinhos que transportavam nossa mulher de negócios para sua terra natal, marcada pelo bucolismo regional de sua gente.  E ela dava um sorriso demorado... Que, geralmente, era o único do dia.

À mesa do café, já era outra pessoa. Muito séria, preocupou-se em repassar o assunto a ser tratado no compromisso de dali a minutos. Tomou café e comeu muito queijo branco, além do mamão papaia nosso de cada dia. Pão de queijo,  só dois, e dos pequenininhos, ainda que a dieta lhe vetasse o segundo.

Apesar de vez ou outra lidar com assuntos de seu interesse, em seu ofício as coisas nunca saiam conforme seu desejo. O que quer dizer que agendas potencialmente interessantes eram, em geral, motivo de frustração e encheção de saco. É por isso que sempre se levantava da mesa do café já mal-humorada.

Já dentro do carro, mandou o motorista tocar para o trabalho. Durante o trajeto, apressou-se em dar um rápido telefonema à filha; queria novidades de seu netinho: "Põe ele na linha! Põe ele na linha para cochichar com a vovó!". Imediatamente, a sisudez de seu rosto deu lugar a um enorme sorriso - outro! - o segundo do dia! Pelo retrovisor, o motorista estranhou a cena.

Da garagem, sentindo-se leve, entrou no elevador privativo com visível tranquilidade. O ascensorista até se atreveu, sabe-se lá porquê e a que risco, a olhar diretamente em seus olhos, transmitindo mensagens tele(sim)páticas para ela - que retribuiu.

Deu bom-dia às secretárias antes de entrar em sua sala. Deixando a bolsa de lado, assim como o maço de documentos que teria de ler, colocou as mãos nas cadeiras e espiou o horizonte logo à frente  pela fresta da cortina: "É... Até que esta cidade não é feia!... Mas poderia ter mais gente!" - exclamou, em voz alta.
Alguém bateu à porta, avisando-a da cerimônia. Estava tudo pronto.

Dona do pedaço, iniciou o evento propalando as palavras protocolares de sempre. Seria apenas mais uma, dentre tantas cerimônias em sua vida, mas em meio ao discurso, embargou-lhe a voz, e ela quase chorou. 

Os presentes, tocados pela delicadeza e espontaneidade do ato, aplaudiram-na de pé! A mulher sem emoções, numa única manhã, sorrira duas vezes e, num gesto supremo, emocionou-se em público, capturando as atenções e a simpatia de todo aquele que, como eu, acha que "gente é pra ser feliz". 

foto de joão sassi

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Tia Carla



Tia Carla se prepara para o banho


 Danilo não tinha o costume de dormir após o almoço. Por isso, sentia-se um pouco constrangido ao ver Tiago, seu melhor amigo, e toda a família se preparando para uma siesta coletiva.

Era dezembro, e Danilo havia sido por convidado pelo inseparável colega para veranear em uma pequena vila de pescadores, entre o mar e o mangue baiano. Passavam o dia inteiro juntos, respeitando todas as ilimitações que a vida empresta a garotos de 12 anos. O momento da siesta era a única exceção.

Todo os dias, após o almoço, "seu" Leandro, pai de Tiago, iniciava o ritual com os os colchonetes e os ventiladores, distribuindo-os pelos cômodos do rústico casebre. Danilo dormia no mesmo quarto do amigo, cuja irmã, Beatriz, dormia no quarto ao lado. "Tia" Carla, na benfeição de seus trinta e poucos anos, se juntava ao marido em uma das redes armadas na varanda, onde cochilavam escutando os ruídos marítimos que suplantavam os coqueirais da beira-mar.

Enquanto seu companheiro de aventuras dormia a sono profundo, Danilo, de olhos bem abertos, levava sua imaginação para o quarto ao lado. Não que Beatriz fosse linda ou algo assim, o importante é que ela era quase da sua idade! Há alguns anos, era apenas a "irmã chata do Tiago", mas hoje, era o alvo preferencial de suas infrutíferas tentativas de aproximação física. Não tendo suas súplicas atendidas, Danilo se acabava na punheta.

Não tinha qualquer pudor em se masturbar na frente do amigo ou dos primos da mesma idade, mas desde que vira a gala subir pela primeira vez, recolhia-se à solidão para maior satisfação.

E tinha o calor... Naquela tarde, o sol parecia ter esmorecido sobre a Bahia, de tanta quentura! A casinha, por mais abençoada que fosse pela brisa, estava um forno. Danilo sentiu o corpo suado grudando no lençol. Agoniado, olhou para o amigo, que babava no travesseiro, e decidiu se levantar.

Com vergonha de passar pelo casal que dormia na varanda, Danilo pulou pela janela e escapuliu por detrás da casa, em meio à densa vegetação litorânea, percorrendo uma trilha estreita e longa, de fina areia branca. Após relativa caminhada, já próximo ao mangue, encontra pequenas lagoinhas de água doce e morna, cor de Coca-Cola. Não havia ninguém em muitas centenas de metros para cá ou para lá. O silêncio era total.

Ao onanista, a solidão não é motivo de tristeza, senão de excitação.

Jogando o calção de banho sobre margem e sentindo sua nudez exposta, sentiu também o pau ficando duro. Virou-se para um lado e para o outro, sentindo-se o próprio Senhor da Terra! Exibiu a própria excitação às borboletas, às libélulas e a todas as mulheres que seu pensamento alcançava. Então se deitou.

De barriga para baixo, o menino mantém o rosto afundado na água o quanto pode. Quando não aguenta mais, ergue a cabeça, toma mais ar, e mergulha novamente. De vez em quando, um peixinho o belisca, ou um inseto pousa sobre suas costas, mas nada que o desconcentre.

Sob o auspicioso sol das 3 horas das tarde, Danilo encontrara o refúgio perfeito para dar vida aos pensamentos que o acompanhavam desde o início das férias: Ah, Beatriz!... Era bom imaginar ela ali, ao seu lado... Aparecendo do nada, sozinha, de biquini, peladinha; só eles dois na lagoinha... Ah, Beatriz!

Após o gozo intenso, o menino se diverte observando a porra rodopiando dentro d'agua, como se tivesse fertilizado o próprio Planeta. Mas num breve instante de racionalismo, lembra que sua fuga poderia preocupar a todos, e decide voltar pra casa.

Caminhando livre, leve e solto pela trilha sombreada, Danilo avista alguém vindo ao longe, em sua direção... É Tia Carla! Alertado por todos os sentidos e presságios, o garoto dá meia-volta e corre, indo se esconder numa das muitas lagoinhas, em meio à vegetação. Em poucos instantes, surge a "tia".

Num gesto gracioso, ela segura o cabelo com as mãos e o envolve em si, prendendo-o num coque, com uma pequena vareta. Em seguida, faz a canga cair e, já despida, entra n´água.

Imóvel, sem mover uma pluma, Danilo tem a melhor experiência de todas as férias e uma uma das melhores de sua recém-terminada infância. Como numa fábula escrita por Zéfiro, o menino tem, diante de si, a visão de uma mulher totalmente nua, com peitos lindos, bunda grande e pêlos pubianos!... Era sua primeira buceta de verdade.

As que vira inadvertidamente durante a infância não contam, pois a maldade era pouca. A de Tia Carla era a primeira - a primeiríssima - que Danilo estava vendo em sua vida; e ele a via quase que em detalhes, a poucos metros de desejo.

Sendo pouco profunda a lagoinha, Carla tinha de se agachar para trazer a água ao corpo e se refrescar, exibindo ao pirralho mais do que ele poderia imaginar.

A marquinha provocada pelo biquini contrastava com sua pele dourada, e mais ainda com seus pêlos pubianos, volumosos e negros. Danilo poderia apostar que fossem também cheirosos, tal o cuidado com que Carla os acariciava, produzindo na mente da inocente criança as mais bem-vindas e indeléveis marcas que um homem poderia receber em vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

O Porteiro Romântico


requinte madrileño

Em meio às atribulações do ofício, e aflita por receber a encomenda prometida para aquela tarde, ela liga diretamente para a guarita do seu bloco, e deixa um aviso com o porteiro - um homem cuja feição de estivador russo esconde a afabilidade que molda seu caráter: - "Tobias, vai chegar algo para mim nesta tarde; é muito importante. Fique atento, tá?"

Sua aflição decorre da apresentação de dança flamenca que faria dali a poucos dias, no Teatro Nacional. As antigas castanholas já não estavam à altura de sua desenvoltura - seria preciso fazê-las dignas de sua destreza requintada. Para tal, encomendara um par de castañuelas madrileñas, e pensava em treinar o quanto fosse possível, a fim de se adaptar às suas novas conchitas negras, até o grande dia.

Antes de sair para o trabalho, avisara ao marido que também ficasse atento, caso estivesse em casa. Este, muito mais interessado no noticiário esportivo sobre o Flamengo, apenas consentiu com a cabeça.

"Já é Sexta, e se não chegarem hoje, só na Segunda!...", lamentava para si, dentro do elevador. E havia os ensaios de Sábado e Domingo, quando sua trupe flamenca desfrutaria da presença de uma famosa dançarina espanhola, especialista na arte das... Castanholas.

A tarde corre solta, tudo continua como antes, e a cada pequeno avanço do ponteiro no relógio, um pingo de tristeza pontua negativamente sua expressão facial.

É interessante o status que o novo emprega ao velho. As antigas castanholas lhe eram muito bem-vindas, até então. Sob a perspectiva da inovação, no entanto, deixaram de sê-las. Subir ao palco com elas se tornara, subtamente, impensável, e certamente motivo de muita tristeza. Freud e Marx teriam muito a conversar sobre o assunto...

O marido está em casa, esticado no sofá, assistindo à cópia pirata da recém lançada filme-biografia do Rondinelli - o Deus da Raça. De repente, toca o interfone. Ele meio que ignora, atento à tela. Toca novamente, duas vezes. Ele congela a cena, se levanta e vai atender:

- "Alô?.... Quem?... Não, não está... É só com ela?... Ah... Quem é?... Alô? Alô!?...".

Voltou para o quarto e seguiu vendo o filme.

Sua mulher liga, obrigando-o a dar novo stop no DVD. Ela pergunta se chegaram as castanholas: - "Que castanholas?", responde ele, que, lembrado por ela (ah, sim! Aquelas castanholas...) promete "apurar", desligando o telefone.

Ela segue no trabalho, triste e desesperançosa. Ele segue mergulhado nas emoções da conquista de 78, imerso em sensações indescritíveis aos pagãos do ludopédio, porém vívidas e explícitas aos seus olhos, em forma de pura e contagiante alegria rubro-negra.

Termina o filme, e finalmente ele vai apurar o caso, não resolvendo, pois, coisa alguma. Liga para a mulher e avisa que nada chegara: - "O Tobias falou que o homem dos Correios veio e não tinha encomenda nenhuma pra você...".

Ela escutou as palavras do marido em silêncio, passando pela sua cabeça todas as cenas do porvir, e ela sem as castanholas prometidas... - "Pois é", completou ele, "e o Tobias disse também que se não chegou até agora, só na Segunda, mesmo...". Deprimida, ela desliga.

Encerrado o expediente, retorna à casa.

Estaciona o carro no exato momento em que se encerra a Voz do Brasil. O Guarani se mistura ao Flamenco que sapateia em seu pensamento. E ela pragueja, batendo com força a porta do automóvel, bem como os pés no chão, num legítimo "O-lé!", espanhol. Em sua direção, caminha o Tobias, que traz uma pequena caixa consigo.

- "Tá aqui, Madame!... - diz ele, entregando a ela a aguardada encomenda. - "Seu marido até teve aqui, perguntando sobre o pacote, mas eu desconversei. Não disse nada e fiquei esperando a senhora, para não ter erro!".

Surpresa e emocionada, ela pergunta, sem entender: - "Erro? Como assim?..."

- "Ué, sobre o presente pro seu marido...", respondeu ele, franzindo as sobrancelhas de taturana. - "Assim que o rapaz veio deixar a encomenda, li, lá, escrito no pacote: "FLAMENGO", e pensei que era uma surpresa que a senhora ia fazer pra ele... Não é, não?", disse Tobias, colocando um doce sorriso entre as bochechas suadas.
 
foto de joão sassi

sábado, 29 de outubro de 2011

Multietnicamente Mineral


Pra ficar com o cooper feito




Impelido por aquele espírito corajoso e sagaz pertinente a quem busca por uma vida saudável, acordei bem cedo para me exercitar. Tinha planejado correr e nadar na Água Mineral.

O ar ainda estava frio quando entrei pela Trilha da Capivara. Mil e seiscentos metros de pura Mãe Natureza, que beleza...

Raios de sol versejavam por entre as frestas de floresta, aquecendo lentamente a superfície do Planeta. As abelhinhas farejavam o mel de flores exibidas pelas clareiras ensolaradas, enquanto passarinhos diversos impunham musicalidades pontuais, aqui e acolá. Ora ou outra, um calango atravessava, esbaforido, pelo caminho. Tudo muito lindo!

Nesse tempo, esta trilha era conhecida apenas por alguns haribôs, espécie de bosque sagrado, mocó obscuro, com intervalos de mata semi-cerrada muito sombreados e úmidos, frequentado por mais espécies que a tal raça humana. Mais de uma vez, cruzei com cobra por ali, a ponto de dar o jump por cima da bicha no último segundo.

Em meio à leve corrida que eu ameaçava iniciar, avistei um pequeno grupo logo à frente. Estavam caminhando no mesmo sentido que eu. Cinco ou seis pessoas vestidas com roupas simples, como as pessoas do campo. Caminhavam lentamente, olhando para todos os lados. Diminuí o passo por pertinente curiosidade antropológica.

Não eram moradores da cidade, nem atletas ou sequer habitués. Um velho usava um chapéu de palha e calçava sandálias de couro. As mulheres, vestidos simples, feitos de pano claro, além de havaianas. Estavam excitados com algo.

Havia com eles duas crianças; eram as mais agitadas. Pareciam todos procurar por alguma coisa pelo mato, mas pararam momentaneamente, assim que me aproximei. Não esperavam por um barbudo saindo do nada, só de calção de banho. Passei ao lado, dei bom-dia e sequência à corrida.

Enquanto completava a primeiravolta, me pus a pensar nas diferentes visões que a Mineral enseja às pessoas que a frequentam. O que para uns é clube social, para outros, recanto espiritual, spa de saúde mental ou praça de ginástica; há muitas utilidades que são apropriadas por cada um, cada qual ao gosto seu, configurando-se num lugar extremamente democrático e multicultural, sem dúvidas.

E aquela gente provinciana, o que estaria fazendo aqui, tão cedo? Jogging que não era, suponho... O que estariam buscando pela mata? O que fazia aquelas crianças estarem tão felizes? Com a cabeça longe, pensando nisso tudo, fui surprendido por um filhote de tatu que surgiu do mato e quase tropeça em mim, antes de sumir pela trilha. Esplêndido!

Na volta seguinte, já empolgado com as idéias que vinha tendo, os encontrei novamente. Desta feita, vinham em minha direção. Certamente haviam decidido voltar por não conhecerem bem o local; ignoravam que a trilha se encerrava num ciclo, e que havia muito para se ver. "Vou alertá-los sobre a beleza que há por lá", pensei.

Conversavam animadamente e festejavam algo. As crianças, incontidas, pulavam em torno aos adultos e olhavam para dentro de um saco de estopa que o velho trazia às costas. Ia eu parando para dar as boas novas quando ouvi uma das mulheres exclamar: "A carne é difícl de assar e dá trabalho, mas fica bom pra chuchu!..."

Dentro do saco, coitado, jazia o tatu.
 
 foto de joão sassi

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um Velho Ranzinza


"Humpf! Não se fazem mais moleques como os de outrora!", range o saudoso velhote.
 
   

Da minha janela, vejo o mundo!
Algum poeta há de ter dito algo assim, pois desde os tempos de antanho - e muito antes dos irmãos Lumière! -, a janela tem sido o cinema da vida. E por ela se percebe que vai muito mal a humanidade.
Que me desculpem os grandes líderes, heróis e eventuais mártires de nossa decadente espécie. Sei que agiram como visionários, dando o máximo de si - por vezes, a própria vida - em prol de todos, objetivando um mundo melhor e coisa e tal, mas dá a impressão que o trabalho dos otimistas, ao longo da história, tem sido ao estilo enxugador de gelo.
Por mais que se enxugue, a situação apenas piora. E assim como a água, vê-se a essência da condição humana escorrendo diante dos nossos olhos, e sendo desperdiçada pela falta absoluta de consciência e preparo do indivíduo contemporâneo.
Pela poça formada de massa encefálica liquefeita, vejo o futuro da sociedade refletido no fértil palco da puberdade. Em direção à escola, logo a frente, um fluxo constante de adolescentes me dá conta do cotidiano corrente. Não são educados, mas prepotentes. Agem com tais rudes modos que fariam a vovozinha corar, e logo enfartar.
Vejo pequenas gangues, com meninos de palavreado xucro, agindo como malas da favela. Não se envergonham em xingar alto, na frente das meninas e dos moradores. Já aos 12 anos, alguns exibem cigarro à mão, pego de mau-jeito, feito apenas para impressionar as mesmas meninas com as quais presenteiam com tanto palavrão.
Quando querem conversar, se escoram ou se sentam nos carros estacionados de modo indolente. Na interação, as mocinhas são chamadas de "véi", "hômi", "moço" e "doido". Elas não deixam por menos e os tratam da mesma forma. Todas as expressões de surpresa são pontuadas por "carái, véi", sejam ditas por eles ou por elas.
Alguns estudantes namoram desinibidamente, aos olhos de qualquer morador, desavergonhadamente. Não se constrangem com a chegada de alguém. Sequer disfarçam a bulinagem. Mal sabem que escondido é mais gostoso... E também respeitoso.
Há aquelas que matam aula para se encontrarem com sujeitos que poderiam ser pais delas, e não namorados. O cidadão chega de terno, no maior carrão, e desce de mãos dadas com aquela que se supõe sua filha, e tasca o maior chupão, sem a menor cerimônia, na frente de todo mundo. E sai com cara de paisagem.
Certa vez, no estacionamento, escutei a conversa de três meninas que estavam sentadas no meio-fio, logo à minha frente. Ainda que tenham percebido minha presença, não sei se por desavergonhamento ou arrogância, prosseguiram tranquilamente com o tricot. Não falavam da Hanna Montana ou do Justin Bieber, mas da experiência sexual de uma delas.
Sem ter exatamente a noção da profundidade do que relatava, a menina descrevia, passo-a-passo, o momento em que se viu na obrigação de praticar sexo oral em seu "namorado", ilustrando as passagens com rico gestual. Segundo suas palavras, "no momento em que ele parou o carro, ele abriu a braguilha, botou o negócio dele para fora e me perguntou: E agora? Aí, eu nem pensei mais, véi; fechei os olhos e meti a boca...".
Como plateia, duas amigas, ainda mais novasque ela, escutavam, alucinadas e abobadas, ao apimentado relato da colega. Queriam saber o tamanho, a "grossura", o gosto e tantos quantos detalhes pudessem ser dados. E a outra mostrava, tocando o dedo médio à ponta do dedão: "Era mais ou menos assim, ó...".
   - Mas você foi até o fim?! – queriam saber as mocinhas.
   - Não, véi; dói demais! Ele disse que vai tentar de novo, na próxima vez...
   - E você vai?
   - Vou, né, véi... Fazer o quê? Tem que ir, senão ele vaza!
Sei que essa é uma situação comum a muitas mulheres, principalmente quando se apaixonam por homens mais velhos (e sem caráter). O problema é ainda mais grave quando uma situação assim é relatada por uma criança de não mais que 13 anos; aí, o chão se move.
E eu, que tanto prezo por aquilo que chamamos tradição, vejo o romantismo ser pisoteado, e a falta de respeito sobrepujar a todos nós. Vejo crianças sendo atropeladas pela ansiedade do mundo digital e perdendo o mais gostoso momento da vida, que é a descoberta do mundo em si, e de tudo o que o engloba, com suas diversas experiências e inescapáveis consequências. Por vezes, frustrantes, mas espontâneas!
Vejo meninas novas, já envelhecidas e maquiadas. Vejo meninos novos, já embrutecidos, embriagados de prepotência e virtual experiência. "O novo é o certo! O novo somos nós! O resto é bosta velha!", pulsa o inconsciente juvenil.
Ao me lançar imaterialmente pela janela, busco um horizonte lúdico e nostálgico, azul!, mas vejo uma realidade de mau-gosto e acinzentada; pouco saborosa. Vejo, sinto e percebo. Me angustio.
E dessa mesma janela, vejo também o exemplo daquelas crianças: uma escola particular, construída de modo vil e irregular, que saúda a chegada da Primavera ou de São João atordoando a vizinhança com o alto volume de um funk proibidão. É ali que aquelas almas passam seus dias...
Um lugar assim não pode ser mesmo uma fonte de inspiração para o futuro que desejamos. E ainda há quem pague para seus filhos estarem ali.
Bem-vindo ao século XXI.


foto de joão sassi
direitos reservados

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A Paz de Cada Qual


Dia de luz, festa do Sol, e o barquinho a deslizar...
 

Cerca de dois anos atrás, o escocês Stephen Gough foi parar na cadeia.

A polícia o acusara de "perturbação da paz". Logo a paz, que, tal qual a utopia, nos estimula a caminhar, sempre a buscar por ela em nosso cotidiano de violência e desamparo.

Antes de virar prisioneiro, Gough havia sido marinheiro e caminhoneiro, não tendo, porém, encontrado nessas atividades o seu "eu natural e verdadeiro", o que o levou a se indispor com toda a sociedade.

Isso me despertou a desconfiança de que, de algum modo, a escolha de nossa profissão embutiria a possibilidade de nos redescobrirmos por meio da atividade exercida. Um redescobrir psicanalítico; cosmológico, por assim dizer, que nos conduzisse a uma paz interior, mas também coletiva - consequência clara do equilíbrio estabelecido.

Lembro, por exemplo, de uma estudante de psicologia que conheci na adolescência. Ela se utilizava de seus grandes olhos azuis para hipnotizar o interlocutor e extrair do abobabo suas necessidades. Da convivência, o que talvez tenha mais despertado minha curiosidade foi a percepção de que todos os psicólogos seriam doidos, e que “usariam” as outras pessoas para psicologarem-se a si próprios.

Aquele tanto de "por quês" com os quais estes profissionais pontuam os diálogos, mesmo em situações informais, não é gratuito; eles só querem se certificar que somos loucos – tão loucos como eles - para se sentirem mais tranquilos em relação à própria existência. Disso não me restam dúvidas.

Algum tempo depois, tive a oportunidade de ter contato com o mundo das artes cênicas, quando pude conhecer atores e atrizes, ficando logo claro que todos eram loucos também. A exemplo dos psicólogos, os atores se utilizam da condição em que se encontram para tornarem seu ofício um escoadouro para suas neuroses.

Quem frequentou sets de filmagem ou assistiu a ensaios teatrais sabe o que é um hospício; um bando de loucos ávidos por terapias grupais de psicanálise. Podem fazer qualquer coisa; podem ser qualquer coisa... Qualquer coisa! Difícil imaginar coisa melhor. Representar é a arte de psicanalisar, em público, a própria existência.

Demorou algum tempo até que eu me debruçasse sobre os antropólogos, quando pude, então, confirmar minhas suspeitas iniciais. Confesso que senti grande alívio por saber que não estava só nesse mundo.

Essa coisa de jogar uma determinada responsabilidade para o outro, tornando-o foco de sua pesquisa, não deixa de ser um refúgio confortável para aqueles que querem, conforme adverti no início, se redescobrir como indivíduo numa sociedade cada vez mais dicotômica e neurótica. O antropólogo parece querer sair de si para se reconhecer no outro, reencontrando-se consigo fora do seu espaço real, mas dentro de sua natureza primária e, portanto, mais "verdadeira".

Psicólogos, atores, antropólogos e toda a humanidade, no entanto, não precisam se preocupar com tanto estudo e especialização na busca de cada qual pelo seu EU verdadeiro ou pela sua paz interior.

Dia desses, poucos minutos após ser posto em liberdade, Stephen Cough, nosso heróico escocês, voltou a ser preso. Alegação: se recusar a usar roupas e perturbação da paz, disse o juiz - exatamente pelas mesma razões de outrora, quando atravessara toda a região da Cornuália em pêlos.

Durante os 60 segundos de liberdade, esteve nuzinho, de mão no bolso e tudo, exatamente como veio ao mundo. Nada mais humano, portanto! Stephen se sente mais livre na cadeia - mas pelado - do que fora dela, tendo de se vestir.

Encontrou-se.


(Aproveito para mandar um beijo especial à Brasil, a mais doida de todas as psicólogas que conheci e amiga de toda uma vida.)




foto de joão sassi


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Simba Simbólico


Simba era apenas um ponto preto na estrada.


Quando minha mãe soube que eu cuidaria de um cachorro abandonado, ela viu um grande simbolismo na minha atitude: "Tornar-se responsável por uma vida; é este o primeiro passo para que um dia você possa ter um filho."

Lembrei também daquela tradição que contam sobre os judeus que afirma que eles presenteiam as crianças, ainda pequeninas, com animais de estimação, fazendo com que os pimpolhos aprendam a lidar com a idéia da morte e com a sensação de perda, desde sempre, evitando que sofram mais quando conhecerem a vida como ela é.

A mim, em meio à solidão que uma casinha no mato me oferecia, era a oportunidade de aprender coisas novas, me permitindo conviver com um tipo de bicho com o qual eu nunca fizera questão de me relacionar, senão no que fosse indispensável.

Ao leitor que me acompanha desde 2009, não é necessário relatar o quanto esta parceria vicejou e o quanto aprendi com Simba. Ainda mais quando ele adoeceu, tendo merecido de mim sentimentos de compaixão os mais bonitos; foi quando nos tornamos cúmplices.

Após quase 3 anos de compadrio, tendo a antiga morada sido deixada para trás, Simba pôde conhecer novos ares ao ser carinhosamente acolhido por com um bucólico casal de amigos. Eles também tem muito a ganhar com Simba por perto; além da proteção, ganham um olhar de afeto. E assim tem sido, desde há alguns meses, quando o deixei em boas mãos.

De vez em quando, passo por lá, de surpresa, a ver como o gajo está. É sempre prazeroso rever um cachorro que lhe estima.

O sol estava forte, e então me lembrei que deveria visitar o velho Simba. A reboque, lembrei de descolar um shampoo canino e, para alegrar o bom cão, vísceras desidratadas que fazem a alegria das matilhas.

Quinze minutos depois, eu escutava um chorinho qualquer pelas ondas da Rádio Nacional e me sentia feliz por ser Sexta-feira. Já estava noutro mundo, dirigindo por uma estradinha de terra vicinal, de mão única, em meio ao Cerrado, vislumbrando uma paisagem que logo deixará de existir. O Plano Piloto é cada vez mais ancho, ao contrário da mentalidade da gente.

Quando cheguei, enfim, ao seu novo lar, não encontrei em casa viv'alma.

Estranhei que Simba não aparecesse, e dei busca arrodeando o ambiente. E lá o vi, sonolento e preguiçoso, um pouco sem viço para uma manhã tão bonita. Ao me reconhecer, por fim abanou o rabo e se pôs a interagir. Mas de tão sujo e empoeirado que estava, decidi levá-lo para um mergulho no rio que corre perto dali.

Simba se animou e logo já era o velho cachorro de rua que conheci, lépido pelas trilhas da cachú, liderando a expedição e farejando calangos pelo mato seco.

Há muito tempo não curtíamos um momento desses. Foi um banho gostoso e refrescante, daqueles que deixam a gente contente pelo contentamento alheio. Daqueles que despertam carinho e aproximam o homem do bicho.

Deixei ele limpinho. E depois mimei. Tirei fotos. Fiz caras e bocas. E dei petisco enquanto o sol lhe secava a pelagem. E também me atirei na água antes de voltarmos, ambos muito felizes.

Cuidei que tivesse água fresca para beber e o servi com a ração da melhor qualita, com o selo "Leite Tipo A" de qualidade! Comeu com a fome de um caminhoneiro.

Já de barriga cheia, pêlos lavados e alma leve, dei-lhe novo banho de carinho, quando ele pôde aninhar a cabeça sobre minhas coxas e grunir gentilezas sobre o quanto sentia minha falta. Fechava os olhinhos e fazia grumf, grumf, grumf, esfregando as bochechas contra minhas mãos. Foram momentos delicados, por conta dos quais revivi o tempo que desfrutei de sua companhia, sentindo os efeitos prazerosos que uma relação afetuosa acaba produzindo.

Com ele já relaxado, refestelado no chão fresco de ardósia da varanda, resolvi que era hora de ir. Faltou combinar com ele.

Situada na área mais baixa do terreno, há que se percorrer uma verdadeira montanha-russa para chegar ou sair da casa, subindo e descendo morros. O primeiro deles - o maior - tem de ser percorrido por inteiro. Íngrime ao extremo, se o carro não vai até o final, tem de voltar tudo de ré, cá embaixo, para tentar subir em novo embalo. Mas quem disse que Simba me deixava ir?

Era começar a subida e lá vinha o cão em meio ao poeirão, latindo e pulando ao meu lado. Eu freiava e mandava: "Pra casa, Simba!!!" -, mas tinha de voltar ao sopé da ladeira para reiniciar a subida, sempre com o Simba no meu encalço, feliz que só ele, achando que a "brincadeira era esta": eu acelerava, ele corria, eu freiava e gritava e logo a gente voltava! E tudo se reiniciava. Eu evitava acelerar muito, não querendo imundiçá-lo com a poeira, mas ele se recusava a parar com a perseguição.

Apelei para mais uns acepipes desidratados, tentando ludibriar o pobre canídeo, escapando enquanto ele os mordiscava. Saí de fininho, e quando pensei estar livre, lá estava ele no espelho retrovisor! Desta vez, não tive dó, pisando fundo no acelerador.

Atingi o cume do morro e segui adiante, sem querer olhar para a retaguarda, descendo nova ladeira e subindo novamente, até chegar ao topo do morro seguinte, para só então dar uma avaliada.
Parei o carro e olhei para trás. A poeira foi baixando, baixando, até que a estrada ficasse limpa. Senti um alívio grande por não avistá-lo. Alívio este que não durou mais que alguns segundos.

Deu para vê-lo ao longe, no topo do primeiro morro, como um simples ponto preto no meio da estrada de terra vermelha; era tocante.

Nem esperei para ver, senão sentiria vontade de voltar e abraçá-lo. Acelerei e desapareci, produzindo nova nuvem de poeira.

Um ponto preto perdido no meio de uma estrada no fim do mundo, pode ser nada, pode ser tudo; pode ser um ponto de partida.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Aonde a Água Abunda



Água: só sente falta quem não tem


Acho que minha vizinha tem um toc.

Ela sempre manda que suas duas empregadas lavem o calçamento em frente à casa dela. Todos os dias. Duas vezes ao dia.

Muito esmeradas, as mucamas lavam-na à vontade e, mesmo sem baldes, se esbaldam com a aguinha fresca que jorra ininterruptamente da mangueira, escorrendo pelos seus pés, enquanto salpicam OMO em pó pelo chão, para efeito de uma limpeza mais eficiente. A recreação costuma durar o tempo que o ponteiro maior do relógio leva para dar uma volta completa; é o happy-hour delas (sempre multiplicado por 2, registre-se).

O granito fica cinzinha, cinzinha!... Ainda mais quando comparado aos de todos os vizinhos da rua; "ai, como são porcos!". Como será que os vizinhos não se tocaram para a limpeza de suas calçadas, né?

E tome esfrega-esfrega com muita água desperdiçada e sabão em pó goela de Gaya abaixo, pela manhã e pela tarde - faltando apenas alguém que cubra o turno da noite para que a saga fique completa, e nem mesmo um grama de poeira possa ali sequer pensar em se instalar.

Não importa se é Primavera, Verão, Outono ou Inverno; o importante é garantir aos transeuntes o mais puro e límpido metro quadrado de granito que já se viu por estas bandas - padrão Noroeste, por assim dizer; coisa para Paulo Octávio ou Luíz Estêvão nenhum botar defeito!

Na verdade, tampouco importa se está chovendo ou fazendo sol. Na manhã da última segunda-feira, quando Brasília estava, pela primeira vez em quase 4 meses, desfrutando de um amanhecer úmido e desejado, lá estavam as irmãs-caverna açoitando a calçada com mangueiradas de vergonha e ignorância. Se ao menos estivessem se valendo da água natural para fazê-lo, mas nem isso... Sem mangueira, não deve ser a mesma coisa. Mangueira é sinal de poder, pujança e... ignorança.

Como desgraça pouca é bobagem, calçada também o é. Com tanto afinco, lavam também o perímetro da rua em frente à garagem que lhes caberia, imaginariamente. Sim, usam a água para lavar a RUA ASFÁLTICA, pela qual transitam nem sei quantas dezenas de carros, diariamente. Todos devem se satisfazer muito ao pensar: "uh, hora de passar por aqueles dois metros de rua mais limpos de Brasília!".

Minha vizinha parece que tem um toc, mas ela nunca se toca.

Ao fim de mais uma jornada, é hora das moças se retirarem; é hora de ir pra casa. Natural que tomem um banho antes de voltar ao lar, situado distante da pujança aquática aqui reinante.

É melhor assim. Vai que falta água por lá...

photo by joão sassi
 
 


 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

MANIFESTO AO TORCEDOR PELA MEMÓRIA DO FUTEBOL BRASILEIRO

O último jogo de Mané foi no D.F., em Planaltina.
                 
Rogo ao interesse de todos em fazer valer o legado cultural brasileiro, pois está claramente em curso, na Capital do Brasil, um processo nefasto de stalinismo esportivo.

Nosso proto-governador (alguém o viu? o vê? o verá?), assemelhando-se mais a um borra-botas que a um chefe do executivo, parece não querer interferir no "processo natural" de desmemorização da população brasiliense e brasileira. Contrário fosse, não teria aceitado a escatológica idéia - gestada pelo agora célebre corruptor e ex-governador José Arruda - de transformar nosso Estádio Mané Garrincha em Estádio Nacional "EMPRESA X" de Brasília.

Entenda-se por "empresa x", qualquer multinacional que coloque motivos suficientes nos bolsos de nossa classe política profissional (que, afinal, sempre exige ser muito bem paga para tal).

Numa clara afronta àquilo que de mais significativo o artístico futebol brasileiro produziu - gênios da bola -, querem enfiar-nos memória abaixo um nome-monstrengo, como se alternativa não existisse. Agem como se esta fosse a única maneira de oferecer à população um estádio moderno e bonito; vendendo-se a alma.

Trocar o nome de Mané por o de uma empresa qualquer é ferir de morte o orgulho nacional; é desrespeitar a história, a memória, a luta, o sucesso e a glória de uma nação maltratada por colonizadores e ainda vilipendiada por eternos usurpadores. Mas que, apesar de todos os obstáculos impostos e perversões praticadas, ainda assim, revelou-se uma nação preocupada em rir e gozar, mais do que em matar ou acumular, como os conquistadores que tentaram e ainda tentam "civilizar" o mundo por meio das armas ou da covardia financeira. Somos um povo cujo imaginário se confunde com a realidade, estando ela em constante processo de "ludicidade". Não por acaso, eis aí a definição do Mané.

Garrincha representa um Brasil miserável, mas lúdico, em meio ao qual, de membros aleijados brotou a alegria, não somente de um único povo, mas também a de outros.

Que o digam suecos - maravilhados pelos desconcertantes vaievéns do Mané pelos aloirados campos de lá, em 58 - e chilenos - que torceram por nós, mesmo tendo Garrincha os humilhado nas semis de 62. Aliás, Garrincha jogou tão bem aquele jogo, que mesmo tendo sido expulso (após revidar a agressão de um desleal adversário) teve presença garantida na final, posto que os deuses do ludopédio não aceitassem qualquer resultado sem sua presença. A FIFA entendeu o recado e o pôs em campo, contrariando a regra mais básica da suspensão  automática, sempre levada a cabo após uma expulsão

Então, pergunto: se até a pérfida, retrógrada e lodosa FIFA pôde entender isso, àquela época, como podem nossos atuais dirigentes políticos se recusar a fazê-lo? Será que algum desses anômalos teria a idéia de tranformar, por exemplo, o Maracanã em "Estádio Municipal Google do Rio de Janeiro", atirando a memória de Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, às catapultas do limbo? Parece loucura, né? E é.

Pois foi com esse sentimento tenaz de contrariedade e indignação que me vi obrigado a partilhar com todos a minha repulsa ao que se está em andamento. E é por isso que os convoco a participar dessa batalha, dividindo com os seus esta questão, chamando-os à luta, para que façamos valer o sentimento de Alegria do Povo em detrimento da Vergonha Nacional.

Além do mais, qualquer cidadão minimamente antenado e sensível às causas humanitárias há de saber que foi num espaço homônimo, o Estádio Nacional do Chile, que tantos perderam a vida nos tempos pinochetianos. Para que reforçar tão triste emblema numa capital que, mesmo tão jovem como a nossa, já se contaminou pelos ditames autoritários de um período de exceção?

Por que, então, permitir que se achincalhe assim a memória do torcedor? Por que a desconsideração a tudo o que Garrincha fez, suprimindo seu nome em prol de uma instituição mercantilista? Não há patrocínio que substitua as risadas ou os momentos de êxtase que Garrincha nos proporcionou, pelos quais nunca poderemos retribuir, senão reconhecendo seu lugar na história por meio do respeito que lhe é devido.

Façam valer a voz da vida e entrem em campo ao lado do Mané para viver o futebol como se deve: como uma alegria popular.

Um abraço a todos e um viva à nossa história! VIVA GARRINCHA!!!

João Sassi - um mané brasiliense

ps: Apenas a título de estímulo, relato que uma dessas megacorporações transnacionais da vida tentou usurpar a memória do El Colón - centenária casa de espetáculos buenosairense - no que foi apeada da idéia, mediante veementes protestos populares. O argentino pode ser tido por alguns como um povo chato, prepotente, arrogante e o caralho, mas é fato que sabem fazer barulho quando lhes passam a mão na bunda. O resultado está lá; um teatro lindo, magnificamente restaurado, e com o nome que lhe fez história.

arte: marcya reis

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Incrivelmente Injustiçado e Heróico Negro Barbosa!



O Injustiçado Barbosa: lendário, ainda que vascaíno.
É cedo. Escuto o barulho da maçaneta quando ela abre a porta do quarto.

Caminha pelo corredor enquanto ainda desamassa a cara de sono. É engraçada a cara que a gente fica quando acorda. Lola e Bibi, as mais carentes das quatro gatinhas, já estão a seus pés, miando e querendo carinho.

Quando ela aparece, me vê confortável, na poltronona da sala, lendo. Senta-se no sofá, onde a vejo espreguiçar-se por trás do raio de luz que intercepta o ar da manhã. As janelas estão abertas e as cortinas denunciam o frescor da corrente que corta o ambiente de um lado a outro.

Ela acaricia a cabeça da pequena Lola, já resfregada entre suas coxas.

A cena me permite interpretar o clássico gesto de deitar o livro ao colo e levantar os olhos, cedendo cavalheirescamente a atenção a quem por amor a merece.

- Sonhei com os presidentes do Brasil - disse ela, enquanto eu pensava no nome de Venceslau Brás. - Sonhei com muitos... - continuou. E eu imaginando Deodoro, Floriano, Hermes...

- Ainda me lembro da dificuldade para aprender a escrever o nome "GARRASTAZU"; quando aprendi, fiquei toda feliz: Gar-ras-ta-zu! - completou.

- O Médici foi até 74, não foi isso? E o Geisel, de 74 a 79, certo?

- Não. Acho que o Médici foi até 76... Eu estava aprendendo a escrever, e o nome dele era muito difícil: Emílio Garrastazu Médici!

- Puxa, escrever isso tão cedo não é brincadeira! - Puta palavrão, pensei. E então me veio à cabeça uma cena marcante:

- Lembro da primeira palavra que li para meu pai!

- Qual foi?

- Eu tinha 6 anos. Estávamos no estacionamento da casa dos meus avós, dentro do carro, uma Brasília Azul, ano 75.

- Sim...

- Ele havia acabado de comprar um "NOVO ATLAS" para dar de presente a Pedro e Lisa. Detalhe: Pedro tinha somente 7 anos, mas lá, só tava escrito "Para meus filhos, Pedro e Lisa..." - disse eu, resgatando lamúrias passadas - Peguei aquele livro grandão e li, na capa: - "No-va"... - "Novo!", corrigiu meu pai, que mesmo assim ficou feliz com o filho leitor. Eu tinha lido "nova", ainda que estivesse escrito "NOVO", em letras de fôrma garrafais...

Do sofá, ela me indagou com os olhos, em silêncio: Por quê?

- Acho que tem a ver com as letras "A" da palavra ATLAS, escrita logo abaixo, uma vez que eu estava apelando à lógica gramatical, segundo a qual palavras femininas caracteristicamente carregam e se encerram com esta letra. Muito provavelmente eu havia aprendido esta regra naquela mesma manhã.

- Tem sentido... Palavra do gênero feminino, letra "A".

- Sim, e "influenciado" por aquele tanto de "A", li "nova"... E nem cheguei a ler ATLAS, pois não entendi qual era o nexo de um "T" seguido de um "L"; isso eu não havia aprendido e não fazia o menor sentido para
quem ainda estava no VA - VÉ - VI - VÓ - VU...

- Você foi coerente.

- Sim, muito coerente! - concluí, exultante, reparando um erro cometido há trinta anos!
Comecei a me achar meio genial. A poltronona vermelha confortável; as janelas e as cortinas; a brisa; o livro ainda deitado e, claro, o feixe de partículas solar matinal que a tudo sacralizava - tudo se encaixava. E agora, a conclusão de que eu estava certo... Durante trinta anos, ESTIVE CERTO!, ó, céus!

Ela parecia admirar meu regozijo atemporal, contemplando-me enquanto eu pensava na astúcia que tive em associar o adjetivo ao sujeito da frase... E com apenas 6 anos de idade!...

- É a primeira vez que faço esta reflexão, desde então, e nunca tinha entendido o porquê do meu erro.

Não se tratava de uma constatação qualquer, mas de uma correção histórica. Por anos a fio, carreguei o fardo de ter errado logo em minha primeira leitura pública! O fato não chegou a abalar totalmente minha confiança, mas tinha algo de barbosiano naquele erro, posto que não o esquecia nunca.

Falo, claro, do extraordinário goleiro do Vasco e da Seleção Brasileira que foi eleito o bode expiatório na derrota de 50. O elástico guarda-metas, mesmo tendo marcado época, levou para o túmulo uma coroa que não era de flores, mas que fora outorgada a ele pelo sufrágio inclemente da história, pela qual fora injustamente declarado um rei bufão no fracassado Império do Futebol Brasileiro. Após a derrota, foi ainda algumas vezes campeão com o "Expresso da Vitória", máquina de futebol vascaína que dominou o cenário carioca na Era pré-garrinchiana, mas nunca foi absolvido.

Certa vez, na fila da padaria, foi interpelado por uma senhora que apontou para ele e disse ao filho que segurava pela mão: "Olha, meu filho, foi este o homem que fez o Brasil inteiro chorar quando tomou aquele gol...". Foi uma das coisas mais humilhantes pelas quais passou na vida, confessou, anos mais tarde.

O ápice de seu martírio se deu em 94, às vésperas da Copa dos EUA, ao ter sido barrado na entrada da concentração da Seleção Brasileira. Zagallo e Parreira tiveram calafrios só de ouvir o nome do ex-arqueiro. Então com 73 anos, Moacir Barbosa não precisa de mais aquilo para sua coleção de infortúnios.

Na tentativa de excomungar o pecado pelo qual fora acusado, chegou a queimar, numa fogueira feita no quintal de sua casa, as traves malditas do Maracanã, sob as quais sua via-crucis havia iniciado. De nada adiantou.
Barbosa morreu em 2000 sem cumprir sua sentença; segundo ele mesmo, "a maior pena aplicada no Brasil, que já dura 50 anos, bem mais que o máximo previsto pela Lei...".

Imaginem então, senhores, se uma nova gravação surge, de um novo ângulo, mostrando que a bola, digamos, tenha passado pelo lado de fora do gol, furando a rede? Barbosa estaria redimido, e é possível que até construíssem estátuas ou mesmo estádios com seu nome. Doravante, seria conhecido como o incrivelmente injustiçado e heróico negro Barbosa!

De súbito, senti-me um Barbosa renascido! Eu estava completamente enfeitiçado por aquele pensamento... E num arroubo de cabotinismo, repeti:

- É, eu fui muito coerente...

- É... - ameaçou finalizar ela, quando replicou, inapelável: - Mas teria sido mais se tivesse dito "NOVAS ATLAS"...

- ... Vacilei.

É, Barbosa, parece que aquela bola entrou mesmo, meu velho...


EPÍLOGO

Na verdade, à época, cheguei a perguntar ao meu pai a lógica da incongruência entre o gênero e a quantidade de "A" na palavra ATLAS. Vendo que seria complicado, àquela altura, inserir o conceito de "exceções" à conversa, ele me respondeu simplesmente que a vida é assim mesmo, cheia de incongruências...

Ps: Médici deixou a Presidência em março de 74.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A Filha do Hippie




Já há muitos anos casada, Tereza enveredara pela área profissional com a qual sonhara, e atingira o meio-tempo de sua idade feliz e ainda estimulada pela beleza da vida. Aquilo que era simples; isto a encantava - uma caliandra; um sabiá; um pôr-do-sol...

Criticando sempre a desastrosa evolução da sociedade, mas mostrando-se, sobretudo, otimista em relação ao futuro da humanidade, era no contato com a natureza que ela construía sua realidade:

- “Ser filha de hippie é isso aí!”- bradava, demonstrando satisfação pelo equilíbrio existencial até então alcançado. Bastava uma conversa com Santa Maria – uma “luz” – e o esplendor da vida natural que cercava sua casinha rural - feita com o amor e o suor do próprio marido -, para que ela se sentisse bem contente; o que incluía também sua filha, Luana.

Para Tereza, prazer era vê-la solta pelos arredores, em meio às plantinhas bem regadas e domesticadas do jardim, e também muito à vontade, caminhando pelas trilhas ressecadas do Cerrado ou mergulhando pelas águas barrentas de um córrego sombreado.

Muito desenvolta no trato com a natureza, a pequenina sempre gostara de ser como a mãe, imitando-a no pensar e também no gestual, restando a esta se deliciar ao ver florescer na doce Luana a filosofia de vida que sempre considerou ideal.

Certa vez, numa fria noite de Inverno, armou-se uma fogueira um tanto quanto distante de casa. Luana sentiu sede e perguntou à mãe se podia, ela mesma, buscar água. A ela, não parecia temeroso ver sua filha, uma criança de somente três anos de idade, simplesmente desaparecer em meio ao breu, se deslocando pela noite com a naturalidade de uma citadina que vai à esquina. E voltar com um sorriso no rosto, sem qualquer medo ou receio do desconhecido. Na mente não contaminada daquela menina, não existia bicho-papão.

A vida no mato e as constantes viagens que o marido era obrigado a fazer parecem ter mesmo propiciado o fortalecimento da sintonia e da cumplicidade entre Tereza e Luana, posto que, pelo relativo isolamento, não lhes sobrasse em quem mais confiar. E muito tempo passavam juntas, mãe e filha, atravessando as tardes como a brisa leve da infância.

Mas mesmo aparentemente distante do mundo real, é certo que Luana freqüentava a escola, onde desfrutava, por algumas horas, do convívio com um universo tão distinto quanto curioso em relação ao seu cotidiano doméstico. Acostumada a tomar suco natural, a comer bolo de aveia e mel e a almoçar arroz integral, a menina fazia cara feia para o guaraná que os colegas tomavam. Experimentava os salgadinhos, mas dizia que fazia mal: “Minha mãe disse que é feito de isopor!”, justificava.

Ao fim do ano letivo, os professores promoveram uma manhã de confraternização, para a qual os pais foram todos convidados. Era, para Tereza, uma situação que lhe trazia algum incômodo, afinal, ela não respeitava o padrão estético ou mesmo existencial proposto pela sociedade que se vê na TV.

Tereza não costumava usar maquiagem, roupas da moda ou penduricalhos que brilham, mas somente uma pulseira artesanal feita de sementes. Era notório o contraste entre seu olhar e o olhar das mães presentes ao pátio do colégio. Seus valores não eram tão superficiais quanto os demais, e talvez por isso não pudessem ser facilmente notados.

O carro sujo de poeira, a sandália de dedo, feita de couro ou o cabelo preso por uma simples liga elástica - sem escova, luzes ou pintura - eram suficientes para deixar bem claro de que valores tratava o coração de Tereza.

Num dado momento, a turma de Luana foi reunida por Tia Cecília para um “pique-pega no céu”, no qual umas poucas crianças fariam o papel de “anjo salvador”, tendo “poderes especiais” para salvar os amiguinhos.

Todos os pais se acomodaram e se aboletaram com suas câmeras de celular ligadas, na esperança de ver e incentivar suas crias. Tia Cecília então anunciou que escolheria os anjos fazendo uma pergunta simples; e indagou às mais de 40 crianças, obedientemente sentadas e ansiosas:

- “Quem aqui comeu banana no café-da-manhã?!!!...”, disse, logo olhando para todas elas com cara de grande interesse e expectativa.

As crianças se entreolharam... Os pais fizeram o mesmo. Tereza, conjecturou consigo, fechou os olhos, hesitou um pouco, certificou-se, e quando os abriu, confiante, viu Luana, em meio a todos, com o bracinho levantado – ela era a única; ninguém mais.

Enquanto Luana era convocada por uma cordata Tia Cecília a assumir seu posto angelical, Tereza ia ao Céu, em paz com sua consciência de boa mãe.

Em pé, sozinha no meio do pátio, a pequena Luana, alheia ao regozijo da mãe, perguntava insistentemente à Tia Cecília: “Posso voltar pro meu lugar; posso?... Posso, tia?... Eu só comi uma banana...”.

Foto: 365 Fotografias, por Marcya Reis